Há trinta e oito anos, na manhã do histórico dia 30 de junho de 1988, em Écône, na Suíça, o arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), e o brasileiro Dom Antônio de Castro Mayer, Bispo Emérito de Campos dos Goytacazes, sagraram quatro bispos sem mandato pontifício, quer dizer, sem a autorização do Papa. E não apenas sem este requerimento, como também contra a vontade de João Paulo II, que publicou carta anunciando que Dom Marcel Lefebvre e os bispos por ele sagrados incorreram em excomunhão latae sententiae por um delito de cisma — curiosamente, a carta Ecclesia Dei Adflicta não faz uma só menção a Dom Mayer.
Na manhã deste dia 1.º de julho, na Festa do Preciosíssimo Sangue, Dom Alfonso de Galarreta e Dom Bernard Fellay, os dois bispos sagrados há quase quatro décadas que ainda restam vivos, realizarão o mesmo ato no mesmo lugar e sagrarão outros quatro bispos para a manutenção do sacerdócio católico e dos sacramentos no rito romano tradicional. Assim como as sagrações, a carta que reconhece uma excomunhão latae sententiae tende a repetir-se.
Em outubro de 1990, dois anos após o que Lefebvre chamou de “Operação Sobrevivência da Tradição”, o então Cardeal Joseph Ratzinger ministrou uma conferência no Encontro pela Amizade entre os Povos realizado em Rimini, comuna do leste italiano. Àquela altura Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé — hoje chamado Dicastério para a Doutrina da Fé —, Ratzinger indagou:
Queremos construir o mundo melhor com a atividade política; deveríamos finalmente (talvez como primeira etapa rumo ao mundo melhor) construir também a Igreja melhor: uma Igreja plena de humanidade, de senso fraterno, de criatividade generosa, um lar de reconciliação para tudo e para todos. Mas como isso deve acontecer? Como pode ter sucesso uma tal reforma? (RATZINGER, Joseph. Ser Cristão na Era Neopagã, vol. 1: discursos e homilias (1986-1999). Campinas: CEDET, 2014, p. 56).
Pouco adiante, ele ofereceu solução à indagação antes feita, afirmando que “na Igreja, a dimensão grande, libertadora, não é constituída por aquilo que nós fazemos, mas por aquilo que nos é dado, que não vem da nossa vontade e invenção, mas nos precede” (Ibidem, p. 58).
A atmosfera se torna sufocante na Igreja se os portadores do ministério se esquecem que o Sacramento não é uma divisão de poder, mas uma expropriação de mim mesmo em favor daquele em nome de quem devo falar e agir. […] A Igreja não existe para nos manter ocupados, como uma instituição mundana, e para conservar-se viva, mas para ser o nosso acesso à vida eterna (Ibidem, pp. 62-63).
Era este o quadro que enfrentavam os tradicionalistas desde 1974. O quadro de uma atmosfera sufocante. Mas mesmo assim, a figura de Ratzinger não se opunha a troca de contatos com seus adversários intelectuais ou doutrinais: desde de Karl Rahner, a quem considerava como bem formado na escolástica, escola de pensamento que não era a sua, até Dom Marcel Lefebvre, com quem encontrou-se em Roma variadas vezes e trocou correspondência ainda mais numerosa.
Quando Ratzinger foi eleito Papa, refez os contatos que João Paulo II havia destruído com os lefebvristas. Bento XVI foi eleito em abril de 2005 e, após anos de relações praticamente nulas com Menzingen — cidade da Casa Geral da FSSPX — graças a seu antecessor, reuniu-se com Dom Bernard Fellay, então superior geral da FSSPX, ao fim de agosto de 2005. Apenas pouco mais de quatro meses após sua eleição. E foi somente a primeira de várias reuniões ao longo dos anos.
O quadro de diálogos entre Roma e Menzingen não mudou no pontificado seguinte: Dom Fellay encontrou-se com Francisco, assim como o Papa também conheceu o Pe. Davide Pagliarani, atual superior geral da Fraternidade. Eis que faleceu Francisco e o Cardeal Robert Prevost foi eleito Leão XIV a 8 de maio de 2025. Pagliarani buscou Roma, pôs-se à disposição, quis contato e reunião, quis dar continuidade às discussões doutrinais que Bento XVI estabeleceu via Doutrina da Fé em 2009.
