Hoje completam-se 152 anos do nascimento de G. K. Chesterton, nascido em 29 de maio de 1874, e é curioso perceber como, além da data comemorativa, também permanecem entre nós muitos dos males contra os quais o Apóstolo do Senso Comum combateu e que insistem em sobreviver ao tempo.
Lendo o que escreveu Gustavo Corção, em 1974, por ocasião do centenário de Chesterton, e observando a gratidão com que recorda a vigilância de Antônio Olinto, que o lembrou da data a tempo de escrever uma saudação digna do acontecimento, não pude deixar de recordar situação semelhante. O editor-chefe desta mesma revista fez-me pedido parecido, ao falar sobre Chesterton e Corção — embora a vigilância, desta vez, pareça ter assumido contornos ligeiramente mais ameaçadores.
À primeira vista, Chesterton e Corção podem parecer figuras bastante distintas. O leitor apressado que pesquise o nome de Corção encontrará facilmente referências ao suposto “apóstolo da linha-dura” (PAULA, 2012). Já Chesterton costuma aparecer cercado por relatos que destacam o afeto e a admiração que despertava até mesmo entre seus adversários. Apesar dessa aparente discrepância, havia no âmago de ambos uma mesma engrenagem, responsável por mover todo o mecanismo de suas respectivas máquinas jornalísticas.
Já é amplamente conhecida a cordialidade com que G. K. Chesterton tratava seus oponentes intelectuais. Estamos acostumados a ler depoimentos de Herbert George Wells, George Bernard Shaw e tantos outros, descrevendo como, apesar de discordarem em quase tudo dele, mantinham com ele uma relação de amizade e estima raramente vista nos dias atuais, quando as discordâncias parecem, ao fazer saltar as veias do pescoço, fazer aproximar os homens mais do infarto do que do céu. O que se comenta menos, entretanto, é que relações semelhantes também marcaram a vida de Gustavo Corção.
Não é objetivo deste artigo realizar um estudo histórico da intelectualidade católica brasileira do século XX, grupo do qual Corção foi um dos membros mais relevantes. Contudo, tendo ele rompido com o Centro Dom Vital e se afastado de Alceu Amoroso Lima, é possível encontrar, nos recônditos da história, episódios que revelam um lado de Corção — e, em certa medida, do próprio Alceu — pouco conhecido pelos leitores contemporâneos. Um desses episódios ocorreu por ocasião do grave acidente sofrido por um dos filhos de Alceu:
Às 7 e meia, volto ao Corção. Vi luz acesa. Devia estar. Bato à porta. Ele mesmo entreabre o postigo e abre, com um sorriso muito acomodado. Como está velhinho!
“Corção, deixe explicar-lhe logo o motivo da minha visita. Você sabe que estou com um filho passando muito mal.” “Sei e tenho rezado por ele todos os dias.” “Eu já sabia, pelo Octávio (de Faria), do seu interesse pelo caso, e fico-lhe grato. Não me leve a mal se, nesta visita, venho lhe contar como tudo se passou: meu filho ainda estava em estado de coma. Durante a missa, pergunto a Nosso Senhor: ‘Qual o maior sacrifício que posso fazer, pela vida de Jorge?’ E Ele, sem hesitar: ‘Uma visita ao Corção’. Relutei mas acabei no fiat. Ao chegar ao hotel, diz-me minha mulher: ‘Telefonaram do hospital dizendo que Jorge começou a se mexer’. E logo meu genro telefona do hospital: ‘Jorge abriu os olhos’ ”. Corção se levantou e me deu um beijo. Eu ainda disse: “Nossas divergências são de idéias, mas no Coração de Jesus estamos unidos, agora e para sempre”. Ele começou a chorar, convulsamente, e me abraçou, pois eu já me levantara. Beijei-lhe a mão e saí (INSTITUTO MOREIRA SALLES, 2003, p. 997).
É um fato notável, como no-lo diz o próprio Corção em seu romance Lições de Abismo:
Parece-me entrever um vislumbre de solução: na frase de Voltaire, como nos compêndios de lógica, o homem é aquilo que como tal se define; é o animal racional ou o bípede implume ou que outra definição lhe arranjem.
Na página de Machado ou de Goethe, a pessoa — e já não digo amada — é uma outra realidade, vista em outra perspectiva. Não importa se continua a pertencer a uma inumerável espécie e a merecer a mesma definição.
Era um homem-em-geral, como dizia Ivan Ilitch; agora é primordialmente outra coisa: um ser que existe, que tem consciência desse fato inefável, e que por essa singularidade não se cansa de dizer consigo mesmo que há dois universos distintos, o eu e o não-eu. Onde eu quero chegar é que há muitos modos de ver um indivíduo. (CORÇÃO, 2018, p. 58).
Ele mesmo ainda diz-nos:
A Caridade não é fina, não faz cerimônias, não tem meias medidas. Não tem mãos de fada, mas mão pesada de mãe e de enfermeira. Seu hálito é quente, seu contato é espesso. Desce em nossa carne, tem cheiro, é palpável, e nada achou melhor do que entrar no pão para ser comida. Os amigos que se encontram gostam de apertar as mãos, precisam apertar as mãos; e quando se abraçam, ficam grudados como se um fosse a cruz do outro. A amizade exige essa crucificação, o calor, a força, o contato. E quando o amor humano se completa no sexo, a Caridade empurra os noivos a se provarem pelas bocas, e os esposos a se colarem pelas feridas de uma mutilação. A Caridade não gosta de abstrações, de ideias gerais, mas de vinho e de pão; de carne e de sangue. Não entende de instituições, mas de contatos vivos. E corpo que se entrega e sangue vertido pelos amigos; é beijos nas escamas dos leprosos e saliva misturada com terra dos caminhos… (CORÇÃO, 2017, p. 234-235).
