No último dia 16, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu vencer sua repugnância publicamente, dirigindo aos exemplaríssimos — para não dizer o contrário — “cristãos” da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito algumas palavras surpreendentemente inteligíveis a respeito das vantagens que a “Igreja Evangélica” teria sobre a Igreja Católica. Percebamos, antes de qualquer coisa, que esse monstro marinho (pois Lula é um gigante!), não obstante não ter a menor competência para falar da Religião, insiste em tratar dela como se fosse a mera estrutura anfitriã de um fenômeno mercadológico, adotando os termos de uma competição por preferência entre os muitos produtos a serem oferecidos. Assim, fala de “vantagem”, quando o conceito de vantagem, na medida que pressupõe uma disputa entre concorrentes legítimos, também deve necessariamente amparar-se num interesse. Pois bem, que interesse seria esse? Vejamos.
“(…) Enquanto a Igreja Católica não acabar com o celibato e permitir que as mulheres possam ser padres, possam ser bispos, as mulheres poderem (sic) falar, sabe? A gente vai ver a Igreja Católica passar dificuldades”: alguém avise ao presidente que a Igreja Católica não pretende passar sem dificuldades, uma vez que nosso Divino Fundador, Jesus Cristo, apontava-nos um caminho estreito e a perseguição. São as dificuldades simbolizadas pela cruz, nosso distintivo; o conforto não seduzirá a Igreja.
Falando na linguagem mais afim à camaradagem, a nossa revolução permanente ocorreu há dois milênios, o Governo Mundial é nosso e os senhores mundanos não passam de presidiários desfrutando de um motim enquanto não chega a Autoridade que os contenha. Olhe a vida dos nossos santos, dos mártires, dos confessores, dos casados, das freiras, dos reis, dos mendigos, encontre algum que tenha sido louvado por esquivar-se das dificuldades, logo não terá resultado algum.
Os pressupostos da fala estão errados, os objetivos estão errados, mas como diria Schumpeter: “É possível haver conduta racional, mesmo na ausência de motivos [e, acrescento, objetivos] racionais”. Analisemos, pois, as recomendações do monstro marinho cuja inicial é o “L”. Acabar com o celibato! Permitir que as mulheres possam ser padres! Meus caros, sugerir isso para um católico é o mesmo que sugerir a um afrodescendente que se pinte de branco para que não passe “dificuldades”.
Na sugestão de que se acabe definitivamente com o celibato sacerdotal, ao contexto no qual se dialoga com líderes da imaginária “Igreja Evangélica”, fica implícito tomar disciplina clerical neoprotestante como exemplo. A saber, caro leitor católico, nas menos nefastas seitas protestantes para que um homem venhas a ser diácono, é obrigatório que se case (que a mesma seita que exija isso permita o divórcio é uma piada à parte). Mesmo os Papas mais progressistas que a Igreja elegeu demonstraram resistência à proposta de ordenar homens casados ao sacerdócio; veja que a proposta de “acabar” definitivamente com o celibato é uma afronta que sequer foi cogitada pelos revolucionários de dentro da Igreja, que não são poucos nem marginais, infelizmente…
De nossa parte, ecoamos — como sempre — a Sã Doutrina até mais do que a própria lei disciplinar positiva vigente, aquela estabelecida no Concílio de Trento, que ensina que o celibato é um estado de vida superior e ao casamento (Trento, Sessão XXIV, cân. 10), portanto mais “vantajoso” para quem não ajunta seus tesouros neste mundo, mas no Céu, e esta é a função da Santa Igreja. Saiba o Senhor Presidente que, por séculos, o celibato foi amorosamente escolhido por aqueles que queriam se aproximar das ordens sagradas, enquanto o casamento era para quem quisesse ou não tivesse virtude bastante para oferecer tamanha perfeição a Deus, mas sempre assistindo a honestidade. Até parece que um analfabeto espiritual entenderia estas coisas.
E antes que algum foucaultiano superinteligente me venha acusar o celibato de ter a ver com os “bens da Igreja”, fico com a resposta de São Lourenço a apontar os nossos pobres como nossos bens verdadeiros, estes mesmo pobres de quem o monstro quer conquistar os votos. Pensa bem, rapaz, caso a disciplina fosse para o proveito do alto clero, você não acha que o alto clero se dispensaria a si próprio desta disciplina? Ora, o Papa é celibatário, quem acima dele para aproveitar de seus bens? Os ativos contábeis da Igreja são dos católicos, para proveito das suas almas, para o sustento de seus pais, de seus filhos e de seus irmãos, sobretudo para a glória de Deus — tira o olho, Kraken de nove tentáculos!
