Todos parecemos ter aquelas atividades vagas pelas quais nutrimos alguma predileção quando estamos esgotados, seja mentalmente ou fisicamente — ou ambos, como muitas vezes é o caso. E embora eu tenha um curioso gosto por romances e contos policiais, seria de se presumir que os contos do Padre Brown fossem meus preferidos nesses momentos. De fato, gosto muito de todos eles, mas Agatha Christie ocupa um lugar especial quando quero descansar sem fazer muito esforço para pensar — não que Christie e seus contos sejam vazios, mas tendo a não refletir de forma exaustiva sobre o que está escrito ali.
Chesterton, porém, tem essa peculiaridade, pois ele nos força a pensar. Seus contos não são somente histórias que entretêm; e, apesar de muitas vezes terem sido escritos de supetão, constituem uma fonte constante de verdadeira reflexão. É difícil passar por uma de suas histórias sem tropeçar em alguma frase, imagem ou absurdo que nos obrigue a parar por alguns instantes.
Um dos começos mais geniais, por exemplo, encontra-se em The Sins of Prince Saradine, onde vemos Flambeau narrar uma viagem quase mística. Conta ele que partiu levando apenas aquilo de que um homem poderia realmente precisar: pão para o caso de ter fome, vinho para o caso de ter sede, um revólver para o caso de precisar matar alguém e um padre para o caso de precisar morrer. Chesterton parece ter pensado em praticamente tudo. Poderíamos acrescentar apenas um advogado, para o caso de ainda precisarmos de defesa depois de mortos. É tudo de que um homem precisa.
Curiosamente, porém, apesar de não ter um começo tão memorável, aquele que considero o melhor conto do Padre Brown é The Hammer of God, conto que sempre indico como uma leitura essencial de Chesterton. Se você for ler apenas um único conto seu, leia The Hammer of God.
No conto, Chesterton nos apresenta Norman Bohun, um homem desprezível e tão entregue aos vícios que não encontramos sequer o conforto de alguma qualidade que possa redimi-lo aos nossos olhos — o leitor poderia até mesmo confundi-lo com um carioca moderno, embora não devamos condenar toda uma multidão pelos pecados de alguns poucos. Era um aristocrata vindo de uma família nobre que há muito perdera sua própria nobreza; dissoluto, arrogante, dado à bebida e a escândalos tão grandes que causavam repulsa até mesmo em seu irmão, o Padre Wilfred Bohun.
E, sendo Wilfred um homem de religiosidade evidente, tinha boas razões para condenar o irmão. Seu erro, contudo, não estava em enxergar pecado onde não havia — o que obviamente não era o caso de Norman. Seu erro estava naquela espécie particularmente perigosa de soberba espiritual pela qual um homem, por julgar estar certo sobre a maldade de seu adversário, começa a acreditar que estará certo em tudo aquilo que fizer contra ele. É assim que, por vezes, uma causa justa deixa de ser apenas uma causa a ser defendida e se transforma numa espécie de licença para fazer o mal.
A igreja de Wilfred ficava no topo de uma colina, de onde era possível ver a pequena vila com suas casas e oficinas. Ao ver seu irmão sair de um bar, pronto a dirigir-se à casa do ferreiro, que estava viajando, para fazer uma visita à sua mulher, o devoto padre arremessa do alto da torre um pequeno martelo que, providencialmente — ou talvez não —, acerta a cabeça de Norman.
Quando o corpo é encontrado, porém, há algo de extraordinário naquela morte. O pequeno martelo encontrado próximo ao cadáver dificilmente parecia capaz de produzir tamanho estrago. O próprio ferreiro tinha o álibi de estar viajando no momento do assassinato; sua mulher, apesar de estar presente na vila e ter motivos para querer livrar-se de seu caso extraconjugal, dificilmente possuiria a força necessária para produzir aquele ferimento. Havia, porém, no local outra figura sobre quem seria muito mais fácil lançar a culpa: Mad Joe — ou Joe, o Louco.
Joe era uma dessas figuras que, sobretudo nas pequenas cidades, acabam por encarnar o papel do doido da vila. Dotado de alguma deficiência intelectual, era constantemente alvo das zombarias dos moradores, sobretudo de Norman, que, pouco antes de morrer, havia se divertido tentando acertar uma moeda na boca do pobre homem.
Joe possuía, para um homem que precisava encontrar outro culpado, uma qualidade extraordinariamente conveniente, pois ninguém esperava que fosse capaz de defender a si próprio e, dada sua condição, dificilmente poderia ser responsabilizado pelo crime como um homem em pleno uso da razão. Era uma situação quase perfeita — talvez só não fosse melhor do que se ele próprio também estivesse morto.
