Ao perceber algum estardalhaço em torno de determinado evento extraordinário, a Grande Mídia logo invoca seus famosos “especialistas”: indivíduos cuja expertise em determinada área lhes garante um lugar de destaque nas reportagens que saem nos principais jornais e revistas em circulação. Contudo, embora os jornais possam indicar que a especialidade dessas pessoas pode se dar no âmbito da política, da economia, da sociologia, da saúde ou da religião, é perceptível aos olhos mais atentos, sobretudo daqueles que realmente entendem de política, economia, sociologia, saúde ou religião, que essas figuras magistrais geralmente possuem doutorado apenas na única área na qual toda a massa brasileira parece ser formada: a palpitaria.
No último dia 1° de julho, festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) sagrou quatro bispos sem o mandato apostólico, conforme já explicado em artigos anteriores de nossa revista. O que ocorreu após as sagrações foi o decreto de excomunhão assinado pelo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Cardeal Víctor Fernández, conhecido pela ortodoxia católica que exprimiu em suas obras Cura-me com tua boca: a arte de beijar (Editorial Lúmen, Buenos Aires-AR, 1995), Paixão Mística: Espiritualidade e Sensualidade (Ediciones Dabar, Cidade do México-MX, 1998), com passagens blasfemas e explicitamente eróticas, e, mais recentemente, já como prefeito dicasterial, a nota doutrinal Mater Populi fidelis (2025), que diminui Nossa Senhora para o agrado dos protestantes.
A reação da mídia não foi outra senão aquela já anunciada por Dom Marcel Lefebvre há 38 anos, durante o sermão que proferiu nas sagrações da FSSPX em 30 de junho de 1988: estamparam em seus jornais “O Cisma”, “A Excomunhão” e o que mais quiseram nessa mesma linha. Foi o arcebispo francês um profeta? De modo algum, pois apenas entendeu como funcionava o modus operandi midiático, que, não raras vezes, trata assuntos complexos de forma simplista, sempre com o reforço expositivo — e não argumentativo — dos assim chamados “cientistas da religião”.
Esse mesmo modo de agir dos veículos de comunicação pode ter diversos fatores, desde uma motivação puramente mercadológica, que visa unicamente lucrar em cima da polêmica da vez envolvendo a Igreja Católica, até questões ideológicas, já que anunciando as excomunhões dos “ultraconservadores” ou “ultratradicionalistas” — termos vastamente utilizados pelos mass media e completamente desprovidos de sentido, servindo mais para impactar o leitor do que para definir uma posição com precisão —, os jornais promovem suas pautas progressistas, que são as mesmas promovidas pela igreja conciliar.
Afinal, caro leitor, quantas matérias foram imparciais e citaram falas do superior geral da FSSPX sobre a situação? É de se contar nos dedos. Mas quantas citaram que a Fraternidade é um grupo que se opõe às mudanças trazidas pelo Vaticano II, sem maiores explicações? Em um comentário na Globo News, por exemplo, o jornalista Marcelo Lins chegou a mencionar que a FSSPX se opõe ao “ecumenismo, o respeito a outras religiões, o respeito mesmo aos não-crentes” e, pasmem, “à vida em comunidade” — que, segundo o jornalista, também seria algo vindo do Concílio Vaticano II. Lins não explicou, entretanto, o justo motivo dessa oposição à liberdade religiosa e nem que, desde Nosso Senhor, a Igreja Católica sempre foi contra essa liberdade — afinal, o médico deve se opor às doenças e não dar plena liberdade a elas.
Outros comentários que podem ser mencionados para exemplificar essa arbitrariedade midiática são de duas figuras levadas para a frente das câmeras pelo Jornal da Cultura: Denilde Holzhacker, que trata as mudanças conciliares como uma “evolução” da Igreja, e Ricardo Sennes, que vê tudo como uma questão de manter pessoas na Igreja, não importa o que for preciso para isso. Uma professora de Relações Internacionais e um economista e doutor em Ciência Política; considerando a participação de personalidades tão ilustres como essas, eu esperava ao menos a presença de um comentarista que fosse gastroenterologista — talvez ele explicasse como poderíamos tratar a ânsia de vômito provocada pelos comentários de seus colegas de mesa.
