A Imaculada sob ataque: da submissão conciliar aos protestantes à Mater Populi Fidelis; por que o ataque modernista aos títulos marianos?

Antônio Luiz Ghislieri

I. Introdução: uma nota que não surpreende

A publicação da nota doutrinal Mater Populi Fidelis, emanada do Dicastério para a Doutrina da Fé sob a direção do Cardeal Víctor Manuel “Tucho” Fernández, rejeitando os títulos de Corredentora e Medianeira de todas as graças para a Santíssima Virgem Maria, causou consternação entre muitos católicos fiéis. Contudo, para aqueles que conhecem a história recente da Igreja, tal documento não representa novidade alguma, outra coisa não sendo senão a culminação de um processo iniciado há mais de sessenta anos no Concílio Vaticano II.

A tese que pretendemos demonstrar nestas páginas é simples: existe uma continuidade deliberada entre o capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium e a recente nota doutrinal vaticana. Os mesmos argumentos ecumênicos, a mesma preocupação em não “exagerar” os privilégios marianos, a mesma redução da cooperação de Maria a uma resposta passiva de fé, tudo isto já se encontrava presente nos textos conciliares. A nota Mater Populi Fidelis não é novidade pós-Francisco nem aberração de um clérigo pornógrafo, mas o fruto maduro de sementes plantadas no Concílio.

Mais ainda: pretendemos mostrar que este ataque sistemático à devoção mariana possui uma raiz espiritual profunda. A Imaculada, em sua humildade perfeita, representa a antítese do orgulho luciferino que anima os erros modernos. Diminuir Maria é, em última instância, aliviar o peso de seu pé imaculado sobre a cabeça  da serpente infernal.

II. O Concílio Vaticano II e a Santíssima Virgem: “palavras de um rochedo oco e vão”

São Francisco de Sales, em seu Tratado do Amor de Deus, oferece-nos uma imagem preciosa para compreender a natureza dos textos conciliares sobre Nossa Senhora. O Santo Doutor fala de um eco que, saindo de um poço, repetia as palavras pronunciadas junto a ele:

E de fato, havia muito a dizer entre nossas vozes e aquelas; pois, quando dizíamos uma grande sequência de palavras, elas só repetiam algumas, encurtavam a pronúncia das sílabas que passavam muito rapidamente, e com  tons e acentos bem diferentes dos nossos. […] Em suma, não eram palavras de  um homem vivo, mas, por assim dizer,  palavras de um rochedo oco e vão, as  quais todavia representavam tão bem a voz humana, da qual tinham tirado sua origem, que um ignorante se teria enganado.1

Esta  imagem  aplica-se  perfeitamente  ao  capítulo  VIII  da  constituição conciliar Lumen Gentium. Ao se fazer uma primeira leitura superficial, tudo parece correto. O texto contém belas passagens quando cita os Padres da Igreja; não se opõe diretamente ao ensinamento tradicional como fazem outros documentos conciliares. Porém, com um olhar mais atento, considerando a tradição constante da Igreja, perceberemos que há “acentos bem diferentes dos nossos” e graves omissões: palavras e noções que desaparecem, termos que são sub-repticiamente esvaziados de seu sentido.

É preciso recordar que a Santíssima Virgem “estorvava o esforço ecumênico”2. Os Padres Conciliares mais preocupados com este objetivo obtiveram que não houvesse uma constituição à parte tratando especialmente de Maria Santíssima. Nas palavras de Karl Rahner: “Resultaria um mal inimaginável do ponto de vista ecumênico”3.

Este cuidado ecumênico condiciona tudo o que é dito sobre a Mãe de Deus. O próprio texto conciliar adverte: “Em suas palavras ou ações, [os teólogos e pregadores] devem evitar com  cuidado tudo o que poderia induzir em erro os irmãos separados, ou qualquer  outra pessoa, a respeito da verdadeira doutrina da Igreja”4.