É nesse ponto que entra o Padre Brown. Enquanto todos procuravam entre os homens da vila alguém que pudesse ter desferido tamanho golpe, o pequeno sacerdote percebeu uma possibilidade muito mais simples, já que talvez a força não estivesse no braço que arremessara o martelo, mas na altura de onde ele havia caído. Os moradores já falavam em alguma espécie de justiça divina, como se o próprio Deus tivesse lançado o martelo dos céus, tamanho era o mistério daquela morte. Mas o astuto sacerdote percebeu que a força que viera do alto não tinha origem divina, mas humana – tal como a lei à qual é atribuída a ação que fazem as coisas caírem. E havia sobre a vila apenas um lugar suficientemente alto para transformar um pequeno martelo em uma arma mortal.
“Os pináculos foram feitos para serem contemplados, não para que se contemple a partir deles.” E foi justamente do pináculo da igreja que o martelo havia sido arremessado. O pequeno sacerdote sobe então a colina e encontra Wilfred, não propriamente para acusá-lo, mas para dizer-lhe que havia compreendido. O martelo não fora arremessado por Mad Joe, como Wilfred havia afirmado; apenas caíra de uma altura extraordinária para os padrões daquele pequeno vilarejo. Do alto da igreja, Wilfred vira o irmão caminhando em direção a mais um de seus pecados e decidira, por um instante, que talvez coubesse a ele fazer descer sobre Norman aquilo que julgava ser a justiça de Deus.
Há uma forma particularmente perigosa de soberba que nasce não quando defendemos uma causa má, mas justamente quando estamos convencidos de defender uma causa boa. O homem que sabe estar fazendo o mal ainda precisa encontrar desculpas para si mesmo; aquele que passa a identificar a própria vontade com a causa do bem corre o risco de já não sentir necessidade de desculpa alguma. Se seu adversário é perverso, combatê-lo é justo; e, se combatê-lo é justo, começa a parecer que tudo aquilo que contribui para sua derrota também deve sê-lo.
Wilfred não estava errado ao condenar os pecados do irmão. Norman era realmente dissoluto, adúltero e cruel. O erro começou quando a certeza acerca da maldade de Norman se transformou em certeza acerca da justiça de Wilfred.
Mas a morte de Norman criou um segundo problema. Se Wilfred não pretendia assumir aquilo que fizera, alguém precisaria ocupar seu lugar. E Mad Joe era quase perfeito para isso. Não porque houvesse boas razões para considerá-lo culpado, mas porque havia poucas razões para temer sua defesa.
Eu disse, contudo, que sua situação era quase perfeita. Havia uma condição ainda mais conveniente para alguém cuja reputação precisasse ser sacrificada numa causa alheia: a de estar morto.
E José Alberto Bernardes Borges estava morto.
Por uma dessas felizes precauções que Flambeau aparentemente desconhecia, porém, José Alberto tinha um advogado. E ele se chamava Amir Salomão Jacób. Amir não era, aliás, apenas seu advogado. Fora aluno, secretário de gabinete, aliado político e amigo de José Alberto, além de ter sido nomeado por ele testamenteiro e, posteriormente, inventariante de seus bens.
José Alberto Bernardes Borges fora três vezes prefeito da cidade de Sacramento, em Minas Gerais, e, segundo o relato de Amir, era um homem conhecido tanto por sua honestidade quanto por sua profunda religiosidade. Católico devoto, era devoto do Santíssimo Sacramento e nutria especial devoção a Nossa Senhora. Sua vida pública havia transcorrido em boa parte naquela pequena cidade mineira, onde também seria sepultado depois de morrer, em 29 de maio de 2025, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Como acontece com todos os homens, porém, José Alberto não levou consigo aquilo que possuía. Deixou seus bens distribuídos, por testamento, entre pessoas e instituições pelas quais nutria estima. Entre os beneficiários encontravam-se entidades religiosas e assistenciais, amigos e antigos funcionários. Havia a Congregação Redentorista, a Fazenda da Esperança, a Associação dos Santos Anjos, a TV Século 21, sua governanta Nira e seu secretário Henrique. E havia também o Centro Dom Bosco. Tudo teria provavelmente seguido o curso tedioso e perfeitamente normal de um inventário, não fosse um telefonema.
