Há algum tempo, deparei-me com um artigo de Gustavo Corção que até então me era desconhecido: O progresso e Chesterton, publicado na edição de janeiro da revista A Ordem no muito longínquo ano de 1940. Elogiando nosso grande escritor católico inglês — sim, nosso ainda que inglês, porque católico —, o nosso grande escritor católico brasileiro escreveu o seguinte — e perdoem-me desde já pela longa citação:
Quando por exemplo, em roda de intelectuais, um senhor bem vestido dissesse pausadamente que a Igreja tem feito resistência ao Progresso, algum de nós, católico, antigo aluno distinto de apologética, seria capaz de aceitar uma educada controvérsia, tentando improvisar uma advocacia da Igreja, toda ela miudamente construída com fatos e interpretações.
Iria discutir o caso de Galileu, citar Copérnico, lembrar que também a revolução se opôs a Lavoisier, e que Einstein foi desterrado pela cruz gamada. Ficaria tudo cristalizado num ambiente acadêmico, tudo impregnado da mais educada idiotia. Seria uma marcação de pontos como no bridge, a saber quem tinha encarcerado mais astrônomos ou queimado mais químicos.
Ora, quem tivesse o Chesterton na mão, como um vidro de sais, poderia simplesmente responder que, pensando bem, a Igreja é a única coisa que realmente tem progredido. A maior parte dos católicos presentes a tal reunião, ficaria assustada, a tal ponto nós os católicos nos educamos no hábito de defender, de justificar, de desculpar a Igreja, e a tal ponto receamos espantar o adversário com palavras cristãs demais.
Parece que numa discussão inteligente é preciso calar o amor ao Pai para não ficar como testemunha suspeita, e por isso às vezes se nos afigura, a nós católicos, preferível adotar um tom mais mundano do que cristão. Já ouvi turbulentas gritarias cosmogônicas em que cada um tem sua ideia para as origens e para as leis, e numa dessas gritarias lembro-me que um transbordante católico, no auge do entusiasmo, tão fácil lhe pareceu atacar o darwinismo que chegou a gritar: — Para isso nem preciso de Deus…
Esses católicos costumam praticar a contabilidade da Verdade.
Julgam meio caminho andado quando os seus oponentes acabam concordando que são a favor de Jesus. Julgam que a Igreja cresce subitamente e o Cristo ressuscita quando se consegue apurar uma safadeza de Rousseau; julgam que é um verdadeiro apostolado contar que Diderot ensinava o pelo-sinal à filha como se toda a Verdade, todo o Cristo, estivesse à espera de Diderot.
Preferem em presença dos adversários e dos indiferentes não cheirar demais a incenso, e, sempre que possível, se colocar no próprio plano fazendo um miúdo inventário de fatos e anedotas a favor dos Papas. Têm satisfação em citar Psichiari, não por ele mesmo, mas especificamente porque Psichiari responde a Renan e assim, numa espécie de intriga em família, desfaz a má impressão da vida desregrada do avô.
Por isso tudo Chesterton aparece um pouco bruscamente perturbando a diplomacia filandrosa que julgam necessária para salvar os restos da Igreja (CORÇÃO, 1940, pp. 20-22).
Nosso autor, que vivia num Rio de Janeiro àquela altura já internacionalmente famoso pela vida boêmia do samba na Lapa, não apenas critica o que chama de diplomacia filandrosa, mas oferece todo um quadro sobre a situação crítica da realidade em que se encontrava; que poderia dizer, então, a partir da realidade em que nos encontramos nós, 85 anos depois de seu artigo? Àquela altura, a situação dos católicos já era crítica; hoje, na melhor das hipóteses, nosso paciente está respirando por aparelhos. E muito pior: até mesmo Papas caíram neste engodo.
Um tanto mais recentemente, acabei por engajar no que me foi uma muito rara discussão sobre religião — rara porque evito as discussões como ao próprio diabo, haja vista a falta de caridade comum no ramo — em que meu interlocutor disse-me algo mais ou menos assim: “Lá atrás, o Papa reconheceu os erros da Igreja, e agora os padres reconhecem que a devoção a Maria é errada e exagerada, que faz esquecer de Jesus, que ela não salva ninguém, que a salvação vem por Jesus”. Primeiro, João XXIII ocultou o perfidis de uma oração da antiga Sexta-feira Santa para agradar os seguidores do Talmude, e, como demonstra Antônio Ghislieri, o Concílio Vaticano II esquivou-se propositadamente da Santa Mãe de Deus; depois, em gesto ecumênico, o Paulo VI removeu a excomunhão do cismático Miguel Cerulário promulgada em 1054, e também o Papa João Paulo II desculpou-se pela Igreja a toda sorte de gente. Agora, qual Francisco redivivo, Leão XIV uniu-se a seus predecessores de triste memória para desculpar-se também pela devoção católica a Nossa Senhora. O próximo passo, parece-me, será desculpar-se por Cristo ter feito de São Pedro o Papa ou pela definição do cânon bíblico em Niceia. O meu interlocutor completou: “Mas para você a Igreja é perfeita!?”. Questão retórica, resposta óbvia.