Ora, comparemos esta linguagem deflacionária com o ensinamento de Pio XII sobre a dignidade de Maria:

Que se guardem tanto das opiniões sem fundamento, cujas expressões exageradas ultrapassam os limites do verdadeiro, quanto de uma estreiteza de espírito excessiva quando se trata desta dignidade única, sublime e mesmo quase divina da Mãe de Deus, que o Doutor Angélico nos ensina a lhe atribuir.5

Com efeito, Santo Tomás de Aquino afirma: “A bem-aventurada Virgem, pelo fato de sua maternidade divina, possui uma certa dignidade infinita”6. E São João Damasceno: “A diferença entre os servos de Deus e a Mãe de Deus é infinita”7.

Quem poderia negar que temos uma mudança radical de tom? E esta mudança, notemos, fez escola. João Paulo II chegou a declarar: “Atribuir o máximo a Maria não pode tornar-se a norma da mariologia”8. Estamos muito longe da forma como a Santa Igreja sempre falou da Mãe de Deus.

Não é de se admirar que o Pe Victor-Alain Berto, teólogo e perito no Concílio, tenha emitido este juízo terrível sobre o Capítulo VIII: “insuficiente, medíocre, insincero até a impiedade”9.

III. As omissões deliberadas: o esvaziamento dos títulos marianos

A doutrina tradicional sobre a Santíssima Virgem estabelece paralelos entre ela e seu Divino Filho, que servem de pontos de partida para compreender os mistérios de Jesus e Maria: Mediador e Medianeira de todas as graças; Redentor e Corredentora; Cristo Rei e Maria Rainha. O Concílio Vaticano II tomou para si a tarefa de sistematicamente destruir estas pontes.

a) Medianeira de todas as graças

O ensinamento tradicional é claro e constante. Leão XIII ensina: “Assim como não se pode ir ao Pai Supremo senão pelo Filho, assim também não se pode chegar a Cristo senão por sua Mãe”10. E Pio XII assevera: “Ela nos dá seu Filho e com Ele nos dá todos os socorros de que necessitamos, pois Deus quis que tenhamos tudo por Maria”11. Ao que São Luís Maria de Montfort explica magnificamente:

Deus o Filho comunicou a sua Mãe tudo o que adquiriu por sua vida e sua morte, seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis, e a fez tesoureira de tudo o que o Pai lhe deu em herança; é por ela que Ele aplica seus méritos a seus membros, que comunica suas virtudes e distribui suas graças; é seu canal místico, seu aqueduto, por onde faz passar doce e abundantemente suas misericórdias.12

Ora, a Lumen Gentium retém alguns títulos da Virgem, mas esvazia-os de todo conteúdo real: “Assim, a bem-aventurada Virgem é invocada na Igreja sob os títulos  de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira. Tudo isto, porém, deve entender-se de modo que nada tire nem acrescente à dignidade e ação de Cristo, único mediador”13. Observe-se que o texto diz que a Virgem é assim invocada “na Igreja” (in Ecclesia) e não “pela Igreja” (ab Ecclesia). Isto não é inocente: cento e trinta e dois Padres Conciliares pediram que se modificasse esta passagem, substituindo “in Ecclesia” por “ab Ecclesia”. A correção, é claro, foi recusada14.

João Paulo II explicou posteriormente: “O capítulo VIII de Lumen Gentium recorda o título de ‘medianeira’. Todavia, teve-se o cuidado de não ligá-lo a nenhuma teologia particular da mediação, mas de acrescentá-lo unicamente aos outros títulos reconhecidos a Maria”15. Em outras palavras: são títulos honoríficos, mas sem conteúdo objetivo.

b) Corredentora

O ensinamento tradicional é ainda mais explícito. Bento XV declara solenemente:

Ela sofreu com efeito e quase morreu com seu Filho sofrendo e morrendo,  abdicou de seus direitos maternos pela salvação dos homens e, tanto quanto lhe pertencia, imolou seu Filho para aplacar a justiça de Deus, de modo que se pode justamente dizer que ela, com Cristo, redimiu o gênero humano.16

São Pio X ensina: “Porque foi associada por Cristo à obra da redenção, ela nos merece de congruo [por conveniência], como dizem os teólogos, o que Cristo nos mereceu de condigno [de pleno direito], e ela é a ministra suprema da  dispensação das graças”17.

No entanto, Lumen Gentium faz desaparecer completamente a noção de corredenção. Em seu lugar, fala-se apenas de uma “cooperação”, isto é, de um assentimento interior à obra de seu Filho pelas virtudes ocultas de fé, obediência e esperança, sem fazer menção clara de uma eficácia própria à Virgem que seria fruto desta cooperação. Este esquecimento é puramente inocente?