Henrique, antigo secretário de José Alberto e um dos beneficiários do testamento, telefonou a Amir para contar-lhe uma situação bastante incomum. Segundo relatou, um padre vinha pressionando-o para que o Centro Dom Bosco fosse retirado da herança. A razão apresentada era aparentemente simples, pois o CDB teria deixado de ser uma instituição católica e estaria excomungado da Igreja; não deveria, portanto, participar dos bens deixados por José Alberto.
A questão já seria curiosa por si mesma. Um testamento não costuma admitir revisões póstumas das preferências religiosas do testador, sobretudo quando este deixou suficientemente claro a quem desejava entregar seus bens. Mais curioso ainda era o fato de que, segundo Amir, José Alberto conhecia o Centro Dom Bosco e, caso ainda estivesse vivo, estaria muito mais próximo dele em matéria de fé e pensamento do que daqueles que agora pretendiam corrigir sua última vontade.
Mas Henrique não foi o único a receber o telefonema. Pouco depois, o próprio sacerdote procurou Amir e lhe apresentou a mesma questão. Amir respondeu que aquele era um processo civil, não eclesiástico, e que não cabia a um terceiro decidir, depois da morte do testador, quais beneficiários continuavam dignos daquilo que ele voluntariamente lhes havia deixado.
O sacerdote era o Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva.
A conversa, como talvez já se possa imaginar, não terminou particularmente bem. Amir perdeu a paciência e dirigiu palavras duras ao padre, das quais posteriormente se arrependeu. Escreveu-lhe então uma carta pedindo desculpas e, segundo conta, chegando inclusive a elogiar sua cultura. A discussão poderia ter terminado aí. Mas não terminou.
Segundo Amir, o argumento apresentado inicialmente pelo sacerdote era o de que a herança deveria beneficiar apenas instituições católicas e que, não sendo mais o Centro Dom Bosco uma delas, não deveria recebê-la. Havia um problema bastante elementar nessa explicação, pois o testamento não beneficiava apenas instituições católicas. Entre os herdeiros encontravam-se também pessoas que José Alberto estimava e respeitava — fato que, ainda segundo Amir, o próprio padre conhecia, pois havia telefonado a um deles.
Algum tempo depois, porém, a discussão tomou um rumo bastante diferente. A questão já não era simplesmente se o Centro Dom Bosco continuava ou não sendo católico. Segundo Amir, o Pe. José Eduardo passou a afirmar publicamente que o CDB estava recebendo “uma herança de um homossexual” e que, por essa razão, deveria explicar qual era sua relação com José Alberto. Assim como o caso de Wilfred e Mad Joe, era uma acusação curiosa por diversos motivos; Joe era louco e José Alberto estava morto.
José Alberto não podia explicar qual fora sua relação com o Centro Dom Bosco, não podia responder pelo uso que terceiros eventualmente tivessem feito de sua casa, não podia contestar aquilo que agora se dizia sobre sua vida privada e, sobretudo, não podia responder à mais simples das perguntas ou acusações. Felizmente, ainda havia o advogado.
Até aqui, contudo, temos essencialmente a versão de Amir. E seria bastante injusto escrever um artigo sobre os perigos de condenar um homem ouvindo apenas um dos lados da história. O Pe. José Eduardo apresentou publicamente sua própria versão dos acontecimentos, e é justamente ela que torna tudo ainda mais estranho.
Em uma de suas lives, o sacerdote não tratou a suposta homossexualidade de José Alberto como rumor ou hipótese. A afirmação foi categórica: “O patrimônio deixado para o Centro Dom Bosco é de um homossexual”. E repetiu a ideia em seguida que os membros do CDB seriam “beneficiários de um homossexual”. O princípio da observação já coloca em mesa uma certa estranheza.
Não digo isso por considerar moralmente indiferentes os atos homossexuais, nem seria preciso abandonar uma única vírgula da moral católica para fazê-lo. Convém, aliás, distinguir aquilo que a própria Igreja distingue. A inclinação homossexual, embora objetivamente desordenada segundo a doutrina católica, não constitui por si mesma pecado; o pecado consiste nos atos livremente praticados contra a castidade. E, como qualquer outra inclinação desordenada, pode e deve ser combatida.
Um pecado — ou mesmo uma inclinação desordenada — pode ser grave sem que se torne relevante para todas as questões possíveis acerca daquele que o comete. Um homem pode ser bêbado e ainda assim pagar legitimamente uma dívida; pode ser adúltero e possuir legitimamente uma casa; pode ser ladrão e continuar sendo pai de seus filhos. A existência de um pecado não transforma todas as relações jurídicas, pessoais e patrimoniais de um homem em extensões desse pecado.
