O Homem de Preto: da batina à camiseta; a decadência do sacerdócio católico após o Vaticano II à luz de “Man in Black” de Johnny Cash

Antônio Luiz Ghislieri

Well, you wonder why I always dress in black,
Why you never see bright colors on my back…
(Johnny Cash, Man in Black 1971)

Induit me vestimentis salutis, et indumento justitiae circumdedit me.
(Is. LXI, 10 [Antífona da Veste Sacerdotal])

Introdução: por que o preto?

Há algo de profundamente perturbador no fato de que a cor que identificou o sacerdócio católico no meio do mundo durante quase dois milênios, o negro da batina, a cor da renúncia, do luto ao pecado e da morte ao século, tenha sido abandonada em poucas décadas, sem que, ao que parece, ninguém sentisse sua falta. Ou melhor: sem que aqueles que mais deveriam senti-la, os próprios sacerdotes, se importassem com o que estavam perdendo.

Em 1971, um músico americano, protestante, de vida tortuosa, marcado pelo pecado e pela emenda em proporções quase épicas, compôs uma canção que, de modo involuntário, forneceria uma inesperada descrição do que o sacerdócio católico deveria ser, e do que deixou de ser no pós-concílio. Johnny Cash escreveu “Man in Black” para explicar por que sempre se vestia de negro. A resposta não era estética; era existencial. Ele vestia o negro pelos pobres, pelos presos, pelos esquecidos, pelos que nunca ouviram as palavras de Cristo e, acima de tudo, porque o mundo não estava bem, e seria uma mentira fingir que estava.

A batina preta do sacerdote católico dizia exatamente a mesma coisa, e infinitamente mais.

I. O homem de preto: o sacerdote tradicional

O sacerdote, segundo a doutrina de sempre da Igreja, é um homem configurado ontologicamente a Cristo Sacerdote pelo Sacramento da Ordem. Ele não é um funcionário religioso, um facilitador de experiências espirituais ou um coordenador comunitário. Ele é, nas palavras de Santo Tomás de Aquino, um mediador entre Deus e os homens, constituído para oferecer o Santo Sacrifício e administrar os sacramentos, instrumentos eficazes da graça divina.

A batina que ele veste é o sinal visível de uma realidade invisível. O negro não é uma escolha estética: é um símbolo teológico. Ao vesti-la, o sacerdote proclama, sem palavras, uma série de verdades fundamentais: que ele morreu para o mundo e para si mesmo; que ele é um homem de luto, luto não por uma pessoa, mas pelo pecado que devasta a humanidade; que ele não pertence a este século, mas ao eterno; que sua vida é um sacrifício contínuo, unido ao Sacrifício do Calvário que ele renova diariamente no altar.

Mais do que isso: a batina preta é uma armadura espiritual. Ela identifica o sacerdote como combatente. A Igreja Militante não é uma metáfora pitoresca, mas uma realidade dogmática. O sacerdote está em guerra contra o demônio, o mundo e a carne. Seu negro hábito é o uniforme do soldado de Cristo, a veste do homem que se interpõe entre o rebanho e o lobo, que sabe que sua missão é salvar almas, e não agradar ouvidos.

Johnny Cash cantava: “I wear the black for the poor and the beaten down”. O sacerdote tradicional poderia dizer, com razão infinitamente maior: “Visto o preto pelos pecadores, pelos moribundos, pelas almas em perigo de condenação eterna”. Enquanto Cash vestia o negro por solidariedade humana, o que pode ser naturalmente nobre, sem dúvida, o sacerdote o veste por caridade sobrenatural, a mesma caridade que levou Cristo a subir na Cruz.

O padre tradicional é, essencialmente, um homem do sacrifício. Sua vida inteira se ordena ao altar. Ele reza o Breviário, celebra a Missa, confessa, prega, visita os enfermos, aconselha, estuda. Tudo em vista de uma única finalidade: a glória de Deus e a salvação das almas. Ele não busca aplauso, busca fidelidade; não procura ser popular, procura ser santo. Sabe que será perseguido, afinal Cristo o prometeu, e aceita a perseguição como confirmação de que está no caminho certo.

Esse homem é incômodo. É um sinal de contradição, como o próprio Cristo. Sua simples presença, de batina, num mundo que quer esquecer a eternidade, é uma provocação silenciosa. Ele lembra, pelo que é e pelo que veste, que existe o pecado, que existe o Inferno, que existe o Juízo, e que existe também a misericórdia infinita de Deus para quem se arrepende.

II. O arco-íris que não brilha

Cash cantava também: “I’d love to wear a rainbow every day, and tell the world that everything’s OK”. Mas acrescentava, com dolorosa lucidez: “But I’ll try to carry off a little darkness on my back; till things are brighter, I’m the Man in Black”.

Cash entendia uma verdade que o clero pós-conciliar decidiu ignorar: vestir cores alegres quando o mundo arde em sofrimento não é otimismo, muito pelo contrário: é mentira e enganação. Fingir que tudo está bem quando almas se perdem não é esperança, mas cumplicidade.

