Tenete traditiones: o Ofertório católico e a traição litúrgica de 1969

Antônio Luiz Ghislieri

I. Introdução

Em sua Segunda Epístola aos Tessalonicenses, São Paulo admoestava os fiéis a permanecerem firmes e a guardarem as tradições que haviam aprendido, seja de viva voz, seja por carta [1]. Este princípio apostólico foi observado fielmente por todos os Papas até o pontificado de Paulo VI. A partir de então, assistimos não a uma reforma litúrgica, mas a uma verdadeira revolução: uma demolição sistemática do  edifício  sagrado construído ao longo de quase dois milênios.

O Pe. Joseph Gelineau, um dos membros mais influentes da comissão que compôs a Nova Missa, admitiu com desconcertante franqueza: “O Rito Romano tal como o conhecíamos não existe mais. Foi destruído” [2]. Esta não é a acusação de um tradicionalista exaltado, mas a confissão de um dos próprios artífices desta destruição.

Entre todos os elementos da Missa Tradicional que foram suprimidos ou mutilados, o Ofertório ocupa lugar de destaque pela sua absoluta desfiguração. As orações que durante séculos expressaram com clareza a doutrina católica sobre o caráter sacrificial e propiciatório da Missa foram substituídas por fórmulas de origem talmúdica (que sequer são veterotestamentárias, como falsamente se propaga) e que ocultam deliberadamente estas verdades fundamentais da Fé Católica.

O antigo adágio lex orandi, lex credendi permanece verdadeiro: a lei da oração  estabelece a lei da fé. Quem corrompe a oração, corrompe inevitavelmente a fé. É precisamente isto que ocorreu com a substituição do Ofertório católico pela chamada “Preparação das Oferendas” do Novus Ordo Missae.

II. O Ofertório no Missal de São Pio V: baluarte da fé católica

As orações do Ofertório tradicional

O Ofertório da Missa Tradicional constitui um conjunto harmonioso de orações que expressam com incomparável beleza e precisão teológica a doutrina católica sobre o Santo Sacrifício. Examinemos as principais:

O Suscipe, Sancte Pater declara desde o início a natureza da ação sagrada:

“Suscipe, Sancte Pater, omnipotens æterne Deus, hanc immaculatam hostiam, quam ego indignus famulus tuus offero tibi Deo meo vivo et vero, pro innumerabilibus peccatis, et offensionibus, et negligentiis meis, et pro omnibus circumstantibus, sed et pro omnibus fidelibus christianis vivis atque defunctis: ut mihi, et illis proficiat ad salutem in vitam æternam.” — (“Recebei, ó Pai Santo, Deus onipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu, Vosso indigno servo, Vos ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, e por todos os circunstantes, bem como por todos os fiéis cristãos vivos e defuntos: para que a mim e a eles aproveite para a salvação na vida eterna.”)

Observe-se: hostiam immaculatam, hóstia imaculada; offero, eu ofereço; pro innumerabilibus peccatis, pelos inumeráveis pecados. O caráter sacrificial e propiciatório encontra-se inequivocamente afirmado.

Na oblação do cálice, o Offerimus tibi, Domine prossegue:

“Offerimus tibi, Domine, calicem salutaris, tuam deprecantes clementiam: ut in conspectu divinæ majestatis tuæ, pro nostra et totius mundi salute, cum odore suavitatis ascendat.” — (“Oferecemos-Vos, Senhor, o cálice da salvação, suplicando a Vossa clemência: para que suba à presença da Vossa divina majestade, como odor de suavidade, pela nossa salvação e a de todo o mundo.”)

A expressão pro nostra et totius mundi salute, “pela nossa salvação e a  de  todo o mundo” manifesta o alcance universal do Sacrifício propiciatório.

O In spiritu humilitatis ecoa as palavras do profeta Daniel:

“In spiritu humilitatis, et in animo contrito suscipiamur a te, Domine: et sic fiat sacrificium nostrum in conspectu tuo hodie, ut placeat tibi, Domine Deus.” — (“Em espírito de humildade e com o coração contrito, sejamos acolhidos por Vós,  Senhor: e assim seja feito o nosso sacrifício em Vossa presença hoje, de modo que Vos seja agradável, Senhor Deus.”)

