Entendendo, como entendo, que num país que surgiu, cresceu e se desenvolveu à sombra da Cruz, uma democracia antirreligiosa não pode deixar de ser uma democracia artificial.
Padre Júlio Maria de Carneiro. O catolicismo no Brasil, pág. 26.
Queira o leitor desta estimável revista perdoar este autor. Há, de nossa parte, uma contumaz descontinuidade nestas bandas. O vosso editor, contudo, solicitou-nos uma análise do momento atual do Brasil, nosso sempre amado país, fundado sob o signo da Cruz.
Muitas vezes, desprezamos as obviedades acerca dos traços da vocação brasileira. Existe um antigo adágio atribuído a um diálogo entre Santo Tomás e São Boaventura. Supostamente, o franciscano teria dito ao dominicano que a Cruz era sua principal biblioteca. Seria o resumo de toda a sua luta. Tomando parte nessa equação? Refletimos o mesmo sentido para o país em que vivemos. A história do Brasil é uma imensa ladainha de Nossa Senhora, mas com notas elevadas direcionadas ao vale de lágrimas preconizado na Salve Rainha. A Cruz da nossa primeira Missa ainda é o ponto seguro para todo o desfiladeiro histórico percorrido nos 500 anos seguintes.
A indistinção do mal
Dizia-nos Gustavo Corção:
O povo brasileiro nasceu persignando-se, ajoelhando-se, e logo na primeira missa agradecendo a Deus e reconhecendo em Jesus Cristo o único Rei dos reis. Já no mesmo grande continente que tem nome glorioso e apocalíptico de Novo Mundo, que é pseudônimo do Céu, cantara a voz piedosa de Colombo: Te Deum laudamus: te Dominum confitemur…
(O Globo. 25 de novembro de 1971)
Existe uma confusão, uma forma de patriotismo às avessas que vai galgando espaço na pena dos demagogos. O Brasil tem defeitos, e o povo brasileiro, igualmente. Apontá-los não é desamor à Pátria, mas uma forma elevada de caridade. A verdade nem sempre é uma sentença agradável. Reparem, contudo, que ter consciência dos problemas e potencializá-los não parece ser indicativo de uma boa ação católica. O messianismo, nesse contexto, talvez seja a celeuma mais potencializada desde o advento da República, em 1889. E, de quatro em quatro anos, desde 1989, acostumamo-nos a olhar para o processo eleitoral à procura de um novo messias. As discussões políticas em solo nacional, não raro, constituem-se de imensos vazios.
Se fôssemos explicar esses vazios pela ausência católica nos contornos sociais brasileiros, precisaríamos de um livro. Para não vos deixar sem algum acréscimo, sintetizamos: o catolicismo no Brasil viu-se tragado em suas muralhas pelos enganos do jogo entre direita e esquerda. A patologia que assolou o mundo feriu a Igreja com um golpe quase mortal.
Eis aqui a primeira reflexão mais direta. Em uma hora fatal para a Pátria — e, sim, concordamos que as eleições não são triviais —, encontramos omissões de parte a parte. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou-se a falar da busca pela “justiça social”. O que seria essa “justiça social”? Sem uma definição precisa, como poderá o fiel católico encontrar em sua hierarquia uma orientação? Alguns padres famosos e alguns bispos alegam por aí que o voto é uma “obrigação moral”, mas não indicaram nomes de forma clara. Ora! Ora! Se devemos observar a luta pela “justiça social” e se o voto é uma “obrigação moral”, por que a covardia impediu nossos homens que deveriam usar batina — mas não usam — de professar claramente quais escolhas deveríamos fazer neste torvelinho de marasmos que é a democracia brasileira?
Não seria tomar partido. Não seria partidarizar a Igreja. Seria, aí sim, o reconhecimento de que vivemos sob um regime de mal quase absoluto. Seria reconhecer que os partidos brasileiros estão a léguas de distância do ideário católico. Seria a clareza, a justiça de fato.