Quando uma equipe de teólogos católicos e protestantes (o Grupo de Dombes) examinou estas expressões, eis qual foi sua reação:

O termo “cooperação” é mantido pelos textos oficiais católicos, como o capítulo  VIII de Lumen Gentium, cuja intenção ecumênica é evidente. […] Não há, portanto, forçosamente uma oposição entre a ‘cooperação’ no sentido católico assim expresso e a ‘resposta reconhecida do homem ao dom perfeito’ afirmada do lado protestante.18

A capitulação é completa. A doutrina católica foi reformulada de modo a não contradizer a posição protestante.

c) Maria Rainha

A doutrina tradicional afirma não apenas um título honorífico, mas uma soberania efetiva. Pio XII ensina: “A bem-aventurada Virgem não possui somente o grau supremo, depois de Cristo, da excelência e da perfeição, mas participa também   de algum modo da ação pela qual se diz com razão que seu Filho, nosso  Redentor, reina sobre os espíritos e as vontades dos homens”19.

São Luís Maria de Montfort é ainda mais explícito em sua doutrina:

Maria comanda nos céus sobre os anjos e os bem-aventurados. Para recompensa de sua humildade profunda, Deus lhe deu o poder e a comissão de encher de santos os tronos vazios de onde os anjos apóstatas caíram por orgulho. Tal é a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes, que o céu, a terra e os infernos dobrem-se, queiram ou não, aos comandos da humilde Maria, que Ele fez Soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de seus tesouros, dispensadora de suas graças, operária de suas maiores maravilhas, reparadora do gênero humano, medianeira dos homens, exterminadora dos inimigos de Deus e fiel companheira de suas grandezas e de seus triunfos.20

Lumen Gentium exclui tal atividade. A Virgem é reduzida à “primeira fila” entre os humildes que esperam a salvação: “Ela está na primeira fila destes humildes e pobres do Senhor que esperam e recebem dele a salvação com confiança”21. João Paulo II a banalizou ainda mais, referindo-se à ela apenas como “uma humilde mulher de nossa humanidade que se deixou conduzir pela ação interior do Espírito”22.

Neste momento, já estamos muito longe das honras prestadas à Virgem por Pio XII:

E o paraíso viu que ela era realmente digna de receber honra, glória e império, porque era mais cheia de graça, mais santa, mais bela, mais sublime, incomparavelmente maior que os maiores santos e os anjos, isoladamente ou reunidos, porque estava misteriosamente aparentada, na ordem da união hipostática, a toda a Santíssima Trindade. Porque associada, como Mãe  e  ministra, ao rei dos mártires na obra inefável da redenção humana, estava-lhe igualmente associada para sempre, com um poder por assim dizer infinito, na distribuição das graças que decorrem da redenção.23

IV. As táticas de guerra: fontes envenenadas e terra devastada

O Pe. Stephen Abraham compara o ataque conciliar à devoção mariana às táticas de um cerco militar: envenenar as fontes de água, destruir as pontes, devastar a terra ao redor para que os habitantes não encontrem nada que os possa socorrer.

a) As fontes envenenadas: a nova exegese

A Tradição é a palavra de Deus não escrita, comunicada de viva voz por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, chegada sem alteração até nós através da Igreja. A preocupação ecumênica do Concílio, que consiste em não dizer nada que possa desagradar aos protestantes, dá origem a uma nova doutrina que envenena as fontes da fé, fazendo com que as Sagradas Escrituras passem a asserir algo diferente e até mesmo o contrário do que sempre ensinou a Tradição.

Dois exemplos ilustram este método:

O protoevangelho (Gen. III, 15): com a “sola scriptura mariológica”, permanece certa obscuridade para se saber precisamente quem exatamente esmaga a cabeça da serpente. Lumen Gentium percebe ali certo anúncio da Virgem, mas sublinha sua falta de clareza: “prophetice adumbratur”24, isto é, ela é escondida, velada, esboçada profeticamente. Isto contrasta com a clareza de Pio XII: “A Imaculada esmaga sob seus pés a serpente infernal”25. Cento e quarenta e quatro Padres Conciliares pediram que o termo “adumbratur” fosse substituído pelo termo “designatur”, muito mais preciso, que Pio IX empregara na bula Ineffabilis Deus. O pedido foi rejeitado26.

