Há uma curiosa vantagem em ter vivido antes do advento da tecnologia. Quem nasceu depois talvez consiga imaginá-la, mas dificilmente experimentá-la. Quando ainda era menino, lembro-me de ouvir meu pai contar que, certa noite, voltando para casa pelas estradas do interior de Alagoas, foi perseguido por um enorme sapo envolto em chamas. Não sei se a aparição surgiu por ter desobedecido à minha avó ou por qualquer outro motivo; o certo é que, segundo ele mesmo dizia, tratava-se do próprio diabo pregando-lhe uma peça. Quem cresceu naquele tempo certamente se lembrará de quantas criaturas extraordinárias povoavam a imaginação popular como lobisomens, almas penadas, mulas-sem-cabeça e tantos outros seres que pareciam surgir nas noites mais escuras.
O curioso, porém, é que esse tipo de imaginação não conhece fronteiras. É verdade que meu pai viu um sapo flamejante; mas houve quem afirmasse ter encontrado algo ainda mais extraordinário. Antes mesmo de atingir a idade adulta, G. K. Chesterton cruzou-se com um fantasma em chamas pelas ruas de Londres.
Era um homem alto e magro, cujas feições da velhice não faziam qualquer esforço para esconder-se. Vestia-se de carmesim, de modo que parecia caminhar envolto em fogo — e, de certo modo, realmente caminhava, pois ardia alimentado por um Espírito incriado. Muitos de seus contemporâneos não viam nele um pastor, mas quase um demônio; chegaram mesmo a chamá-lo de “o diabo do Concílio”. Talvez estivessem certos, desde que se acrescente uma pequena precisão, pois era o diabo dos liberais, daqueles que não mediam esforços para acomodar a fé ao espírito do tempo. Para Chesterton, porém, aquele velho cardeal não era um demônio, pois o retrato do Cardeal Henry Edward Manning permaneceu durante toda a sua vida pendurado em seu quarto como o símbolo de um estado de espírito. O velho cardeal foi para Chesterton como um farol, uma luz, assim como o foi para uma multidão de outros ingleses que o seguiam pelas ruas.
Tendo nascido na Inglaterra, o berço do liberalismo, Manning foi uma daquelas figuras que só aparecem uma vez ou outra — assim como o sapo flamejante, visto apenas uma única vez. Após converter-se ao catolicismo, em 1851, logo revelou um temperamento de ação e uma firmeza de princípios fora do comum. Conta-se que meia dúzia de pessoas chegavam a ele por semana procurando conversão; foi até 1865 braço direito do Cardeal Wiseman, responsável pelo restabelecimento da hierarquia católica após séculos de perseguição anglicana aos católicos. E quando Wiseman morreu, Deus mesmo parece ter sussurrado ao ouvido do Papa Pio IX — como o próprio Papa o diz — que o seu sucessor deveria ser Manning. E assim ele o fez. Não surpreende, portanto, que tenha sido admirado por Chesterton e combatido por aqueles que julgavam possível separar Cristo da vida pública e reconciliar a Igreja com o espírito do século.
Um amigo próximo de Chesterton, Hilaire Belloc, ainda em sua juventude, recordaria uma frase do velho cardeal que jamais lhe saíra da memória — e que ele mesmo tomaria como uma chave de leitura da história: todo conflito é, em última instância, teológico.
À primeira vista — sobretudo ao homem moderno —, a afirmação pode parecer um exagero. Afinal, que relação poderia haver entre disputas políticas, revoluções, guerras ou conflitos sociais e a teologia? Para Manning, porém, a história nunca foi uma sucessão caótica ou determinada de acontecimentos. Todos os acontecimentos humanos, mesmo os mais trágicos, permanecem submetidos ao governo providencial de Deus e somente encontram seu verdadeiro sentido quando considerados à luz da economia da salvação. É nesse sentido que escreve:
Todas as coisas estão trabalhando para a realização do mistério da salvação: todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Até mesmo os pecados, a maldade e as perseguições deste mundo tendem à salvação daqueles que creem. Este mundo é o lagar, onde as uvas são pisoteadas; é a eira, onde o trigo é batido e separado da palha. O vinho e o trigo estão sendo preparados para o banquete do Cordeiro no reino de Deus. Estes são os eleitos de Deus, que são fiéis e perseveram na fé até o fim.1
E se toda a história é governada por Deus e tem por fim Sua glória por meio de Sua Igreja e de Seus santos, então nenhuma realidade humana pode ser compreendida como absolutamente autônoma. O que vale também para a sociedade, pois tendo ela sempre uma ideia ou filosofia que a anima, assim como a alma anima o corpo, suas ações ou omissões recaem sob o mesmo julgamento da eternidade.2
Essa compreensão explica também por que Manning jamais aceitou a ideia de que a Igreja devesse limitar-se à vida privada dos fiéis — ou que fosse ela apenas mais uma instituição em meio a tantas outras. Se toda a sociedade está sujeita ao governo de Deus, então também a ordem política permanece submetida à lei moral. É por isso que, respondendo à objeção de que o Papa não deveria “meter-se em política”, Manning escreve:
A política faz parte da moral. Assim como a lei moral dos Dez Mandamentos se aplica ao indivíduo, a política se aplica à sociedade. A política não é nada além da moralidade da sociedade — a moral coletiva dos homens cristãos unidos sob a lei social. Os homens podem, também, dizer que irão nos permitir instruir ou censurar um penitente no confessionário, mas nos criticam por corrigir e condenar os erros de uma congregação, enquanto censuraram o Santo Padre por estender essas condenações dos erros que afetam a vida privada dos homens para aqueles que afetam a vida pública da sociedade cristã.3
A preocupação de Manning não era administrar os assuntos cotidianos do Estado, mas recordar que nenhuma sociedade pode colocar-se fora da ordem moral; com isso ele não pretende, por óbvio, transformar o Papa em um governante temporal, encarregado por decidir quais recursos serão destinados a tapar os buracos das ruas ou onde deveria ser construído um parque público. A questão é bem mais profunda. Se a moral regula os atos de um indivíduo, a política regula os atos de uma sociedade. Em ambos os casos, trata-se da mesma lei moral aplicada a sujeitos diferentes. Seria um absurdo admitir que a Igreja pudesse dar as diretrizes das vias de salvação e que pudesse corrigir os pecados privados de um homem ao mesmo tempo em que permanece em silêncio diante dos rumos de uma nação e de seus pecados públicos — como se o homem tivesse um fim último ao estar sozinho e tivesse um outro fim último ao estar em grupo.
