Vez ou outra surge, entre meu círculo de amigos — e incluo-me sem dificuldade entre eles — uma curiosa forma de histeria. Enquanto estamos dominados por ela, tudo parece grave, urgente e irreversível; algum tempo depois, porém, mal conseguimos compreender como fomos capazes de levar tão a sério algo tão improvável.
Ela costuma aparecer justamente quando menos podemos nos dar ao luxo de errar. Quando as contas apertam, quando um empréstimo ainda precisa ser pago ou quando dependemos inteiramente do emprego atual, basta um pequeno silêncio para que a imaginação comece a trabalhar.
O medo é perfeitamente compreensível. O curioso, porém, não é o medo em si, mas a extraordinária capacidade que temos de fabricar argumentos para justificá-lo. Cada reunião marcada fora do padrão passa a ser o anúncio da provável demissão; qualquer comentário que não venha em tom elogioso transforma-se na mais severa das críticas; se o gerente esqueceu de nos incluir em algum assunto, concluímos que está, pouco a pouco, nos afastando da equipe.
O resultado, quando levado ao extremo, é o esgotamento. A imaginação passa a interpretar cada fato como confirmação de uma única hipótese, até que o mundo inteiro pareça conspirar em favor dela. Paramos de aceitar a realidade para tentar encaixá-la dentro da nossa cabeça. E ela se parte.
Se o nosso desempenho profissional dependesse exclusivamente da capacidade de estabelecer relações lógicas, talvez fosse justamente nesses momentos que receberíamos a maior das promoções. É quando nos aproximamos do lunático descrito por Chesterton que nos tornamos os mais hábeis raciocinadores. Nenhum detalhe nos escapa; nenhuma coincidência permanece sem explicação. Cada fato encontra imediatamente o seu lugar dentro de um sistema de causas e efeitos cuidadosamente construído pela nossa própria imaginação.
O leitor talvez imagine que exagero ao comparar esse estado de espírito à loucura. No entanto, como observa Chesterton em Ortodoxia, a última coisa que se pode dizer de um lunático é que lhe faltam razões. O homem verdadeiramente são é capaz de praticar inúmeros atos sem qualquer finalidade especial: assobia enquanto caminha, bate os calcanhares no chão, lê o noticiário ou esfrega as mãos sem pensar. O lunático, porém, não suporta essa aparente falta de nexo entre uma coisa e outra. Para ele, tudo possui uma intenção oculta. O homem que bate os calcanhares talvez esteja transmitindo um sinal a um cúmplice; aquele noticiário é na verdade financiado por uma seita oculta. Nada é desprovido de propósito. Tudo precisa encaixar-se numa explicação única e perfeitamente coerente. É evidente que conspirações existem e intenções ocultas também, mas o erro do lunático não está em admitir tais possibilidades, e sim em transformá-las na chave pela qual a porta de toda a interpretação é aberta.
É por isso que Chesterton afirma que o louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão. Sua inteligência permanece ativa – por vezes, até mais afiada que a do homem comum. O problema não está na capacidade de raciocinar, mas na perda daquilo que impede a razão de girar em falso: o senso da realidade, a experiência comum, a caridade e até mesmo a disposição de admitir que uma hipótese possa estar errada.
Quem já conviveu de perto com alguém dominado por semelhante estado de espírito sabe como é difícil demovê-lo de suas conclusões. Não porque lhe faltem argumentos, mas porque lhe sobram. Seu sistema explica tudo. Cada novo acontecimento deixa de ser examinado em si mesmo e passa imediatamente a confirmar aquilo que ele já acreditava. Sua explicação é sempre completa e, em certo sentido, até irrespondível. O erro não está na lógica das conclusões, mas na premissa silenciosa sobre a qual todo o edifício foi construído.
