Introdução
Há canções que entretêm e há canções que professam visões de mundo. Non, je ne regrette rien, gravada por Édith Piaf em 1960, e My Way, lançada por Frank Sinatra em 1969, pertencem à segunda espécie. Não são, claro, cânticos religiosos, mas são, a seu modo, profissões de fé: manifestam um credo sobre o homem, sobre a sua vida e sobre o juízo que ela merece. E o fazem com tal força que se tornaram, para gerações inteiras, uma espécie de liturgia profana, sendo cantadas em despedidas, tocadas em funerais, escolhidas como epitáfios que resumem vidas inteiras.
Não é, pois, fortuito que ambas emoldurem a década de 1960. Entre uma e outra realizou-se o Concílio Vaticano II (1962–1965), e consumou-se na cultura ocidental a revolução que fez do indivíduo a norma de si mesmo. As duas canções dizem, em linguagem popular e com uma melodia irresistível, aquilo que a filosofia moderna vinha afirmando havia dois séculos: que o homem é o seu próprio fim, o seu próprio legislador e o seu próprio juiz.
Propomo-nos a ler essas canções à luz da teologia católica. Veremos que o credo nelas cantado tem uma raiz muito antiga: o pecado do primeiro revolucionário, que preferiu a própria excelência à submissão a Deus. Veremos também que esse mesmo credo penetrou na vida da Igreja sob a forma de uma religião fabricada à medida do homem. E veremos, enfim, que o seu termo natural, se não for quebrado pela graça, é o mais terrível dos estados de alma: a impenitência final. A esse cântico do orgulho oporemos, ao concluir, o cântico contrário, que a Santa Igreja sempre pôs nos lábios de seus filhos.
I. As canções como profissão de fé
My Way é, em sua estrutura, um exame de consciência às avessas. Um homem, sabendo-se próximo do fim, volta o olhar para a vida que viveu e faz o seu balanço diante de um amigo. O cenário é exatamente aquele que a fé cristã ensina ser o momento mais grave da existência: a hora em que a alma, prestes a comparecer diante de Deus, reconhece o que foi e o que deixou de ser.
And now, the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I’ll say it clear
I’ll state my case, of which I’m certain
E agora, o fim está próximo
E então encaro o último ato
Meu amigo, eu direi com clareza
Vou expor meu caso, do qual estou certo
Mas o balanço não conduz à contrição. O homem admite ter tido arrependimentos, mas poucos demais para serem mencionados. Reconhece ter cometido excessos, mas não os chama pecados. Não pede perdão a ninguém: apresenta-se como quem planejou cada passo, enfrentou tudo e permaneceu de pé. O refrão resume o critério último do julgamento: a vida foi boa não porque tenha sido conforme à vontade de Deus, mas porque foi vivida segundo a vontade própria.
Regrets, I’ve had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
Arrependimentos, eu tenho alguns
Por outro lado, são muito poucos para falar
Eu fiz aquilo que precisava fazer
E fui até o fim, sem exceção
A última estrofe torna explícita a antropologia que sustenta tudo: o que é o homem, pergunta o cantor, senão aquilo que ele próprio tem? E responde que, se não tem a si mesmo, nada tem. O homem é a posse de si, e a sua dignidade consiste em dizer o que sente, e não as palavras de quem se ajoelha. O gesto de ajoelhar-se, o gesto por antonomásia da adoração e da penitência, é rejeitado como indigno.
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows I took the blows
And did it my way
Yes, it was my way
Pois o que é um homem, o que ele tem?
Se não a si mesmo, então não tem nada
Para dizer as coisas que sente de verdade
E não as palavras de quem se ajoelha
As lembranças mostram que levei alguns golpes
E que fiz isso do meu jeito
Sim, foi do meu jeito
Non, je ne regrette rien vai ainda mais longe, porque prescinde até da averiguação. Não há exame: há um decreto. O bem e o mal recebidos, as alegrias e as dores, tudo é declarado indiferente e varrido. O passado não é perdoado, é apagado — e apagado não pela misericórdia de um outro (ou Outro), mas por um ato soberano da vontade, que decide recomeçar do zero.
