É sempre surpreendente como as histórias antigas são povoadas de acontecimentos que, para poupar-nos longas explicações, chamaremos simplesmente de mágicos.
Diogo Álvares Correia, o Filho do Trovão — ou, como é mais conhecido em tupi, Caramuru —, deve realmente ter espantado o povo tupinambá quando fez sua arma lançar trovões pela primeira vez. Não é, porém, mais extraordinário disparar trovões do que receber a visita de Nossa Senhora, como contam as antigas histórias de sua mulher, Catarina Álvares Paraguaçu. Nossa Senhora tem, afinal, seus prediletos.
De modo semelhante, quase todos os povos parecem conservar alguma história fundadora realmente singular. Conta-se, por exemplo, que José de Arimateia, o rico discípulo de Cristo, teria levado o Menino Jesus à Inglaterra. Muito embora não haja evidência histórica de que Nosso Senhor tenha realmente posto os pés naquela longínqua ilha, uma outra figura certamente os pôs. E, embora disso tenhamos todas as evidências, não são poucas as lendas segundo as quais ele também teria caminhado, de forma antecipada, por um outro reino.
G. K. Chesterton nasceu naquela mesma Inglaterra. Embora só tenha ingressado formalmente na Igreja Católica em 1922, aos quarenta e oito anos de idade, parece pertencer àquela pequena categoria de homens que, assim como Catarina Paraguaçu, gozavam de uma especial predileção de Nossa Senhora. Sempre acreditou n’Ela, mesmo quando já não parecia acreditar em mais nada; conservou por Ela uma devoção até nos dias em que quase já não a tinha pela própria vida.
Seja como for, fruto apenas do desejo de nossa imaginação ou de um verdadeiro acontecimento, a Chesterton atribui-se certa capacidade profética. Não me arrisco aqui a decidir se tais previsões procedem de um dom extraordinário ou se eram apenas o resultado de uma inteligência excepcionalmente capaz de ler os sinais do seu tempo. Fato é que ele afirmou que a próxima grande heresia seria um ataque à moralidade — sobretudo à moralidade sexual — e que ela não viria dos últimos remanescentes da Sociedade Fabiana, mas da energia exuberante dos ricos decididos, enfim, a desfrutar da vida — realmente assim o foi; chegou até a antecipar que uma nova grande guerra teria início nas fronteiras da Polônia — o que também aconteceu. Dentre todas essas análises, porém, há uma que me parece particularmente interessante e, curiosamente, é uma das menos lembradas: aquilo que ele chamou de “as novas religiões”.
A bem da verdade, não me recordo de alguém que tenha se debruçado seriamente sobre esse tema — que parece ter um valor considerável atualmente.
Entre aqueles que se aventuram a imaginar o que Chesterton escreveria caso tivesse vivido o suficiente para assistir ao Concílio Vaticano II, parece haver um curioso consenso. Quase todos afirmam, com absoluta segurança, que, sendo ele um filho tão obediente da Igreja, jamais teria dirigido qualquer crítica ao Concílio. De onde lhes vem tamanha certeza eu confesso não saber. Conhecendo, porém, o ecumenismo de muitos desses escritores, não me surpreenderia se a tivessem obtido em alguma mesa branca perdida por um recanto espírita do mundo.
Alguns poucos outros, consideravelmente mais sensatos, sustentam uma posição diversa. Acreditam que Chesterton, num primeiro momento, se encantaria com o Concílio, como sucedeu a figuras como Gustavo Corção ou Dietrich von Hildebrand; mas que, pouco depois, ao ver a fumaça de Satanás penetrar por alguma fresta — para usar a célebre expressão de ninguém menos que Paulo VI —, tornar-se-ia um de seus críticos, chegando talvez a escrever em defesa de Dom Marcel Lefebvre, como fez Michael Davies.
