Ao ouvido pagão, soa exótico e antigo tudo, desde o título à letra da quinta faixa do álbum Wednesday Morning, 3 A.M. (1964), do duo Simon e Garfunkel — o mesmo no qual se faz notar seu single famosíssimo The Sound of Silence —: seu esquecido Benedictus. Em meio às releituras politizadas de músicas “cristãs” dos anos 60, há a rara aparição de um elemento católico, um canto em latim no mote de Orlando de Lasso (Missa octavi toni), desenvolvido em duas vozes, cuja modéstia faz hesitar o rótulo de polifonia, frugalmente acompanhado por cordas de violoncelo e de violão — afinal são cantores folk, independentemente de tudo. Entretanto, há o emprego de determinada técnica vocal que, conjugada ao modo de uso das cordas, fez minha mulher questionar logo na primeira impressão: “É música sacra ou o quê?”.
Ao ouvido católico leigo, é alta a propensão ao engano em relação ao título, sem que perceba pode confundir uma coisa com outra. Uma vez que o correntemente chamado Benedictus é o “Cântico de Zacarias”, um dos salmos do Novo Testamento, esperançoso e digno, cantado nas laudes (primeira hora canônica no ofício divino) pelos religiosos e clérigos, fazendo eco ao pai de São João Batista. O arcanjo Gabriel fez-se visível ao sacerdote Zacarias, quando oficiava no Templo, para anunciar que a esterilidade de seu idoso matrimônio seria quebrada: nasceria aquele que viria a aplainar os caminhos para o tão esperado Messias. O sacerdote não pôde crer e foi punido com a mudez até o nascimento do Precursor de Cristo, seu filho. Ao escrever em uma tábua: “Será chamado João” (Lc. I, 60); desobstruiu-se sua língua e pôde louvar ao Todo-Poderoso Deus naquelas palavras. Mas a nossa peça musical não é este Cântico de Zacarias, senão outra coisa, em que pese a semelhança de espírito que fez-me insistir na digressão.
A dupla nova-iorquina versa com o sagrado adágio “Bendito aquele que vem em nome do Senhor”, proferido pelo Espírito Santo primeiramente nos Salmos (Sl. CXVIII), que encontrou referência nos Evangelhos nas duas ocasiões em que Nosso Senhor é reportado, já adulto, em Jerusalém. Na primeira, o próprio Cristo profetiza lamentando a cegueira de seu povo (Lc. XIII, 35); na última, o povo O aclama ao entrar em Jerusalém para dentro em breve consumar nossa Redenção, o Domingo de Ramos (Lc. XIX, 38; Jo XII, 13). Benedictus qui venit in nomine Domini: o homem medieval poderia reconhecê-lo, porque também faz parte do ordinário da Santa Missa Tradicional, encerrando o louvor do Sanctus que antecede a Consagração.
A diferenciação da técnica vocal usada na peça, por sua vez, não é desprezível, e não deve passar sem que joguemos alguma luz sobre ela. Consiste em quase sussurrar os declives da partitura, como se dissesse ao ouvido as partes mais graves, em particular detrimento do caráter público da música litúrgica que fornece-nos a letra e a base do canto. Além do solfejo puro de uma vogal, que alterna com a letra na extensão dos dois minutos e meio da faixa. Destarte, é inevitável a lembrança da cantiga popular utilizada por mães para acalmar as criancinhas de colo, para que durmam, a canção de ninar (lullaby). Ninar é fazer dormir, fazer sossegar, aplacar, por assim dizer; é uma arte excelentemente maternal. É justo este estilo que nos leva a imaginar o eu lírico da peça como sendo a mãe, e seu interlocutor, uma criancinha.