E, no entanto, foi exatamente isso que o Concílio Vaticano II e os Pontífices que o implementaram pelo magistério pós-conciliar produziram no sacerdócio. O padre pós-conciliar despiu a batina. Não apenas literalmente, embora o tenha feito com entusiasmo indecoroso, mas também espiritualmente. Despiu-se do que a batina significava: o sacrifício, a separação do mundo, a consciência do pecado, a urgência escatológica, o combate espiritual.

Em lugar da batina, vestiu a camiseta vulgar. Em lugar do sacrifício, adotou o “serviço”. Em lugar da pregação sobre os novíssimos, passou a discursar sobre “justiça social”. Em lugar do confessionário, montou “salas de escuta”. Em lugar do altar voltado para Deus, virou-se para a assembleia. Em lugar do latim sacro, adotou o vernáculo banal. Em lugar do canto gregoriano, acolheu as guitarras. Em lugar da doutrina, ofereceu sentimentos.

O resultado não foi uma renovação: foi uma dissolução.

III. O militante que não milita, o assistente que não assiste

O padre pós-conciliar queria ser “relevante”. Queria dialogar com o mundo moderno, ser aceito, mostrar que a Igreja não era aquela instituição “retrógrada” que seus críticos pintavam. E, para provar isso, fez o que todo homem faz quando quer ser aceito por quem o despreza: rendeu-se.

Tornou-se militante, mas de causas alheias à sua missão. Tornou-se assistente social, mas sem a competência técnica do assistente social profissional. Tornou-se animador de palco, mas sem o talento do artista. Tornou-se psicólogo de botequim, mas sem a formação do terapeuta. Tornou-se autor de autoajuda, mas sem a profundidade do verdadeiro pensador. Tornou-se ecologista, pacifista, indigenista, sindicalista: tudo aquilo que o mundo já tinha de sobra e não precisava que um padre fizesse.

E ao fazer tudo isso, deixou de fazer a única coisa que só ele podia fazer: ser padre.

Porque o mundo tem militantes aos milhares. Tem assistentes sociais em número crescente. Tem animadores, palestrantes motivacionais, ativistas ambientais, terapeutas — e todos eles, no que fazem, são mais competentes (para o bem como para o mal) do que o padre que abandonou sua vocação para imitá-los. O que o mundo não tem e o que só a Igreja pode dar é um homem que ofereça o Santo Sacrifício, que perdoe pecados em nome de Cristo, que pregue a verdade eterna sem diluições, que conduza almas ao Céu.

Cash sabia disso instintivamente. Ao vestir o negro, ele não estava imitando ninguém. Estava sendo autenticamente ele mesmo. Sua força vinha da recusa de fingir. O padre tradicional sabe o mesmo: sua força não vem de se adaptar ao mundo, mas de confrontá-lo com a verdade de Cristo.

IV. O consolo que não consola

Há algo de tragicamente irônico na situação do sacerdote pós-conciliar. Ele abandonou os meios sobrenaturais: o Sacrifício da Missa no rito verdadeiramente católico, o Sacramento da Penitência praticado com zelo e frequência, a pregação dogmática e moral sem concessões, a oração verdadeiramente sobrenatural e mística; para oferecer ao mundo algo que o mundo já possui: palavras bonitas sobre fraternidade, ecologia e paz.

Mas o homem que sofre não quer palavras bonitas. O moribundo não quer uma homilia sobre a Amazônia. O pecador esmagado pela culpa não quer uma palestra sobre inclusão. A mãe que perdeu um filho não quer ouvir que “ele está num lugar melhor” dito por alguém que não parece acreditar no Céu, no Purgatório ou no Inferno. O jovem tentado pelo desespero não quer um padre que lhe diga para “se aceitar como é”, quando o que ele precisa é da graça de Deus para se transformar no que deveria ser.

O padre que trocou o sacrifício pela militância, a cruz pelo microfone e a batina pela camiseta não pode consolar ninguém, porque arrancou de si mesmo os instrumentos do verdadeiro consolo e os descartou. Ele se tornou um médico que jogou fora os medicamentos e agora só pode oferecer abraços. Abraços até podem ser bons; mas não curam o câncer.

Cash captou essa dinâmica com precisão quase teológica: ele se recusava a vestir o “arco-íris” porque sabia que a alegria superficial é uma afronta ao sofrimento real. O mundo, dizia ele em sua canção, precisava de alguém up front, na linha de frente, vestido de preto, para lembrar que as coisas não estão bem. O padre tradicional está nessa linha de frente. O padre pós-conciliar abandonou o posto para combater o mal fingindo que ele não existe.

V. A autenticidade do negro

Uma das razões pelas quais Johnny Cash se tornou um ícone cultural duradouro, transcendendo gerações, modas e categorias musicais, é, com efeito, a sua autenticidade radical. Cash era um homem de contradições: protestante fervoroso e pecador notório; defensor dos marginalizados e amigo dos poderosos; gentil e violento; destruído pela droga e recuperado pela sua crença. Mas em nenhum momento ele fingiu ser o que não era. O negro que vestia era o reflexo exterior de uma coerência interior, coerência patentemente imperfeita, mas real.