Aos pés da Cruz (Jo. XIX, 26-27): A Tradição é unânime em ver nas palavras de Jesus a sua Mãe e a São João a declaração da maternidade espiritual da Santíssima Virgem sobre todos os homens. Leão XIII afirma: “Jesus a proclamou do alto da cruz, quando confiou a seus cuidados e a seu amor a totalidade do gênero humano na pessoa do discípulo João”27. Mas Lumen Gentium atém-se à sola scriptura mariológica: “Finalmente, o mesmo Cristo Jesus, morrendo na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, dizendo: ‘Mulher, eis teu filho’”28. A omissão da maternidade universal é voluntária: o texto proposto aos Padres Conciliares em 27 de outubro de 1964 afirmava ainda que São João, ao receber Nossa Senhora como mãe, representava todos os fiéis (“fidelium figuræ”). Doze Padres pediram a supressão destas duas palavras antes da votação final, e apressaram-se em satisfazê-los29.

b) A terra devastada

Na guerra de desgaste, nada deve subsistir que possa alimentar o inimigo. O Concílio declara não ter “a intenção de propor um ensinamento completo a  respeito de Maria”30, deixando liberdade às opiniões livremente propostas nas escolas católicas. Mas liberdade, de fato, apenas para os teólogos mais desviantes, pois os outros são condenados de antemão por seus propósitos “exagerados”, “maximalistas” e não ecumênicos.

Não se faz nenhuma menção da devoção que tem preeminência sobre as outras,  o Santo Rosário. Esta menção foi pedida pelos Padres, mas recusada em nome do ecumenismo. Não há menção alguma das aparições de Nossa Senhora aprovadas pela Igreja, nem do Imaculado Coração de Maria e de Fátima.

V. De Lumen Gentium à Mater Populi Fidelis: a colheita dos frutos

A nota Mater Populi Fidelis não faz senão colher os frutos das sementes plantadas no Concílio. Quando se pediu à Academia Pontifícia Mariana, em 1996, que estudasse “a possibilidade ou oportunidade de definir um novo dogma de fé sobre Maria corredentora, medianeira e advogada”, sua resposta foi “clara e unânime”: “Não é oportuno abandonar a via traçada pelo Concílio Vaticano II. […] Uma tal definição não está na linha das grandes orientações do grande texto mariológico do Vaticano II”31. Os teólogos, especialmente os não católicos, expressaram sua preocupação quanto às dificuldades ecumênicas32.

A nota do Cardeal Fernández inscreve-se perfeitamente nesta continuidade. Os mesmos argumentos ecumênicos são invocados; a mesma preocupação em não atribuir a Maria uma participação ativa e eficaz na obra da Redenção; a mesma referência a Lumen Gentium 62 como autoridade. Não há ruptura, mas culminação de um processo de sessenta anos.

VI. A raiz do ataque: o orgulho luciferino contra a humildade da Imaculada

Por que este ataque sistemático à devoção mariana? Por que este esforço constante para diminuir a Mãe de Deus? A resposta deve ser buscada nas profundezas espirituais do combate entre a Mulher e a serpente.

a) Maria como antítese perfeita do orgulho luciferino

Eva cedeu à tentação de “ser como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gen. III, 5). Maria respondeu: “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc. I, 38). O Fiat de Maria é a resposta perfeita ao Non serviam de Lúcifer.

A humildade da Imaculada, esta disposição de receber tudo de Deus, de não reivindicar autonomia e de submeter-se inteiramente à vontade divina, é insuportável para aqueles que recusam submeter-se à fé. Ela lembra constantemente que a criatura não é autônoma, que deve receber a salvação como dom, que não pode determinar por si mesma o bem e o mal.

b) Os erros modernos como manifestações do orgulho luciferino

O liberalismo proclama a autonomia absoluta da razão e da vontade humana, recusando toda autoridade que não emane do próprio homem. O modernismo reduz a fé a um sentimento religioso subjetivo, recusando a Revelação objetiva comunicada pela Igreja. O naturalismo rejeita o sobrenatural, pretendendo que o homem pode salvar-se por suas próprias forças. O racionalismo erige a razão humana como único critério de verdade, recusando os mistérios que a ultrapassam. O relativismo nega que existam verdades absolutas, tornando o homem medida de todas as coisas.