O cinismo, a covardia e a falta de firmeza estão aí para ilustrar a atitude de todos os setores da hierarquia católica nesse particular. Abandonaram o dever de orientar. Querem dizer X citando todo o alfabeto, menos o X. Alguns podem julgar que seria “imprudência”. Não seria uma imprudência ainda maior deixar os leigos a firularem textos e mais textos sobre quem seria o “mal menor” ou o “bem possível”, sem que o clero brasileiro reconheça suas obrigações mais primárias? Dificilmente teremos bons ajustes para o futuro do Brasil.
Parece-nos haver plena razão da parte de Jackson de Figueiredo:
O nosso mal é o que se poderá chamar a indistinção moral, isto é, a incapacidade de distinguir no domínio moral, uma espécie de daltonismo de linhas, de imagens, que vai além das cores nesse mundo próprio da consciência. Somos um povo que não sabe distinguir moralmente, ou que só o sabe tanto quanto se impõe irresistivelmente para poder viver uma espécie de vida vegetativa nesse domínio em que a vida deve e tem que ser consciente.
(Discurso na Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo. 21 de abril de 1924)
O ingênuo que presencia o espetáculo de sombras em curso pode encontrar mil justificativas para as omissões citadas. Nós, contudo, não podemos fingir. Não temos esse direito. Sabemos, claramente sabemos, que entre os que deveriam vergar batina existem petistas não tão disfarçados por trás da ideia de “justiça social” e bolsonaristas apaixonados na sanha tosca da “obrigação moral do voto”. Não confessam, não assumem, todavia. Ter o mal claramente estampado seria uma vantagem para o bom combate, para o necessário remédio. Preferem agir, nesse particular, como a linguagem diplomática, que diz muito em palavras, mas nada diz em substância. Noutros termos: são diplomatas que, no contexto de nossa argumentação, seriam mais bem compreendidos como agentes de má-fé.
Seria o regime atual do Brasil uma forma justa de governo? Poderíamos questionar. Democracia ou democratismo? Parece-nos claro: democratismo. Aqui acrescentamos dois textos de Gustavo Corção para esclarecer nossas intenções. O primeiro:
Se me informarem que devo passar por um corredor ditatorial, eu não deverei querer tal passagem ainda que veja na boca do corredor […] toda a fartura das terras de Canaã […] Há coisas que não se fazem. Não se vende mulher; não se engana o amigo; não se falta à palavra. Êxito nenhum será verdadeiro se exigir essas provas. E, politicamente, democracia é isso: a clara exigência das coisas que não se fazem.
(1945, grifos nossos.)
O segundo:
Efetivamente, o termo “democracia”, no tumulto provocado por guerras, revoluções, reformas de coisas irreformáveis e mise en question de todos os princípios morais e religiosos, o termo “democracia”, embora pretenda ter permanecido imóvel no mercado das ideias baratas, sofreu deslocamentos semânticos denunciados pelos adjetivos que lhe são anexados: democracia liberal, democracia cristã, democracia popular etc. Mas também sofreu deslocamentos metafísicos mais profundos e mais perturbadores. Na sua primeira e clássica acepção, o termo “democracia” significava forma de governo caracterizada pela mais ampla participação do povo — como “monarquia” significava forma de governo de mais concentrada autoridade.
No processo revolucionário que nos últimos quatro séculos corre nos subterrâneos da História, o termo “democracia” passou a significar uma filosofia de vida, e não apenas uma forma especial de governo. Seria melhor dizer que passou a ser um humanismo que pretende marcar os eixos essenciais de uma nova civilização que deixara de ser essencialmente cristã, mas ainda tolera ou respeita o cristianismo subsistente como uma opção individual.
(O Globo. 29 de abril de 1976)
Os que agora campeiam pelo voto “útil” em Flávio Bolsonaro, onde estiveram nos últimos anos? Deram de braços para a política. Não procuraram, nunca se dedicaram realmente à promoção de uma potencial candidatura católica. Aliás, nem se propuseram a apresentar condições mínimas para que se apoiasse o lado A ou o lado B. Tudo quanto dizem é de um fatalismo atroz: “Precisamos combater o petismo”. Não basta… é preciso lembrar que não basta ser antipetista para estar certo.