A batina do sacerdote tradicional opera no mesmo registro: com a diferença essencial de que ela não é apenas um símbolo pessoal, mas um sinal sacramental. O padre que a veste não está expressando um sentimento; está proclamando uma verdade ontológica. Ele é outro Cristo, e Cristo não veio ao mundo para dizer que tudo estava bem. Veio porque tudo estava terrivelmente mal. Veio para salvar o que estava perdido. E foi vestido de sangue, o vermelho mais negro que existe, que completou Sua missão no Calvário.

O padre pós-conciliar, ao despir-se do negro, despiu-se também da autenticidade. Ao querer agradar a todos, não agrada a ninguém; ou, pior, agrada apenas àqueles que não querem ser incomodados pela verdade e que, portanto, nem ligam para ele. Ao trocar a linguagem do sagrado pela linguagem do mundo, ele se torna mais um ruído no caos. Ao abandonar o sacrifício pelo espetáculo, torna-se um ator medíocre num palco que o mundo domina com muito mais competência.

O resultado é o que vemos hoje: igrejas vazias, seminários desertos, vocações em queda livre, fiéis abandonados, uma geração inteira que cresceu sem nunca ouvir um sermão sobre o pecado mortal, a eternidade, a necessidade da confissão, a realidade do demônio. O padre que deveria ser sal da terra tornou-se o sal que perdeu o sabor e, como adverte o próprio Cristo, não serve para mais nada senão para ser pisado.

VI. A batina e a bênção: o caminho de volta

Cash encerrava sua canção com uma promessa e um desafio: “Till things are brighter, I’m the Man in Black”. Enquanto o mundo não melhorar, ele permaneceria vestido de negro. Não como desespero, mas como testemunho. Não como derrota, mas como resistência.

O sacerdote católico tem uma razão infinitamente mais profunda para vestir o negro e para nunca o abandonar. Porque o mundo, nesta vida, nunca estará inteiramente “bem”. O pecado original deixou feridas que nenhuma revolução política, nenhum programa social, nenhum sistema econômico, nenhuma campanha da fraternidade, nenhuma conferência eclesial pode curar. Somente a graça de Deus, comunicada pelos sacramentos, administrados por sacerdotes fiéis à doutrina católica de sempre, pode alcançar a raiz da miséria humana.

O caminho de volta passa, necessariamente, pela redescoberta do sacerdócio como sacrifício. Passa pela batina, sim, não como ornamento estético, mas como sinal exterior de uma conversão interior. Passa pelo retorno ao altar ad orientem, pelo Sacrifício da Missa celebrado conforme o Rito Romano Tradicional, pela pregação corajosa que não teme o desagrado dos homens porque teme o juízo de Deus. Passa pela confissão frequente, pela direção espiritual exigente, pela oração do Breviário rezada de joelhos.

Passa, em suma, por ser novamente o que Johnny Cash era à sua maneira imperfeita, e o que o sacerdote deveria ser de maneira plena e perfeita: o Homem de Preto. Aquele que, num mundo de cores falsas e alegrias postiças, se levanta na linha de frente para lembrar a verdade que ninguém quer ouvir e que, justamente por isso, é a verdade que todos precisam ouvir.

Conclusão: o negro que ilumina

Há um paradoxo profundo na cor negra quando aplicada ao sacerdócio: ela ilumina. A batina preta do sacerdote, como o traje de Johnny Cash, não esconde mas revela. Revela que o mundo está ferido. Revela que o pecado é real. Revela que a morte não é o fim, mas a porta de um Juízo terrível e misericordioso ao mesmo tempo. Revela que há um homem disposto a dar a vida, não metaforicamente, mas realmente, para que outros encontrem a Vida.

O padre pós-conciliar, com sua camiseta indistinta e seu sorriso de palestrante motivacional, não revela nada. Ele confirma o que o mundo já pensa de si mesmo: que as coisas estão razoavelmente bem, que basta um pouco mais de boa vontade, um pouco mais de diálogo, um pouco mais de inclusão, um pouco mais de sinodalidade, um pouco mais de “empatia”, e tudo se resolve. É a teologia do arco-íris: bonita, inofensiva e absolutamente incapaz de salvar uma única alma.

Contra essa utopia mundana, o Homem de Preto se levanta. Não com otimismo barato, mas com uma esperança verdadeiramente teologal. Não com discursos agradáveis, mas com a Verdade que liberta. Não com aplausos, mas com o Sacrifício que redime. Ele sabe que o caminho é estreito, que a porta é apertada, que muitos são os chamados e poucos os escolhidos. E justamente por isso veste o negro, e não o tira jamais.

Porque, como cantava Cash com a voz rouca de quem conheceu o abismo e foi resgatado: até que as coisas melhorem, até que Cristo volte e faça novas todas as coisas, o lugar do padre é na linha de frente. De batina. De joelhos diante do altar. Com o Cálice do Sangue Precioso nas mãos. Rezando, dia e noite, sem cessar. Oferecendo continuamente a sua vida em sacrifício para a salvação das almas.

Sendo, genuinamente, o Homem de Preto.

Deixe uma resposta