O Cardeal Víctor Fernández, atual Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé — que nem de longe possui a fineza da pena ou o brilho intelectual de Ratzinger, sendo mais famoso pelas polêmicas que acumula como autor de livros que misturam teologia e erotismo junto a decisões controversas de seu dicastério, que pela ortodoxia de seus próprios textos —, recusou uma reunião e adiou, prorrogou e postergou até quando pôde. Não teve interesse nenhum nos ditos lefebvristas, até que não pôde prorrogar mais: a Fraternidade anunciou sua intenção de sagrar novos bispos pela necessidade pastoral de seus fiéis espalhados pelo mundo inteiro.
Subitamente surgiu, enfim, um horário livre na agenda do cardeal argentino que agora lidera o antigo Santo Ofício.
Mas não um horário na agenda do Papa.
Leão XIV recusou-se terminantemente em encontrar com o Pe. Pagliarani, não obstante todos os muitos apelos do superior da Fraternidade ao Papa. A primeira de muitas solicitações de audiência foi pedida pelo superior geral da São Pio X em agosto de 2025, mas nunca foi deferida. Até o dia de ontem, o Sumo Pontífice declarou-se sobre o assunto uma única vez, no dia 17 de junho de 2026: “eles se recusam a aceitar alguns elementos fundamentais da Igreja, a começar por vários pontos do Concílio Vaticano II, se tomarem essa decisão [de sagrar bispos], lamento, mas precisamos seguir em frente”.
O Pedro do nosso século, este Pedro que tanto fala sobre sinodalidade como o próprio modo de ser da Igreja e da necessidade de pontes que conectem uns com os outros, não conecta discurso e ação, tampouco pratica o que prega. Pedro não apascenta suas ovelhas nem confirma a fé de seus irmãos.
No consistório ocorrido em Roma nesse mês de junho, o Cardeal Gerhard Müller urgiu aos demais cardeais e ao Papa que a Igreja respondesse com punho de ferro à Fraternidade São Pio X. De visão estritamente burocrática acerca de regularidade canônica e comunhão da Igreja, o cardeal alemão apelou por uma resposta à profissão de fé feita pela São Pio X, como se houvesse nela algo de acatólico. Mas não apontou o que há de errado com ela. Pediu a criação de uma nova Comissão Ecclesia Dei para lidar com os “refugiados” que sairão dela; quer dizer, pediu a criação de mais uma burocracia, porque, para ele, é inaceitável desacatar o concílio pastoral de João XXIII e Paulo VI, e estar em comunhão com a Igreja.
A Igreja plena de humanidade e senso fraterno, lar de reconciliação para todos, que Ratzinger buscava apesar de suas falhas, ficou apenas no devaneio do Bento XVI que renunciou à Cátedra de São Pedro em 2013. Abrindo-se as portas no aggiornamento, a lufada de ar fresco desejada por João XXIII não arejou a Igreja, mas sufocou sua atmosfera com o burocratismo e a fumaça de Satanás.
Quando remiu a excomunhão dos bispos sagrados em 1988, o Papa Ratzinger escreveu na carta aos bispos que ficou triste “pelo fato de inclusive católicos […] se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de uma lança em riste”, afirmando que “conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo”. Indagou: “Poderemos nós simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconciliação e da unidade? E depois que será deles?” (BENTO XVI. Carta aos Bispos da Igreja Católica a propósito da remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, 10 de março de 2009).
Pouco importa o que será deles. Na Igreja do século XXI, o sacramento tornou-se uma divisão de poder.
As palavras de Bento XVI foram escritas em 2009. As respostas para elas, temo-las hoje.