Isso não significa, contudo, que Manning confundisse Igreja e Estado. Pelo contrário. Há uma clara distinção entre a Igreja e a sociedade civil. A primeira pertence à ordem sobrenatural; a segunda, à ordem natural. A sociedade política possui verdadeira autoridade — vinda de Deus mesmo — e uma esfera própria de atuação, muito embora não seja uma realidade autônoma:
Haverá essas duas grandes sociedades até o fim do mundo: uma natural e a outra sobrenatural; uma humana e a outra divina. A sociedade humana e natural é perfeita e completa dentro de sua própria esfera e limite, mas imperfeita e incompleta, e isso em alto grau, no que diz respeito à verdadeira perfeição do ser humano e seu destino final. Para isso, ela deve depender da Igreja e das leis de Jesus Cristo.4
Recorrendo à doutrina tradicional, Manning diz que assim como a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa, a Igreja não elimina a sociedade civil, mas a eleva ao seu verdadeiro fim. É por isso que ele afirma que:
Assim foi a vontade de Deus. Ele ordenou que essas duas sociedades fossem tão unidas em sua ação [o destino final do homem] a ponto de se tornarem uma só. Assim como o homem é perfeito em sua própria natureza, embora tenha caído pelo pecado original e precise ser elevado a uma ordem sobrenatural pela regeneração e pela graça, permanecendo o mesmo indivíduo, mas recebendo uma perfeição acima de sua natureza; assim também ocorre com a sociedade natural do mundo.5
O leitor certamente reconhecerá aqui o velho princípio segundo o qual a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. O mesmo se dá com a sociedade civil; ela continua tendo suas responsabilidades próprias, mas encontra sua perfeição somente quando ordenada ao fim último do homem — Deus mesmo.
Foi a Igreja Cristã que criou o mundo cristão. Ela tinha uma dupla missão; pois a Igreja Cristã tem uma missão primeiro para os indivíduos e depois para a sociedade — primeiro para converter e salvar as almas, e em seguida para consagrar e elevar a sociedade política do mundo.6
Foi assim que a Igreja não apenas transformou homens caídos em filhos de Deus, incorporando-os ao seu Corpo Místico, mas também elevou as próprias nações, de modo que elas mesmas poderiam chamar-se também suas filhas; ao reunir diferentes povos sob uma mesma profissão de fé, lançou os fundamentos daquela unidade que chamamos de Cristandade; uma comunidade de nações, pertencentes à Igreja, cuja verdadeira coesão não nascia da raça, da língua ou da força, mas do reconhecimento da soberania de Cristo sobre os indivíduos, famílias e nações.7
Foi com essa mesma chama que Manning incendiou uma Inglaterra já seduzida pela ideia de emancipar a sociedade de seu Criador.
Enquanto muitos procuravam reconciliar a Igreja com o espírito do século, ele permaneceu fiel à doutrina tradicional, pois não era a Igreja que precisava adaptar-se ao mundo, mas o mundo que precisava voltar a Cristo. Por isso pôde afirmar, sem receio de represálias, que “chegou o momento em que a única segurança para as nações e para os homens está no reconhecimento da soberania de Deus”.8
- MANNING, Henry Edward. Fourfold Sovereignty of God. Londres: Burns, Oates, and Company, 1871, p. 174. ↩︎
- Ibid., p. 149. ↩︎
- MANNING, Henry Edward. Sermons on ecclesiastical subjects. Londres: Burns, Oates, and Company, 1873, p. 83. ↩︎
- Ibid., p. 88. ↩︎
- Ibid., p. 89. ↩︎
- Ibid., p. 90. ↩︎
- Id., 1871, p. 76. ↩︎
- Ibid., p. 178. ↩︎

