Nos dias 26 e 27 de junho de 2026, em Roma, a sinodalidade ganhou aquilo que até então lhe faltava: móveis. Reunido a portas fechadas com cerca de cento e trinta cardeais, no segundo consistório extraordinário de seu pontificado — o primeiro fora em janeiro —, Leão XIV anunciou que esses encontros passarão a ser anuais e prometeu comunicar, até o fim do ano, a data do próximo. A palavra que ninguém consegue definir acaba de receber um calendário.
Quando se observou, em outro artigo, que a sinodalidade é uma novidade tanto mais perigosa quanto mais se recusa a ser definida, a objeção previsível era que essa recusa pertencia ao estilo de Francisco — vago, circular, improvisado. O consistório de junho desfaz a objeção pelo lado mais incômodo: a fase nova tampouco a define. Apenas a institucionaliza sem defini-la. E um princípio indefinido que ganha órgãos permanentes é coisa mais grave do que um slogan indefinido, porque o slogan se discute e a estrutura se herda. O perigo migrou da palavra para o mobiliário e de um Papa barulhento para um Papa quieto.
Eis a diferença entre os dois pontificados (que observadores distraídos tomam por ruptura): Francisco operava por surpresa carismática; Leão opera por consolidação sóbria, convertendo a prática ambígua em arquitetura durável. Não por acaso, ao encerrar o consistório, o Papa explicou que a sinodalidade não é “um conjunto de reuniões”, mas “um estilo espiritual” — fórmula que tem a vantagem de ser, a um só tempo, elevada e inverificável. É a consolidação, e não a improvisação, que deveria preocupar o católico atento: contra um experimento, argumenta-se; contra um móvel, não.
Mas o calendário é o menos. O que o consistório e a encíclica que o precedeu revelam é uma operação mais funda: o deslocamento silencioso daquilo que a Igreja faz quando é ela mesma. Para Santo Tomás, o objeto formal da fé é a Primeira Verdade enquanto proposta pela Igreja como regra infalível (Suma Teológica, II-II, q. 1, a. 1; q. 5, a. 3): a fé adere ao que a Igreja propõe. E o ensino, no Doutor Comum, desce: os que estão postos em grau mais alto são obrigados a uma fé mais explícita e a instruir os demais (II-II, q. 2, a. 6). Ensinar é ato de autoridade que vem de cima. Uma Igreja cuja vocação passa a ser escutar deixa, na exata medida, de propor.
Não se trata de inferência maliciosa. A encíclica Magnifica Humanitas, publicada em 25 de maio de 2026, fala o tempo todo em “escuta”, em “diálogo”, em “deixar-se interpelar pelos sinais dos tempos”. E, num passo que deveria envergonhar seus redatores, chega a nomear a vocação da Igreja como “escuta, diálogo e serviço” — uma Igreja que “se deixa interpelar por tudo o que diz respeito à existência” das pessoas de hoje (n. 19). A tríade está completa, e nela não comparece o ensinar. O documento que deveria reafirmar o múnus de ensinar define a vocação da Igreja sem ele.
As frases mais agudas vêm logo adiante. A verdade do Evangelho, lê-se, “não se impõe de cima, mas cresce no tempo” (n. 25); a Igreja “não quer levantar a bandeira da posse da verdade”; e, citando Francisco, “se deixa evangelizar pelos pobres” (n. 42). Convém medir o que está escrito. Uma Igreja que já não possui a verdade que foi encarregada de guardar, e que se deixa evangelizar por aqueles a quem foi enviada a evangelizar (o evangelizador que descobre, afinal, ter muito a aprender com a própria missão), é uma Igreja que trocou o lugar de mestre pelo de aluno — e o fez por escrito.
Embora seja verdade que a mesma encíclica conserva as salvaguardas — manda julgar os sinais “à luz da palavra de Deus”, afirma que “a Verdade revelada não é alterada no seu núcleo essencial” e que a escuta “não é mera atenção sociológica” —, a realidade é que essas ressalvas agravam o problema em vez de resolvê-lo. Um polemista apressado gritaria heresia; não há heresia aqui, e dizê-lo seria desonesto. O escândalo é justamente a ortodoxia das partes: nada é negado, tudo é repesado; nenhuma proposição se deixa fixar, e, no entanto, o centro de gravidade se deslocou. Que escutar seja bom, ninguém o nega e Santo Tomás menos que todos: a docilidade, disposição de ouvir e tomar conselho, é parte integrante da prudência (II-II, q. 49, a. 3), e nenhum prelado sensato jamais governou sem ela. Mas a docilidade pertence à virtude de governar, não ao ofício de ensinar. Fazer dela a vocação constitutiva da Igreja é trocar o múnus de ensinar pela arte de bem deliberar e apresentar a troca como aprofundamento.
A inversão, é justo reconhecer, não foi inventada em junho de 2026. É o método da Gaudium et Spes levado às suas consequências: perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho (n. 4). No papel, o Evangelho julga os sinais; na recepção que se seguiu, foram os sinais que passaram a interrogar o Evangelho. Magnifica Humanitas é a herdeira fiel dessa ambiguidade — cita a constituição conciliar a cada passo e reproduz, junto com a salvaguarda, a inclinação. O bairro em que essa inclinação mora tem nome antigo: é o do modernismo que Pascendi condenou, aquele que fazia o dogma brotar do senso religioso da comunidade crente.
Nem o ofício de Pedro escapa à nova gramática. Na homilia de abertura do consistório, o Papa declarou que a ajuda dos cardeais encontra nele “alguém que pede, e não alguém que manda”, e que a autoridade do primado é a “de quem escuta e, só por causa disso, guia”. É aqui que Santo Tomás se opõe com uma franqueza que envergonha o vocabulário contemporâneo: cabe ao Sumo Pontífice determinar o que é de fé, e é da sua autoridade fixar o símbolo, justamente para que seja tido por todos com fé inabalável (II-II, q. 1, a. 10). “Quem escuta e só por isso guia” é a inversão exata daquilo que, para o Doutor Angélico, faz de um Papa um Papa. A pergunta não é retórica: um Papa que, em matéria de fé, pede e não manda, ainda exerce o múnus que recebeu?
Resta a ironia já apontada, que a institucionalização apenas aperfeiçoa. As assembleias sinodais nunca foram parlamentos abertos; são processos gerenciados, em que quem redige os questionários e sintetiza as respostas controla o resultado. Um consistório semestral perpetua o instrumento e a aparência: a escuta universal proclamada, o desfecho cuidadosamente curado. Não por acaso, segundo o jornal Il Giornale, as sínteses oficiais do encontro omitiram a intervenção do Cardeal Müller, que pedia uma resposta formal de Roma ao mais recente desafio da Fraternidade São Pio X. Escuta-se muito — desde que o que se ouve caiba na pauta.
Portanto, o que mudou entre o primeiro e o segundo consistório não foi a doutrina, que permanece formalmente intacta, mas o seu peso. Diagnosticou-se, antes, uma palavra que se recusava a ser definida; o consistório mostra que ela já não precisa de definição, porque virou estrutura — e o trabalho calado dessa estrutura é converter uma Igreja que ensinava numa Igreja que escuta tudo, menos Àquele que foi encarregada de transmitir. Francisco tornou a sinodalidade barulhenta, e por isso discutível; Leão a torna permanente, e por isso invisível — e o que se torna invisível deixa de ser discutido, que é precisamente o ponto. Uma Igreja que decidiu que a sua vocação é escutar terá, no fim, muito o que ouvir e nada o que dizer.