Quando menos podemos perder o emprego, mais convencidos ficamos de que seremos demitidos. Nenhum argumento parece suficiente para nos tranquilizar. O gerente pode elogiar nosso trabalho, os projetos podem continuar chegando, os meses podem passar sem qualquer sinal de desligamento; ainda assim, a suspeita permanece. Apenas a banalidade da realidade — o simples fato de o tempo passar e nada acontecer — acaba, pouco a pouco, desfazendo aquilo que a imaginação havia construído.
O mesmo mecanismo pode ser observado em outros campos da vida. Creio que todos conhecemos ao menos um casal destruído por um ciúme desmedido. A ausência de qualquer evidência de traição deixa de ser interpretada como ausência de traição e passa a constituir a maior prova dela. Afinal, pensa o ciumento, se nenhum indício foi encontrado, é porque o adúltero foi suficientemente astuto para ocultá-los. A falta de provas deixa de absolver; passa a condenar. E, uma vez admitida essa premissa, qualquer fato novo deixa de ser investigado e passa apenas a confirmar aquilo que já havia sido decidido de antemão.
Não seria difícil multiplicar exemplos desse mecanismo. Ele aparece na vida familiar, no ambiente de trabalho, na política e até mesmo em debates religiosos. Foi precisamente um desses episódios que me veio à memória ao assistir a um vídeo publicado pelo Padre José Eduardo, intitulado “O Centro Dom Bosco quer falar de mim. Pois vamos falar.” Nele, o padre parece procurar antecipar e responder a uma acusação que acreditava estar prestes a ser feita contra sua pessoa.
Dias antes, os jornais haviam noticiado uma série de sequestros ocorridos em Osasco, dos quais o próprio padre fora uma das vítimas. A reportagem informava que os criminosos utilizavam um aplicativo de relacionamentos para homossexuais a fim de atrair suas vítimas e destacava, entre elas, a presença de um sacerdote. Ao tomar conhecimento de que integrantes do Centro Dom Bosco haviam entrado em contato com o jornalista responsável pela matéria, o Padre José Eduardo concluiu que a reportagem seria utilizada para difamá-lo e publicou um vídeo antecipando sua defesa.
Até onde os fatos públicos permitem concluir, nenhum dos dirigentes do Centro Dom Bosco sabia quem era o sacerdote mencionado na reportagem. Ainda assim, o Padre José Eduardo partiu do pressuposto de que não havia dúvida de que a notícia seria utilizada para atingi-lo. Ao fazê-lo, acabou chamando a atenção para uma circunstância que, até então, permanecia desconhecida daqueles a quem dirigia sua resposta.
Numa lógica perfeitamente fria, o empregado prefere pedir demissão antes de ser demitido; evita, assim, a humilhação que imagina inevitável. O mesmo parece ocorrer aqui. Antes mesmo de qualquer acusação pública, o Padre José Eduardo tratou de responder àquilo que tomava como certo que aconteceria. Expôs-se para evitar uma exposição que, à luz dos fatos públicos, dificilmente se concretizaria.
E é justamente aqui que Chesterton nos ajuda a compreender o mecanismo. O empregado, o padre e o lunático não deixam de ser lógicos. Pelo contrário, sua lógica é admirável. Admitida a premissa inicial, todo o restante decorre com uma coerência quase impecável. O problema é que esse raciocínio se move dentro de um universo cada vez menor, incapaz de admitir qualquer hipótese que lhe seja externa.
Por isso Chesterton observa que o espírito do lunático percorre um círculo perfeito, mas estreito. Um círculo pequeno é tão infinito quanto um círculo grande; ambos podem ser percorridos indefinidamente. O que distingue um do outro não é a coerência, mas a amplitude. Assim também acontece com o raciocínio do homem dominado por uma ideia fixa. Sua explicação é completa, mas não é ampla. Ela consegue explicar tudo aquilo que cabe dentro do seu pequeno círculo; o que já não cabe deixa simplesmente de existir.