Na vida de Corção, Chesterton parece ter sido um dos grandes instrumentos da Graça de Deus. O próprio escritor não se cansava de agradecer a Providência por esse encontro, recordando os dias de desolação em que,
[não se cansa] de agradecer a Deus o fato de ter encontrado Chesterton nos dias de desolação em que, sempre crendo em Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, das coisas visíveis e invisíveis, não conseguia, entretanto, encontrar a alameda e a porta de Sua Casa. (CORÇÃO, 1974).
E, uma vez encontrada a porta, Corção não hesitou em atravessá-la, abraçando integralmente aquilo que julgava ser a verdade. Foi justamente essa adesão sem reservas que lhe conferiu uma qualidade profundamente chestertoniana — e profundamente católica: o gosto pelo combate.
Essa disposição para o combate não passou despercebida a Corção. Em Três Alqueires e Uma Vaca, ao refletir sobre Chesterton, escreve:
Chesterton, a bem dizer, exige de nós alguma coisa mais elementar e mais primordial do que a boa vontade para compreender: ele exige a boa vontade, ao menos para brigar. Isso, a seu ver, constitui a exigência mínima, fraternal e cristã que se pode fazer ao próximo. E por isso lançava-se contra o liberalismo conciliador, o espírito largo do século, que transformava o patrimônio da inteligência humana num bric-à-brac indiscriminado. (CORÇÃO, 1953, p. 59).
Não surpreende, portanto, que o próprio Corção tenha travado uma verdadeira guerra em defesa daquilo que considerava ser a integridade da fé católica. Convencido de que determinadas inovações surgidas após o Concílio Vaticano II representavam um grave perigo para a Igreja, dedicou durante anos suas colunas em O Globo à denúncia daquilo que julgava serem erros promovidos pela própria hierarquia eclesiástica.
Indiferente ao ostracismo ao qual sabia estar se condenando por suas opiniões, Corção levou às últimas consequências uma das lições mais importantes de Chesterton:
Um dos maiores erros do mundo moderno é o hábito de pregar um vago dever de lutar sem pregar nenhuma doutrina pela qual lutar. Pregue o seu dogma, e a luta virá: o dogma não vem para trazer paz, mas uma espada. (CHESTERTON, 1906).
Essa lição era tão cara a Chesterton que ele lhe dedicou um de seus romances mais conhecidos, The Ball and the Cross, cuja essência Corção resume da seguinte forma:
Em A Esfera e a Cruz, espécie de romance simbólico e apocalíptico, reaparece o personagem obsessivo de Chesterton, em luta implacável, mas por fim, cordialíssima, com o ateísmo desvairado da época. Na verdade, porém, não é o ateu Tornbull o adversário; não, em A Esfera e a Cruz, o espírito hediondo que Chesterton detesta, como detesta o Diabo, é o liberalismo que pretende evitar o confronto e a luta entre o Bem e o Mal. O personagem mais repugnante da sucessão de figuras que se levantam contra o Combate é o pacifista, contra o qual Chesterton não disfarça sua náusea extrema. Porque Chesterton foi sempre um guerreiro. Em tempo e contratempo combateu o bom combate, e guardou a Fé até o momento supremo em que o Pe. Vicente, depois de ministrar-lhe a extrema-unção, ajoelhou-se aos pés da cama do agonizante e com piedade profunda beijou a pena que estava à mesa de cabeceira, como que a descansá-la também, depois de ter escrito mais de oitenta volumes a serviço de seu Rei e de sua Dama. (CORÇÃO, 1974).
Há muito mais que poderia ser dito sobre Chesterton, assim como sobre a influência que exerceu sobre tantos homens de seu tempo e das gerações posteriores. Talvez, porém, a maior homenagem que possamos prestar-lhe não esteja em multiplicar palavras a seu respeito, mas em conservar aquilo que ele próprio julgava indispensável: a coragem de combater o erro sem deixar de amar aqueles que erram.
Foi essa lição que Corção aprendeu com seu mestre inglês. Ambos compreenderam que a caridade não é o oposto do combate, mas uma de suas condições.
Rezemos, pois, por esses amigos que já não caminham conosco nesta terra, mas que, confiando, rezam por nós da eternidade. Ave Maria…
CHESTERTON, G. K. The secularity of England. The Daily News, Londres, 24 nov. 1906.
CORÇÃO, Gustavo. A descoberta do outro. 11. ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2017.
CORÇÃO, Gustavo. G. K. Chesterton. O Globo, Rio de Janeiro, 6 jun. 1974.
CORÇÃO, Gustavo. Lições de abismo. 16. ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2018.
CORÇÃO, Gustavo. Três alqueires e uma vaca. 3. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1953.
AMOROSO LIMA, Alceu. In: INSTITUTO MOREIRA SALLES (org.). Cartas do pai: de Alceu Amoroso Lima para sua filha Madre Maria Teresa. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2003.
PAULA, Christiane Jalles de. Gustavo Corção: apóstolo da “linha-dura”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 32, n. 63, p. 171–194, 2012.

