Embora criado em Maceió, sou natural de Novo Lino, um pequeno município com pouco mais de cinco mil habitantes da zona da mata alagoana, ao norte da capital. Na cidade, minha madrinha mantém um restaurante onde, desde criança, uma certa placa me atiçava o humor. Feita numa tradicional xilogravura em estilo semelhante ao de cordel, a placa dizia para todo possível cliente com aquele humor típico do antigo Nordeste habitado por um imaginário católico: “Fiado é coisa do diabo e aqui não é o inferno”.
Tenho para mim que o homem a formular uma advertência tão engenhosa se tratava de alguém com admirável experiência comercial e não menor conhecimento da natureza humana. Não é difícil imaginar quantos comerciantes arruinaram seus pequenos negócios por acreditar na palavra de clientes que, satisfeitos com as compras na mercearia, com a refeição no restaurante, prometiam ao dono-gerente-balconista acertar as contas no dia seguinte. E o dia seguinte, por vezes, quando se trata de pagar dívidas, possui a extraordinária capacidade de nunca chegar.
O fiado, entretanto, não é propriamente uma invenção diabólica. Era, sobretudo nas pequenas cidades do interior brasileiro, uma expressão da confiança que organizava boa parte das relações comerciais entre vizinhos, conhecidos e familiares. O problema não estava necessariamente em vender fiado, mas em conceder crédito a quem não merecia confiança, particularmente àqueles cuja reputação já havia demonstrado, por repetidas experiências, que não eram capazes de honrar seus compromissos. Com um prego e uma placa na parede, a sabedoria popular, com sua peculiar capacidade de condensar em poucas palavras o que a filosofia detalha em tratados inteiros, resolvia o problema de forma simples.
A advertência do comerciante veio à mente enquanto, aborrecido e resignado estes dias, acompanho as manifestações públicas de tantos católicos, mesmo católicos tradicionalistas — quando se trata de larga parte da grave crise litúrgica e doutrinal que vive a Igreja —, nas eleições deste ano de 2026. Se a coisa já estava feia no primeiro turno, tornou-se ainda mais horrenda no segundo turno eleitoral.
Chegamos a uma situação em que a polarização política, antes sustentada por PT e PSDB e agora completamente cerrada no personalismo de Lula e Bolsonaro — no pleito presente representado por seu filho Flávio —, não sustenta sequer a promessa de um futuro minimamente melhor, ou melhor, a possibilidade de um futuro melhor; antes a ameaça de um futuro pior caso o adversário se mantenha ou alcance o cargo máximo da nação.
O brasileiro já não vota por acreditar, nem ao menos um pouco que seja, na virtude de seu candidato, mas por temer ou odiar os vícios e erros do outro. Nessa democracia do pavor em que a esperança, se existe, é inoperante e a consciência, um incômodo obstáculo, os católicos também têm se deixado levar pela força da maré.
De um lado está Luís Inácio Lula da Silva, expressão maior do personalismo político de uma esquerda brasileira desunida que, incapaz de produzir qualquer alternativa capaz unir todo o bloco político — perdida a oportunidade com Ciro Gomes em 2018 —, continua dependente de uma figura cuja trajetória é feita de décadas de escândalos, de fisiologismo partidário e de compromissos com o progressismo contemporâneo. Do outro lado está Flávio Bolsonaro, herdeiro político de uma família que fez da oposição ao lulopetismo sua principal razão de existência, como se a simples recusa de uma determinada ideologia fosse suficiente para conferir a alguém as virtudes necessárias ao governo de uma nação.
Não pretendo repetir aqui todas as considerações que fiz, em agosto, no artigo A consciência contra a urna no teatro das lorotas, quando procurei demonstrar a indigência moral e política que caracteriza boa parte de nossos pretendentes ao Palácio do Planalto. Àquela altura, era possível antever que a máquina da polarização acabaria por reduzir mais uma vez a política brasileira ao falso antagonismo entre dois personalismos.
