Há cerca de dois anos, vi-me numa situação inusitada e um tanto quanto inesquecível. Deparei-me com um artigo intitulado A virtude da tolerância, publicado no jornal Tribuna do Norte por um autor cujo nome saltou à minha vista: Padre João Medeiros Filho. Face a esta coincidência abismal, a curiosidade se apossou de mim. Imediatamente parei para ler o que meu embatinado homônimo havia escrito.
Em seu artigo, a fim de defender que “tem-se apenas uma parte da verdade, sob ângulos diversos”, e que o intolerante “é um inseguro” que “agarra-se a seus caprichos, concepções e narrativas, […] indo na contramão dos ensinamentos filosóficos e éticos” (sic), meu reverendíssimo xará atribuiu a Platão uma citação que fede ao iluminismo de John Locke, isto é, de que “a tolerância é o mais alto nível de educação” (sic), citando também o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre e o poeta islâmico sufi Maomé Rumi a fim de estabelecer e fundamentar o seu caso.
Já há decênios, muito se fala e pouco se diz sobre a necessidade contemporânea de uma cultura da tolerância e, mais do que isso, de que o homem pratique a sobredita “virtude da tolerância”. Dizem os adeptos dessa cultura tolerante que “é preciso tolerar aquilo que é diferente ou aquele que pensa diferente do que nós pensamos”. Entretanto, curiosamente, a tolerância de seus cultores não se estende àqueles que deles discordam, àqueles cuja tolerância é restringida apenas ao que é tolerável.
Desde a Antiguidade pagã os sábios reconheceram a existência das virtudes ditas cardeais, chamadas assim em vista de sua importância, pois as demais virtudes são enquadradas por elas e respondem a elas. Em geral, eles coincidiram em quatro virtudes que Platão cita passageiramente em A República (IV, 427-434) e expõe melhor em As Leis (I, 631) com pouca diferença, nesta ordem: sabedoria, temperança, coragem e justiça. Igualmente cidadão antigo, porém romano, Marco Túlio Cícero ecoava em seus tratados aquilo que aprendera dos gregos, mas a seu próprio modo não tão sistemático. No medievo, com o advento da escolástica, Santo Tomás de Aquino, o maior expoente escolástico e o maior dos Doutores da Igreja, também foi caudatário do sistema grego quanto a virtudes e vícios, modificando-o, no entanto, a fim de oferecer maior precisão em razão da realidade das virtudes, visando como quatro virtudes cardeais a prudência, a justiça, a temperança e a fortaleza. A prudência para reger e governar o intelecto e fundamentar boas decisões; a justiça para governar a vontade, fazendo-a pender para boas ações ou para realizar, precisamente, o que é justo; e para os apetites sensíveis, as virtudes da temperança para governar sobre os prazeres e da fortaleza para dominar sobre os impulsos — particularmente em situações de dificuldade.
Todavia, nunca se viu da parte de sábio algum na história o reconhecimento de uma “virtude da tolerância”, especialmente quando se está em jogo algo tão caro para qualquer um que busque a verdade e sua defesa; quando convicções estão em disputa. Os sábios, pelo contrário, sempre mantiveram-se firmes e convictos em defesa da verdade, que sempre lhes foi tão cara, ainda que, como Sócrates, precisassem manter suas convicções às custas da honra ou da própria vida, simplesmente porque os princípios verdadeiros valem mais do que qualquer outra coisa. Aquele que busca a Sabedoria será necessariamente um intolerante ante tudo o que é insensato.
Que é que se pede entre nós, com essa desenfreada apologia da tolerância, senão o carinho para todos os sofismas e todos os crimes, quando vencidos, ou o império deles reconhecido legítimo como possibilidade? (FIGUEIREDO, 1925, p. 20).