Há não muitos anos, o falecido arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Pagotto, levantou-se claramente com um manifesto de alcance nacional, alertando para a “cultura de morte” propagada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Tentou orientar. Quem seguiu o mesmo compasso na hierarquia? Citamos o caso para não falarmos ainda de exemplos mais diretos, como a Liga Eleitoral Católica e o combate da Igreja claramente manifestado contra candidatos maçons na República Velha.
Historicamente? A omissão nunca foi o modus operandi do clero brasileiro. Nos dias atuais, virou moda; virou regra.
A “polarização”
Em que consiste, realmente, a disputa entre os dois blocos políticos da chamada “polarização” brasileira? De um lado, a demagogia petista, com os supostos ideais de “ajustes sociais” e pormenores repletos de teorias progressistas. Do outro, uma “nova direita” enfileirada, em sua maioria, por protestantes neopentecostais.
Ao leitor, fica uma advertência. Nos dois blocos, quem se colocaria contra o Estado laico? Quem moveria o Judiciário em uma direção mais conforme ao direito natural e ao direito divino? Quem se colocaria frontalmente contra o aborto? Quem se colocaria contra o divórcio? Quem devolveria à Igreja os antigos direitos cartoriais? Quem poria fim à coisa dantesca do “casamento civil”?
Ouvindo o Presidente Lula, temos a impressão mais honesta de que, desde 2002, o PT não esteve ao leme da nau brasileira. O presidencialismo de coalizão, enraizado na prática política nacional, parece oferecer uma justificativa perfeita. A culpa dos fracassos é do Centrão, da direita, do fascismo imaginário, dos liberais, dos conservadores… nunca de quem governou o Brasil de 2002 a 2016. Nunca de quem voltou ao poder em 2023.
Gracejam contra o PT as reformas educacionais mais recentes. A BNCC e outras matérias preclaras foram gestadas ao longo dos governos Lula 1 e 2 e Dilma 1 e 2. Afora as tristes proposições dos Programas Nacionais de Direitos Humanos etc. Muitas prefeituras e muitos estados só podem receber recursos da União — na área da educação, por exemplo — quando seguem algumas regras estapafúrdias, como as relativas às pastas LGBT e outras mais.
Sempre combatemos o lulopetismo por enxergar em ambos a demagogia e a falsa ideia de luta por uma sociedade mais justa. Estão calçados em uma “moral” materialista, progressista e avessa aos princípios católicos. Para nós, episódios como o Mensalão, o Petrolão e outros casos de corrupção refletem as consequências diretas de uma impostura fundamentada em princípios errados. Quando recorrem a algum adágio religioso, fazem-no no âmbito da problemática teologia da libertação.
Se vivêssemos em tempos normais, essa orientação estaria claramente condenada e devidamente punida pela hierarquia católica. Combatemos o lulopetismo porque estão racionalmente errados. Dispensamos as histórias bonitas de antigos perseguidos, de petistas arrependidos etc. Qualquer estudioso da doutrina social tradicional da Igreja deveria perceber claramente as incompatibilidades entre a estrela vermelha e os fundamentos que norteiam os desígnios naturais da Igreja.
Indagamos, nesse compasso, para falarmos do outro lado da briga de lunáticos. Por que Bolsonaro nunca se propôs, ao longo de seus quatro anos de governo, a desfazer as ações petistas citadas acima? O curioso é que a justificativa vem a galope, de maneira semelhante às escusas petistas: Centrão, Parlamento progressista etc.
E as medidas provisórias? E a provocação do debate na sociedade? E a mobilização política para o combate em arenas verdadeiramente importantes?
Não faltaram provocações. Bolsonaro gastou seus quatro anos brigando pelo voto impresso, brigando em aparência com o Supremo, mas recorrendo a reuniões de bastidores amplamente registradas na imprensa brasileira. Nunes Marques, até onde sabemos, foi uma indicação do velho Centrão, notadamente de Ciro Nogueira, antigo aliado do PT. A outra indicação, a de André Mendonça, deu-se por um protestante — fato que dispensa maiores comentários.
Razoável, defensores do “mal menor”?