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayés les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro
Não, de nada, de nada mesmo
Não, eu não me arrependo de nada
Nem com o bem que me fizeram
Nem com o mal, não me importo com nada
Não, de nada, de nada mesmo
Não, eu não me arrependo de nada
Já foi pago, varrido, esquecido
Eu não me importo com o passado
Com as minhas lembranças
Eu acendi uma lareira
Minhas tristezas, meus prazeres
Eu não preciso mais deles
Varri os amores
Com seus tremores
Foram varridos para sempre
Eu recomeço do zero
Observe-se a precisão teológica da fórmula, por mais involuntária que seja. O arrependimento, na doutrina católica, é o ato pelo qual a vontade detesta o pecado cometido e se volta para Deus. Declarar que não se lamenta nada, nem o mal, é afirmar justamente o contrário: a vontade aprova o seu passado inteiro, porque o mede apenas por si mesma. A canção de Piaf é, literalmente, uma fórmula de impenitência.
As duas canções diferem no temperamento — a americana é épica e autocomplacente, a francesa é passional e desesperada —, mas professam o mesmo artigo de fé: o homem não deve contas a ninguém. Nisto está a sua força e, sobretudo, o seu perigo. Elas não convidam ao pecado; fazem algo mais grave: ensinam a não lamentá-lo e a se colocar acima dele, como conhecedores e senhores do bem e do mal.
II. A raiz luciferina: o non serviam
O credo das duas canções não nasceu no século XX. A Escritura o põe nos lábios do povo infiel, pela boca do profeta Jeremias: Confregisti iugum meum, rupisti vincula mea, et dixisti: Non serviam, “Quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: Não servirei” (Jr. II, 20). A tradição viu nessas palavras o eco do primeiro grito de revolta, o de Lúcifer, cuja ambição Isaías descreve: “Subirei ao céu, serei semelhante ao Altíssimo” (Is. XIV, 13-14). E foi a mesma promessa que a serpente fez aos nossos primeiros pais: eritis sicut dii, “sereis como deuses” (Gn. III, 5).
Santo Tomás pergunta em que consistiu propriamente esse desejo de ser como Deus. Não podia o anjo, inteligência puríssima, querer ser Deus por identidade, pois sabia ser isso impossível. O seu pecado foi mais sutil: desejou como fim último da sua bem-aventurança aquilo que podia alcançar pela virtude da própria natureza, desviando-se da bem-aventurança sobrenatural, que só se recebe da graça de Deus. 1Em outras palavras, quis ser feliz do seu jeito. Não negou a Deus; o que fez foi recusar depender dele.
Eis a definição precisa do orgulho luciferino: não tanto a negação de Deus quanto a pretensão de autossuficiência. O orgulho, ensina o Doutor Angélico, é o apetite desordenado da própria excelência, e, por isso mesmo, é o início de todo pecado (Eclo. X, 15), porque toda desordem da vontade começa por subtrair-se à ordem de Deus.2 O soberbo não se contenta em ter bens; quer tê-los como sendo seus, como se deles fosse a fonte, a medida e o fim.
O homem moderno elevou esse pecado à condição de princípio filosófico. Kant chamou autonomia (dar a lei a si mesmo) à condição de toda moralidade digna desse nome, e heteronomia à obediência a uma lei recebida de fora, ainda que de Deus. Daí em diante, a dignidade humana passou a ser pensada como independência: o homem é tanto mais homem quanto menos deve a outro. É exatamente a antropologia que My Way canta quando define o homem pelo que ele tem por si mesmo.