Aqui se afirma explicitamente: sacrificium nostrum, o nosso sacrifício. Não uma refeição, não um memorial, não uma apresentação, mas um sacrifício.

O Veni, Sanctificator invoca o Espírito Santo sobre as oferendas:

“Veni, Sanctificator omnipotens æterne Deus: et benedic hoc sacrificium, tuo sancto nomini præparatum.” — (“Vinde, Santificador, Deus onipotente e eterno, e abençoai este sacrifício preparado para Vosso santo nome.”)

Novamente: hoc sacrificium, este sacrifício. Por fim, o Suscipe, Sancta Trinitas sintetiza toda a teologia sacrificial:

“Suscipe, Sancta Trinitas, hanc oblationem, quam tibi offerimus ob memoriam passionis, resurrectionis, et ascensionis Jesu Christi, Domini nostri…” — (“Recebei, ó Santíssima Trindade, esta oblação que Vos oferecemos em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo…”).

A doutrina do Concílio de Trento

Estas orações não são meras fórmulas devocionais, mas a expressão litúrgica da  doutrina definida solenemente pelo Concílio de Trento na sua Sessão XXII (1562).

O sacrossanto Concílio ensinou:

“Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio  sacrifício, ou que o oferecimento não é senão dar-se-nos Cristo em alimento, seja anátema” [3].

E ainda:

“Se alguém disser que o Sacrifício da Missa é apenas de louvor e de ação de graças, ou simples comemoração do sacrifício consumado na Cruz, e não um sacrifício propiciatório; ou que só aproveita a quem o recebe, e não deve ser oferecido pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades, seja anátema” [4].

O Missal codificado por São Pio V em 1570, na Bula Quo primum tempore, deu forma litúrgica definitiva a estas definições dogmáticas. Como observou Mons. Klaus Gamber: “O Missal da Missa tradicional foi codificado depois e à luz dos decretos que o Concílio de Trento definiu infalivelmente sobre o que é a Missa e o que ela não é. A Missa tradicional é a expressão perfeita e natural dos dogmas de Trento” [5].

Muralha contra o protestantismo

O Ofertório tradicional constituía precisamente aquilo que os protestantes mais odiavam na Missa Católica. Lutero escreveu com seu característico e diabólico furor:

“Aquele abominável Cânon, aquela coleção de lacunas lodosas; ele fez da Missa um sacrifício. Acrescentaram-se os Ofertórios, tais quais os mercenários acrescentam suas obras às palavras de Cristo.” [6]

Os reformadores protestantes compreenderam perfeitamente que para destruir a fé católica no Santo Sacrifício da Missa, era necessário suprimir as orações que a expressavam. Thomas Cranmer, ao compor o Book of Common Prayer anglicano em 1549, eliminou sistematicamente as orações do Ofertório e o Cânon Romano, substituindo-os por fórmulas ambíguas que podiam ser interpretadas em sentido protestante [7].

O que Lutero e Cranmer não conseguiram impor aos católicos, Bugnini e o Consilium realizaram quatro séculos depois, com a aprovação de Paulo VI.

III.  A destruição premeditada

O ódio de Lutero ao ofertório

Para compreender a gravidade da substituição do Ofertório tradicional, é necessário recordar por que os protestantes o detestavam. Não se tratava de uma questão meramente estética ou de preferência ritual, mas de uma oposição doutrinária radical.

Lutero rejeitava a doutrina católica de que a Missa é um verdadeiro sacrifício propiciatório oferecido a Deus pelos vivos e defuntos. Para ele, a Missa deveria ser apenas uma “Ceia do Senhor”, um memorial da Última Ceia, uma refeição comunitária. As orações do Ofertório, que afirmavam explicitamente o caráter sacrificial e propiciatório, eram um obstáculo intransponível a esta concepção herética.

Por isso, na sua Formula Missae de 1523 e na Deutsche Messe de 1526, Lutero eliminou completamente o Ofertório. Declarou que “toda aquela abominação chamada Ofertório” devia ser suprimida porque nela “quase tudo soa e cheira a oblação” [8].

O que Lutero não conseguiu, Bugnini realizou

O Arcebispo Dom Annibale Bugnini, secretário da Comissão para a Reforma Litúrgica (Consilium), foi o principal arquiteto do Novus Ordo Missae. As conexões maçônicas de Bugnini foram amplamente documentadas: uma operação policial em 1976 revelou um registro de prelados do Vaticano iniciados na Maçonaria, incluindo Bugnini, que teria ingressado na loja em 23 de abril de 1963, com o codinome “Buan” [9].