Por que Bolsonaro não se empenhou em desfazer as orientações dos Programas Nacionais de Direitos Humanos fundamentados pelo petismo? Por que não procurou reformar o Ministério da Educação? Por que não adotou uma boa condução cultural? Por que escolheu os piores nomes à disposição para o Supremo, a Procuradoria-Geral da República e os ministérios da Educação e da Cultura — fundido em seu governo junto aos ministérios do Esporte e do Desenvolvimento Social sob o Ministério da Cidadania?
Quem não dispõe das respostas deveria sentir o peso na consciência ao indicar o bolsonarismo como solução para o petismo. No campo histórico e cultural, basta que lembremos a esculhambação propiciada ao longo do bicentenário da Independência, em 2022.
A coroa de glórias da gestão de Jair Bolsonaro deu-se ao fim das eleições de 2022. Lembremos alguns dos casos mais afamados de abandono flagrante de aliados próximos pelo ex-presidente: Terça Livre, Sara Winter e Daniel Silveira. Quem não se lembra da gritaria contra Alexandre de Moraes? Qual foi a consequência? Um pedido de desculpas intermediado por Michel Temer.
Não se trata de desculpar o STF por suas imposturas e extravagâncias. Nunca! Mas observem… quem transgrediu outrora o direito natural para aprovar uma legislação mais abortista, respeitaria a “vontade popular”? Na democracia brasileira, a vontade popular só é respeitada quando está em compasso com a nossa elite política e judiciária. Só se aceita quando se alinha aos motes “iluministas”.
O mal do Supremo tem nome e sobrenome: Constituição Federal de 1988. Quantos bolsonaristas se insurgem contra ela? Quantos apresentaram bons projetos alternativos? Quantos procuraram corrigir os nódulos? Flávio Bolsonaro, é bom que lembremos, foi decisivo para impedir a chamada “CPI da Lava Toga”. Deu no que deu.
Reflitamos:
O Direito humano, tendo por fundamento a ordem estabelecida pelo Criador, tem por finalidade a ordenação social dos deveres e direitos humanos, a fim de manter o ambiente propício à felicidade do homem. E a felicidade do homem consistirá na aquisição máxima da verdade que ele deve saber; e na realização máxima do bem que ele deve fazer; e na integração da perfeição do que no corpo e na alma ele deve ser. Porque o Direito, na sua etiologia, está relacionado a Deus, de quem vem todo poder e toda autoridade, a consciência cristã não pode deixar de condenar e rejeitar as falsas teorias da escola sensualista, da utilitarista, da histórica, da materialista, da racionalista, da liberal, quanto à gênese do Direito.
(Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. 4 de outubro de 1959)
Naquilo que Bolsonaro não poderia errar? Errou. Não se pode combater o mal com improvisos. Foram quatro anos de improvisação. A consequência não poderia ser outra.
Há ainda outro ponto: os atuais antipetistas são movidos, em maior ou menor grau, por sentimentalismo e afetação estética. Muitos encontraram, inclusive no bolsonarismo, todo o calabouço de falsas esperanças que, não faz tanto tempo, depositavam justamente no PT. São tantos os casos semelhantes que nos parece desnecessário exemplificar. Irmãos gêmeos nos sentimentos.
A polarização, portanto, não é outra coisa senão sentimento religioso com coloração política. Sentimento religioso equivocado. Sentimento religioso falso. Disputa entre os errados e os ainda mais errados. Nessa escumalha, não existe “bem possível”; essa ideia só é defendida por quem é cínico ou está desprovido de qualquer capacidade de raciocínio.
Findemos esta parte com a seguinte proposição:
Será possível que não se compreenda a distinção que deve haver entre o poder que Deus transmite à sociedade, no mesmo ato de criação do homem sociável, e o ato pelo qual a mesma sociedade o transmite livremente a estes, ou aqueles, para governá-la? Mas, se foi Deus quem deu este poder à sociedade, como pode existir tal soberania absoluta no povo? Primeiro que tudo raciocinemos.
Será também a ignorância desta distinção, ou a má-fé, que leva muitos políticos a não observarem a liberdade do povo em suas eleições, roubando assim também os seus direitos? Quais são, pois, os verdadeiros inimigos da liberdade? Que triste fonte de males sociais de toda espécie! As consequências são naturais.