Mesmo que aceitássemos, portanto, sem qualquer discussão, que José Alberto fosse homossexual, ainda restaria explicar o que exatamente isso mudaria no testamento. O Centro Dom Bosco não estava recebendo uma orientação sexual. Estava recebendo um patrimônio que seu proprietário decidira deixar-lhe. O próprio Pe. José Eduardo parece reconhecer parte do problema, pois logo esclarece que não seria crime receber a herança de alguém com essa orientação e que, em si mesmo, isso não constituiria problema. Mas acrescenta uma ressalva curiosa: “que fica chato pra caramba, fica…”.
É precisamente aí que a questão deixa de ser moral ou jurídica e começa a adquirir outra natureza. Se não é crime e se não há em si problema em receber a herança e se a orientação sexual do testador não altera a validade de sua última vontade, em que consiste exatamente o constrangimento?
A resposta sugerida na própria live parece estar nas associações que vêm em seguida. O sacerdote menciona uma mensagem do testamenteiro a respeito de pessoas ligadas a “farras promíscuas” na casa de campo do falecido e conclui que o CDB receberia uma herança proveniente de uma casa onde teriam ocorrido “orgias homossexuais”. Pouco depois, pergunta: “Que relação é essa, né? Eu não sei”, referindo-se às relações entre o CDB e o testador. E imediatamente acrescenta que não acredita que fossem relações “dessa natureza” e que não estaria insinuando isso.
A ressalva é importante. Mas ela produz uma situação lógica bastante peculiar, pois apresenta-se ao público uma sucessão de elementos — homossexualidade, orgias, herança, relações entre o morto e os beneficiários —, pergunta-se que relações seriam essas e, depois de colocadas todas as peças sobre a mesa, esclarece-se que ninguém deve formar com elas justamente a imagem que naturalmente sugerem. Talvez por isso a pergunta mais importante não seja sequer se José Alberto era ou não homossexual; a pergunta é por que sua sexualidade precisava entrar naquela história.
Façamos, contudo, aquilo que se deve fazer quando queremos testar seriamente um argumento, concedamos pois ao adversário tudo aquilo que pudermos conceder. Suponhamos que José Alberto fosse realmente homossexual. Suponhamos ainda que em sua casa de campo ocorressem as tais festas mencionadas na discussão. Poderíamos ir além e supor, apenas para efeito do argumento, que os membros do Centro Dom Bosco soubessem perfeitamente de tudo isso.
Se o próprio Pe. José Eduardo reconhece que não há problema intrínseco em receber a herança de uma pessoa homossexual, a resposta parece ser: absolutamente nada. Seria preciso demonstrar alguma participação do CDB naquilo que se pretende reprovar, alguma condição ilícita vinculada à doação ou qualquer outro nexo moralmente relevante. A mera justaposição entre um pecado atribuído ao morto e o nome de seus herdeiros não produz esse nexo.
Aliás, levada a sério, a associação produziria consequências um tanto embaraçosas. O mesmo José Alberto deixou bens a outras pessoas e instituições. Sua casa de campo, segundo Amir, foi destinada à Congregação Redentorista. Se a origem do patrimônio transmite aos beneficiários alguma espécie de constrangimento moral decorrente da vida privada de quem o possuía, seria difícil compreender por que esse estranho contágio alcançaria o Centro Dom Bosco e pararia respeitosamente diante dos demais herdeiros.
Naturalmente, pode-se responder que o objetivo não era estabelecer uma doutrina geral sobre heranças. E provavelmente não era. Mas isso torna ainda mais necessária a pergunta anterior: se a homossexualidade do falecido não tornava ilícita a herança, por que mencioná-la?
Há uma diferença considerável entre demonstrar alguma coisa e produzir uma associação. A primeira exige que se estabeleça uma relação entre duas coisas; à segunda basta colocá-las suficientemente próximas para que o próprio ouvinte faça o trabalho. É possível pronunciar “homossexual”, “orgias”, “herança” e “relações” numa mesma sequência e, ao final, acrescentar com perfeita literalidade que não se está acusando ninguém de qualquer relação imprópria. A frase pode ser verdadeira em sentido estritamente gramatical. A impressão produzida pela sequência continua existindo.
O curioso é que o próprio Pe. José Eduardo parece compreender perfeitamente esse mecanismo quando é empregado contra ele. Na mesma live, ao censurar seus adversários, acusa-os (já tratamos deste assunto em um outro artigo) de criar um ambiente destinado a induzir os outros a pensar determinadas coisas e condena a destruição da reputação de uma pessoa por meio de “suspeitas, associações e fofocas”. Não creio que seja necessário discordar dele nesse ponto.