Foi de tolerância em tolerância que, nos últimos séculos, cada geração que veio alargou o limite estabelecido pela geração que lhe antecedeu, em sucessivas rupturas com as leis divinas e naturais, conservando um pretenso progresso e rechaçando àqueles que lhes impugnavam seus erros, que eram intoleráveis para gente tão intolerante. Foi pregando a tolerância e agindo com intolerância que o protestantismo desdobrou-se em milhares de ramos teológicos antipáticos uns aos outros cuja única união é o ódio à Igreja Católica. Também de tolerância em tolerância, vemos que nas últimas décadas os homens descartaram o próprio cérebro como um dejeto pela latrina, renegando com horror desde a própria natureza sexual até mesmo desenvolvendo certas parafilias sem nenhum pudor — e sem que ninguém lhes aponte a enfermidade. Não foi à toa que uma geração francesa de intelectuais pós-modernos como Michel Foucault, Simone de Beauvoir e o mesmo Jean-Paul Sartre, dentre outros menos famosos e igualmente infames, peticionou em carta aberta ao parlamento francês um pedido de descriminalização da pedofilia em 1977, alegando, para justificar o fim das leis de consentimento etário, que “o caso Yvelines […] levantou o problema de saber em que idade crianças ou adolescentes podem ser considerados capazes de consentir livremente em uma relação sexual. […] Os signatários desta carta consideram que a liberdade completa dos parceiros numa relação sexual é a condição necessária e suficiente para a legalidade dessa relação” (tradução nossa).
Entre tolerâncias e respeitos humanos, um abismo inevitavelmente conduz a outro, e o liberalismo, que é sempre autofágico e opositor da Verdade, não se pode sustentar. Nesta autofagia dos respeitos humanos, a tolerância dos modernos é a particular proposição de que, sob certo ângulo semelhante à demência, o homem voluntariamente se disponha a desenvolver uma doença intelectual degenerativa autoimune que, pouco a pouco, vai desabilitando sua razão e à qual nenhum remédio é palatável. E tudo bem para isto, afinal, se a tolerância é admitida como virtude, que mal pode fazer? Apenas toleremos, já que não se pode criticá-la.
Por outro lado, pelo simples fato de termos princípios muito bem definidos e de buscarmos aplicá-los, proclamando o que é verdadeiro e impugnando o que é falso, as críticas que recebemos são de fato muitas. Nós somos intolerantes. Dizem que não dialogamos e que não somos diplomáticos, que não construímos pontes e que erguemos muros, que somos rígidos e dogmáticos. Mas seriam essas críticas verdadeiras? Ora, o dogma, ainda que criticado ou ignorado pelos modernos, é um pensamento verdadeiro: todas as ciências possuem dogmas muito bem estabelecidos, ou não seriam ciência coisa alguma. Por exemplo, é dogma da química que a água é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, assim como é dogma da física a lei da gravitação universal de Newton. Acaso deveríamos depor o dogma da biogênese em prol da geração espontânea, ainda que Louis Pasteur a tenha refutado? Sendo o homem um animal racional, é também um animal dogmático, por isso impreterivelmente será um animal intolerante — ainda que em nome da tolerância. Como Gilbert diz jocosamente em Hereges, “as árvores não possuem dogmas. Os nabos são particularmente tolerantes” (CHESTERTON, 1905, p. 286, tradução nossa). A verdade é sempre divina, e por esta mesma razão é preciso que seja defendida com ardor, sendo o dogma a pedra sobre a qual o homem se assenta e constrói seu edifício e a intolerância o muro que protege esta construção; exceto para o mundo moderno, que, contraditoriamente, “está cheio de homens que defendem dogmas tão ardorosamente, que sequer dão-se conta de que são dogmas o que defendem” (CHESTERTON, 1905, p. 302, tradução nossa). É evidente que somos dogmáticos — como todo homem é —, bem como rígidos e intransigentes na defesa do dogma: dialogamos e construímos pontes apenas para ter contato com o que é verdadeiro; ao que é falso, não erguemos muros para impugnar, mas muralhas inteiras!