Pagliarani solicitou audiências por quase um ano, e o primeiro e até agora único contato pessoal direto de Leão XIV veio apenas numa carta datada de 29 de junho de 2026, tornada pública em 30 de junho, a menos de 24 horas de realização das novas sagrações. Com “sentimentos paternais”, o Papa reconheceu o zelo apostólico da São Pio X, pediu que não fossem realizadas as sagrações e ameaçou realizar sanções. Decerto que o reconhecimento de uma excomunhão latae sententiae provavelmente já está pronto em Roma apenas aguardando o horário de publicação, e desta vez deve abarcar todos os seis envolvidos — os dois bispos consagrantes e os quatro bispos-eleitos.
Temos nós, no Brasil, um ditado popular imemorial: o tempo é o senhor da razão. E foi ele, o tempo, que tratou de provar algumas coisas, dentre as quais duas que podemos apurar já neste artigo.
A primeira, talvez hoje mais autoevidente, é a de que, mais do que nunca, o Vaticano II converteu-se naquilo que o Cardeal Ratzinger criticou como um “superdogma” em conferência aos bispos do Chile a 13 de julho de 1988 — apenas treze dias após as sagrações de Écône.
A segunda é a da completa ineficácia da solução proposta pelo teólogo Ratzinger de uma hermenêutica da continuidade do Concílio Vaticano II: o Concílio e o Magistério pós-conciliar interpretam-se estrita e exclusivamente baixo suas próprias luzes, os Papas pós-conciliares são autorreferentes.
A cerimônia das sagrações será realizada, e, como disse Dom Lefebvre trinta e oito anos atrás, será realizada “para manifestar nossa união com Roma, com a Igreja de Sempre, com o Papa e com todos aqueles que precederam esses Papas que, desde o Concílio Vaticano II, infelizmente, acreditavam que deveriam apoiar os grandes erros que estão em processo de destruir a Igreja e destruir o sacerdócio católico”, pois “longe de nós está o triste pensamento de nos afastar de Roma” (LEFEBVRE, Marcel. Sermão das sagrações episcopais, 30 de junho de 1988).
Em carta pastoral, Dom Joseph Strickland bispo americano emérito de Tyler, convidou o católico à imparcialidade quanto ao caso e confiou a situação à Divina Providência, fazendo um pedido: que os católicos rezemos pela Fraternidade São Pio X e pelos seus fiéis, pelo Santo Padre Leão XIV, pelos bispos “e por todos aqueles que têm a grave responsabilidade de guiar o rebanho de Cristo” (STRICKLAND, Joseph. Carta pastoral A Fraternidade São Pio X: uma história de amor, 25 de junho de 2026). Rezar é o que de melhor todos podemos fazer nesta situação infeliz, além de “reverenciar humildemente os juízos insondáveis de Deus, que Nos destinaram a viver nestes tempos tão tristes” (PIO IX. Levate, 1867).
Dom Marcel Lefebvre deu sua vida à Igreja e sua reputação pela Igreja. Acredito confiadamente que chegará o dia em que o heroísmo santo e altruísta de sua vida, fundado e ancorado na graça, para salvaguardar a Fé, o sacerdócio católico e os sacramentos católicos sem mácula num tempo de tempestades, confusões e apostasia generalizada mesmo dentre as mais altas hierarquias da Igreja, será reconhecido pela Cátedra de Pedro.
Enquanto há aqueles que torcem por excomunhões, como se estas fossem objetos dignos de comemoração, e não de lamentação, sendo a sanção máxima da Igreja a uma alma, e que projetam cisma naqueles que nunca inovaram um iota de doutrina; que torcem inclusive pela excomunhão não apenas dos bispos envolvidos diretamente no ato, mas de todo o clero e dos fiéis da Fraternidade — como se fosse possível excomungar instituições e massas, e não almas individuais —, é necessário que os tradicionalistas rezemos todos com humildade pela provação vivida, e que não desanimemos.
Não desanimemos, mesmo diante da atmosfera cada dia mais rarefeita e sufocante em que nos encontramos, de um martírio branco e do assassinato não de nossas vidas, mas de nossas reputações. Se os golpes são fortes, é preciso que a nossa fé seja firme e inabalável como a rocha, pois a onipotência suplicante da Virgem Corredentora e Medianeira, que tudo pode diante do Verbo que se fez seu Filho, nos há de valer na maior aflição. Não desanimemos, somos impreterivelmente católicos.


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Viva Cristo Rei!
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