O Mundo: um pandemônio

A vida neste mundo é um vale de lágrimas, como sabemos os católicos que rezamos cotidianamente — e atentamente, vale dizer — a Salve Rainha. Não significa que vivemos uma vida triste, aos prantos, com pessimismo, mas que conhecemos o nosso estado, a nossa miséria. Significa também que reconhecemos que o Mundo nada pode dar que não seja efêmero, passageiro e, não raramente, pecaminoso, motivo pelo qual pedimos na mesma Salve Rainha para que a Santíssima Virgem, nossa advogada, volte Seus olhos misericordiosos para nós e nos mostre o Bom Jesus, único que tem palavras de Vida Eterna.

Dito isto, o cotidiano no meio do mundo nos apresenta uma face das pessoas que pode ser ignorada por muitos de nós. Os veículos de comunicação — sobretudo os mais espúrios, de gente que nem acesso à internet deveria ter, quem dirá um “perfil de notícias” — oferecem à sociedade toda sorte de tragédias e pornografias mais ou menos soft. A sociedade, por outro lado, consome tudo com uma curiosidade insaciável, ávida por ver as tripas de um motorista morto em um acidente ou atos sexuais flagrados em locais públicos. Doença? Certamente. Mas talvez seja na convivência com os mundanos que a coisa realmente se apresente como é.

Assim como a santidade pode se ver refletida até nos atos mais ordinários, a vassalagem a Satã não está apenas nos grandes pecados e escândalos como os de Epstein ou de P. Diddy, ou nas grandes festas, como o Carnaval, mas em hábitos tão corriqueiros que são frequentemente tratados como normais. O diabo mora nos detalhes.

Falo por experiência própria que mesmo os mundanos mais honestos, com quem costumamos interagir no trabalho, nas filas da lotérica ou em qualquer lugar com alguma nefasta aglomeração de pessoas, carregam consigo maus hábitos que deveriam causar uma sincera repugnância no católico: da boca jorram palavrões, que nada mais são do que palavras impuras e nas conversas, não hesitam em falar de sensualidades ou em contar piadas sujas, esquecendo-se de que nada disso deve ser mencionado (cf. Ef. 5, 3-5); nas reuniões informais, não se importam com a embriaguez e a perda da consciência dos atos e do uso da razão, ignorando o arrependimento e o mal-estar que frequentemente vêm no dia seguinte; na “fé”, Deus é tratado como algo subjetivo e abstrato, os sacramentais da Santa Romana Igreja são vistos como amuletos, as orações são feitas de forma ocasional e não raramente as crendices populares tomam um espaço maior do que deveriam.

Para além disso, temos dados estatísticos que nos apontam para uma queda na natalidade, um abandono dos casamentos (religiosos e civis), um aumento dos divórcios, etc, etc. Tudo isto, repito, é perceptível no dia a dia, em conversas casuais, e tais coisas são tratadas como banalidades, mesmo entre aqueles que frequentam a igreja dominicalmente.

A falta do perdão, as traições, mesmo aquelas que ocorrem em pensamento (cf. Mt. 5, 28), o apego ao dinheiro, a busca por uma aparência alegadamente “perfeita” obtida através de procedimentos estéticos intermináveis — que, convenhamos, apenas criam rostos artificiais e lábios que parecem ter sido vítimas de um enxame de abelhas.

A luxúria, a ira, a soberba, a ganância e todos os demais pecados capitais parecem ter sido — e de fato foram — entronizados no lugar de Cristo. O que pode restar disto senão um grande pandemônio? E aqui, caríssimo leitor, não me refiro apenas a um estado de caos, de desordem, mas sim ao sentido primeiro de “pandemônio” utilizado por John Milton em seu Paraíso Perdido: um lugar onde habitam os demônios sob a liderança de Satanás.

Mas além dos pecados de cada dia, há outra coisa que tem contribuído para que os membros da sociedade permaneçam rolando na lama sob as correntes dos demônios: o abandono do raciocínio. Com os imediatismos impostos pela internet e, mais particularmente, pelas redes sociais e seus vídeos curtíssimos, o cérebro dos usuários está sendo destruído, bem como a sua saúde emocional, gerando uma dificuldade em realizar atividades mais lentas ou que exijam mais do cérebro, como a leitura e a solução de problemas mais complicados. Soma-se a isso o fato de que a longa exposição a esse tipo de vídeo também prejudica o autocontrole — em uma sociedade hedonista, que já despreza qualquer tipo de controle que não seja para deixar seu corpo “em forma”, o que poderia dar errado? E não esqueçamos de que com a popularização das IAs, não são poucos os que passaram a perguntar aos “assistentes virtuais” todo tipo de coisa, recusando-se a raciocinar o mínimo que seja.

Façamos as contas: temos pessoas que praticam cotidianamente, em pensamentos, atos e palavras, uma série de pecados sem ter um pingo de arrependimento deles, sem se importar se ofendem ou não a Deus. Esses mesmos pecados afetam diretamente suas relações com outras pessoas, algo que podemos constatar pelas estatísticas citadas anteriormente.

Mais do que isso: se a imbecilidade já havia sido escolhida em detrimento da erudição, hoje ela é coroada e levada em procissão ao som de terríveis cacofonias que versam sobre temas tão baixos e tão sentimentaloides que nem mesmo um cachorro próximo a uma fêmea no cio poderia pensar — se cães pudessem pensar em algo. O que poderia surgir da união entre tantas pessoas assim? Eu respondo: famílias desestruturadas, pessoas com problemas mentais e desgraças de todo tipo que nem mesmo os povos bárbaros do passado pensariam em fazer. Almas, um mar de almas, que se colocam como escravas do demônio e caminham alegres para o lugar onde só há choro e ranger de dentes.

Mas não pensemos que nós, católicos tradicionais, estamos a salvo de tudo isso. A convivência diária com os que abraçam o Mundo nos impõe o desafio diário de não cair nos mesmos males que condenamos. “Aquele que pensa estar de pé, tome cuidado para que não caia” (1Cor. 10, 12).

Estou sendo repetitivo, eu sei, mas a solução para todo esse pandemônio é apenas uma: ou temos Nosso Senhor como verdadeiro Rei de nossas vidas, seguindo o que Ele nos manda, ou pereceremos todos e cairemos naquele reino de Satanás que é eterno e para onde vão as almas que se julgaram autossuficientes o bastante para não dependerem de Deus e de Sua Santa Igreja Católica.

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