Quando passamos muito tempo tendo conversas de verdade com gente racional, corremos o risco muito agradável de esquecer que no mundo em que vivemos a maior parte das pessoas parece desprezar qualquer tipo de racionalidade ou, pelo menos, vive segundo máximas desprovidas de qualquer embasamento lógico.
Por exemplo: se um homem diz a um filho que a grama é verde e a outro filho que a grama é azul, ele pode ser considerado louco ou, pelo menos, acusado de querer causar confusão entre os filhos; mas se Deus diz a uma religião que os pagãos prestam culto a demônios, mas a outra religião permite que se faça sacrifícios a diversas “divindades”, não há, para a massa que nos circunda, loucura ou contradição, pois existe uma estúpida proposição que afirma: “Deus é um só”.
Tal pensamento deriva de um princípio liberal que visa validar e harmonizar todas as formas de pensamento e expressão, por mais diferentes que sejam, desde que uma visão de mundo não se sobreponha às demais. A religiosidade, dizem alguns, deve ser legada ao particular e, se praticada em público, não deve tomar para si o título de verdadeira. O que se propõe, sobretudo para a religião verdadeira, a Católica Apostólica Romana, é uma certa pusilanimidade, uma fraqueza de espírito que impede o cidadão de não apenas falar, mas de viver conforme o Credo que professa dominicalmente.
Mais ainda: o que esse liberalismo religioso, que impacta todas as esferas da vida, propõe é um assassinato da racionalidade. É impossível crer que duas doutrinas divergentes possam conviver de modo pacífico sem que uma acabe abrindo mão de algum ponto fundamental. Pior ainda, a sentença em questão pressupõe uma divindade louca ou, no mínimo, maquiavélica, que coloca seus filhos uns contra os outros, pois sussurra a uns que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas a outros diz que este mesmo Cristo é apenas um profeta; a uns, determina que a prática de feitiçaria é pecado que leva ao inferno, enquanto para outros a coisa toda é incentivada. A contradição é evidente para qualquer um que se detenha alguns segundos na questão e que não queira jogar às traças o princípio lógico da não contradição.
Esse liberalismo incutiu na cabeça dos cidadãos desta nação a doença do respeito humano e conseguiu a proeza de fazer todos os tipos de gentes, das mais ignorantes às mais estudadas, aceitar sentenças irracionais como se fossem perfeitamente plausíveis e necessárias para um convívio humano. A Santa Religião, com seu culto a Deus, seus dogmas e suas orientações, foi substituída pela religião liberal, com seu culto a “todos os deuses das nações” (cf. Sl. 95, 5), suas ideias tresloucadas e suas orientações arbitrárias. Na verdade, caro leitor, sejamos francos: a religião liberal é, ao fim e ao cabo, a religião do homem, que busca apenas satisfazer o próprio homem, isentando-o de raciocínios lógicos e de quaisquer conceitos morais que impeçam seu prazer ou que gerem algum desconforto.
Para um católico, de modo especial, toda essa irracionalidade vem acompanhada de uma enfática negação do que é dito nas Sagradas Escrituras e em toda a Tradição da Igreja. Lembremos especialmente de Santo Elias, que não apenas zombou dos profetas de Baal enquanto eles tentavam invocar o falso deus (cf. 1Reis 18, 27), mas os executou após provar que o seu Deus, o Deus Uno e Trino, é o verdadeiro. Lembremos de que Nosso Senhor, que é Deus mesmo, mandou que os apóstolos batizassem todas as nações em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; estabelecendo a necessidade de uma conversão dos povos.
Lembremos ainda da belíssima tradição segundo a qual os ídolos egípcios, ídolos dos falsos deuses cultuados no Egito, teriam caído por terra diante da entrada da Santíssima Virgem Maria e de Nosso Senhor naquela terra. Lembremos de São Bento destruindo os ídolos pagãos presentes no lugar em que seria erguida a famosa Abadia de Monte Cassino; de São Bonifácio derrubando um carvalho dedicado a Thor; de São Luís de Montfort afirmando que é necessário ter Maria Santíssima por Mãe para ter Deus por Pai; dos inúmeros mártires e confessores que se negaram a abraçar outra religiões e ritos, mesmo diante das perseguições e da morte iminente.
E para que não pensem os mais petulantes que todos esses exemplos ocorreram apesar do ensinamento da Igreja Católica — que hoje parece tão submissa perante o Mundo —, vale recordar as 16ª e 17ª proposições condenadas no Syllabus dos Erros do Papa Pio IX: “no culto de qualquer religião podem os homens achar o caminho da salvação eterna e alcançar a mesma eterna salvação” e “pelo menos deve-se esperar bem da salvação eterna daqueles todos que não vivem na verdadeira Igreja de Cristo”. É também o Sagrado Magistério, por meio de Gregório XVI, em sua encíclica Mirari Vos, que acusa de “perversa teoria” a que ensina ser possível alcançar a vida eterna em qualquer religião.
Recordemos, por fim, das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, seguido por todos os anteriormente citados e cujo Sacratíssimo Coração é inegavelmente uma fornalha ardente de perfeita caridade: “quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha” (Lc. 11, 23). Diante disto, é ainda mais certa a palavra do Apóstolo, que ecoa os ensinamentos de Cristo: “há um só Senhor, uma só fé e um só batismo” (Ef. 4, 5).
Há um só Deus, e Ele não é louco, ao contrário do que fazem parecer as loucas — e portanto, ilógicas — proposições proclamadas aqui e acolá.
Apesar de tudo, acredito que seja necessário fazer uma distinção entre aqueles que repetem que “Deus é um só”: alguns o fazem porque ouviram alguma autoridade falando e, possuindo boa vontade e algum grau de ignorância (culpável, convenhamos), apenas aderiram ao pensamento, sem parar para pensar em suas implicações e contradições. Particularmente, penso ser o caso das senhorinhas de paróquia que ouvem seu pároco ou seu bispo ecoando as pastoralidades desvairadas do Vaticano II.
Há outro tipo de gente, entretanto, libertina e indiferente à Religião, que parece não querer pensar em nada que a faça sair da lama imoral onde se encontra e que prefere uma vida perfeitamente inerte, sem conflito com ninguém. Se escutam alguém falar de uma religião diferente da sua, essas pessoas logo se apressam em bradar “não tenho nada contra!”, como que querendo afastar para longe de si qualquer tipo de rótulo fabricado pela modernidade.
Para esse último tipo, talvez pareça melhor viver em busca de uma paz ilusória e servir a uma insana divindade que cria e aconselha contraditoriamente todas as religiões. Pessoas assim, talvez sem se dar conta, parecem preferir correr de mãos dadas para o único lugar onde todos, de católicos libertinos a hindus convictos, convivem sob a regência de alguém que tem em alta estima a tolerância: o Inferno.
Para o Céu, apenas católicos que tiveram uma santa intolerância. E que Deus nos ajude a imitá-los.

