Dedico este parvo panegírico à devota de Santa Dimpna, minha cunhada Srta. Maria Gabriela, que contemplou minha esposa e a mim, desde o início de nosso namoro até o nascimento de nosso primogênito, quando não com mil trabalhos, com sua agradabilíssima companhia. Alegria, saúde, perseverança e santidade em seu décimo nono aniversário.
Numa espécie de blasfema macaqueação da Santíssima Trindade, a singularidade do mal — do qual pedimos que o Pai nos livre: libera nos a malo, no singular — aflui em três entes analógicos, não de amor mútuo, como na Trindade, mas de ódio mútuo, inimigos entre si mesmos, inimigos de Deus e das almas imortais, são eles: o demônio, o mundo e a carne. O cristão é quem combate estes inimigos com as únicas armas que surtem efeito. O santo por Cristo chamado à virgindade fere a carne, o chamado ao martírio fere o mundo, e o chamado ao governo fere o demônio. A paz com Deus é guerra contra o Mal, e este sinal de contradição não é um recurso retórico, é uma verdade constatável na História da Luz em meio às trevas.
Quando o pecado se instalou em Sodoma, o justo Deus mandou três anjos aparecerem ao patriarca Abraão; eles o guiaram até um lugar donde se podia ver a infeliz cidade. O homem observou-se a si mesmo naquele momento, como que de fora, nos terríveis pecados que clamam ao Céu por vingança. Desceram dois dos três anjos às cidades para destruí-las, ficou um deles com Abraão para esclarecê-lo sobre os imutáveis e sempre misericordiosos caminhos de Deus, consolando-o. Em meio à destruição, os embaixadores divinos puderam resgatar aquela única casa que tinha aceito os termos de paz, termos estes que eram as leis naturais: era a pobre família de Ló, sobrinho de Abraão, que havia deixado Ur dos Caldeus junto a ele. Decidindo erguer sua casa em meio àquela bagunça, por afeição à paisagem, foi um homem que não pecou como os seus conterrâneos, mas, num sentido mais impróprio à mentalidade da época, proponho que tenha pecado por desespero, ao querer opor-se ao estupro de seus convivas oferecendo aos criminosos a virgindade de suas filhas.
Ló é a figura do homem que, de forma algo inocente, quer preservar sua dignidade sem Deus, vê-se constrangido a negociar com o Mal, abre mão da integridade interior em prol de um resto de dignidade exterior; deseja vencer a carne com as armas do mundo. Mas o poder de Deus, pedagogicamente, recompensa Ló poupando-o de tudo, e faz com que sua família retire-se ilesa do extermínio, com a condição de não olhar para trás. Olhar para trás é converter-se ao mundo, deixar-se tentar, lamentar-se do rumo da Justiça; foi o pecado da mulher de Ló, que foi punida com sua transformação em estátua de sal, figura de sua inércia (por ser estátua) e secura (por ser de sal) espiritual.
Morre a mãe de família, sobram um viúvo e duas órfãs, nômades e, como veremos, sem a Fé que dá à natureza humana a magnanimidade que a distingue de forma ainda mais particular da natureza dos animais. As duas filhas de Ló, figuras do demônio e do mundo (os inimigos que restaram após a vitória sobre a carne em Sodoma), preocupadas com a descendência de seu pai, vendo que não havia perspectiva de que tivesse um herdeiro para seu patriarcado, embebedaram-no e conceberam dele. Dos dois filhos deste pecado repulsivo surgiram dois povos hostis ao povo de Deus, este por sua vez originado por Abraão, que testemunhou tudo pela catequese dada por um dos anjos de Mambré.
Ó Antigo Testamento! Ó Cristo ainda por vir! Como doía! Caros, vistes as trevas até aqui, bem como o terror e o desgosto por ela ocasionados.
Ergamos agora o coração, e leiamos sobre nossos altares, celestes umbrais, a história de Santa Dimpna:
Morre a mãe de família, sobram um viúvo e uma órfã apenas. Secretamente cristã, a moça trava em seu íntimo a árdua guerra contra a carne, proclamada desde seu voto de virgindade. Então ainda restam dois inimigos, o mundo e o demônio. Seu pai, premido pela mundana ânsia de salvaguardar suas propriedades, quis fazer dela sua nova esposa, e nesse monstruoso pensamento quis justificar sua proposta de casar-se com Dimpna. Ela foge, procura o conselho de um sacerdote chamado Gereberno. Este padre não só a aconselha uma fuga mais longínqua como, discernindo ali uma extraordinária moção divina, acompanha a virgem Dimpna em seu exílio, tal qual os anjos de Mambré — desta vez não para exterminar carne e sangue, mas puramente as potestades contrárias a Deus.
Exilados, vivendo em casebres separados, unidos em oração e em trabalhos para a sobrevivência, foram descobertos pela diabólica embaixada, cujo veículo era seu próprio pai e algumas autoridades civis de sua terra natal. Dimpna guerreira, habituada a combater a carne, era chamada agora a combater o mundo. A repugnância das propostas fora eclipsada pelo mau espírito e todos estavam armados contra ela, ou viria o incesto para salvar sua vida terrena, ou o martírio para conduzi-la à vida eterna.
Eis que se levanta seu protetor, Padre Gereberno, feito aqui seu acólito neste sacrifício. E as potestades mundanas a ele ousam recorrer, algo como: “Vós, que por ela sois considerado, dizei agora que se curve perante a vontade de seu pai!” Tal qual o diabo que tentou Nosso Senhor no deserto, poderiam até citar as Escrituras: “Vosso preceito manda: ‘Honrai pai e mãe!’” (Ex. XX, 12). Imagino que Gereberno tenha rido-se deles! Ora, que esperavam? Que o homem que castamente a abrigou até então abrisse mão dela, intimidado por umas armas brancas? Gereberno os amaldiçoa, bem como a sua hipocrisia, e voltando-se à virgem Dimpna, a abençoa, incensado já está este cordeiro pra o sacrifício. Com este ato de governo, que vence diretamente o demônio — o terceiro inimigo — com sua autoridade sacerdotal, tem sua cabeça cortada e vai abrir a porta do Céu à sua filha espiritual, sua verdadeira amiga, logo depois também decapitada — e vencido está o mundo.
Santa Dimpna, virgem e mártir, duplamente coroada pelo Esposo, é elemento autêntico do Novo Testamento; tem São Gereberno por seu evangelista. Nela, a miséria se ergue do meio dos maus, por não se deixar convencer das falsas necessidades que o mundo, a carne ou o demônio mesmo lhe sugerem com tanto alarme ou sensualidade. Se as filhas de Ló eram duas em seu pecado, a filha de Gereberno combateu por duas em sua santidade.
Por Amor tua alma exangue
Selou-te como com doce véu.
Por enrubescer-te, teu sangue,
Alçou-te o espírito ao Céu.


1 comentário
Artigo maravilhoso!