Objeção por objeção
Certas músicas, por populares que sejam, apresentam tamanha complexidade em sua letra que faz a opinião comum repugnar interpretações profundas e preferir desfrutar daquele evento sonoro como se fosse um serviço prestado sob o contrato da ignorância. Tu fazes, ó artista, e finjo eu que não ouço. E de fato, existem músicas compostas com a finalidade estrita de fazer dançar, excitar, distrair, temperar o ambiente etc. Isto, por sua vez, é o que tenho denominado caráter comercial ou fútil de uma peça, e não significa que não esteja inserido em um contexto cultural definido e que confere à obra ou ao autor um algo a mais sobre a inocência inicial com que foi feita.
Querendo exemplificar en passant: os afroamericanos que, sofrendo marginalização, iniciaram nos subúrbios seus concertos de hip hop não pensavam em fazer daquilo uma vertente identitária de black music, apenas expressavam sua musicalidade com as condições que tinham, para festejar entre amigos, e houve uma apropriação dinâmica e natural (v.g. as discotecas de Afrika Bambaataa) de sua espontaneidade por parte das causas políticas que hoje a permeiam.
Entretanto, há também o artista que emula a autenticidade e, querendo parecer isento de intenções segundas, faz de uma ideia impopular uma canção popular — no sentido de ser aclamada e famosa. Aqui podemos citar o Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que nos fala das repressões do regime militar brasileiro pós-AI 5, usando uma paródia de polifonia sacra de fundo e fazendo um trocadilho blasfemo com as falas de Nosso Senhor no Getsêmani: faixa de péssimo gosto. Porém, uma peça deste tipo que se sobressai entre todas por sua excelência técnica, pela profundidade da mensagem que esconde, e pelo verdadeiro enigma que propõe em sua forma é o objeto da presente análise: Frevo Mulher, composta por Zé Ramalho e gravada por Amelinha em 1979, em um álbum que levou o nome da faixa.
Antes de qualquer coisa, insistiremos na delicadeza de que este artigo não é uma direção espiritual, nem uma recomendação moral. Ensaiamos aqui crítica literária, não juízos de valor sobre pessoas quem quer que sejam e o que escutam.
Nos juízos de fato que queremos emitir, levaremos em consideração aquele aspecto do romantismo literário que estende-se, via letra, para o musical: o centro de preocupação do artista é, acima mesmo da Verdade e da Beleza, a emoção que ele quer provocar no seu interlocutor. Eis a chave da interpretação formal da relação entre música e letra, em Frevo Mulher, por apontarem para direções opostas como mais adiante demonstraremos.
O título já nos apresenta a chave de interpretação formal da letra em si: trata-se de anglicismo, um vício de linguagem que faz com que não anglófonos construam frases com sintaxe e coesão da língua inglesa, mas que aqui é usado conscientemente, a fim de dificultar o entendimento, como o dito; tornar enigmático. Destarte, o apelido que daríamos a uma mulher que dá-se excessivamente à dança seria o de mulher-frevo, mas o compositor nos fala da “frevo mulher”, que numa tradução estúpida de tão grosseira para o inglês seria algo como party woman. Seria como se traduzíssemos spider-man como “aranha-homem”. A faixa inicia-se com a sanfona de Dominguinhos e um triângulo para marcar o tempo, precedida com enfezadas cordas e sucedida pela voz de Amelinha, a quem a música foi dedicada.
Estrofe por estrofe
Com a licença do leitor, consideraremos como estrofe cada conclusão rimática:
Quantos aqui ouvem
Os olhos eram de fé
Quantos elementos
Amam aquela mulher.
O ritmo escolhido para a peça foi o forró, que é um gênero de música de salão, além da referência diegética ao público em quantos aqui ouvem, porém a sobriedade da voz e do instrumental, o hermetismo da letra e a pobreza das rimas nos remete mais à chamada MPB do que ao forró tradicional.
Temos uma dinâmica de emulação: é música de vitrola tocada como se fosse música de baile, a fim de provocar os mesmos afetos de um grande evento de dança. Nesta introdução, a sanfona despida de floreios parece uma simples gaita de boca — instrumento amplamente difundido pelo folk, gênero estimado por Zé Ramalho —, as cordas batem bravas e metálicas, mas não elétricas, e o triângulo é rápido e firme, mas não ruidoso. É lindo, mas, levado pela sobriedade, é impróprio para o salão.
Os olhos eram de fé, é um verso de muito difícil compreensão: pode significar a suposição de conhecimento pregresso da mensagem por parte do interlocutor, mas que não reparou melhor nela por brutalidade ou acídia. Algo como: o que vais ouvir já o sabes, mas de certo modo que ainda não puseste em prática a prudência a que se vincula.
A repetição do termo quanto possui força de interjeição (quantos!), querendo apontar a uma grande quantidade. Aqui, vemos um eu lírico que dirige-se a um grande público falando sobre uma mulher. Os elementos que amam significam o interesse sexual; sob o equívoco nome de amor, são elementos, indivíduos, homens, e são muitos. Fala-se ao público, mas fala-se sobre o íntimo.
