Lembro-me de quando era novo, bem mais novo, e estava ainda no ensino fundamental. Lembro-me de muitos dos meus colegas e daqueles a quem, na época, eu chamava de amigos. Brincávamos durante o recreio, inventávamos personagens — hábito que guardo até hoje —, duelávamos com nossas cartas de Yu-Gi-Oh!, fazíamos trabalhos juntos e, quando os professores permitiam, estávamos juntos até durante algumas avaliações.
O tempo passou, e do ensino fundamental, passei ao ensino médio. Passei de uma escola para um instituto federal e, com essa mudança, veio também a mudança das ditas amizades. As lembranças sobre essa nova fase e das pessoas que nela estavam também permanecem em minha mente, mas assim como ocorreu com aqueles que estavam em minha infância, os meus “amigos” do ensino médio permaneceram apenas em minhas memórias, ocasionalmente desenterradas para que algum fato seja citado em alguma conversa avulsa.
Passei no vestibular e fui, então, para a universidade. Lá também conheci muita gente, mas ao contrário do que ocorreu nas duas etapas estudantis anteriores, fiz amigos preciosos, e até mesmo um irmão, com quem mantenho contato até hoje e com quem posso dizer que tenho uma comunhão de alma.
Mas o que houve para que tal mudança acontecesse? Seria o ambiente universitário o mais propício para a formação de amizades? Qualquer um com um pouco de saúde mental logo dirá que não. O que ocorreu, caro leitor, foi a troca das brincadeiras da infância e das conversas vãs da adolescência por uma vida que tenta se manter firmada na Eternidade — e uma dose imensa da graça de Deus e da intercessão de Maria Santíssima, que enviaram tais amigos sem que eu sequer pedisse ou soubesse da necessidade de tê-los. Ocorreu a troca das “amizades más e frívolas” pelas boas amizades, que igualmente almejavam uma vida séria e voltada para o Céu.
Não quero dizer que aqueles com quem eu brincava e estudava eram pessoas más, mas que as amizades — que eram apenas coleguismos de escola — eram fundadas em coisas pueris, em prazeres passageiros, e não em virtudes, como são as amizades verdadeiras.
São Francisco de Sales, em seu famoso livro Filoteia, discorre magistralmente sobre esses tipos de amizades e lança uma luz sobre algo que parece ter se perdido em nossos tempos tão inebriados de malícia: a amizade é uma forma de amor, e um dos mais perigosos, porque, diz o santo Doutor da Igreja, “os outros amores podem ser sem trato nem reciprocidade. Mas a amizade, como é totalmente fundada nessa comunicação, não podemos tê-la com uma pessoa sem participar de suas qualidades”. Ou seja, quem possui uma certa relação de amizade com pessoas más, que dão muito valor aos prazeres deste mundo, acabará por se assemelhar a elas.
”Quem anda com porco, farelo come”, diz um famoso ditado popular infelizmente já bastante esquecido pelos homens de nossa época.
“Não tenhas amizade senão com aqueles que podem tratar contigo de coisas de virtude”, diz São Francisco no mesmo tratado. Antes dele, muito antes, Aristóteles já distinguia os tipos de amizades e classificava aquelas baseadas nas virtudes como sendo as verdadeiras, pois há uma edificação mútua entre os amigos. E quem poderá discordar de algo assim, parando e observando as porcas relações que nos cercam? Pouquíssimas são as relações fundadas em virtudes, mesmo nas mais naturais. O que impera, e isso é perceptível em boa parte dos ambientes, são relações sustentadas à base de maledicência, carência e frivolidades, onde as partes estão mais interessadas em algum prazer passageiro, honesto ou não, do que no bem e edificação uma da outra.
No mundo, quem pode dizer com firme convicção que aquele a quem chama de amigo não fala mal de si pelas costas? Quem pode afirmar categoricamente que saiu de alguma conversa ou de algum passeio sem cometer nenhum pecado? Tamanho é o nível da perversidade atual que mesmo as amizades mais sinceras da ficção, como de Frodo e Sam em O Senhor dos Anéis, são frequentemente vistas como alguma espécie de homossexualismo enrustido. Para o homem moderno, duas pessoas não podem ser muito próximas, e se sacrificarem mutuamente, sem que haja algo além de uma amizade sincera.
