Singularíssimo é o brilho do santo doutor dos ermos, São Jerônimo, na História da Luz em meio às trevas. Foi ele um destes bem-aventurados cuja sobrenaturalidade não se notava tanto pelos milagres que operava ele próprio, como o operou Padre Pio, nem pelos milagres que se alcançavam pela sua invocação, como Santa Teresinha; mas pelo grau milagroso de excelência provado em suas obras naturais. Na verdade, há neste tipo grandioso um quid de força da natureza querida pela vontade absoluta de Deus, tal qual um devoto raio, que se mostra a todos irresistivelmente — quando não pela claridade do relâmpago, pelo estrondo do trovão.
Do Padre Jerônimo é a Vulgata, a tradução latina da Sagrada Escritura em sua completude, a que ele dedicou meio século de esmero estudando todas as línguas com as quais os escritores sagrados exararam as palavras do Senhor, e tendo Concílio de Trento reconhecido sua infalibilidade na Sessão Quarta. Aqui, a Providência preferiu um laborioso intelectual a um dos Apóstolos do Cenáculo: a estes deu o poder de serem compreendidos por estrangeiros, mas àquele recompensou o esforço para compreender o que disseram os Apóstolos, os Evangelistas, os Profetas e os Patriarcas. Com ele, fomos todos recompensados.
Foi tal homem letrado nosso São Jerônimo e, como dirá Santa Teresa, bom letrado a ninguém engana. Em se tratando do voo ao Céu que toda alma cristã ensaia, por mais que as letras não supram por si mesmas a devoção, também a não excluem como, ao contrário, basta impor-lhes certa disciplina para que confirmem a mesma alma em Nosso Senhor Jesus Cristo. O demônio especial que persegue o intelectual não o tenta a aprofundar-se nos estudos honestos, mas a não avançar na vida espiritual. Aqui, não avançar — além do regredir denunciado pelos mestres carmelitas — redunda em fazer da Fé, ou melhor, da abstração das realidades sagradas, um acessório.
O mau letrado engana, primeiramente a si mesmo, com uma confusão entre fins e meios. A boa ciência está sempre a serviço da Igreja, ainda que não a reconheça, porque traz o entendimento aos seus membros, configurando proveito certo a ela. Porém aquele que é mau resiste a esta santa subserviência, querendo fazer da Igreja seu ingresso e zona de influência, em vez de sua Mãe e Mestra.
O vício do intelectualismo é uma deficiência da vontade, pois que o viciado não consagra o entendimento a Cristo, avançando profanamente, morando aí um risco pecaminoso de corromper-se em erro ou — Deus nos permita morrer antes — em heresia franca. Não consiste tal vício em ler livros “difíceis” ou dedicar atenção a temas não necessariamente urgentes e basilares, podendo alguém ler e discutir assiduamente sobre a fauna reptiliana paquistanesa à guisa de recreio, por exemplo, sem medo de assim ofender a Deus. A ofensa consiste na recusa moral de confessar, com efeito, a soberania e centralidade da Santa Fé e da Sã Doutrina. A vontade fraca, que faz com que a maioria das pessoas não busque a Deus intelectualmente, no homem de vida intelectual faz com que ele não busque a Deus afetivamente, atenha-se religiosamente à mediocridade, e incomode-se deveras com a conduta de quem não faz como ele.
Foi reagindo interiormente a tal vício moral que São Jerônimo, nos anos iniciais de uma primitiva e fria conversão a Cristo, teve um horrível pesadelo: de seu funeral, fora em espírito arrebatado a um tribunal e, dos lábios do Justo Juiz, ouviu a malfadada sentença: “Tu não és cristão, tu és ciceroniano. Pois onde está o teu tesouro, ali está teu coração”. O segundo período é uma citação de Mateus VI, 21. Um pesadelo não é necessariamente uma aparição, sabe-se disto, mas houve um grande efeito na vida do santo. Ele não tornou a ler nenhum livro profano e dedicou, bem dizer, o resto de sua vida à Escritura. Retirou-se para os lugares santos, viveu vida eremítica e cenobítica exemplarmente, buscou os melhores para sua instrução, mas tudo com o reto objetivo de dar maior glória a Deus. Tanto que mal se reconhece nele o jovem prodígio que lia Platão por não ter paciência para o “estilo” dos profetas.
Novamente, caro leitor, ler os filósofos, ler Cícero é coisa boa e necessária feita por muitos Padres da Igreja e por nosso Doutor Maior, Santo Tomás de Aquino. Mas não se pode antepor nada à vontade de Deus. Não se pode sonegar a Igreja o reconhecimento filial de sua excelência, nem de sua suprema autoridade corretiva também nestas matérias.
Também fique claro que nada disto que aqui indicamos é um fenômeno místico. Lembremos, por exemplo, que a subserviência beneficia mais a ciência do que a Igreja, pois antes do Padre Georges Lemaître, autor e propositor da teoria do big bang, muitos cientistas trabalhavam com a premissa que o universo não teve uma origem. Exemplos abundam neste quesito, e todos demonstram que o hábito de pensamento obediente às definições ou permissões do Magistério da Igreja Católica é o mais moderado, razoável, justo e científico. Isto é para quem Deus concedeu a Fé.
Contudo, o que podemos dizer de um Olavo de Carvalho? Este senhor exaltou Mises e desprezou Leão XIII. O motivo? Ora, o Cálculo Econômico sob o Socialismo é muito mais afim da realpolitk do combate cultural ao marxismo do que a Rerum Novarum, esta estaria desatualizada, não serve à ideia atual: “Tu não és cristão…”. Que dizer de um Francisco Razzo? Um pretenso católico cuja oposição a legalização do aborto fundamenta-se na laicidade do Estado, pois como não se pode reconhecer oficialmente nenhum destino da alma após a morte, não se pode amparar juridicamente a interrupção da vida de um indivíduo, uma vez que não saberia ao certo que pena estaria sentenciando. Argumento liberal, ainda que possua “viés conservador”; a Verdade que defendemos não é um viés. Com esta doutrina reprova-se aborto, eutanásia e suicídio. Que ótimo, não? Mas também reprova a razoabilidade teorética da pena capital, e com tanto mais pontualidade que os três crimes anteriores, carregando a cauda do manto do progressismo moderno: “Tu não és cristão…”.
Que dizer da multidão de “católicos” libertários a defenderem a fraude fiscal e o mercado de narcóticos, apoiando-se num modelo metaético kantiano, quando não frankfurtiano? Tu não és cristão…
Necessário é ser filho da Igreja antes de qualquer coisa, pois se Nosso Senhor falou de abandonar pai e mãe, filhos, mulher etc, com tanto mais razão temos de abandonar nossas afinidades filosóficas. Passamos nós também por uma trajetória semelhante e é sabido que o temor de certo abandono intelectual é estridente num primeiro momento. A isto respondo: De filiorum Ecclesiae nunquam satis; Olhai São Jerônimo, olhai o Beato Boécio — um santo mártir venerado mesmo como santo, com as bênçãos da Igreja, na diocese italiana de Pavia —, olhai mesmo Chesterton, consegues rastrear ali sombra de fanatismo? Que seria de teu Kant sem a definição de “pessoa” de Boécio? Que seria das políticas antieugênicas sem o ativismo de Chesterton? Que seria de tua alma, ó homem do subsolo, sem a Vulgata?