Independentemente destas acusações, o fato incontestável é que Bugnini e o Consilium realizaram precisamente aquilo que Lutero e os reformadores protestantes haviam tentado: a supressão sistemática das orações sacrificiais do Ofertório.

Como atestou o estudioso Atila Guimarães: “No Ofertório da Missa Tridentina, muitas orações como o Suscipe Sancte Pater, o Offerimus Tibi Domini, o Deus qui humanæ substantiæ e o Veni Sanctificator mostram claramente o caráter propiciatório do  Sacrifício. Todas estas orações foram eliminadas no Novus Ordo” [10].

No total, aproximadamente 70% das orações da Missa Tradicional foram substituídas ou descartadas, além de numerosos versículos, responsórios, mais de vinte sinais da Cruz e doze genuflexões [11]. A ruptura com a Tradição Sagrada e o Dogma estava consumada.

A advertência ignorada do Papa Pio XII

Em sua Encíclica Mediator Dei de 1947, o Papa Pio XII já lançara uma firme advertência contra o arqueologismo litúrgico e as pretensas “restaurações” de práticas primitivas:

“Não seria animado por zelo reto e inteligente quem quisesse voltar aos antigos ritos e usos, repudiando as novas normas introduzidas por disposição da Divina Providência e por alteração das circunstâncias. Este modo de pensar e de agir, efetivamente, faz reviver o excessivo e insensato arqueologismo suscitado pelo ilegítimo concílio de Pistoia” [12].

O Romano Pontífice denunciava especificamente a pretensão de ressuscitar práticas supostamente primitivas como se fossem mais autênticas ou veneráveis que as tradições desenvolvidas organicamente ao longo dos séculos. Contudo, esta advertência foi solenemente ignorada pelos reformadores pós-conciliares, que invocaram precisamente um suposto “retorno às fontes” para justificar a demolição do edifício litúrgico romano.

Os lobos consultados a respeito da guarda do rebanho

Um fato particularmente escandaloso da reforma litúrgica foi a presença de observadores protestantes nas reuniões do Consilium. Seis ministros protestantes, representantes das seitas luterana, anglicana, reformada e outras, foram convidados a colaborar na elaboração da nova liturgia católica [13].

O próprio Papa Paulo VI agradeceu publicamente a contribuição desses hereges “na reedição de modo novo dos textos litúrgicos… para que a lex orandi (lei da oração) se conformasse melhor à lex credendi (lei da fé)” [14].

Donde cabe, com perplexidade, perguntar-se como poderiam hereges que negam a natureza sacrificial da Missa ajudar a formular o rito que deveria expressá-la? É como consultar lobos sobre a melhor maneira de proteger o aprisco.

IV. A “Preparação das Oferendas”: uma impostura litúrgica

A origem talmúdica, não veterotestamentária

Uma das mentiras mais persistentes sobre a reforma litúrgica é a afirmação de que as novas orações do “ofertório”, a chamada “Preparação das Oferendas”, são “bênçãos judaicas da mesa” que remontariam aos tempos de Esdras e refletiriam as práticas dos primeiros cristãos convertidos do Judaísmo.

Esta narrativa é completamente falsa.

A fórmula introduzida no Novus Ordo Missae, Benedictus es, Domine, Deus universi, qui de tua largitate accepimus panem (vinum), quem (quod) tibi offerimus, fructum terræ (vitis) et operis manuum hominum, ex quo (qua) nobis fiet panis vitæ (potus spiritalis)”, não provém do Antigo Testamento, mas do Talmude.

A Jewish Encyclopedia (1901-1906), no seu artigo sobre “Benedictions”, esclarece que a história da origem das “bênçãos” no Judaísmo é uma “tradição rabínica” encontrada no próprio Talmude, especificamente em Berakoth 33a [15]. Não há qualquer base bíblica para estas fórmulas.

O Talmude não foi escrito durante a vida de Cristo ou dos Apóstolos. Foi compilado na Babilônia por rabinos que haviam rejeitado o Messias, rabinos em plena e venenosa concordância com o Sinédrio que exigiu a morte de Nosso Senhor. Como  atesta o Rabino Adin Steinsaltz: “Historicamente falando, o Talmude é o pilar central da cultura judaica”, note-se: o Talmude, não o Antigo Testamento [16].