Num mundo repleto das mais estúpidas ideias e afirmações, ser intolerante é muitas vezes um dever, a fim de “compensar o excesso de tolerância, que é, em última análise, um incógnito da falta de caráter” (FIGUEIREDO, 1922, p. 189), esta falta de caráter que mais do que nunca permeia o mundo com suas personalidades pós-modernas carcomidas. Como certa vez disse o arcebispo americano Dom Fulton Sheen, “é dito que a América está enferma de intolerância. Não é verdade. Ela está enferma de tolerância: tolerância do certo e do errado, da verdade e do erro, da virtude e da malícia, de Cristo e do caos” (SHEEN, 1931, p. 95, tradução nossa). Entretanto, desta enfermidade já não sofrem apenas os Estados Unidos da América a quem o arcebispo se dirigia, mas todo o mundo em maior ou menor grau.
Por um lado, temos uma aprovação desenfreada de políticas públicas permissivas e adeptas de distúrbios e disforias; por outro, o capitalismo faz do homem um escravo do mercado e o defrauda de seu salário e de seus bens de direito. Chegou-se a tal nível de degradação social em que o certo é apenas tolerado — isto quando ainda é tolerado —, e crimes e mais crimes de toda sorte são perpetrados contra a dignidade do homem, que é imagem e semelhança de Deus, mutilando-lhe o corpo e desfigurando-lhe o espírito. Antes mesmo do estabelecimento da Cristandade, o supracitado Cícero afirmou categoricamente que “o fundamento da justiça é a fé, ou seja, a verdade e a constância em palavras e acordos […], acreditemos na ‘fé’ (fides), assim chamada porque ‘faz’ (fiat) o que foi dito” (CÍCERO, 1999, p. 14). Foi considerando este fundamento basilar da justiça que também afirmou que o “bom preceito é aquele que interdiz a realização de um ato do qual não se sabe se é equitativo ou iníquo” (CÍCERO, 1999, p. 17); que diria então o nosso Túlio sobre a interdição ou intervenção sobre os atos cuja iniquidade que realmente conhecemos? “As guerras devem ser empreendidas por causa da paz, a fim de que se viva com justiça” (CÍCERO, 1999, p. 19). Devem ser empreendidas porque, nas palavras de Dom Antônio de Macedo Costa, santo bispo brasileiro perseguido pela maçonaria a ponto de ser preso pelo governo durante a Questão Religiosa em 1874, “a justiça e a verdade, que são a alma da história, que são o critério e a regra do seus arestos inexoráveis, não dependem nem da aceitação dos homens, nem de suas repulsas insensatas” (MACEDO COSTA, 1886, p. 7).
O mesmo Dom Macedo Costa também afirmou categoricamente que “uma sociedade que admitisse em seu grêmio elementos antagônicos, seria uma aglomeração desordenada, efêmera, não uma instituição séria com intuitos firmes, com larga e harmônica ação no presente e abonos de dilatado porvir” (MACEDO COSTA, 1886, p. 11). E não é este caos a exata representação do que vivemos? Nós poderíamos destacar a tolerância como lata virtude segundo aquela etimologia que indica o termo como constância em sofrer e suportar com paciência aquilo que não se pode impedir, isto sim, e nada além disso. Cremos com o grande Cardeal Pie de Poitiers em sermão pregado em 1841: “É da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas” (PIE, 1891, pp. 358-359, tradução nossa). Todo o resto é um abandono da harmonia, da ordem, do equilíbrio, da luz e da clareza em prol de um obscuro lugar de direito para que o que é tolo e estúpido seja tratado como se coisa boa fosse; verdadeiramente em prol do liberalismo que, em toda sua rebelde estupidez autofágica, não é católico.
A intolerância não é estupidez ou fúria cega. Não é mesmo digno de ser intolerante quem não sabe por que deve sê-lo, quem não sabe por que o é. Intolerância é amor da verdade, tanto da Suprema Verdade, como de qualquer verdade. É a face exterior da convicção, que, por sua vez, é a face interior da verdade, que, se não depende de nós para ser, só o é para nós quando a procuramos, a amamos, e sabemo-la defender (FIGUEIREDO, 1925, p. 23).