O grau de audácia extrapola mais ainda quando sugere-se a ordenação de mulheres, apesar dos esforços da fumaça de Satanás — nos termos do Papa Paulo VI — por enfiar goela abaixo a participação feminina no clero, há uma limitação ontológica que impediria a validade desta manobra. Caros leitores de fora da Arca, antes de qualquer coisa, sejam bem-vindos e voltem sempre, mas precisamos repetir aqui em atenção a vossas mercês: ordenar mulheres é uma impossibilidade. Vejam, não digo que seja inaceitável moralmente, apesar de o ser; não digo que seja inovador e nocivo a Tradição da Igreja, apesar de o ser; não digo que seja ruim para a compreensão do mistério cristológico do sacerdócio sacramental, apesar de o ser; digo que é impossível! Pois “tornar padre” envolve um rito sacramental (o Sacramento da Ordem), e a Sagrada Teologia reconhece que a operação de um sacramento exige intenção (de realizar o efeito sacramental), fórmula (palavras predeterminadas proferidas verbalmente pelo ministro), ministro (alguém com o poder de Ordem que realize a operação) e matéria (coisa com a qual se opera, por exemplo, para batizar, a matéria é a água). Portanto, para que o Sacramento da Ordem seja válido é necessário que tenha a matéria de sacramento devida, neste caso, um homem! Homem biológico, cujo DNA acuse sua masculinidade. Ordenar uma mulher é querer fazer água com apenas três átomos de hidrogênio — não que seja proibido ou malvisto: é coisa impossível.
Se uma mulher com toda a boa intenção do mundo fizer uma cirurgia de redesignação de gênero, mesmo que utilize o dinheiro do contribuinte médio para tal, e tornar-se muitíssimo semelhante a um homem, e assim entrar no seminário mais tradicional do século, ler todo o Santo Tomás e todo o São Bernardo, brilhar pelo seu bom comportamento, aprender a celebrar, cantar, pregar como um verdadeiro anjo e, no dia da cerimônia de ordenação, distribuir todos os seus bens aos pobres, receber das mãos do Santo Padre, o Papa, e no Rito Romano Tradicional, a unção, as promessas, a tonsura, os paramentos e, enfim, a Ordem! Mesmo assim, será inválido: falta-lhe a matéria necessária; e todos os sacramentos vindos desta mentirosa também serão inválidos (exceto o batismo), seja qual for o sentimento que a eles pretenda misturar. Pode ser duro para alguns ouvi-lo, mas estas verdades não são fruto do ódio, mas do Amor.
As mulheres possuem seu lugar na Igreja, que não é periférico. Aquilo que os homens realizam por operação, ainda que plenamente válido, de nada adiantaria se não fossem as religiosas a pedir a Deus os frutos da ação daqueles. No cume de nossos altares, Maria Santíssima; entre nossos Apóstolos, Santa Maria Madalena; em nossos corações, grandes mães como Santa Teresa ou filhas amabilíssimas como Santa Ágata; como nosso modelo de resistência aos erros hegemônicos, Santa Catarina de Sena; como modelo de bravura, Santa Joana d’Arc; no governo de cada casa católica, uma mulher aguerrida, livre e privilegiada a ser a primeira das prioridades de seu marido.
Entretanto, voltemos ao objeto central. As declarações do Presidente — que, por acaso, é elegível para mais um mandato — certamente vieram de seus mais abissais conselheiros, estes e outros comentários blasfemos e mentirosos buscam angariar votos dos cristãos que consideram minimamente os princípios de sua religião quando vão às urnas. O que ensaia o Leviatã é agradar gregos e troianos, elogiando os “evangélicos” ao mesmo tempo que simpatiza com a ala progressista que hoje comanda acidentalmente a Igreja Católica. Com tais comentários estapafúrdios, ele faz um apelo para que se marginalize mais os princípios de vida cristãos. Ele diz: “Mudem, vejam como estes outros seus coleguinhas se comportam tão melhor que vocês”.
Ele diz, literalmente, que a Religião é “uma coisa sagrada”: ora, que espantoso! Percebam também que o círculo é uma coisa redonda! Contudo, devemos perdoar este pleonasmo e, virando a outra face, devemos entender que ele quis dizer que a Religião é “uma coisa privada”: “Ninguém precisa prestar conta para mim nem para ninguém. Você e Deus, sabe? São únicos e não precisa ninguém saber o que você fala, o que você faz. É essa coisa que eu tenho da fé (sic)”. Ou seja, feche os olhos um pouco, caro brasileiro, pois é isto o que nos é recomendado por eles. Feche os olhos, brasileiro; tu não precisas de uma instituição que defenda os interesses de tua alma, mas nem mesmo que o próprio Deus a tivesse fundado. Nem alma tu tens, querem eles dizê-lo; és um voto, um voto que sente fome e desejo sexual, apenas isto.
Quanto a nós, recomendamos que abra os olhos, não somente para o Leviatã nos mares, mas também para o Beemote em terra firme. Ainda há espaço na Arca, e haverá ainda mais quando forem fustigados todos os seus invasores.