O Talmude: texto que blasfema contra Cristo

O Talmude não é simplesmente um texto religioso neutro. É um clássico da literatura de ódio contra Jesus Cristo, com uma intensidade e perversidade talvez nunca igualadas. Entre as blasfêmias contidas no Talmude, encontram-se:

  • A afirmação de que a Santíssima Virgem Maria era uma “meretriz” (Sanhedrin 106a);
  • A alegação de que Jesus “aprendeu feitiçaria no Egito” (Shabbos 104b);
  • A declaração de que Jesus está no Inferno sendo fervido em “excrementos quentes” (Gittin 57a) [17].

Por estas e outras razões, vários Papas ordenaram a queima do Talmude, incluindo Inocêncio IV na Bula Impia judæorum perfidia [18].

E foi precisamente deste texto, que blasfema contra o nosso Divino Salvador e Sua Santíssima Mãe, que Bugnini e o Consilium resolveram extrair as orações para substituir  o Ofertório católico.

Como observou Craig Heimbichner: “A verdade espantosa é que, na Nova Missa, o Ofertório foi substituído por uma fórmula do Talmude, um clássico da literatura de ódio dirigida contra Jesus com uma intensidade e perversidade talvez nunca igualadas” [19].

As bênçãos talmúdicas e as maldições aos cristãos

É importante notar que a estrutura das bênçãos (berakoth) no Talmude não se limita a orações de mesa inofensivas. O mesmo formato “Bendito sejas Tu, Senhor, Deus do universo” é usado também para maldições contra os cristãos.

O Professor Israel Shahak, da Universidade Hebraica, confirma: “Na seção mais importante da oração diária, as ‘dezoito bênçãos’, há uma maldição especial, originalmente dirigida contra os cristãos, convertidos judeus ao Cristianismo e outros hereges judeus: ‘E que os apóstatas não tenham esperança, e todos os cristãos pereçam instantaneamente’” [20].

O Rabino Steinsaltz comenta: “Uma das alterações introduzidas no serviço pouco depois da destruição [do Segundo Templo] não estava, contudo, ligada ao Templo em si, mas ao problema das seitas heréticas, gnósticas e cristãs… Os sábios do Sinédrio em Yavneh decidiram acrescentar ao Shemoneh Esreh uma bênção adicional (que é de fato uma maldição) sobre os hereges” [21].

Este é o contexto das orações que substituíram o Ofertório católico: um  texto  que  contém não apenas orações de mesa, mas também maldições contra os seguidores de Cristo.

A oblação de Caim

Há outro aspecto profundamente perturbador nas novas orações da “Preparação das Oferendas”. A fórmula “fructum terræ et operis manuum hominum”, “fruto da terra e trabalho das mãos do homem”, evoca inevitavelmente o sacrifício de Caim, rejeitado por Deus.

No livro do Gênesis, lemos:

“Passado algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta dos frutos da terra (de fructibus terræ). Abel, por sua vez, ofereceu dos primogênitos do seu rebanho, e da gordura deles. O Senhor olhou com agrado para Abel e sua oferta, mas não olhou para Caim e sua oferta” (Gn. 4, 3-5).

A oferta de Caim, os frutos da terra, o trabalho das suas mãos, foi rejeitada por Deus. A oferta de Abel, um sacrifício sangrento, figura do Sacrifício de Cristo, foi aceita.

No Ofertório tradicional, o sacerdote oferecia “hanc immaculatam hostiam”, esta hóstia imaculada, em clara referência ao Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Na “Preparação das Oferendas” do Novus Ordo, oferece-se “o fruto da terra e o trabalho das mãos do homem”, precisamente aquilo que Caim ofereceu e que Deus recusou.

A pergunta mais uma vez impõe-se: foi esta escolha deliberada? É difícil crer que os liturgistas do Consilium, homens de vasta erudição bíblica, não tenham percebido a evocação do sacrifício de Caim. A alternativa é ainda mais inquietante: perceberam e escolheram deliberadamente esta fórmula.

Onde está o sacrifício?