É justamente isso que torna qualquer diálogo com alguém dominado por semelhante estado de espírito uma tarefa quase impossível. O episódio envolvendo o Padre José Eduardo ilustra bem esse mecanismo, mas ele está longe de limitar-se àquele caso. Se lhe dissermos que não existe perseguição alguma, essa negativa será recebida precisamente como mais uma prova da perseguição, pois é exatamente isso que um perseguidor diria. Se um marido afirma que jamais traiu a esposa, sua negativa torna-se, para o ciumento, mais um indício de culpa; afinal, é exatamente isso que um adúltero diria. Cada tentativa de refutação acaba sendo absorvida pelo próprio sistema que pretendia destruir.
Chesterton leva essa observação até sua conclusão mais radical. A explicação que um lunático oferece para os acontecimentos é, quase sempre, perfeitamente coerente. Em muitos casos, ela parece até satisfatória. O problema é que ela se torna impossível de ser refutada. Como escreve em Ortodoxia, “a explicação que um lunático pode dar a respeito de qualquer coisa é sempre completa e, por vezes, num sentido puramente racional, satisfatória. Falando mais rigorosamente, podemos afirmar que qualquer explicação dada por um doido, se não é conclusiva, é, pelo menos, irrespondível”.
É justamente por isso que a simples apresentação de fatos raramente basta para convencer alguém dominado por esse tipo de raciocínio. Não se trata de falta de inteligência, nem de incapacidade de estabelecer relações lógicas. Pelo contrário. Como vimos, o sistema é internamente coerente. O problema é que ele já não permite que a realidade o corrija.
Chesterton leva essa observação a uma conclusão surpreendente. Diz ele que a verdadeira ciência da saúde mental não procura discutir com o lunático como quem discute com um herege, mas procura antes romper o encanto sob o qual sua inteligência passou a operar. Ou, curar um lunático não é como discutir com um filósofo, mas muito mais como expulsar um demônio.
É justamente aí que o homem são difere do lunático. Não porque raciocine melhor, mas porque raciocina mais amplamente. Ao empregado tomado pelo medo da demissão, talvez disséssemos que empresas raramente dispensam um funcionário recém-contratado sem motivo consistente: o custo de contratar, integrar e treinar alguém costuma ser muito superior ao de simplesmente corrigir um problema de desempenho. Sua hipótese pode ser possível; apenas não é a única.
Ao homem que se julga perseguido, poderíamos fazer uma pergunta ainda mais simples: “Aceitemos, por um instante, que sua explicação esteja correta. Mas quantas coisas ela ainda deixa de explicar? Julga realmente que todas as pessoas organizam suas vidas em torno da sua? Não haverá outras histórias acontecendo ao mesmo tempo?”
O mesmo vale para o episódio envolvendo o Padre José Eduardo. Ainda que admitíssemos, apenas por hipótese, a possibilidade de uma campanha para difamá-lo, permaneceriam outras explicações igualmente compatíveis com os fatos públicos. O contato do Centro Dom Bosco com o jornalista poderia ter tido outras finalidades; os próprios áudios divulgados indicam que a intenção declarada era de comunicar o bispo competente para que o caso fosse apurado. Diante do contexto de sucessivos escândalos envolvendo abusos no clero, essa hipótese não apenas era possível, mas merecia ao menos ser considerada. O problema nunca esteve em levantar uma hipótese, mas em transformá-la, desde o primeiro instante, na única hipótese admissível.
Talvez seja justamente por isso que Chesterton compare a cura do lunático muito mais ao rompimento de um feitiço do que à correção de um raciocínio. O problema nunca esteve na falta de lógica, mas no encantamento produzido por uma única ideia que passou a dominar todas as outras.
Talvez a sanidade consista justamente em conservar a humildade necessária para permitir que a realidade continue corrigindo a imaginação. Permitir que o mundo permaneça maior do que as histórias que preferimos contar sobre ele — e, sobretudo, sobre nós mesmos. Talvez esse seja o maior privilégio de um homem verdadeiramente são.


1 comentário
Pingback: Lições de Chesterton, n. 6: a herança do Centro Dom Bosco, o Padre José Eduardo e o soberbo – Revista Levate