Quantos homens eram inverno
Outros, verão
Outonos caindo secos
No solo da minha mão.
Aqui, a identidade do eu lírico flui do narrador em terceira pessoa (que chamava a protagonista de aquela mulher) para a primeira pessoa (sendo agora ela própria a falar de minha mão, o emprego do pronome possessivo denuncia-lhe), inicia-se uma dinâmica de alternância das identidades conformadas às estrofes. A aliteração entre outros e outonos reforça o caráter introspectivo da peça.
Tantos são os homens por ela conquistados que se pode categorizar: uns são frios como o inverno, outros são quentes como verão, e outros caem secos como outono. No Nordeste brasileiro, a expressão “secura” quer dizer ânsia, grande desejo, então “cair seco” significa “ir com muita sede ao pote”. O que explica o solo da minha minha mão, uma vez que como as folhas caem no solo, durante o outono, os homens simbolizados por esta estação se colocariam muito facilmente numa posição de submissão aos encantos da nossa protagonista, estando “na mão” dela.
Mas percebam que falta uma estação. Falta a primavera. Justamente a estação que é conhecida pela fertilidade, pela frutuosidade e beleza sazonal, mas beleza que sempre volta; justamente esta não é citada: os relacionamentos em que esta Frevo investia não traziam frutos reais para si nem para ninguém. Os frutos do amor erótico são os filhos, a prole, tão naturais quanto a primavera.
De acordo com o Padre Ivan Chudzik (cf. Sermão de Pentecostes, 2025), a desordem afetiva que dá origem à promiscuidade é inerentemente contraceptiva, pois a bondade remota da fecundidade repugna a sede por prazeres gratuitos e imediatos.
Mas sigamos, veremos as consequências disto.
Gemeram entre cabeças
A ponta do esporão
A folha do não-me-toque
O medo da solidão.
A identidade do eu lírico retorna ao narrador. Gemer entre cabeças é a expressão do sofrimento de um amor efêmero, do desejo frustrado dos muitos elementos, agora referidos como outro nome objetificador de cabeças, como em “cabeças de gado”, também aludindo ao setor do corpo que sedia a mente, na qual repousa o encanto da mulher.
A ponta do esporão nos remete tanto às esporas — o acessório de montaria que serve para comover uma besta subjugada a avançar — como também àquela formação óssea do calcanhar, que na poesia clássica remonta ao mito do calcanhar de Aquiles — o ponto fraco de um guerreiro invencível —, figura poética a que o compositor já demonstrou apreciar na música Chão de Giz, em que canta: “Pra sempre fui acorrentado em seu calcanhar”.
O termo “a” que inaugura este segundo verso pode ser tanto um artigo, ao encararmos toda estrofe como uma enumeração de coisas com fim de descrever um cenário, como pode ser uma preposição, se considerarmos a ponta do esporão como a causa do gemido, em ambas abordagens não há prejuízo da mensagem.
Em folha do não-me-toque, folha é usado no lugar de papel, a fim de dificultar gratuitamente o entendimento, já que o fazer papel de algo significa fingir tomar alguma atitude; neste caso é dissimular uma escassez, forçar-se a ser menos interessada a fim de se tornar sedutora, o que é contrabalanceado pelo medo da solidão: o mote que, mais propriamente na psicologia feminina, é o princípio de toda a impureza. Se o medo contrasta-se com o fingimento de desinteresse pela verdade e intimidade, age em conjunto com tal papel para o efeito de seduzir maliciosamente.
É o velho dilema de Bourdieu, o sujeito que deseja dominar termina dominado por sua obstinação. Aqui o vício torna-se cíclico, cúpido, dependente e — ainda — infrutífero, seja por sua dissimulação ou por sua acídia.
Veneno, meu companheiro
Desata no cantador
E desemboca no primeiro
Açude do meu amor.
A identidade vai novamente à protagonista, também indicada pelo emprego dos possessivos, e a rima dobra a frequência: o terceiro verso responde ao primeiro e — como nas demais estrofes — o quarto ao segundo.
O veneno é a bebida, que está sempre presente em ambientes de baile propícios às tensões evocadas pela letra, donde vem a gíria “no veneno”, que quer dizer tanto a propensão à paquera, como à dança, como aos efeitos do álcool ou outros psicoativos. Desata no cantador é o atributo do veneno que alude a seus efeitos de maior sociabilidade e menor escrúpulo, os cantadores sertanejos utilizam da bebida forte para aquecer a garganta e perder a timidez nas performances, aqui este costume é posto em analogia com ao jogo de sedução difusa proposto pela personagem.
Desemboca no primeiro açude é o alagamento do critério afetivo-sexual através do aumento da cupidez, e a concessão ao desejo recalcado que é posto como sendo a água represada num açude. Esta imagem pode ter sido escolhida para fazer referência a um elemento do sertão nordestino, pois o açude é algo presente naquele cenário de água escassa. Faz-se interessante o paradoxo de desembocar numa represa, isto é, de jamais encontrar satisfação plena pela inevitável necessidade de continência.