Eis, portanto, a situação: dois candidatos cujos respectivos históricos oferecem razões suficientes para severas reservas morais e políticas disputam o governo do Brasil, enquanto parcelas consideráveis dos católicos brasileiros se apressam em conceder-lhes um crédito que dificilmente concederiam a um desconhecido que lhes batesse à porta pedindo dinheiro emprestado.
Mas, tratando-se de política, curiosamente desaparecem todas as exigências de prudência, reputação e responsabilidade que costumam reger as demais relações humanas. O comerciante pode exigir garantias ao devedor, o patrão pode investigar os antecedentes de um empregado e o pai de família pode recusar a entrada de determinadas pessoas em sua casa; entretanto, quando se trata de entregar por quatro anos a direção política de mais de duzentos milhões de brasileiros, basta que o candidato prometa impedir a vitória de seu adversário para que seus pecados, defeitos e imposturas sejam convenientemente esquecidos.
Não há crédito mais generoso que o do eleitor brasileiro, e não há devedor mais reincidente que o político em quem esse mesmo eleitor confia. O caso dos católicos brasileiros, entretanto, apresenta uma gravidade particular. Não porque o católico esteja dispensado das dificuldades e imperfeições inerentes à ordem política, mas precisamente porque sua consciência deve encontrar na fé, na moral e na reta razão critérios de julgamento superiores às paixões partidárias.
A política não é — ou não deveria ser — uma competição de interesses particulares na qual prevalece simplesmente a vontade da maioria, mas uma atividade ordenada ao bem comum, para que, nas palavras de Leão XIII em Sapientiae Christianae, “com o auxílio das leis civis, possamos mais facilmente viver segundo as prescrições da lei eterna”. É ciência enquanto conhece e arte enquanto executa esse conhecimento em prol do bem comum.
Foi essa compreensão que, durante séculos, permitiu à Igreja distinguir a autoridade legítima do abuso de autoridade, a obediência devida da servidão voluntária, a verdadeira liberdade da falsa liberdade e a prudência política da capitulação moral. E é precisamente essa hierarquia de princípios que parece desaparecer das fileiras dos católicos.
Não faltará quem invoque, naturalmente, a doutrina do mal menor. Aliás, poucas expressões da teologia moral parecem ter alcançado tamanha popularidade entre pessoas que, em outras circunstâncias, demonstram uma tão lamentável ignorância dos princípios mais elementares dessa mesma teologia. O mal menor tornou-se uma espécie de salvo-conduto universal mediante o qual qualquer compromisso político pode ser justificado, desde que o adversário seja apresentado como suficientemente perigoso.
Na tentativa de mudar minha posição pelo voto nulo para que passe a defender o seu candidato, por um lado, um católico não marxista que considera Lula um mal menor disse que “a Doutrina Social da Igreja pode ser entendida como socialismo cristão em sua literalidade” (sic!) e que Platão era socialista. Por outro lado, um católico que considera Flávio Bolsonaro um mal menor disse que votar nulo é lavar as mãos como Pilatos — se Jair é Messias, Flávio parece ser o próprio Cristo.
Convém, entretanto, fazer distinções, coisa costumeiramente desprezada por quem fornece soluções tão simplórias. A prudência pode admitir, em determinadas circunstâncias, a escolha de uma alternativa política imperfeita para evitar danos proporcionadamente maiores, sem que tal escolha represente aprovação moral de todos os atos ou princípios do candidato. Isso não significa, porém, que a existência de um adversário pior constitua automaticamente uma obrigação de apoiar o outro, muito menos que conceda ao eleitor licença para transformar defeitos conhecidos em virtudes imaginárias.
São coisas inteiramente diferentes tolerar um mal que não se pode evitar e passar a defendê-lo como se fosse um bem. A primeira atitude pode ser exigência da prudência; a segunda é uma falsificação do juízo moral. Não pode o católico, portanto — para usar os termos de um mestre —, tornar-se cabo eleitoral de qualquer candidato que constitui um mal, ainda que menor. Mas pior do que tornar-se cabo eleitoral de maus candidatos, é tornar-se assediador da consciência católica. Verdadeiramente intolerável!