Por muito pouco ele não pediu que me desculpasse por ser católico enquanto implicitamente me incitava à admissão da possibilidade de defecção da Igreja. Afinal, como disse o nosso Chesterton, “estamos em dias em que espera-se do cristão o louvor de todas as religiões, exceto a sua própria” (CHESTERTON, 1928): ao que é seu, apenas a defesa, a justificativa, a desculpa. “Sim, é verdade, a Igreja errou”: era isso o que desejava ouvir de mim o nosso interlocutor; porém, com toda a franqueza de minha alma pequena e pecadora, eu não tenho motivo nem intenção de me desculpar de nada por minha fé, muito pelo contrário: ser irremediavelmente católico me é motivo de orgulho. Orgulho-me genuinamente desta fé que não é minha, que tomo de préstimo d’Aquele que me a deu.
Que há entre os católicos? Que tipo de católicos somos nós?! Uma peste de letargia nos contamina a ponto de um protestante tranquilamente esperar de nós a nossa capitulação enquanto desonra nossas Mães, Nossa Senhora e a Igreja! A ponto de um adepto da nova esquerda exigir reparação de “dívida histórica” ou de um adepto da nova direita considerar um bem ver um político católico orando no culto protestante — pois o protestante não reza, isso é coisa desses idólatras católicos —, no ato ecumênico em nome da “ação conjunta”, atitude que ele espera e louva, ou até no Muro de Jerusalém. Espera-se que os católicos escondamos os nossos terços enquanto trancafiamos no porão a bagunça dos crucifixos e das imagens e borrifemos um perfume para cessar o cheiro do incenso e de todas as outras coisas católicas fedorentas de naftalina que já não são de nosso tempo. É normal, especialmente em nosso país onde a tolerância é elevada ao status de virtude e sinalizada como virtude moral máxima, pois que mal faz orar o Pai-nosso com os irmãos antes da refeição — enquanto eles rejeitam nossa Mãe — e omitir a Ave-Maria?
Não há razão alguma para desculpas e justificativas diante de quem ataca a Fé fundada pela própria Verdade encarnada no ventre de Maria Virgem e Mãe de Deus. Não há razão para qualquer tipo de vergonha. Foi a Religião Católica a construtora de todo o solo no qual, irrazoáveis, seus inimigos se assentam para atacá-la. Intolerância, já citamos noutro artigo, não é estupidez ou fúria cega, mas amor da verdade. Como ensina a sabedoria popular, a melhor defesa é o ataque, e aqui muito propriamente, o ataque com a verdade seguindo as palavras de São Pedro mesmo e dando razão à nossa esperança (cf. I Pd. III, 15). É esta que deveria ser a única defesa para um católico que se preza, tendo a razão como espada e o conhecimento como escudo. É de nosso dever vender a capa para comprar a espada (cf. Lc. XXII, 36).
Não há outro remédio para essa terrível pestilência. Ou somos de Nosso Senhor ou não somos de Nosso Senhor. Ou sim, ou não. Não há meio termo, e tampouco a palavra faz curvas: é preciso que seja reta. E é precisamente sobre isto que dirigirei aqui umas breves palavras a mais.
Entendamos algo, leitores: nós lemos nas Escrituras Sacras que Deus criou o céu e a terra, e que para criar toda essa mesma existência que vemos, que conhecemos, que sentimos e na qual estamos inseridos, Deus disse. Lê-se: “Deus disse: ‘Faça-se a luz!’. E a luz foi feita” (Gn. I, 3). Quer dizer que Deus usou de sua Palavra para criar. Sabemos através da Revelação que Jesus Cristo era o Verbo e que “o Verbo era Deus” (Jo. I, 1), que a própria Palavra de Deus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ao dar ao homem a palavra e ao levar todos os animais a Adão para que definisse seus nomes (cf. Gn. II, 19), foi que Deus deu a Adão autoridade sobre a criação; foi através do uso da palavra. A todo tempo, a Escritura Sagrada nos sinaliza a importância dos nomes e de seus significados naquelas personagens: o nome do Arcanjo São Miguel significa “quem como Deus?”, respondendo com humildade angélica à soberba do diabo; o nome do profeta Samuel significa “Deus ouve”, porque Deus ouviu a promessa de sua mãe estéril e lhe deu um filho para ser nazireu, e porque Samuel ouviria o próprio Deus como seu profeta; Jesus, o santíssimo nome do Senhor, significa precisamente “Salvador”, sua missão. Mesmo com a confusão linguística nascida de Babel, todos os povos do mundo no oriente e no ocidente conservaram em suas línguas e sociedades a seriedade de dar nomes com significados aos seus filhos, nomes estes que também costumavam simbolizar a missão daqueles que os recebiam, levando homens a viverem conforme os próprios nomes. É um tradicional costume cristão que o catecúmeno escolha um nome para si no batismo ou na crisma, assumindo o nome de um santo para viver conforme seu exemplo; também tradicionalmente recebem novos nomes os monges, as freiras e os frades, e todo Papa eleito se autoimpõe um novo nome com o qual passa a ser conhecido e chamado por toda a cristandade. O próprio Papa, ao definir um dogma, anuncia imperiosamente: “Pronunciamos, declaramos e definimos”. E não nos esqueçamos de que foi também pela palavra que Deus abençoou e amaldiçoou: o próprio Verbo de Deus encarnado amaldiçoou a figueira sem frutos.