Os Papas viram com clareza onde isso conduzia. São Pio X, na sua primeira encíclica, denunciou que o homem, com temeridade sem limites, se pusera no lugar de Deus, fazendo do mundo um templo onde ele próprio deve ser adorado.3 São Paulo já havia descrito o mesmo movimento ao falar dos que trocaram a verdade de Deus pela mentira e prestaram culto à criatura em lugar do Criador (Rm. I, 25).
O homem que se toma por fim último inverte a ordem do ser. Ele foi criado para Deus, que é o seu fim, e só nele encontra a sua plenitude. Pondo-se a si mesmo no centro, condena-se a girar em torno do vazio. As canções o confessam involuntariamente: o homem de My Way chega ao fim com as mãos cheias de si mesmo, e de nada mais.
III. O orgulho conciliar: uma religião à medida do homem
Seria consolador pensar que esse credo permaneceu fora dos muros da Igreja. Não foi assim. Na mesma década em que estas canções se tornavam hinos, a autoridade eclesiástica, em vez de opor ao culto do homem o culto de Deus, procurou conciliar-se com ele.
A manifestação mais eloquente deste ímpio intuito de conciliação é o discurso de Paulo VI no encerramento do Concílio, a 7 de dezembro de 1965. O Papa reconhece que a religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião (pois que claramente o é, em suas próprias palavras) do homem que se faz Deus. E pergunta o que aconteceu nesse encontro: um choque, uma luta, um anátema? Responde que não: houve uma simpatia imensa. E conclui, dirigindo-se aos humanistas modernos, que lhes reconheçam ao menos este mérito: também a Igreja, e ela mais do que ninguém, tem o culto do homem.4
É difícil exagerar a gravidade dessas palavras. O Papa nomeia com exatidão o adversário: a religião do homem que se faz Deus, isto é, o eritis sicut dii da serpente. E, em lugar do anátema que a Igreja sempre lhe opusera, oferece-lhe simpatia. O non serviam deixa de ser combatido e passa a ser compreendido.
A constituição Gaudium et Spes dá a essa simpatia uma formulação doutrinal. Afirma que, segundo a opinião quase unânime de crentes e não crentes, tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado ao homem como a seu centro e seu vértice.5 Acrescenta que o homem é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma.6 Essas fórmulas possuem um fundamento inconfundível. O homem já não aparece primeiramente como criatura ordenada a Deus, devedora de adoração e de penitência, mas como o centro (ou buraco-negro) para o qual tudo converge.
Uma religião assim concebida tende, inevitavelmente, a ser feita à medida do homem, pelo homem e para o homem. E é na liturgia que essa tendência se torna visível, porque a liturgia é a fé que reza (lex orandi, lex credendi).
No rito romano tradicional, o sacerdote sobe ao altar depois de confessar-se pecador ao pé dele e pede, ao subir, que Deus lhe tire as iniquidades para entrar com alma pura no Santo dos Santos. No ofertório, oferece a Hóstia imaculada pelos seus inumeráveis pecados, ofensas e negligências. A Missa inteira está orientada para Deus, com o sacerdote voltado com o povo para o Oriente, e perpassada pela consciência do pecado e da necessidade de propiciação.
No novo rito, as orações ao pé do altar desapareceram. O ofertório tradicional foi substituído por uma bênção inspirada na mesa judaica, que apresenta o pão como fruto da terra e do trabalho do homem. O altar voltou-se para a assembleia, de modo que a celebração passou a desenrolar-se num círculo fechado, em que a comunidade se vê (e se cultua) a si mesma. Não se negou formalmente o sacrifício; mas o centro de gravidade deslocou-se de Deus para o homem, do sacrifício propiciatório para a reunião fraterna.
O paralelo com as canções é profundo. Uma religião à medida do homem já não lhe diz que é pecador, nem lhe pede que se ajoelhe; diz-lhe que é amado tal como é, e confirma-o no seu caminho. Em lugar do mea culpa, oferece ao homem uma versão eclesiástica de My Way: “Fizeste o teu caminho; Deus o acompanhou. O importante é você desabrochar do seu jeito. Deus quer te ver feliz. O importante é você se realizar e se sentir bem.” E uma religião que deixa de pregar o arrependimento prepara inexoravelmente almas que nada terão a lamentar.