Este feminino don-juanismo — para utilizar a expressão de Camus — não é menos utópico do que o masculino, é apenas mais discreto. Na peça ele é tratado com sinceridade, senão na mente da personagem, na exposição dinâmica de seus sentimentos.
É quando o tempo sacode a cabeleira
A trança toda vermelha
Um olho cego vagueia
Procurando por um
Chegamos à estrofe conclusiva, após a qual toda letra simplesmente repete-se. Quem fala é o narrador, e o padrão rimático é abandonado em prol do anglicismo: os três primeiros versos correspondem-se entre si, e o derradeiro não tem rima. Aqui, os artistas de palco largo denunciam não saber nada daquilo sobre o que estão cantando, pois em muitas performances cantam “É quando o vento sacode a cabeleira” (Elba Ramalho et caterva).
Em que pese que a similaridade entre tempo e vento seja intencional, e que o mais comum é o cabelo ser sacudido pelo vento, a imagem do tempo sacudindo o cabelo é indispensável para a letra.
As tranças de uma menina são símbolo de sua imaturidade, a partir do que não se faz uso delas após sua debutância, quando a moça apresenta-se na qualidade de mulher. Que o tempo a sacuda significa a maturidade, no viés sexual, e a cor vermelha indica o rubor das faces, o pudor que, dentro desta negra ficção, deve sacudir-se (aniquilar-se) juntamente a imaturidade, por obra do tempo naturalmente. Vale notar que Amelinha tinha o cabelo avermelhado.
A expressão aparentemente incompleta “procurando por um” é mais um anglicismo que pretende traduzir looking for someone, procurando por alguém, significando a busca desordenada da jovem mulher por um parceiro. A cegueira e a vaga (de vaguear, donde o pejorativo “vagabundo”) são a falta de critério rigoroso para o assentimento afetivo, secura, carência, cegueira de medo (da solidão).
Como sobredito, após esta estrofe a peça repete toda a letra, esta repetição é um convite para repararmos no caráter ambíguo de tudo o que nela é aclamado, o persistente lado obscuro das realidades que aqui reclamam a luz. A louvada solteirice egoísta, de flores sem primavera, de rosas com espinhos de esporas, de medo, de fingimento e de envenenamento, é doce apenas em sua capa, mas o tempo demonstra sua amargura, para não dizer seu azedume.
Quando o tempo sacode a cabeleira, o cabelo solto de uma mulher madura é símbolo de sua beleza, é seu atrativo mais honesto. Quando o tempo lhe sacode essa cabeleira, isto é, quando passa a jovialidade e a formosura, vai-se o ritmo festivo com que a vida foi infelizmente levada, ritmo simbolizado pelo trançado vermelho, que também é parte do figurino feminino no frevo e na quadrilha junina. Passado o tempo de semear roubando, já não se encontram os frutos, e resta apenas a temida solidão: o olho cego (pela idade) vagueia procurando por um (por alguém que tenha permanecido, you mean).
À luz dos verdadeiros olhos da Fé
Santo Agostinho, num santo opúsculo, nos ensinou que são três os bens do matrimônio: a prole, a fidelidade e o sacramento. Os dois primeiros destes bens foram reconhecidos pela sabedoria natural, mesmo antes de Nosso Senhor elevar universalmente esta justa instituição a sacramento de Sua indivisível e insuperável Igreja, conferindo-lhe assim mesmo o terceiro bem (o caráter divino, indissolúvel, sagrado).
A peça aqui analisada — composta no frenesi dos anos 1970, num Brasil laicizado há quase um século e com divórcio há pouco legalizado — ao tratar dos dramas de uma vida incontinente, nada mais faz que demonstrar os males manifestos pela ausência dos bens do matrimônio cristão.
Revire os olhos, leitor estrangeiro, à vontade. Mas antes queira ver que o casamento é uma instituição natural confirmada pelo sobrenatural, realizada em benefício da sociedade, do bem comum, acima mesmo do bem particular das partes. Nele, a mulher faz-se ministra, veste-se de honra, publica suas intenções, assente em plena consciência e liberdade, é priorizada, protegida, senhora, não por fingimento mas por honestidade, e seu corpo encontra a felicidade por gosto e por direito, nunca um sem o outro.
Mas Frevo, não desfruta da fidelidade, ela mesma que vai à multidão; não desfruta da prole, seja no amor puro para com os filhos — que é a elevação ao divino da preferência por eles, visível até mesmo nos animais —, seja mesmo na garantia de que cuidarão de si na velhice, quando o corpo falhar; não desfruta do sacramento, pois quem o valida (Jesus Cristo) não aceita dissimulações.
O matrimônio não é, como reza o dogma freudiano, uma fábrica de neuroses em que as pessoas escolheram se preocupar demais com coisas que poderiam ser leves. O matrimônio é solução natural, universal, do senso comum para o problema contingente da vulnerabilidade feminina e infantil, qualquer promessa de realização afetiva que o desconsidere é mentirosa, e tem consequências sociais gravíssimas, sobretudo para os mais pobres.