Percebamos, portanto, a importância da retidão daquilo que falamos, que dizemos e pronunciamos; a importância do que nomeamos. A palavra não nos pode ser objeto de vanidade ou do luxo fútil e insensato de quem não pensa, e tampouco deve ser objeto de ambiguidade. “Faça-se luz!”, foram estas as palavras de Deus por sua Palavra, ao que podemos entender também da necessidade de clareza da fala. E se alguém me objeta dizendo que estou esticando em demasia a interpretação do texto sagrado desta forma, cito a palavra da Palavra no Sermão da Montanha: “Seja o vosso falar: ‘Sim’, se é sim; ‘não’, se é não. Tudo o que disto passa, procede do Maligno” (Mt. V, 37). Nosso Senhor fez de sua palavra luz, e não poderia ter sido mais claro no que disse.
A palavra é importante e precisa de clareza, não se pode deixar espaços para a leviandade em seu uso. É preciso conformar nossas palavras à Palavra criadora de tudo, o que certamente não se dá quando praticamos contabilidade da Verdade.
O objeto de orgulho do católico não reside em suas próprias forças. Esse orgulho não reside nas obras que faz ou no tempo que passa em oração, até por saber que aquilo que faz é feito não por mérito próprio, mas por mérito do que Deus lhe dá gratuitamente, mérito da graça divina. E é este o objeto de seu orgulho paradoxal: o católico orgulha-se unicamente do que não é seu, mas do que é de Deus, razão pela qual orgulha-se primeiramente da Fé que lhe foi infusa pelo batismo.
Sendo a Fé Católica o objeto de nosso orgulho — ela que nos foi dada gratuitamente em ordem à nossa salvação — como é possível que a deixemos duvidar para o escárnio de seus inimigos, daqueles que intimamente a odeiam? Como é possível que digamos como aquele católico naturalista, que para combater erros “nem precisa de Deus”? Sem dúvidas um dos grandes males do século XX, talvez o maior deles, foi a confusão entre a ordem natural e a ordem sobrenatural que acabou por conduzir a uma rejeição tácita desta enquanto se enaltece aquela.
O dever incumbido ao leigo católico é o de, munido pela graça santificante de Deus, santificar a realidade temporal, isto é, é o dever de condução da própria realidade temporal ao próprio Deus. É dever do cidadão cristão o de sobrenaturalização da sociedade dentro de suas próprias capacidades e possibilidades: dever de dilatação do Reinado Social de Cristo. No afã de defender a verdade, não podemos negá-la. Se somos de Deus e de sua Igreja, é com o auxílio da graça divina que buscaremos defender a Verdade íntegra, toda, plena e inteira com todo o nosso desvelo e contra qualquer desprezo inimigo ou zombaria adversária. Porque para tudo que fazemos nós precisamos de Deus. Não significa que buscaremos debates inférteis cuja única serventia é a de jogar pérolas aos porcos e destruir a caridade: o teimoso e obstinado que se fecha em seus falsos conceitos dificilmente se abrirá para o que é verdadeiro.
Como nos ensina a vida do Profeta Santo Elias, que consumido de um justo zelo pelo Senhor por vezes desejava agir intempestivo e segundo sua própria vontade e era parado por Deus, as coisas têm o seu tempo e lugar para acontecer.
Porém, quando pelas palavras falsas, mentirosas e enganadoras de um herege, de um heterodoxo, daqueles católicos malformados ou de formação deficiente tão comuns em nosso tempo, existe risco de confusão dos pequeninos, ou quando o que há de mais precioso em nossa Santa Religião — que não é nossa, mas vem de Deus — é atacado, é o nosso dever a resposta altiva e orgulhosa, tal qual orou o Profeta Santo Elias: “que saibam todos hoje, Senhor, que eu sou vosso servo e que sois Vós que converteis os seus corações” (I Rs. XVIII, 36-37).
Com retidão de alma e de espírito, com palavras retas e sem curvas, com coragem e, sobretudo, amor de Deus, de Quem sempre precisamos e a Quem servimos, por Quem buscamos santificar a sociedade e a Quem buscamos conduzi-la, recapitulando todas as coisas em Cristo e por seu Reino. Sem naturalismos imbecis de meias palavras.
A Dios rogando y com el mazo dando.
CHESTERTON, G.K. Turkey and Western Europe. The Illustrated London News, Londres, 11 ago. 1928.
CORÇÃO, Gustavo. O progresso e Chesterton. A Ordem, ano XX, vol. XXIII, pp. 19-24, janeiro a junho de 1940.