Comparemos agora os dois textos. No Ofertório tradicional, o sacerdote dizia:

“Recebei, ó Pai Santo, Deus omnipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu,  Vosso indigno servo, Vos ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, e por todos os circunstantes, bem como por todos os fiéis cristãos vivos e defuntos: para que a mim e a eles aproveite para a salvação na vida eterna.”

Na “Preparação das Oferendas” do Novus Ordo, o sacerdote diz:

“Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar pão da vida.”

Onde está a “hóstia imaculada”? Desapareceu. Onde está o oferecimento “pelos inumeráveis pecados”? Desapareceu. Onde está a propiciação “pelos vivos e defuntos”? Desapareceu. Onde está a súplica para que “aproveite para a salvação”? Desapareceu.

O que resta é “fruto da terra e trabalho do homem”, palavras que um protestante, um judeu ou mesmo um ateu poderia pronunciar sem qualquer dificuldade.

V. Uma liturgia aceitável aos hereges

A convergência deliberada ao protestantismo

A supressão do Ofertório tradicional não foi um acidente nem uma decisão tomada por motivos meramente pastorais. Foi uma escolha deliberada para tornar a Missa católica mais aceitável aos protestantes.

Michael Davies demonstrou em detalhe que as mesmas orações do Ofertório que provocaram a ira dos reformadores protestantes foram também consideradas inaceitáveis por Bugnini e seus consultores protestantes [22]. A coincidência  é  demasiado exata para ser acidental.

Davies observou: “A extensão em que o Novus Ordo Missae se afasta da teologia do Concílio de Trento pode ser melhor avaliada comparando as orações que o Consilium removeu da liturgia com aquelas removidas por Cranmer. A coincidência não é simplesmente impressionante, é horripilante. De fato, não pode ser uma coincidência” [23].

O próprio Bugnini declarou que o objetivo da reforma era remover da liturgia católica tudo o que pudesse constituir “a sombra de uma pedra de tropeço” para os  “irmãos  separados” [24]. Em outras palavras: a liturgia católica deveria ser purificada das verdades católicas que os protestantes rejeitam, e, portanto, não deveria conter nada que pudesse aproximá-los da salvação, nem que pudesse manter a fé naqueles que a possuíam.

O testemunho dos observadores protestantes

Os protestantes que participaram como observadores no Consilium ficaram satisfeitos com o resultado. Max Thurian, da comunidade protestante de Taizé, declarou que a nova liturgia católica poderia ser usada por comunidades protestantes [25].

O pastor luterano Richard Neuhaus observou que a nova Missa católica tinha muito pouco que um protestante não pudesse aceitar, o que, para um católico, deveria ser motivo de alarme e não de celebração [26].

Se a nova liturgia é aceitável para aqueles que negam a natureza sacrificial da Missa, a presença real de Cristo na Eucaristia e o sacerdócio ministerial, isso demonstra inequivocamente que ela não expressa adequadamente estas verdades católicas.

A Intervenção Ottaviani: um alarme desprezado

Em setembro de 1969, os Cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci enviaram ao Papa Paulo VI um documento intitulado Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae. Na carta que acompanhava o estudo, os cardeais afirmavam:

“O Novus Ordo Missae, considerando os elementos novos suscetíveis de avaliações muito diversas, que parecem implicados ou pressupostos, representa, no seu conjunto e nos seus detalhes, um afastamento impressionante da teologia católica da Santa Missa, tal como foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento” [27].

O documento analisava em detalhe as deficiências doutrinárias da Nova Missa, incluindo  a definição ambígua da Missa na Institutio Generalis, a supressão das orações sacrificiais do Ofertório e as modificações no Cânon.

A resposta de Roma foi publicar uma Institutio Generalis ligeiramente revista em 1970, com um prólogo que afirmava alguns princípios católicos ausentes na versão de 1969. Contudo, como observou Atila Guimarães, “um estudo cuidadoso deste Prólogo não revela modificações essenciais em relação ao documento de 1969, e nenhuma mudança significativa foi feita no texto do próprio Novus Ordo Missae” [28].

O alarme foi desprezado e a revolução prosseguiu.

O silêncio cúmplice da hierarquia

Uma das realidades mais dolorosas da crise litúrgica é o silêncio cúmplice da maioria dos bispos. Salvo raras exceções, a hierarquia católica aceitou sem protesto a destruição do Rito Romano.