Quanto a mim, enquadro-me num terceiro grupo — se é que pode haver grupo formado por uma única pessoa. Creio que Chesterton teria sido crítico do Concílio desde o primeiro instante. E a razão é bastante simples: porque já havia identificado, décadas antes, os princípios que mais tarde encontrariam expressão no próprio Concílio.
Ao descrever aquilo que chamava de “as novas religiões”, Chesterton escrevia:
Elas seguem em tudo a linha da menor resistência e estão tão ansiosas para evitar uma cena quanto um anfitrião político esnobe. Que qualquer pessoa deve realmente preferir uma coisa a outra, que qualquer um deve pensar que, se uma solução está correta, a outra solução está errada. Dizer: “Eu me arrependo da Reforma Protestante” ou “Eu não gosto da Ciência Cristã” parece, para elas, como um convidado criticar o vinho e amaldiçoar os servos; e elas terminam onde o bom gosto sempre termina: num literal dissabor (CHESTERTON, 1912).
Chesterton não incentiva aqui o desprezo, a falta de cortesia ou mesmo de prudência. O que lhe parece intolerável é uma religião incapaz de afirmar que uma coisa é verdadeira e outra falsa; uma religião tão ansiosa por evitar qualquer conflito que já não ousa preferir uma doutrina à sua contrária. É essa tolerância moderna que ele tanto critica:
Credos devem discordar: é isso que torna a questão interessante. Se eu acho que o universo é triangular e você acha que ele é quadrado, não há espaço para dois universos. Podemos argumentar de forma educada, podemos argumentar de maneira humana, podemos argumentar com grande benefício mútuo; mas, obviamente, devemos argumentar.
A tolerância moderna é, na verdade, uma tirania. É uma tirania porque silencia a todos. Dizer que não devo negar a fé do meu oponente é dizer que não devo discuti-la; eu não posso dizer que o budismo é falso, mas isso é tudo o que quero dizer sobre o budismo. É a única coisa interessante que alguém pode querer dizer sobre o budismo — ou que é falso, ou que é verdadeiro (CHESTERTON, 1908).
Se tomarmos a análise de Chesterton como uma hipótese de leitura, é difícil não imaginar seu possível espanto diante da preparação do Concílio Vaticano II. O Secretariado para a Unidade, presidido pelo Cardeal Bea, iniciou seus trabalhos perguntando justamente aos grupos não católicos o que esperavam da Igreja. A partir dessa disposição inicial, estabeleceu relações com judeus, protestantes, ortodoxos, maçons e comunistas, deixando-lhes entrever que muitas de suas aspirações encontrariam acolhida nos documentos conciliares.
Mais surpreendente ainda pareceria a Chesterton descobrir que, para assegurar a presença de observadores ortodoxos no Concílio, João XXIII comprometera-se a não promover uma condenação explícita do comunismo. Ou mesmo qual não seria a sua surpresa quanto às diversas reivindicações apresentadas pelo pastor Willem A. Visser’t Hooft, secretário-geral do Conselho Ecumênico de Igrejas, por intermédio do mesmo Cardeal Bea, que encontrariam expressão de aceitação na Dignitatis Humanae.
Percorrendo até mesmo aos pontificados posteriores ao Concílio, chegando ao atual Papa Leão XIV. Retomando a ênfase dada nas últimas décadas ao tema da sinodalidade, o Papa afirma:
A regra suprema na Igreja é o amor: ninguém é chamado a comandar, todos são chamados a servir; ninguém deve impor as próprias ideias, todos devemos ouvir-nos reciprocamente; ninguém é excluído, todos somos chamados a participar; ninguém possui toda a verdade, todos devemos procurá-la juntos e humildemente.
Não deixa de ser curioso confrontar essas palavras com aquilo que Chesterton escrevera décadas antes. Ao descrever a tentativa de reunir todas as crenças sob um mesmo espírito de concórdia, observa: “Os teosofistas constroem um panteão; mas é apenas um panteão para panteístas. Convocam um Parlamento das Religiões como uma reunião de todos os povos; mas é apenas uma reunião de todos os pedantes” (CHESTERTON, 1986, p. 310).