É lícito o voto no mal menor, se o há, bem como é lícito que se anule o voto. A autoridade da Igreja, que deveria orientar os católicos nesse tempo de calamidade geral, não age nem orienta; fazemos então o que consideramos possível, diante de Deus e de nossa consciência retamente formada, dentro de um sistema natimorto como a democracia brasileira.
Já escrevi noutras linhas que não votarei pela impossibilidade de ir ao meu colégio eleitoral. Mas caso fosse possível ir às urnas, meu voto seria cristalino: nulo! Non possumus: diante de Deus e de minha consciência, vejo que há apenas males iguais, cada qual ao seu modo. E assim me posiciono. Vivemos numa dita democracia representativa, e se não há candidato que represente um voto minimamente católico, que represente os princípios que velo e prezo, por que, então, votar? Ora! Sem discursos apocalípticos, sem alarmismos estéreis, sem idealismos imbecis.
Apenas me oponho à correnteza junto a poucos outros. Longe de mim dizer aqui que a minha forma de oposição é a única correta. Aos pouquíssimos colegas — conto-os nos dedos das mãos — que consideraram Jair Bolsonaro um mal menor e de fato o criticaram tão logo este foi empossado Presidente da República, a minha humilde e admirada saudação. O problema não é, caro leitor, votar no mal menor, é defender o “bem possível” e transformar mal em bem; é tornar medida momentânea em solução permanente.
Lula, membro-fundador de um partido cujo artigo primeiro de seu estatuto reza a proposição de “construir o socialismo democrático”, é invotável — perdoem-me o meu neologismo —: o Magistério da Igreja condena explicitamente todas as formas de socialismo desde o reinado de Pio IX.
Flávio Bolsonaro, protestante neopentecostal e liberal cujos interesses servem a Washington, e não ao bem comum dos brasileiros e à soberania nacional, também é invotável. O liberalismo é o pai do socialismo e não se combate um demônio com outro.
O problema do bolsonarismo, sob esse aspecto, é particularmente revelador. Durante anos, uma parcela considerável dos católicos brasileiros, que tinha tudo para organizar-se para que houvesse opções de voto católico, foi convencida de que a sobrevivência do Brasil cristão depende da permanência da família Bolsonaro no poder. A retórica religiosa, os símbolos nacionais, as referências a Deus e à família, tudo foi mobilizado para transformar um movimento político de características essencialmente personalistas numa pretensa reação moral contra os desmandos do progressismo.
Entretanto, quando se observa a atuação concreta de seus representantes, verifica-se uma distância considerável entre a grandiosidade das promessas e a pobreza dos resultados — isto quando há resultados. A defesa bolsonarista da moral cristã convive com compromissos políticos contraditórios, concessões oportunistas, financiamento a eventos espúrios como a Parada LGBT, dentre outras coisas.
Não obstante, nada disso impede seus defensores católicos de apresentá-lo como uma espécie de último baluarte contra a ruína do Brasil. O argumento é sempre o mesmo, repetido com a insistência de uma ladainha profana: se Bolsonaro não vencer, Lula destruirá o país. Repito que não basta antipetismo para ser bom, nem mesmo para ser mal menor: o Partido da Causa Operária (PCO), o mais fiel partido comunista brasileiro, é veementemente antipetista.
Não deixa de ser curioso que tantos católicos, justamente os que mais denunciam o relativismo moral contemporâneo, sejam capazes de praticar uma forma tão radical de relativismo diante da urna. Não seria exagero dizer que descobrimos uma maneira bastante singular de praticar a democracia: escolhemos nossos governantes não por suas qualidades, mas pela repulsa que seus adversários nos inspiram.