Todos estes erros têm uma raiz comum: o orgulho que recusa depender de Deus, que recusa receber, que reivindica para o homem a autonomia que Satanás prometeu a nossos primeiros pais. É o espírito daqueles que, segundo São Paulo, são “inimigos da cruz de Cristo” (Fl. III, 18).

c) Por que atacar especificamente os títulos de Corredentora e Medianeira

Os títulos de Corredentora e Medianeira de todas as graças afirmam que Maria participou ativamente na obra da Redenção, não como simples beneficiária passiva, mas como cooperadora real, merecendo para nós de congruo o que Cristo mereceu de condigno. Ela não é um mero modelo de fiel, mas, efetivamente, causa secundária e subordinada da salvação dos fiéis. Estes títulos afirmam uma eficácia verdadeira, não meramente simbólica. Exigem de nós uma dependência filial em relação a Maria, não uma simples admiração distante.

Ora, isto é insuportável para o orgulho luciferino moderno. Admitir que precisamos de Maria, que não podemos ir a Cristo senão por ela, que devemos nos submeter  a esta humilde criatura para receber as graças da salvação é algo que humilha profundamente a pretensão de autonomia. É mais fácil aceitar um Cristo longínquo, que não exija submissão concreta a nenhuma mediação visível, do que aceitar passar pela Mãe.

A verdade é que para os modernistas, sendo propriamente insurgentes revolucionários, a ideia de possuir uma mãe que lembre de onde vieram e qual é a verdade sobre quem são é insuportável. O sonho modernista é um sonho parricida e matricida próprio de uma psicopata como Suzane von Richtofen: só poderá ser feliz quando se livrar dos pais.

Além disso, confessar Maria Corredentora é confessar que a Redenção foi uma obra real, sangrenta e sacrificial, e não um símbolo ou uma metáfora. É confessar que Cristo verdadeiramente morreu para aplacar a justiça divina, e que Maria verdadeiramente se associou a este sacrifício. Ora, os inimigos da Cruz de Cristo não suportam esta doutrina.

d) O pé de Maria sobre a cabeça da serpente

Diminuir Maria é, em última instância, aliviar o peso de seu pé sobre a cabeça da serpente. É dar espaço ao demônio, enfraquecer a vitória de Cristo aplicada por sua Mãe. Os que trabalham para diminuir a devoção mariana, conscientemente ou não, trabalham para a sinagoga de Satanás.

São Luís Maria de Montfort o disse claramente: Deus fez Maria “exterminadora  dos inimigos de Deus”33. É por isso que os inimigos de Deus a odeiam com ódio especial e trabalham incansavelmente para diminuí-la aos olhos dos fiéis.

VII. A verdadeira devoção como resistência espiritual

Face a este ataque sistemático, que fazer? Manter a verdadeira devoção à Santíssima Virgem, tal como a Santa Igreja sempre a ensinou, não a versão diluída proposta pelos textos conciliares e seus herdeiros.

O Santo Rosário permanece a arma por excelência. O Imaculado Coração de Maria permanece nosso refúgio, como prometeu Nossa Senhora em Fátima: “Meu Imaculado Coração será teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”34. A consagração ao Imaculado Coração permanece o meio mais seguro de pertencer inteiramente a Jesus por Maria.

E, sobretudo, devemos ter confiança absoluta na vitória final. Nossa Senhora prometeu em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”35. Este triunfo virá, apesar de todos os esforços dos inimigos de Maria para diminuí-la. O pé da Imaculada continuará a esmagar a cabeça da serpente, quer os modernistas queiram, quer não.

VIII. Conclusão

A nota Mater Populi Fidelis não é uma novidade, mas a culminação lógica de um processo iniciado no Concílio Vaticano II. As sementes plantadas no Capítulo VIII de Lumen Gentium, a preocupação ecumênica, a recusa de “exagerar” os privilégios marianos, o esvaziamento dos títulos tradicionais, continuam a exalar a fétida fumaça de Satanás sessenta anos depois.