Os bispos que deveriam ter sido guardiões da fé tornaram-se, na maioria dos casos, executores dóceis de uma reforma que contradiz o ensinamento perene da Igreja. Como escreveu Mons. Gamber: “Grande é a confusão! Quem ainda pode ver claramente nesta escuridão? Onde estão na Igreja os líderes que podem mostrar-nos o caminho correto? Onde estão os bispos suficientemente corajosos para extirpar o crescimento canceroso da teologia modernista que se implantou e está a supurar dentro da celebração dos mistérios mais sagrados, antes que o câncer se espalhe e cause danos ainda maiores?” [29].

VI.  Conclusão

A manifestação da traição operada

Diante da evidência apresentada, não é possível permanecer em silêncio. A substituição do Ofertório católico por fórmulas de origem talmúdica constitui uma traição à fé dos nossos pais, uma traição que clama ao céu por reparação.

Não nos move o desejo de contestar a autoridade legítima na Igreja. Move-nos, porém, o dever sagrado de defender a fé católica, mesmo quando o erro provém de Roma. São Paulo resistiu a São Pedro “em face” quando este agia de modo contrário à verdade do Evangelho (Gl. 2, 11). Os santos doutores ensinaram que é lícito, e por vezes obrigatório, resistir respeitosamente às decisões da autoridade eclesiástica quando estas são prejudiciais às almas [30].

O dever de fidelidade

A fidelidade à fé dos nossos pais exige que mantenhamos e transmitamos intacto o depósito sagrado que recebemos. Este depósito inclui a liturgia tradicional da Igreja Romana, desenvolvida organicamente ao longo de séculos sob a assistência do Espírito Santo.

Como escreveu Mons. Gamber: “No final, todos teremos de reconhecer que o rito tradicional da Missa deve ser mantido na Igreja Católica Romana, e não apenas como meio de acomodar sacerdotes e leigos mais velhos, mas como a forma litúrgica primária para a celebração da Missa. Deve tornar-se novamente a norma da nossa fé e o símbolo da unidade católica em todo o mundo, uma rocha de estabilidade num período de convulsão e mudança” [31].

O Missal Romano de São Pio V: única expressão autêntica e católica do Rito Romano

O Missal Romano tradicional, com o seu Ofertório que proclama sem ambiguidade o caráter sacrificial e propiciatório do Santo Sacrifício, permanece a única expressão autêntica e íntegra da fé católica na Eucaristia no Rito Romano. É ela que São Pio V declarou “absolutamente livre de erro” e “salvaguarda contra a heresia” [32].

O Novus Ordo Missae, com a sua “Preparação das Oferendas” de origem talmúdica, não oferece esta segurança. Pelo contrário: abre a porta a interpretações heterodoxas e contribui para a crise de fé que assola a Igreja desde a sua violenta imposição.

É pela Fé Católica que a Missa de Sempre deve ser guardada e difundida. É nela que encontramos a expressão autêntica da Fé que os mártires professaram e pela qual deram a vida.

É por isso que declarou São Pio V que esta Missa foi concedida “em perpétuo” e “jamais poderá ser revogada ou modificada” [33]. A tradição litúrgica da Igreja Romana não pertence a nenhum Papa para que a destrua; pertence à Santa Igreja de todos os tempos.

