O diaconato feminino e as tentativas de justificar o injustificável

No início de dezembro, o Vaticano anunciou que a Comissão de Estudos sobre o diaconato feminino emitiu um parecer negativo quanto à possibilidade de ordenar mulheres ao diaconato. A notícia entristeceu os progressistas, que lamentaram a “oportunidade perdida”. Por outro lado, os conservadores saudaram o anúncio, esquecendo-se ou ignorando que o parecer esclareceu que a negativa não era absoluta e sugeriu a realização de mais estudos sobre o tema.

Entretanto, ambos os grupos parecem não ter lido o parecer em si, limitando-se às manchetes de sites católicos ou a postagens em redes sociais. Essa omissão é injustificável, pois o documento é breve e contém informações valiosas que revelam a mentalidade das autoridades em Roma.

O parecer inicia com um breve histórico, recordando que a primeira comissão sobre o assunto (criada em 2016) concluiu que as diaconisas dos primeiros séculos não eram equivalentes femininas aos diáconos. Apesar disso, e sem qualquer explicação lógica, foi instituída uma segunda comissão, responsável pelo parecer apresentado no início deste mês.

Para surpresa de ninguém, essa segunda comissão também reconhece que as diaconisas dos primeiros séculos não equivaliam aos diáconos masculinos. No entanto, o texto defende que a “possível” ordenação de mulheres ao diaconato ainda merece análise aprofundada.

Nesse ponto, a comissão atual (composta por cinco homens e cinco mulheres, para evitar acusações de machismo) divide-se em duas correntes: a católica, que defende a unidade substancial entre os graus do sacramento da Ordem (diaconato, presbiterato e episcopado); e a heterodoxa, que argumenta que a restauração da ordenação de diáconos permanentes pelo Concílio Vaticano II indicaria que o diaconato não faz parte integral do sacramento da Ordem.

Ao avaliar a questão — que deveria ser óbvia —, isto é, de se o sexo masculino é essencial ou acidental para os candidatos à Ordem, a comissão dividiu-se exatamente ao meio. Porém, de forma ainda mais inexplicável, apenas quatro membros votaram pela impossibilidade de ordenar mulheres ao diaconato. A única conclusão lógica é que um dos membros considerou o sexo masculino essencial para a ordenação, mas, paradoxalmente, não se opôs à ordenação de mulheres ao diaconato. Para coroar o absurdo, a proposta de novos “ministérios” abertos às mulheres recebeu apoio unânime. A comissão não especificou exatamente quais seriam esses ministérios, mas, considerando que a maioria absoluta dos chamados Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística, catequistas e acólitos já é composta por mulheres, isso sugere a possibilidade real de ser criado um “ministério diaconal não ordenado” — ou qualquer nome similar que se invente.

Seria algo semelhante à bênção permitida pela declaração Fiducia Supplicans, de 2023, que abriu as portas para abençoar duplas homossexuais sob a justificativa de que a “bênção é para as pessoas, não para o casal”. Na prática, uma eventual “bênção” para tornar uma mulher “diaconisa não ordenada” seria similar ao ritual de ordenação diaconal, mas com a omissão de certos elementos. É evidente que, para a maioria dos fiéis, isso faria pouca diferença, pois eles tratariam as futuras “diaconisas” como equivalentes aos diáconos permanentes.

Embora seja positivo que uma (falsa) ordenação de mulheres ao diaconato não tenha recebido um parecer favorável, a realidade é de que a questão nem deveria estar em debate, pois é claro que mulheres não podem ser ordenadas (e o diaconato é um dos graus do sacramento da Ordem).

O fato de mulheres não poderem receber o sacramento da Ordem não é defendido apenas por católicos tradicionais e o Magistério pré-conciliar, mas também por dois dos Papas pós-conciliares.

Em 1976, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou o documento Inter Insigniores, aprovado pelo Papa Paulo VI. O texto afirma que a Igreja não se considera autorizada a ordenar mulheres como sacerdotes, fundamentando-se na fidelidade ao exemplo de Jesus Cristo, à prática dos Apóstolos e à Tradição ininterrupta da Igreja. Além disso, enfatiza a representação sacramental de Cristo (como homem) enquanto Esposo da Igreja, o que exige um sinal masculino nos receptores do sacramento da Ordem.

Já em 1994, O Papa João Paulo II publicou a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, reafirmando a doutrina católica de que a ordenação é reservada exclusivamente aos homens. O documento baseia-se na Tradição apostólica, na Sagrada Escritura e no Magistério da Igreja, destacando que Cristo escolheu apenas homens como Apóstolos não por influências culturais, mas de acordo com o plano divino.

Obviamente, esses documentos focam na proibição da ordenação sacerdotal de mulheres, mas apenas alguém ingênuo negaria que esse é o objetivo final dos revolucionários, já que eles o admitem abertamente.

Há pouco o que se comemorar.

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