Por trás deste ataque sistemático, discernimos a ação do orgulho luciferino, que não suporta a humildade da Imaculada. Os erros modernos como o liberalismo, modernismo, naturalismo, racionalismo e relativismo, são manifestações deste orgulho que recusa submeter-se à fé, recusa receber a salvação como dom, recusa passar pela mediação de Maria para chegar a Cristo.

Mas a vitória final pertence à Mulher vestida de sol. Seu Imaculado Coração triunfará. Enquanto aguardamos este triunfo, mantenhamos firme a verdadeira devoção à Mãe de Deus, rezemos o Santo Rosário, consagremo-nos ao seu Imaculado Coração. E façamos nossa a oração que encerra o Ofício da Santíssima Virgem: “Dignare me laudare te, Virgo sacrata. Da mihi virtutem contra hostes tuos” — “Permiti que eu vos louve, ó Virgem sagrada. Dai-me força contra vossos inimigos”.

Notas

  1. São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, livro 4, cap. 9; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 124.
  2. Expressão empregada pelo Pe. Victor-Alain Berto em carta de 30 de novembro de 1963. Cf. Le Sel de la terre 43, p. 29-30.
  3. Karl Rahner, citado por Ralph M. Wiltgen, Le Rhin se jette dans le Tibre, Paris, Cèdre, 1973, p. 90.
  4. Lumen Gentium, n. 67.
  5. Pio XII, Encíclica Ad Cæli Reginam, 11 de outubro de 1954 (grifo nosso).
  6. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 25, a. 6.
  7. São João Damasceno, 1ª Homilia para a Dormição da Santíssima Virgem, 10 (PG 96, 715); citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 126.
  8. João Paulo II, 3 de janeiro de 1996; ORLF 2400 (9 de janeiro de 1996), p. 8; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 127.
  9. Le Sel de la terre 43, p. 41. Este juízo, datado de 29 de outubro de 1964, refere- se a uma versão anterior do texto, quase idêntica à versão final.
  10. Leão XIII, Encíclica Octobri Mense, 22 de setembro de 1891; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 127.
  11. Pio XII, Encíclica Mediator Dei, 20 de novembro de 1947; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 127.
  12. Nossa Senhora de Fátima, 13 de julho de 1917.
  13. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, § 24.
  14. Lumen Gentium, n. 62.
  15. Acta synodalia, vol. III, pars VIII, p. 163.
  16. João Paulo II, 2 de outubro de 1997; ORLF 2489 (7 de outubro de 1997), p. 8; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 129.
  17. Bento XV, Inter Sodalicia, 22 de maio de 1918.
  18. São Pio X, Encíclica Ad Diem Illum, 2 de fevereiro de 1904.
  19. Grupo de Dombes, Marie dans le dessein de Dieu et la communion des saints, 1998, § 212; DC 2187, p. 725; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 128-129.
  20. Pio XII, Encíclica Ad Cæli Reginam, 11 de outubro de 1954.
  21. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção, § 28.
  22. Lumen Gentium, n. 55.
  23. João Paulo II, 16 de dezembro de 1997; ORLF 2532 (11/18 de agosto de 1998), p. 3; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 133.
  24. Pio XII, discurso para o coroamento de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio de 1946; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 133.
  25. Lumen Gentium, n. 55.
  26. Pio XII, discurso de 26 de julho de 1954; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 131.
  27. Acta synodalia, vol. III, pars VIII, p. 156.
  28. Leão XIII, Encíclica Octobri Mense, 22 de setembro de 1891; citado em Stephen Abraham, “La sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 132.
  29. Lumen Gentium, n. 58.
  30. Acta synodalia, vol. III, pars VIII, p. 161 e 169.
  31. Lumen Gentium, n. 54.
  32. Academia Pontifícia Mariana, 4 de junho de 1997; cf. Le Sel de la terre 35, p. 207 e 222-226; citado em Stephen Abraham, “La Sainte Vierge à Vatican II”, Le Sel de la terre 45 (2003), p. 129.
  33. Ibidem.
  34. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção, § 28.
  35. Nossa Senhora de Fátima a Lúcia, 13 de junho de 1917.

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