Nota introdutória
Às portas da Quaresma de 1987, diante da perda do espírito da fé e da influência de princípios liberais no clero, Dom Marcel Lefebvre escreveu uma pequena carta pastoral aos fiéis de sua Fraternidade, alertando-os para a necessidade de permanecer firmes nas tradições católicas e exortando-os à reflexão, enfatizando a importância da penitência, da oração e da comunhão com a Igreja por meio de seus sacramentos para a vida cristã.
Se podemos dizer que algo mudou daquela Quaresma para a que já tomará início em 2026, foi a piora da situação da Crise através de um modernismo não mais empedernido, mas escrachado e escancarado. Agora, como há quase quatro décadas, as palavras do Arcebispo ecoam como norte seguro para o fiel católico.
João Medeiros
Editor-chefe
Carta pastoral aos fiéis por ocasião da Quaresma
No passado, havia o excelente hábito de o bispo diocesano enviar uma carta a todo o seu rebanho por ocasião da proximidade da Quaresma. De fato, como diz a leitura da Epístola do Primeiro Domingo da Quaresma: “Nós vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus. Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” (2Cor. VI, 1s).
Meus caríssimos fiéis, leiam repetidamente as notas dos vossos antigos missais que explicam o tempo da Quaresma. Essas notas vos recordarão da origem e do significado desses quarenta dias de oração e jejum, que nos preparam para a Semana Santa, para o grande mistério da Cruz, a fim de chegar à Ressurreição. A Igreja quer nos levar à prática de uma vida mais perfeita. Ela nos dá o exemplo de Cristo e, por meio do verdadeiro jejum e penitência, nos une aos sofrimentos d’Ele, para nos dar uma parte de Sua redenção.
Ao longo de todos esses quarenta dias santos, a Igreja nos lembra de que somos pecadores tentados pela “concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo. II, 16), e coloca em nossos lábios estas súplicas comoventes: “Senhor, não nos trateis conforme merecem os pecados que fizemos, nem segundo a ignomínia das nossas iniquidades. Sede indulgente com os nossos pecados!” (Tracto da Missa de Quarta-feira de Cinzas).
Bem-aventurados sois vós, caríssimos fiéis, que guardastes o espírito da Fé e vos preparais para este período de oração e penitência com devoção, convictos de que vos santificareis pela assistência mais frequente à Santa Missa, pela comunhão frequente, pelo Sacramento da Penitência, pelo jejum e abstinência, pela esmola, por uma prática mais fervorosa das virtudes cristãs da humildade, mansidão, paciência, gentileza e misericórdia; e, se possível, por um santo retiro, que vos ajudará a desapegar-vos cada vez mais do pecado e de todo apego a este mundo, a encontrar a intimidade do amor de Jesus e de Maria, e, assim, transformar a vossa vida.
Mas, para crer neste reavivamento da graça em vossas almas, é preciso ter não somente fé, mas o espírito da fé, quer dizer, uma fé viva, animada pelo Espírito Santo, que conduz as nossas almas pelos caminhos da perfeição, numa caridade cada vez maior para com Deus e para com o próximo. Infelizmente, notamos que o espírito da fé, que consiste em crer e viver segundo a graça batismal, tem desaparecido, mesmo nos mais altos níveis da hierarquia. Os princípios que regem e dirigem o espírito do Papa e dos bispos não são mais os verdadeiros princípios da fé, mas os falsos princípios da razão humana, como aqueles que estão na origem do liberalismo protestante, do modernismo, do americanismo, do sillonismo; são princípios que foram condenados pelo Concílio de Trento e por todos os pontífices até o Papa Pio XII.
Os últimos papas se afastaram da herança de vinte séculos da Igreja para se tornarem herdeiros dos liberais e dos modernistas. Tudo o que eles dizem ou fazem não é nada mais que o eco do que foi dito e feito por aqueles que, nos últimos quatro séculos, foram imbuídos desses falsos princípios. O Encontro de Assis é o fruto mais claro desse catolicismo liberal condenado por todos os papas antes do Concílio Vaticano II.
É deste modo que nós nos encontramos face a um mundo eclesiástico inteiramente incoerente e ilógico, que busca pôr acordos entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal, entre a luz e a escuridão, entre Deus e Belial. Esse abalo de fé parece realmente preparar a vinda do Anticristo, de acordo com as previsões de São Paulo em sua Epístola aos Tessalonicenses e os comentários dos Padres da Igreja.
Quando Nosso Senhor descreve o fim dos tempos e, depois dele, os apóstolos em suas cartas, eles falam para aqueles que permanecerão fiéis, dizendo: vigilate, vigilate — vigiai, estejais prontos! São Paulo nos diz: “Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições, que aprendestes” (2Ts. II, 15). São Pedro diz-nos em sua Segunda Epístola: “Todavia, como um ladrão, virá o dia do Senhor, no qual passarão os céus com grande estrondo… e a terra, como as obras que há nela, será consumida. […] Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, procurai com diligência ser encontrados por ele sem mancha e irrepreensíveis na paz” (2Pd. III, 10.14).
Que as nossas orações e jejuns sejam para nós uma fonte de santificação e uma súplica pelo retorno dos pastores à verdade do Magistério Tradicional da Igreja, para a honra de Nosso Senhor, pelo Seu reinado universal e para a honra de Maria, Sua Mãe Santíssima. Amém.
Écône, aos 25 de janeiro de 1987, na Festa da Conversão de São Paulo.
+ Marcel Lefebvre
Arcebispo-bispo emérito de Tulle
Fundador da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X
Tradução: João Medeiros.

Em outras palavras, se poderia resumir esse boletim/exortação a: “sedes sal da terra e luz do mundo, a candeia deve brilhar em toda sala e não debaixo do alqueire”. Logicamente, se o mundo anda mal é porque há católicos que são maus católicos; se há toda essa malignidade no mundo (vede o caso Epstein) a candeia está debaixo do alqueire, imersa em novas doutrinas que impedem o sal de dar gosto a comida: católicos mornos, inconscientes da gravidade dos tempos presentes, que ferem a Igreja por causa dos seus pecados.
A necessidade de conversão, como pediu a Virgem em Fátima, se torna o clamor dos céus à terra: “Penitência! Penitência! Penitência!”, somente quando se voltar à penitência e reparação dos pecados, quando se voltar a dar satisfação a Deus pelas ofensas contra a sua majestade, é que a Igreja passará da Sexta-feira Santa, que vivemos hoje, ao domingo de Páscoa, d’amanhã.
E Monsenhor tinha esse espírito de fé viva que transparece em seus escritos; um balsamo da verdade católica em tempos de crise. Todo profeta não é acolhido em seu tempo. Somente quando Deus envia seu remédio amargo que alguns acordam do sono, já outros… não posso dizer que sim. Ele foi esse remédio, uma voz que clamou no deserto.