Destruir a reputação de alguém por suspeitas e associações realmente não se transforma em apostolado apenas porque aquele contra quem fazemos isso nos desagrada — como Norman desagradava a Wilfrid. E uma regra moral não se torna menos verdadeira quando, alguns minutos depois, somos nós que precisamos obedecê-la.
Seria muito fácil compreender The Hammer of God se Norman fosse secretamente inocente. Bastaria dizer que Wilfred se enganara a respeito do irmão e que todo o restante nascera desse primeiro erro. Chesterton, porém, não nos oferece esse conforto. Norman era precisamente aquilo que Wilfred dizia que ele era. Era dissoluto, cruel, adúltero e desagradável. Seu irmão tinha razão sobre ele, porém isso não tornou o martelo mais justo — assim como as possíveis calúnias do Padre José Eduardo sobre a moralidade da herança também não.
É essa talvez a advertência mais incômoda do conto. O perigo de odiarmos um homem mau não consiste apenas na possibilidade de estarmos enganados e descobrirmos depois que ele era bom. Há um perigo talvez maior, o de estarmos perfeitamente certos sobre a maldade dele e começarmos, justamente por isso, a estar errados sobre nós mesmos, e faltarmos com a justiça e caridade — para não falarmos de mentiras declaradas, seja para culpar um inocente de homicídio ou um homem morto de depravação.
Por isso, pouco importa para a questão que estou levantando aqui que o Centro Dom Bosco seja inocente de todas as acusações que lhe são feitas. Podemos conceder, novamente para efeito do argumento, que tenha sido injusto com o Pe. José Eduardo, que seus membros tenham cometido erros graves ou que algumas das críticas feitas pelo sacerdote sejam inteiramente verdadeiras. Nada disso responde à questão, pois uma injustiça sofrida não concede licença para uma injustiça praticada.
Norman não precisava ser transformado em santo para que Wilfred não tivesse o direito de matá-lo. E o Centro Dom Bosco não precisa ser transformado em modelo de virtude para que continuemos obrigados a perguntar se aquilo que se diz contra ele — ou contra um morto utilizado para atingi-lo — é verdadeiro, pertinente e justo.
É precisamente quando temos razão sobre alguma coisa que essa pergunta se torna mais necessária. Quem sabe que seu adversário está errado encontra com extraordinária facilidade uma tentação que não costuma visitar quem duvida: a de imaginar que a verdade de sua causa santifica também os meios empregados para defendê-la. Wilfred contemplou Norman do alto do pináculo e viu um pecador. Até aí, enxergava corretamente. Seu erro foi imaginar que, porque via corretamente o homem que estava embaixo, também ocupava corretamente o lugar de onde o julgava.
Há, por isso, uma coincidência particularmente infeliz nas palavras com que o Pe. José Eduardo decidiu encerrar sua própria disputa. Depois de tratar longamente dos pecados, das supostas desonestidades e da situação canônica de seus adversários, o sacerdote dirigiu-lhes uma advertência bastante pessoal, de “que o CDB aprenda, de uma vez por todas, que não compensa mexer comigo”. Pouco depois, a linguagem deixa de ser apenas pessoal e assume proporções mais elevadas. A “espada da justiça divina”, afirma ele, “vai parti-los ao meio”. Deus os teria abandonado; estariam cortados do Corpo Místico de Cristo; dali em diante seria “ladeira abaixo”.
Há uma distância considerável entre dizer que um homem está errado e dizer que Deus o abandonou; entre defender-se de uma injustiça e advertir que “não compensa mexer comigo”; entre confiar na justiça divina e contemplar a destruição do adversário como manifestação dessa mesma justiça.
Afinal, Wilfred também acreditava estar diante de um homem perverso. Também contemplava um pecado verdadeiro. Também poderia oferecer excelentes razões para sua indignação. Seu problema não começou quando chamou o mal de mal. Começou quando subiu alto o bastante para já não distinguir com clareza onde terminava a justiça de Deus e onde começava a vontade de Wilfred Bohun. Talvez seja essa uma das razões pelas quais Padre Brown não termina o conto celebrando a derrota do assassino. Ele o faz descer.
Pois Wilfred “jamais teria tido semelhante pensamento se estivesse ajoelhado no chão junto aos outros homens. Mas ele via todos os homens caminhando lá embaixo como insetos”.
Talvez também seja necessário para todos nós nos ajoelhamos no chão como todos os homens fazem, ao invés de vermos eles como insetos a quem não se faz outra coisa a não ser pisá-los.