IV. A impenitência final: o destino próprio do orgulho
Todo pecado pode ser perdoado nesta vida, por maior que seja, desde que o pecador se arrependa. Há, porém, uma disposição que fecha a porta ao perdão, não porque a misericórdia de Deus seja limitada, mas porque o homem recusa recebê-la. É a impenitência final.
Santo Agostinho via nela a própria essência do pecado contra o Espírito Santo, de que Nosso Senhor diz que não será perdoado nem neste século nem no futuro (Mt. XII, 32). Não há pecado irremissível em si mesmo, explica o Doutor de Hipona; irremissível é a obstinação de quem persevera no mal até a morte, recusando a graça que o chamaria à conversão.7 Santo Tomás, seguindo a tradição augustiniana, enumera a impenitência entre as seis espécies do pecado contra o Espírito Santo, ao lado do desespero, da presunção, da impugnação da verdade conhecida, da inveja da graça alheia e da obstinação.8
Compreende-se, então, por que a impenitência é o destino próprio do orgulho. O soberbo não pede perdão porque não se julga devedor. Para arrepender-se, é preciso admitir um juiz acima de si, uma lei que não se deu a si mesmo, uma culpa que não se apaga por decreto. Tudo isso é precisamente o que o orgulho recusa. Quem fez da própria vontade a medida de todas as coisas não é capaz de reconhecer diante de quem poderia se humilhar e se acusar.
O caso dos anjos rebeldes manifesta este mistério. Santo Tomás ensina que a vontade do anjo, uma vez fixada na sua escolha, adere a ela imutavelmente, e por isso os demônios estão obstinados no mal.9 Recolhe, assim, a sentença de São João Damasceno: o que a morte é para os homens, a queda foi para os anjos. Também a alma humana, no instante da morte, fixa-se no fim que escolheu. Se a alma morre voltada para Deus, permanece n’Ele para sempre; se morre voltada para si mesma, permanece para sempre em si, em seu nada, como caída em um buraco negro, e esse fechamento eterno sobre si mesma é o inferno.
Por isso, a cena exposta em My Way é teologicamente tão grave. O homem que, diante do fim, revê a sua vida e conclui que nada tem a lamentar ensaia o último ato. Se sustentar até o fim essa disposição, a canção será a sua sentença.
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows I took the blows
And did it my way
Pois o que é um homem, o que ele tem?
Se não a si mesmo, então não tem nada
Para dizer as coisas que sente de verdade
E não as palavras de quem se ajoelha
As lembranças mostram que levei alguns golpes
E que fiz isso do meu jeito
O mesmo vale para Non, je ne regrette rien. A canção pretende ser uma libertação: livre do passado, a alma recomeça. Mas não há verdadeiro recomeço sem perdão, e não há perdão sem arrependimento. O passado não chorado não desaparece; permanece, intacto, à espera do juízo. Apagar as lembranças não implica apagar as culpas.
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui, ça commence avec toi
Não, de nada, de nada mesmo
Não, eu não me arrependo de nada
Pela minha vida, pelas minhas alegrias
Hoje, tudo começa com você
Não se trata aqui, evidentemente, de julgar a alma de Sinatra ou de Piaf; esse juízo pertence a Deus, e só Ele conhece o que se passa no derradeiro instante de uma vida. Trata-se de julgar o que as canções ensinam. E o que ensinam é a disposição que, sustentada até o fim, conduz à perdição. A sua tragédia está justamente em tornar essa disposição bela, desejável, quase heroica e sedutora para milhões de pessoas que por ela guiaram suas vidas e dela fizeram seu epitáfio.
V. Conclusão: o cântico contrário
A Igreja sempre teve o seu próprio cântico para a hora da prestação de contas no juízo particular, e ele é o exato oposto do que ouvimos.