A fidelidade à Fé Católica não pode ser medida pela intensidade com que alguém manifesta aversão ao Partido dos Trabalhadores (PT) ou afeição ao Partido Liberal (PL).
Os opositores do voto nulo, principalmente à direita, clamam: “não estamos votando para Papa, mas para Presidente!”; “vocês são idealistas, querem votar em São Luís IX!” Quem dera isto fosse possível, votaríamos com gosto; mas não sendo possível votar em São Luís, Carlos Magno ou García Moreno, nos contentaríamos em votar em um candidato digno e honesto, preocupado com o bem comum deste país — como um dia já foi possível, bastam os nomes de Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Eurico Gaspar Dutra, Eduardo Gomes ou Henrique Teixeira Lott para ilustrar isso, ainda que com as discordâncias entre eles.
A consequência verdadeiramente duradoura é a corrupção dos critérios pelos quais uma sociedade julga seus homens públicos. Quando a desonestidade, a fraqueza de caráter, a incoerência e a submissão a interesses particulares ou estrangeiros deixam de constituir razões para negar confiança a um candidato, o eleitorado perde a própria capacidade de exigir homens melhores. Afinal, por que razão os partidos deveriam oferecer candidatos dignos, se sabem perfeitamente que os eleitores acabarão votando nos mesmos de qualquer maneira? Se sabem que os católicos, que deveriam buscar a santificação da ordem temporal, contentam-se com um pobre diabo qualquer?
A doutrina da Realeza Social de Cristo, tantas vezes invocada por queles que hoje se entregam ao pragmatismo eleitoral, não consiste na simples presença de símbolos religiosos em campanhas ou na disposição ocasional de políticos em pronunciar o nome de Deus. Ela afirma, antes, a sujeição da própria ordem temporal à lei divina, reconhecendo que a vida social, as instituições e a autoridade pública não constituem realidades independentes da ordem moral. É por isso que a fidelidade aos princípios não pode ser suspensa a cada quatro anos, como se a obrigação de reconhecer a verdade estivesse sujeita ao calendário e à propaganda eleitoral.
Eis a verdadeira tragédia do voto fiado. O eleitor concede antecipadamente sua confiança, aceita promessas sem garantias, desculpa compromissos que não seriam admitidos em nenhuma outra circunstância e, quando finalmente descobre que foi enganado, recebe dos mesmos responsáveis pelo engano uma nova solicitação de crédito. A dívida anterior nunca é quitada; é apenas incorporada à próxima campanha. Os anos passam, os nomes mudam, as promessas se renovam, mas o mecanismo permanece rigorosamente o mesmo, num problema sistêmico cujos católicos não têm feito questão de ir às causas.
E aqueles de nós que nos recusamos a pôr um preço em nossas convicções somos frequentemente acusados de ingenuidade, purismo ou falta de senso prático, como se a prudência fosse um privilégio exclusivo de quem aprendeu a aceitar toda sorte de concessões. Aos olhos desses novos realistas, a fidelidade aos princípios parece constituir uma virtude admirável apenas enquanto não produz inconvenientes.
A consciência, entretanto, não é uma mercadoria eleitoral, e nenhum candidato possui direito adquirido ao voto de quem quer que seja, tampouco os eleitores, ainda que católicos, possuem o direito de molestar a consciência católica.
Voltamos à velha placa: não se deve entregar aquilo que possui valor a quem não oferece razões suficientes para merecer confiança. Se nossos políticos fossem submetidos ao mesmo rigor que os antigos comerciantes reservavam aos maus pagadores, talvez não tivéssemos chegado a uma situação tão lamentável. E se alguém mais vier exigir que eu sacrifique meu juízo moral em nome desses supostos messias políticos, não terei grandes dificuldades em recordar a resposta que, desde a infância, tanto me divertia naquela xilogravura do restaurante de minha madrinha — a quem inclusive agradeço pelo envio da foto que serve de capa a este artigo.
Fiado é coisa do diabo e aqui não é o Inferno.