Desde que fazem depender unicamente da razão humana o bem e o mal, suprimem, por isso mesmo, a diferença entre os dois, que já não se distinguem senão na opinião e na estima de cada um. Aquilo que mais agrada ao próprio interesse, ou paixão, eis o que é permitido.
É assim que os inimigos da verdade e do bem abrem, na vida privada ou particular, e na vida pública, o caminho a toda espécie de corrupção que infelizmente se vem notando no indivíduo, na família e na sociedade, tendo como triste causa principal a separação do poder civil da sua origem divina.
(Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques. Carta Pastoral: Doutrina contra doutrina, 8 de dezembro de 1928)
25 de outubro
O novo velho abismo brasileiro já estava anunciado desde 2022. A indicação da candidatura mais competitiva deveria partir do ex-presidente Jair Bolsonaro. A tese foi apresentada nacionalmente como um determinismo dogmático. Os católicos, que fizeram? Abraçaram-na. Surgiram aos montes, escandalizados às vésperas da eleição, para alardear o tradicional sentimentalismo contra o petismo. E as ações anteriores? Houve luta por uma candidatura mais coesa? Repetimos: não parece que tenham pensado no caso.
Dizem os “intelectuais” que apenas Flávio Bolsonaro dispõe de condições reais para derrotar o petismo. Por quê? A rejeição a Flávio é mais volumosa que a de Lula. Ronaldo Caiado e outros candidatos não ultrapassavam o índice de rejeição de 15% da população. De onde tiraram essa afirmação? De que latrina pariram essa ideia tosca?
De onde tiraram a ideia de que, se Jair Bolsonaro indicasse figuras menos extravagantes, como Caiado ou Tarcísio, as duas candidaturas não poderiam vingar? Ah! Santo abismo…
Julgaram que o nome mais frágil entre os quadros do Partido Liberal seria a melhor opção? Um nome carcomido por escândalos mal explicados. Um nome protestante e mais liberal que o pai. É essa, verdadeiramente, a figura com maiores chances de derrotar o petismo? Parece piada.
Uma figura lucrará muito com a escolha abobalhada da direita brasileira: Valdemar Costa Neto. Terá novamente um fundo eleitoral gigantesco. E para quê? Que ações culturais, de formação política ou de melhoria dos quadros partidários foram realizadas desde 2022? Se queremos nos iludir, iludamo-nos, mas ao menos confessemos a todos que estamos, mais uma vez, atirando no escuro.
Chegamos ao termo. Não nos compete o ofício de orientar a consciência de ninguém. O máximo que podemos fazer, dentro do laicato, é propor reflexões. Parece-nos claro que a disputa de 25 de outubro dá-se nos seguintes termos: 1) o petismo, com toda a sua tradição progressista e demagógica; 2) Flávio Bolsonaro, acompanhado de protestantes, liberais e maçons. Na primeira opção, daremos continuidade ao influxo de erros que temos observado em boa parte dos últimos vinte e cinco anos. Na segunda, fortaleceremos as hostes do protestantismo neopentecostal, apelando mais uma vez ao liberalismo econômico e à sua sorte de dissabores, para dizer o mínimo.
Entre ambos? A tese do “mal menor” pode acabar variando conforme as condições estabelecidas pelo eleitor. Quanto a nós? Naturalmente, em nosso cenário de segundo turno, o voto nulo surge para nós como a opção mais bem acabada para expressar um ardoroso protesto contra as duas falsas formas religiosas que estão atravessando a cena brasileira.
Seja como for, a maioria escolherá um monstro para chamar de seu. Eles vão nos devorar. E os que por aí defendem a tese da “justiça social” ou da “obrigação moral do voto”, o que dirão no futuro? Nada na história acontece sem consequências.
Nas palavras do mestre:
Eu não considero [as eleições] de modo algum como um espetáculo cívico edificante e significativo da estrutura democrática do nosso regime. Ao contrário, considero-a expressiva de nossa patologia política. […] Vontade geral, pronunciamento infalível das urnas etc., não fazem parte do meu credo democrático. Na concepção que tenho […] não há lugar para a possibilidade de apresentação de candidaturas destinadas a provocar no povo reações indignas e de permitir que eles se façam representar pelos seus defeitos.
(Gustavo Corção. 3 de outubro de 1965)