Ao homem que canta my way, “o meu caminho”, responde Nosso Senhor: Ego sum via, “Eu sou o caminho” (Jo. XIV, 6). Não há outro caminho para o Pai senão Cristo, e quem faz o seu próprio caminho afasta-se dele por definição. À vontade que diz fiat voluntas mea, opõe-se a oração que o próprio Senhor nos ensinou, fiat voluntas tua, e o Fiat da Virgem Maria, que se declarou escrava do Senhor e por isso foi exaltada acima de todas as criaturas. O Magnificat é, nesse sentido, a anti-My Way por excelência: Deus dispersa os soberbos nos pensamentos do seu coração e exalta os humildes (Lc. I, 51-52).
Ao homem que se apresenta diante do fim como quem nada tem a lamentar, a Escritura opõe duas figuras. A primeira é o fariseu da parábola, que, de pé no templo, enumera os seus méritos e dá graças por não ser como os outros homens; e Nosso Senhor diz que ele não desceu justificado para casa (Lc. XVIII, 9-14). A segunda é o bom ladrão, que no limiar da morte fez a declaração inversa: reconheceu que recebia o justo castigo das suas obras, voltou-se para Cristo e ouviu a promessa do Paraíso (Lc. XXIII, 40-43). O fariseu fez a sua vida do seu jeito; o ladrão entregou-a a Deus no último instante, e foi salvo.
À recusa de todo arrependimento, a Igreja opõe o Miserere: “Reconheço a minha iniquidade, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl. L, 5). Opõe o Confiteor, em que o fiel bate três vezes no peito confessando a sua culpa, a sua culpa, a sua máxima culpa. E opõe a sequência dos defuntos (não por acaso eliminada no próprio da nova missa conciliar), o Dies irae, em que a alma, diante do Juiz, não apresenta defesa alguma: Quid sum miser tunc dicturus? (“Que direi eu então, miserável?”). Não há ali nenhum registro de contrariedades suportadas com bravura, grandes feitos, grandes riquezas; há apenas a súplica ao Rei de tremenda majestade, que salva gratuitamente os que hão de ser salvos.
Finalmente, à canção inteira de Sinatra responde o salmo que a tradição pôs nos lábios dos vitoriosos: Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam, “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai a glória” (Sl. CXIII, 1). O cristão, ao fim da vida, não diz que fez tudo do seu jeito. Diz, com São Paulo, que pela graça de Deus é o que é (I Cor. XV, 10), e com o servo do Evangelho, que é servo inútil, pois fez apenas o que devia (Lc. XVII, 10).
O homem moderno quis ser o autor, o herói e o juiz da própria vida, e a religião à medida do homem o confirmou nessa pretensão. Cabe-nos, contra a corrente, reaprender justamente o gesto que My Way despreza: o de ajoelhar-se. É de joelhos que se confessa, é de joelhos que se adora, é de joelhos que se recebe o perdão. E só quem aprendeu a lamentar os seus pecados poderá um dia não ter, de fato, nada a lamentar, porque, pelo Coração de seu Divino Amigo, tudo lhe terá sido perdoado.
Notas
- S. Tomás de Aquino, S. Th., I, q. 63, a. 3. ↩︎
- S. Th., II-II, q. 162, aa. 2 e 7. ↩︎
- S. Pio X, encíclica E supremi apostolatus (4 de outubro de 1903). ↩︎
- Paulo VI, alocução na última sessão pública do Concílio Vaticano II, 7 de dezembro de 1965. ↩︎
- Concílio Vaticano II, constituição pastoral Gaudium et Spes, n. 12. ↩︎
- Gaudium et Spes, n. 24. ↩︎
- S. Agostinho, Sermo 71, sobre Mt. XII, 32. ↩︎
- S. Th., II-II, q. 14, a. 2. ↩︎
- S. Th., I, q. 64, a. 2. ↩︎