E, lembrando que semelhante tentativa já havia sido feita no mundo antigo, conclui:
Contudo, exatamente tal panteão já havia sido erguido dois mil anos antes, às margens do Mediterrâneo; e os cristãos foram convidados a colocar a imagem de Jesus lado a lado com a imagem de Júpiter, de Mitra, de Osíris, de Átis ou de Amon. Foi a recusa dos cristãos que constituiu o ponto de virada da história. Se os cristãos tivessem aceitado, eles e todo o mundo certamente teriam, numa metáfora grotesca, mas exata, ido por água abaixo. Teriam sido todos reduzidos a um único líquido morno naquele grande caldeirão de corrupção cosmopolita no qual todos os outros mitos e mistérios já estavam se dissolvendo. Foi uma fuga terrível e espantosa. Ninguém compreende a natureza da Igreja, nem o timbre vibrante do credo que desce da antiguidade, se não perceber que o mundo inteiro quase morreu, uma vez, de liberalismo excessivo e da fraternidade de todas as religiões (CHESTERTON, 1986, p. 310).
Entre aqueles que procuram aproximar Chesterton do espírito do Concílio encontra-se o Padre Scott Randall Paine. Segundo ele, pode-se “afirmar que, se Chesterton estivesse vivendo hoje, sem dúvida alguma, ele estaria lendo os documentos daquele Concílio e promovendo a interpretação correta de seus ‘desenvolvimentos’ da doutrina cristã”.
O padre justifica essa conclusão afirmando que Chesterton, como um “proponente audaz de uma tradição viva e aventureira”, manter-se-ia distante de qualquer tradicionalismo, entendido como a tendência de tratar a Igreja “como se fosse um museu”, aderindo assim à renovação que, segundo ele, reorientou sua postura diante do mundo moderno, do ecumenismo e das religiões.
É uma interpretação curiosa. Porque, justamente ao justificar a necessidade de “atualizar a Igreja”, acaba por atribuir a Chesterton uma posição que parece colidir frontalmente com constantes pensamentos seus espalhados por suas obras: “A Igreja Católica é a única coisa que salva um homem da escravidão degradante de ser um filho de sua época” (CHESTERTON, 1990, p. 110).
Se a principal missão da Igreja consiste precisamente em libertar o homem da tirania intelectual de seu próprio tempo, torna-se difícil compreender como Chesterton poderia acolher sem reservas um programa cuja intenção declarada era justamente adaptar a Igreja às exigências do mundo contemporâneo.
Em seu Athanasius and the Church of Our Time, fazendo um paralelo entre a crise ariana e a crise que vivemos atualmente, Monsenhor Rudolph Graber faz uma observação digna de nota. Escreve ele:
O que aconteceu há mais de 1600 anos está se repetindo hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria hoje é toda a Igreja Universal, cuja estabilidade está sendo abalada, e aquilo que naquela época foi levado a cabo por meio de força física e crueldade está agora sendo transferido para um outro nível. O exílio é substituído pelo banimento no silêncio de ser ignorado; a morte, pelo assassinato da imagem.
Curiosamente, Chesterton chega a uma conclusão semelhante por um caminho completamente diverso. Ao comparar o catolicismo com as “novas religiões”, afirma:
Eu a comparei [a religião católica] com as Novas Religiões; mas é precisamente nisso que ela difere das Novas Religiões. As novas religiões estão adaptadas em muitos aspectos às novas condições; mas é apenas às novas condições que elas estão adaptadas (CHESTERTON, 1990, p. 110).