Somos católicos e por definição, também nas palavras do Cardeal Pie, “somos, portanto, intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão: temos orgulho de nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, porque a verdade é uma, e, por consequência, intolerante” (PIE, 1901, p. 364, tradução nossa), de forma que “calar-se, quando de toda a parte surgem alaridos contra a verdade, é coisa de homem covarde ou de quem duvida da veracidade da crença que professa” (LEÃO XIII, 1890, p. 390, tradução nossa). Os liberais, pelo contrário, clamam por tolerância aos erros e alaridos contra a verdade, e foi no triunfo de uma “atmosfera de tolerância promovida a virtude teologal, [que] desencadeou-se dentro dos recintos católicos a maior explosão de abusos, de impiedades, de estúpidas novidades de toda a história da Igreja” (CORÇÃO, 2018, p. 42). E também da história do mundo. Não há qualquer conciliação ou esperança de conciliação ao antagonismo entre a verdade e erro, entre a virtude e o vício, a razão e a estupidez, a graça e desgraça ou Deus e o diabo, seja no século ou na eternidade.
Deus não nos criou e nos deu o uso da razão para que o inutilizássemos em nome da tolerância, do respeito humano, da liberdade para o erro ou de qualquer outra coisa tão reprovável — e mesmo desumana por desfazer-se precisamente desta característica que nos diferencia dos irracionais. E se fazendo uso da razão de que somos dotados somos intolerantes diante de abusos, impiedades, estupidezes, iniquidades e vicissitudes, então bendito seja Deus: é prova de que ainda há fibras em nosso ser, atividade em nossos neurônios e sangue quente bombeando de nossos corações para nossas veias. Como escreveu o velho Chesterton n’O Homem Eterno, apenas uma coisa viva pode contrariar a correnteza. E nós, afinal de contas, por graça de Deus e a fim da salvação de nossas almas, estamos vivos.
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CÍCERO, Marco Túlio. Dos Deveres. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
CHESTERTON, Gilbert Keith. Heretics. 5ª edição. Nova Iorque: John Lane, 1908.
CORÇÃO, Gustavo. A Igreja Católica e a Outra. Rio de Janeiro: Permanência, 2018.
FIGUEIREDO, Jackson de. A Reação do Bom Senso: contra o demagogismo e a anarquia militar. Rio de Janeiro: Annuario do Brasil, 1922.
__________________________. A Coluna de Fogo. Rio de Janeiro: Annuario do Brasil, 1925.
FOUCAULT, Michel et al. Lettre ouverte à la Commission de révision du code pénal pour la révision de certains textes régissant les rapports entre adultes et mineurs. Paris, maio 1978. Disponível em: <https://medium.com/@thoughtsonthingsandstuff/the-1977-french-petition-to-abolish-age-of-consent-laws-6e9c97acab0b>. Acesso em 22 jul. 2025.
LEÃO XIII. Acta Sanctae Sedis, vol. XXII. Roma: Propaganda Fide, 1890.
MACEDO COSTA, Antônio de. A Questão Religiosa do Brasil perante à Santa Sé: ou a missão especial a Roma em 1873 à luz de documentos publicados e inéditos. Lisboa: Lallemant Frères, 1886.
MEDEIROS FILHO, João. A virtude da tolerância. Tribuna do Norte, Natal, 11 jul. 2023. Disponível em: <https://tribunadonorte.com.br/colunas/artigos/a-virtude-da-tolerancia/>. Acesso em: 8 abr. 2025.
PIE, Louis Édouard François Desiré. Oeuvres Sacerdotales du Cardinal Pie: choix de sermons et d’instructions de 1839 a 1849, tome I. Paris: H. Oudin, 1891.
SHEEN, Fulton John. Old Errors and New Labels. Nova Iorque: Century, 1931.


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