Lembremo-nos do que diz o bom Deus através do Rei Salomão: “O amigo fiel é uma forte proteção; quem o encontrou, encontrou um tesouro. Nada se pode comparar com um amigo fiel, e o ouro e a prata não merecem ser postos em balança com a sinceridade da sua fé”. (Eclo. 6, 14-15). Assim, ao contrário de toda essa imundície, uma boa amizade é difícil de se encontrar — mesmo em ambientes católicos, onde a caridade fraterna deveria transbordar. E se essa dificuldade já era grande antes, quando o homem ainda buscava ter certa ordenação, mesmo que a nível meramente natural, quanto mais hoje, onde a desordem moral é a lei e a religiosidade é vista como algo de gente piegas, irracional ou sem critério — e, entre outras coisas, o fato de realmente haver gente piegas, irracional e sem critério dentro da Igreja apenas colabora com esse estereótipo.
Mas é preciso ter em mente que as melhores e mais profundas amizades não surgem do nada e ninguém vira melhor amigo de uma pessoa da noite para o dia, mesmo que seja possível já ter certa inclinação para tal relação em um primeiro momento. É preciso conhecer bem o outro, suas ideias e convicções. É preciso dar tempo ao tempo, para que ocorra reciprocidade, algo absolutamente necessário em uma amizade, e para que a relação seja provada com as adversidades que a vida inevitavelmente traz.
Contudo, mesmo que se tenha tudo isso, mesmo que a amizade seja provada com fogo e que tenha como alvo da comunicação as virtudes, a amizade descrita em Filoteia como excelente é aquela que São Francisco chama de “amizade espiritual”, que trata sobre a caridade — e aqui não se trata de dar esmola ou comida aos pobres —, devoção e perfeição cristã (aos mais ecumênicos, o santo era católico e tal perfeição não pode ser senão católica). Para o santo, é através desse gênero de amor que “duas ou três, ou mais almas comunicam entre si a sua devoção, os seus afetos espirituais, e vêm a formar entre si um só espírito”. E continua: “com quanta razão essas venturosas almas podem cantar Oh! quão bom e quão agradável é habitarem os irmãos juntos! Sim, porque o bálsamo delicioso da devoção destila e passa de um coração ao outro por uma contínua participação, a ponto que se pode dizer que Deus derramou sobre esta amizade a sua bênção e a vida até aos séculos dos séculos”.
Mais ainda, o santo afirma que uma sagrada amizade é necessária aos que vivemos uma vida secular, no meio do mundo, pois através dela “animam-se, ajudam-se, e levam-se mutuamente ao bem”. E aqui eu digo que esse ânimo e ajuda nem sempre vêm de falar propriamente sobre as coisas do Alto — embora sejam frequentes as conversas sobre esses assuntos —, mas de todo tipo de diálogo sobre os mais variados temas, tratados de forma leve, guiados pela reta doutrina de Nosso Senhor, mesmo que não seja nomeada. As piadas e risadas são honestas e sem malícia, o trato respeita os limites do bom senso e a confiança um no outro é inabalável. Há a firme convicção de que, como diz Santo Tomás, se ama e se odeia as mesmas coisas.
Algo assim, tão excelente, que vem de Deus, tende para Deus, e que tem Deus como vínculo, é impossível aos que põem como critério de amizade somente os mesmos interesses, mesmo que católicos e razoáveis. Novamente, é necessário que haja os mesmos interesses, retos, honestos e virtuosos, mas não haverá excelente se a caridade e a devoção não forem as pilastras da relação.
Diante de tudo isso, como pode alguém olhar para o que há lá fora, fora do Sagrado Coração, fonte de toda Caridade, e ainda permanecer convicto de que é possível haver verdadeira amizade entre pessoas sem virtude, tão ligadas às sujeiras terrenas quanto as lagartas, as cobras e toda sorte de animais rastejantes?
A amizade, caro leitor, a verdadeira amizade cria laços de irmandade; não puxa para baixo, mas impulsiona para o alto.

