Uma das coisas mais engraçadas sobre G. K. Chesterton é o fato de ter usado um meio essencialmente efêmero, como são os jornais e as notícias ali publicadas, para transmitir verdades imutáveis e ideias que perpassam o tempo e a geografia. De tal modo que, embora tenha mencionado o Brasil pouquíssimas vezes, muito do que ele escreveu aplica-se à nossa realidade como se estivesse sendo escrito agora mesmo, enquanto o leitor percorre estas linhas.
Entre seus escritos, um dos que mais me chamou a atenção encontra-se em All Things Considered, no qual, com notável sagacidade, ao tratar da natureza espiritual das piadas – e de como elas são o único meio de expressar a ideia de que somos superiores a muitas coisas, ainda que estejamos sujeitas a elas – afirma que:
Londres é certamente a [cidade] mais divertida e a que mais se diverte. Você pode provar que temos a maior tragédia; o fato permanece que temos a maior comédia, que temos a maior farsa. Temos, na pior das hipóteses, uma esplêndida hipocrisia de humor. Escondemos nossa tristeza por trás de um escárnio estridente. Fala-se de pessoas que riem através das lágrimas; nós nos orgulhamos de apenas chorar através do riso. (CHESTERTON, 1915, p. 15).
Algo muito semelhante pode ser observado no Brasil, onde o nível do riso costuma crescer proporcionalmente ao nível do desastre. Não é raro vermos notícias – deixando de lado, evidentemente, as dores reais que exigem lamento – de chuvas torrenciais seguidas por crianças brincando em meio o alagamento; guerras no Oriente devastam o mundo, mas vemos brasileiros brincando e se vestindo de árabes para que não sejamos explodidos ou que não aumentem o preço da nossa gasolina; em meio a um trânsito de quilômetros nas grandes cidades, ouvimos piadas sobre o atraso de invasões alienígenas devido às naves terem ficado presas nos congestionamentos. Os exemplos são muitos, o que mostra uma característica notável no povo brasileiro: uma resiliência tremenda somada a uma grande criatividade. Mas dentre todas as tragédias, creio que nenhuma supera as tragédias políticas, que conseguem gerar novos impostos em maior velocidade e quantidade que qualquer brasileiro consegue gerar de novas piadas.
Não bastasse a piada da “festa da democracia” – em que os políticos exaltam como se fosse querida por todos, como se não soubessem, assim como Chesterton já denunciava, que o público eleitoral “acharia seu voto tão entediante que precisaria ser importunado por um cabo eleitoral e subornado com um passeio de automóvel apenas para usá-lo” (CHESTERTON, 1926) – temos também o espetáculo de comédia onde temos que votar pragmaticamente para escolhermos o mal menor. Mas não se espante, caro leitor, não quero invalidar a ideia verdadeira do mal menor, o que quero dizer é que na situação em que nos encontramos, não há males menores, apenas males.
Durante as últimas eleições municipais, observou-se um fenômeno curioso. Certos candidatos apresentaram mudanças perceptíveis em seus discursos, especialmente em temas sensíveis, ajustando suas posições conforme a pressão do contexto político. Em um primeiro momento, sustentam determinadas opiniões com firmeza; posteriormente, diante de pressões externas ou do cálculo eleitoral, passam a evitá-las ou reformulá-las; e, por fim, adotam uma nova posição, já mais compatível com a expectativa do público.
Dinâmica semelhante se verifica também nas relações entre adversários políticos, nas quais ataques severos e retóricas inflamadas dão lugar, não raro, a aproximações pragmáticas, entrevistas cordiais e mudanças de tom — ainda que sem compromissos formais.
É nesse cenário que a observação de Chesterton se revela particularmente atual:
O representante moderno não apenas não representa seus eleitores — ele nem representa a si mesmo. (CHESTERTON, 1912).
Certa ou errada, parece-me que a opinião de muitos desses agentes políticos não se orienta por convicções estáveis, mas por uma lógica de adaptação contínua às circunstâncias. Manter uma posição firme diante de pressões crescentes torna-se, muitas vezes, insustentável do ponto de vista eleitoral, e é então substituída por uma nova postura, mais conveniente ao momento.
O mesmo fenômeno pode ser observado em movimentos e partidos que, ao longo do tempo, abandonam princípios outrora defendidos em nome de um suposto pragmatismo — justificando mudanças como necessárias para “nivelar o jogo”, ainda que ao custo de coerência.
Como confiar, portanto, que um político nos representará, se, em última análise, não representa sequer a si próprio? Como nos diz Chesterton:
Um ponto genuíno de semelhança entre a voz do povo e a voz do Céu é que ambas são frequentemente bastante difíceis de entender. Honestamente, acho que os padres estão mais próximos do Céu do que os políticos estão da Inglaterra. O vigário comum pode ao menos estar tentando se aproximar do ideal divino, enquanto tenho certeza de que o estadista nem sequer tenta se parecer com seu cocheiro. No entanto, é isso que o governo representativo implica, ou deveria implicar. Ele deveria significar homens esforçando-se para expressar o mistério da democracia, assim como os sacerdócios tentam expressar o mistério da divindade. Se um homem foi eleito por um milhão de eleitores, ele deveria caminhar ao mesmo tempo com força e hesitação, como se fosse um milhão de homens (CHESTERTON, 1909).
Contudo, assim como na Inglaterra de Chesterton, o que se observa no Brasil é a falha do sistema representativo. Promessas e ideais fixos são facilmente abandonados diante das conveniências do momento e dos jogos de interesse.
Correndo o risco de parecer temerário, depositar esperanças em tais políticos talvez revele não uma confiança legítima, mas a persistência de uma idolatria política que jamais foi verdadeiramente abandonada em favor da voz do Céu.
CHESTERTON, G. K. Politicians and their constitutions. The Illustrated London News, Londres, 06 nov. 1909.
____________________. The incomplete vision of modernity. The Illustrated London News, Londres, 17 ago. 1912.
____________________. The failure of prophecies. The Illustrated London News, Londres, 17 abr. 1926.