Que dizia Nosso Senhor das criancinhas? “Deixai os meninos, não os impeçais de vir a mim, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt. XIX, 14); “Em verdade, em verdade, vos digo que se vos não converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt. XVIII, 3); e o que mais nos interessa aqui: “E o que receber em meu Nome um menino como este, é a mim que recebe” (Mt. XVIII, 5). Benedictus qui venit in nomine Domini: as mães podem cantar assim aos meninos, louvando e aplacando, a um tempo, seus próprios filhos e o Filho da Virgem.
Toda criancinha, por corrupta ou santa que seja sua época, nasce pobre, nua, faminta, incauta, indefesa e pecadora, porém inocente, e na inocência se faz presente o Cristo. Não é propriamente a mesma presença de Cristo nos pobres da qual fala o catecismo, pois trata-se da precariedade decorrente da natureza humana, e não das unilateralidades (incidentais ou sistemáticas) dos imbróglios econômicos de sempre. Mas Deus não olha a matéria, Deus quer a disposição do amor excedendo a justiça, e os filhos de nossa natureza vêm para curar os enfermos de egoísmo e para achar os que se perderam em meio às vaidades do mundo, vêm para trazer de volta à realidade os desleais e, enfim, recompensar os que por eles zelaram amorosamente. Todas estas coisas fazem as criancinhas não pelo que oferecem, mas pelo que exigem; falam à nossa alma e são semelhantes a nós: Benedictus qui venit in nomine Domini.
Todos nascem de um pai e uma mãe, são frutos de seu ministério e objetos de sua autoridade; ademais no terrível dia do juízo, serão a fonte de sua salvação. Salvação, sim! Pois não há efeito na Graça, nem vida na Fé, se há negligência a um destes pequeninos! Ao menos assim nos ensinaram os apóstolos. Quero dizer que a caridade evangélica não é menos caridade por assistir nossos próprios filhos, pelo contrário: são eles que nos confirmam Deus em nosso meio. Sua pequenez Lhe atrai, sua pureza Lhe agrada, sua oração é ouvida, sua confiança Lhe faz encobrir nossos pecados, sua saúde angaria-Lhe orações e sacrifícios dos santos, sua segurança Lhe poupa os anjos do ócio, sua vida Lhe reitera os conselhos, sua formação exige todo zelo alcançável.
Por estridentes e influentes que sejam as aberrações de uma época como a nossa, todo indivíduo nasce de um pai e de uma mãe, que dele devem cuidar. Dada a universalidade de tal sistema, podemos aludir ao quão adequada é a língua latina para seu trato. O latim é santificado pela voz da Igreja através dos séculos, desde a inscrição ao cimo da Cruz de onde reinou Nosso Senhor sobre todo o universo, tornando-se universal por eleição. Com a mesma universalidade, refutamos as aparentes excentricidade e antiguidade de nossa peça, pois aquilo que é universal é por consequência atual e necessário. E cá entre nós, só chama o latim de exótico quem há muito se afastou do sagrado.
Naturalmente, não creio eu que Simon e Garfunkel, americanos e não-cristãos, tivessem a virtude teologal em mente quando tocaram seu Benedictus, mas pelo fato de terem realizado uma peça cultural tão dinâmica quanto ele, concedo-me a liberdade de apreciar-lhe com os pensamentos e ouvidos de um pai católico. Duas são as vozes como dois são os instrumentos de corda, pai e mãe, que atropelam-se suavemente entre os louvores a Deus e ao seu Messias, cuja distinção de pessoas não é concebida pelo louvor em si, mas pela ciência eclipsada pelo brilho do louvor: Benedictus qui venit in nomine Domini — dois são louvados em um, dois são os que louvam em um. Enquanto o caráter terno da canção de ninar nos remete a um lar, este lar se faz extensão de uma igreja pelo tipo de canto. Lá na igreja a coisa é pública, litúrgica, e cá em casa a coisa é privada, íntima e tem valor, não superior, mas comum e incontornável. Como o degrau inaugural de uma escadaria, é o menos elevado, mas é o que sustenta todo o caminho.