Notas

  1. II Tessalonicenses 2, 15 (Vulgata).
  2. Joseph Gelineau, Demain la liturgie, Paris: Cerf, 1976, citado em Michael Davies, Pope Paul’s New Mass, Kansas City: Angelus Press, 2009, p. 102.
  3. Concílio de Trento, Sessão XXII, Cânon 1 (DH 1751). Disponível em: https://www.vatican.va/content/vatican/it/holy-father/documentazione/denzinger.html.
  4. Concílio de Trento, Sessão XXII, Cânon 3 (DH 1753).
  5. Cf. Michael Davies, “Where the Modern Liturgy Went Wrong”, prefácio a Klaus Gamber, The Reform of the Roman Liturgy, San Juan Capistrano: Una Voce Press, 1993. O texto original de Gamber afirma: “Pope St. Pius V said that this Missal is ‘absolutely  free from error’ and a ‘safeguard against heresy’.”
  6. Lutero, De Abroganda Missa Privata, 1521, citado em Michael Davies, Pope Paul’s New Mass, Kansas City: Angelus Press, 2009, p. 273.
  7. Cf. Michael Davies, Cranmer’s Godly Order, Fort Collins: Roman Catholic Books, 1995, passim; ver especialmente os capítulos sobre a reforma do Ofertório.
  8. Lutero, Formula Missae, 1523, citado em Michael Davies, Pope Paul’s New Mass, p. 274.
  9. “La gran loggia vaticana”, Osservatore Politico, Roma, 12 de setembro de 1978, citado em Craig Heimbichner, “The Real Story of the Offertory’s Replacement”, Catholic Family News, março de 2004. Disponível em: https://www.catholictradition.org/Eucharist/roman-mass4.htm.
  10. Atila S. Guimarães, In the Murky Waters of Vatican II, Metairie: Maeta, 1999, pp. 230-233.
  11. Paul Trinchard, Novus Ordo Condemned, Metairie: Maeta, 1997, p. 34, citado em Remi Amelunxen, “How the Novus Ordo Missae Destroyed the Tridentine Mass”, Tradition in Action. Disponível em: https://traditioninaction.org/religious/i022_Mass-5.htm.
  12. Pio XII, Encíclica Mediator Dei, 20 de novembro de 1947, n. 64. Disponível em: https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20111947_mediator-dei.html.
  13. Cf. Guimarães, In the Murky Waters of Vatican II, p. 260.
  14. Paulo VI, Discurso aos membros do Consilium, 1970, citado em Guimarães, In the Murky Waters of Vatican II, p. 260.
  15. Jewish Encyclopedia, artigo “Benedictions”. Disponível em: https://www.jewishencyclopedia.com/articles/2932-benedictions.
  16. Adin Steinsaltz, The Essential Talmud, Nova York: Basic Books, 1976, p. 266.
  17. As referências talmúdicas (Sanhedrin 106a, Shabbos 104b, Gittin 57a) são citadas em Craig Heimbichner, “The Real Story of the Offertory’s Replacement”, Catholic Family News, março de 2004, que por sua vez remete à tradução de Steinsaltz. Cf. Steinsaltz, The Essential Talmud, p. 84, sobre a censura destas passagens em edições anteriores.
  18. Inocêncio IV, Bula Impia Judæorum Perfidia, 1244, citada em Heimbichner, “The Real Story of the Offertory’s Replacement”.
  19. Heimbichner, “The Real Story of the Offertory’s Replacement”, Catholic Family News, março de 2004. Disponível em: https://www.catholictradition.org/Eucharist/roman-mass4.htm.
  20. Israel Shahak, Jewish History, Jewish Religion, Londres: Pluto Press, 1994, p. 63, citado em Heimbichner, “The Real Story of the Offertory’s Replacement”.
  21. Steinsaltz, The Essential Talmud, p. 105.
  22. Cf. Davies, Pope Paul’s New Mass, pp. 317-350.
  23. Davies, Pope Paul’s New Mass, p. 351.
  24. Annibale Bugnini, La Riforma Liturgica (1948-1975), Roma: CLV-Edizioni Liturgiche, 1983, citado em Davies, Pope Paul’s New Mass, p. 498.
  25. Max Thurian, declaração citada em Davies, Pope Paul’s New Mass, p. 498.
  26. Cf. Davies, Pope Paul’s New Mass, p. 498.
  27. Cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci, carta a Paulo VI, 25 de setembro de 1969, in The Ottaviani Intervention, Kansas City: Angelus Press, 2010. Disponível em: https://sspx.org/en/ottaviani-intervention.
  28. Guimarães, In the Murky Waters of Vatican II, p. 226.
  29. Gamber, The Reform of the Roman Liturgy, citado em Davies, “Where the Modern Liturgy Went Wrong”.
  30. Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 33, a. 4, ad 2.
  31. Gamber, The Reform of the Roman Liturgy, citado em Davies, “Where the Modern Liturgy Went Wrong”.
  32. São Pio V, Bula Quo Primum Tempore, 14 de julho de 1570. Disponível em: https://www.papalencyclicals.net/pius05/p5quopri.htm
  33. Ibid.

Um comentário sobre “Tenete traditiones: o Ofertório católico e a traição litúrgica de 1969

Deixe uma resposta