Todo esse simplismo que a Grande Mídia possui ao tratar dos últimos acontecimentos — e, a bem da verdade, de tantos outros acontecimentos envolvendo o clero — derivam não apenas de interesses progressistas, de mau-caratismo ou de uma falta de compromisso real com a verdade, mas de uma visão distorcida sobre a Igreja, tratando-a como uma instituição meramente humana e não sobrenatural. Daí Sennes falar do abandono de práticas mais “conservadoras” para atrair mais fiéis, como se a Igreja fosse uma empresa que precisa tomar para si a atenção dos clientes das concorrentes. Formados majoritariamente de gente ateia ou alheia à religião, não é de se surpreender que os jornais possuam esse tipo de visão.
Para que a minha afirmação não seja vazia, vejamos o que diz a 22ª edição do Manual da Redação da Folha de São Paulo sobre o cristianismo: “Originalmente uma seita apocalíptica judaica formada pelos seguidores de Jesus de Nazaré (crucificado por volta do ano 30 d.C.), o movimento cristão incorporou elementos da filosofia grega e se espalhou pela região do Oriente Médio e pela Europa até ser declarado a religião oficial de Roma no fim do século 4° d.C”. E continua: “Nos séculos seguintes, os bispos de Roma, conhecidos como papas, gradualmente assumiram o papel de líderes religiosos supremos do Ocidente, com considerável independência em relação aos reinos surgidos após a fragmentação do Império Romano na Europa Ocidental”.
Tais afirmações, desprovidas não apenas de uma visão sobrenatural sobre a Igreja mas também de verdade histórica, são uma afronta a todo católico que conhece minimamente a sua fé. Essa visão afrontosa, creio não ser temerário afirmar, é compartilhada não apenas pelos jornalistas da Folha, mas por todos os demais que integram os grandes veículos de comunicação do país. E também, é preciso falar, pela maioria dos católicos de nossa nação, desprovidos de interesse em conhecer a religião que dizem professar e crentes de que um vago sentimento religioso é suficiente para viver bem.
Cito outra situação, envolvendo outro jornalista, de outro jornal de grande alcance, para reforçar que o jornalismo atual não faz ideia do que é a Igreja Católica: Diego Pavão, o editor de Internacional da CNN, tentou explicar o que é estar em comunhão com a Igreja, afirmando que a mesma consegue acomodar grupos que pensam diferente dela, desde que eles respeitem três pilares, sendo eles a unidade da fé (que, nas palavras dele, seria respeitar e acreditar nas mesmas coisas); o respeito aos ritos; e o respeito ao governo da Igreja, à autoridade do Papa.
Ora, não é possível pertencer à Igreja pensando diferente dela, e o primeiro pilar citado por Pavão parece contradizer sua afirmação inicial. Levando isto em conta, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X está em perfeita comunhão, já que não apenas respeita, mas crê, professa e exalta as mesmas coisas cridas, professadas e exaltadas pela Santa Igreja desde sua fundação por Nosso Senhor. O segundo pilar citado pelo jornalista também é outra característica da FSSPX, que zela pelos ritos católicos e se recusa a celebrar os ritos reformados após o Vaticano II, que foram empobrecidos em suas orações e passaram a ter um aspecto inegavelmente antropocêntrico — fazendo jus às palavras de Paulo VI no encerramento do Concílio, que afirmou ser, “mais do que ninguém”, cultor do homem.
“E quanto ao respeito pelo governo da Igreja e à autoridade do Papa?”, podem perguntar alguns, talvez já dispostos a ignorar a resposta em prol de suas próprias convicções. Respondo: a Fraternidade tem um profundo amor ao Papa e, como bem disse o próprio superior geral do grupo, Pe. Davide Pagliarani, é porque amam o Papa que não querem vê-lo sendo humilhado, sendo colocado em pé de igualdade com falsos pastores, líderes de falsas religiões. É porque amam o Papa e respeitam a sua autoridade que não agiram com amargura ou revolta após o comunicado das excomunhões, mas reiteraram que estão à disposição de Leão XIV e de seus sucessores, e que oferecem o sofrimento causado pelas sanções pelo bem da Igreja e de Sua Santidade.
Agora, tenhamos um olhar mais amplo da situação e dos impactos de uma matéria jornalística no povo, sobretudo porque a maioria dos católicos na atualidade sequer sabem das querelas envolvendo a deforma dos ritos e a mudança da doutrina. Os grandes veículos de comunicação, como vimos, tratam a questão das sagrações e das excomunhões com um simplismo criminoso: não abordam as causas com exatidão, não falam os motivos das mudanças adotadas oficialmente pela hierarquia desde o final dos anos 60, citam a diferença nos ritos da missa de forma extremamente superficial e, por fim, comunicam tudo de forma parcial.