Os arianos tentaram criar uma nova religião. Sob a ordem do imperador, até mesmo o Papa Libério não resistiu aos influxos das sanções e, sob pressões corporais e psicológicas, vacilou quanto à defesa da divindade de Cristo. Sob a ordem do mundo moderno e suas diversas sanções, João XXIII, Paulo VI e todos os Papas subsequentes foram além da tentativa e acabaram por abraçar o aggiornamento. Em ambos os casos, a pressão exercida pelo espírito do tempo torna-se visível. Mudam as circunstâncias; permanece o mesmo modo de ação.
Se o objetivo declarado do Concílio era, como frequentemente se afirmou, atualizar a relação da Igreja com o mundo moderno, seria difícil encontrar posição mais distante daquela defendida pelo escritor inglês, para quem a missão da Igreja consistia justamente em libertar o homem da escravidão de seu próprio tempo:
A Igreja não pode mover-se com os tempos, simplesmente porque os tempos não estão se movendo. A Igreja pode apenas ficar atolada na lama com os tempos, e apodrecer e feder com os tempos. No mundo econômico e social, não há atividade exceto a espécie de atividade automática que se chama decaimento; o murchar das altas flores da liberdade e sua decomposição no solo aborígene da escravidão. Nesse sentido, o mundo está em boa parte no mesmo estágio em que estava no início da Idade das Trevas […] Não queremos, como dizem os jornais, uma Igreja que se mova junto com o mundo. Queremos uma Igreja que mova o mundo (CHESTERTON, apud WARD, 1944, p. 467-468).
À luz dessas palavras, não parece difícil imaginar como Chesterton reagiria a acontecimentos posteriores, como o encontro inter-religioso de Assis, promovidos em nome do ecumenismo, onde o Papa João Paulo II beijou o Alcorão, ou às inúmeras situações em que sacerdotes, bispos e teólogos passaram a substituir a pregação da Revelação pela adoção das palavras de ordem mais caras ao espírito de cada época. Não se trata aqui de discutir cada episódio isoladamente, mas de notar um mesmo princípio em funcionamento: a adaptação da religião às exigências contemporâneas.
O próprio Chesterton conclui:
As novas religiões se adaptam bem ao novo mundo; e esse é seu pior defeito. Cada religião é produzida por causas contemporâneas que podem ser identificadas com clareza (CHESTERTON, 1990, p. 110).
Se Chesterton estivesse hoje entre nós, talvez não precisássemos perguntar-lhe o que pensaria do Concílio Vaticano II. Bastaria perguntar-lhe o que entendia por “as novas religiões”. A resposta, ao que tudo indica, ele já havia escrito mais de meio século antes. E, se tivesse de escolher entre mover o mundo ou mover-se com ele, dificilmente teria escolhido a segunda alternativa.
CHESTERTON, G. K. The history of religions. The Illustrated London News, Londres, 26 set. 1908.
CHESTERTON, G. K. The dullness of the new religions. The New York Times, Nova Iorque, 28 ago. 1912.
CHESTERTON, G. K. The collected works of G. K. Chesterton. v. 2. São Francisco: Ignatius Press, 1986.
CHESTERTON, G. K. The collected works of G. K. Chesterton. v. 3. São Francisco: Ignatius Press, 1990.
WARD, Maisie. Gilbert Keith Chesterton. Londres: Sheed and Ward, 1944.


1 comentário
Diria que há ainda um quarto grupo: o dos indiferentes ao Concílio Vaticano II, que por não considerarem a gravidade da questão respondem, quando questionados sobre esse evento, que “já passou” ou “foi há 60 anos, muita coisa mudou até lá, andemos, sigamos em frente”. E é preciso salientar, tal resposta não constitui uma neutralidade entre duas visões que se chocam, mas uma aceitação do cavalo às portas de Tróia.
Assim como ensina a sabedoria popular: “quem fica em cima do muro recebe pedrada de ambos os lados”, que é decorrência das palavras de Nosso Senhor aos mornos e tíbios: “Conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente. Oxalá foras frio ou quente. Mas, porque és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te da minha boca” (Ap 3, 15-16).