Talvez a superficialidade com que a diferença dos ritos é tratada seja um dos aspectos mais flagrantes nas matérias: descreve-se a missa tradicional apenas como uma missa em latim e com o padre “de costas para o povo”. Retrato da ignorância dos jornalistas ou fruto de uma malícia que omite propositalmente informações que deixariam tudo mais claro para o interlocutor? Deus o sabe. O que fica evidente é que não há esforço, na maioria dos casos, para ir além do óbvio: sim, é evidente que a missa é em latim, assim como é evidente que o padre fica “de costas para os fiéis”. O que não é evidente para o público geral, todavia, é que o latim é a língua da Igreja Católica e que o idioma utilizado no culto a Deus nunca foi, mesmo fora do catolicismo, o vernáculo. O que não é evidente para o público é que, além de ser uma língua sagrada imutável, o latim representa a unidade da Igreja, pois em toda missa tridentina a linguagem é a mesma. O que não é evidente para o público é que o padre não está de costas para o povo, mas está de frente para Deus, a quem oferece o Sacrifício da Missa. O que não é evidente para o público é que as missas tradicionais são como são porque o objetivo não é agradar aos fiéis com um culto freestyle, mas agradar a Deus mesmo e santificar os presentes.
Dito isto, qual a reação do público ao ver tudo sendo tratado da forma acima descrita? Claramente haverá uma rejeição da Fraternidade por parte dos mais ignorantes. Afinal, o católico da atualidade, assim como eu, nasceu em meio ou após às mudanças e tende a considerar anormal tudo o que delas difere, mesmo que essas diferenças sejam essencialmente o que sempre foi adotado pela Igreja.
A mídia para além dos jornais
Há outro ponto em meio a toda essa discussão que merece ser abordado neste artigo, pois “mídia”, embora seja um termo largamente utilizado para se referir à Grande Mídia, refere-se também a todo meio que serve para difundir informação. Portanto, nada mais justo do que falar do que é transmitido ao público, sobretudo aos católicos, através das redes sociais.
É engraçado pensar nos extremos que encontramos na sociedade: ao passo que muitos confiam quase cegamente nas palavras de cientistas políticos falando sobre religião, outros adotam a postura compartilhada ad nauseam por gente desconhecida que fala sobre tudo e todos: influenciadores digitais. Estes, dotados da indefectível sabedoria concedida pelas câmeras de seus smartphones, muitas vezes transmitem ao público as irrefutabilidades que aprenderam no distante período de 24 horas que antecedeu suas publicações. E com a adesão a questões complexas, vêm os posts aos milhares de seguidores, que, tal qual o gado em uma fazenda, seguem todos para a mesma direção, confiantes de que o influencer está correto.
Toda a questão das sagrações e das excomunhões trouxeram isso novamente à tona, mesmo antes de serem levadas a cabo. E assim como no caso dos jornais, a visão desses influenciadores sobre a Igreja também é distorcida e quase fantasiosa: para além da infalibilidade papal, enxergam no Romano Pontífice uma figura inerrante, que acerta em cada vírgula utilizada. E caso as afirmações soem heterodoxas, não é culpa dele, mas nossa, dos tradicionalistas, que ousamos interpretar de forma errônea o erro que foi dito. Poderia falar mais sobre isso, mas nosso amigo William Christopher já abordou muito bem a obediência cega em seu artigo, que pode ser lido aqui.
Inúmeros expoentes da palpitaria católica poderiam ser mencionados, mas talvez nenhum tenha se destacado tanto como o Pe. José Eduardo, incansável em suas publicações contra os tradicionalistas e usuário ferrenho de uma afetação que não só é descabida a um sacerdote, mas também a qualquer homem que se preze. Assim como os comentaristas dos grandes jornais, o padre também é doutor, mas em palpitaria. E assim como ocorre no caso dos grandes jornais, uma quantidade enorme de pessoas adere ao que esse padre fala, talvez porque padecem de uma ignorância culpável, talvez porque querem continuar confortáveis em suas vidas. Deus o sabe.
Certo é que, assim como deve haver uma mudança profunda nos códigos jornalísticos, mudança que só poderá ocorrer quando houver uma adesão por parte dos meus colegas à Verdade, para que as coisas sejam tratadas da forma que lhes é devida; e assim como deve haver uma censura de tudo aquilo que é mal e se opõe à mesma Verdade, que é Cristo, também deve haver uma mudança nas redes sociais, para que sejam delas excluídos todos aqueles que também se opõem a essa mesma Verdade.
Sonhos que só Deus sabe se serão realidade algum dia.

