Os neomodernistas, excessivamente mundanos, nunca chegam a compreender nem mesmo o mundo. Vivem apoiados em um punhado de máximas que, embora possam ser verdadeiras em determinadas circunstâncias, convertem-se em tremendas imbecilidades quando aplicadas indistintamente a qualquer situação.
As recentes sagrações episcopais realizadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, no último primeiro de julho, fizeram soar, como um sino de incêndio, uma dessas máximas repetidas até a exaustão. Ela ecoou de tal maneira que quase se poderia tomá-la como o décimo primeiro mandamento. E há um curioso fenômeno nas frases excessivamente repetidas, que leva-nos, com maior ou menor velocidade, a perceber que não se tratam de nada além de falsidades.
Em diversos canais católicos ouviu-se a mesma sentença de que “devemos obediência ao Papa, pois não podemos ser católicos se não o obedecermos”. Ao ouvi-la, lembrei-me imediatamente de um dos piores costumes de nosso país.
Pais, tios e outros superiores costumam instigar seus filhos e sobrinhos, desde a mais tenra idade, a cobiçar mulheres que, já não constrangidas por qualquer freio civil ou moral, caminham pelas ruas despidas de pudor. E as crianças, confiando na legítima autoridade de seus pais e parentes, não receiam entregar seus olhos àquilo que jamais deveriam contemplar.
Se me perguntassem para onde caminham essas mulheres, eu não saberia responder. Mas, se me perguntassem para onde caminham as almas dessas crianças, não hesitaria um instante. Conheço o destino da obediência quando esta se divorcia da verdade. Sei para onde essas almas seguem com a mesma certeza com que sei para onde voam as folhas levadas pelo vento; poderia indicar-lhes o caminho com a mesma precisão com que as setas de um circuito orientam os pilotos.
As almas que fazem da obediência um absoluto, sem antes considerar a verdade daquilo que lhes é ordenado, caminham todas para o inferno.
Sim, essas almas existem. Aquela criança que aprende desde cedo a violar o sexto mandamento porque seus próprios pais a ensinaram a fazê-lo. Aquele policial que mente em juízo porque seu superior assim o ordenou. Aquele contador que desvia centavos de milhares de contas porque um diretor lhe deu essa ordem. Se os neomodernistas, tão ávidos por falar de obediência, consultassem a simples experiência de viver neste mundo, perceberiam que a obediência é, não raras as vezes, a principal desculpa de um canalha. A obediência em si não é um problema, ela é devida em muitos aspectos da vida humana, mas sozinha ela é não só uma deficiência, como muitas vezes é um pecado.
Mas retomemos ao mesmo lugar onde terminamos nossa introdução.
Os neomodernistas parecem não se cansar de iniciar qualquer discussão lembrando-nos de que devemos obediência ao Papa. Nisso, aliás, pouco diferem de nós, católicos que amamos a Igreja. Também nós veneramos o Romano Pontífice e acolhemos suas palavras e seus atos com o respeito devido ao Vigário de Cristo. Há, contudo, uma distinção que jamais deixamos de fazer: a distinção entre autoridade e verdade.
Diferentemente de tantos homens modernos que pretendem libertar-se de toda autoridade, os neomodernistas não parecem negá-la; antes, acabam por subordinar a própria verdade a ela. E é precisamente aí que começa toda a divergência.
As grandes figuras da história, fossem santas ou heréticas, partiram sempre da convicção de que existia uma verdade anterior a elas mesmas, imutável e estabelecida desde os fundamentos da Criação. Podiam enganar-se quanto a essa verdade; podiam até combatê-la. Mas jamais imaginaram que ela pudesse nascer da vontade de uma autoridade humana ou dos influxos do tempo.
Santo Atanásio, por exemplo — para escândalo do que muitos que hoje chamariam sua atitude de tremenda soberba —, resistiu ao Papa Libério para defender a divindade de Cristo diante das pressões e perseguições dos arianos que dominavam a Igreja, preferindo suportar exílios e excomunhões a renunciar àquilo que reconhecia como a verdade de sempre. E, da mesma forma, inúmeras outras figuras, santas ou heréticas, travaram suas batalhas porque julgavam que o mundo devia obedecer não aos homens, mas à verdade que acreditavam existir desde toda a eternidade.
E se é verdade, como todas as pessoas de bom senso acreditam, que um homem pode chegar a uma convicção, ainda que falsa por partir de premissas falaciosas, chegamos a duas possíveis atitudes: ou morremos — ou somos excomungados — para defendê-la, ou ocultamos-nos para não negá-la. Porém, o neomodernista pensa que negar as verdades sempre cridas pela Igreja e condicionar tais questões ao arbítrio falível de um homem, ainda que ele seja muito respeitável, é uma atitude bem racional.
É precisamente por essa razão que, salvo em debates muito longos, uma conversa verdadeiramente frutífera torna-se quase impossível. As grandes figuras do passado podiam divergir quanto à fonte da verdade eterna e imutável, mas dificilmente negariam que ela existisse independentemente dos homens. O neomodernista, porém, parece deslocar a discussão. Já não se pergunta onde está a verdade, mas a quem compete determiná-la. Assim, aquilo que outrora era tido como imutável passa a depender do juízo de uma autoridade arbitrária, tornando a própria verdade suscetível às mudanças do tempo.
Quando levantamos as doutrinas condenadas em dois mil anos de Igreja, acusam-nos de soberba, repetindo ad nauseam a conhecida máxima segundo a qual “o diabo pode vestir o manto da humildade, mas não o da obediência”. A afirmação é verdadeira. Mas também é verdade que, se não pode vestir o manto da verdadeira obediência, pode facilmente vestir o da falsa obediência. Poucos conhecem melhor do que o anjo caído a arte de obedecer contra a verdade.
Lembremo-nos da tentação de Nosso Senhor, narrada no Evangelho de São Mateus. O próprio demônio vale-se da autoridade das Sagradas Escrituras para tentar induzir Cristo a praticar aquilo que contrariava o seu verdadeiro sentido:
E, aproximando-se dele o tentador, disse-lhe:
“Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se convertam em pães.”
Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Dt 8, 3).”
Então o demônio transportou-o à cidade santa, pô-lo sobre o pináculo do templo e disse-lhe:
“Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: Mandou aos seus anjos em teu favor, eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra (Sl 90, 11-12).”
Jesus disse-lhe: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6, 16).”
Os neomodernistas procedem de modo semelhante. Quando manifestamos nossa devoção filial ao Papa, dizem-nos, como o Anjo Caído “converte estas pedras em pães”; quando respondemos que está escrito que “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”, replicam imediatamente “também está escrito”; ou em outras palavras, que “o Papa diz o contrário”. Assim como o demônio opunha um trecho da Escritura a outro para induzir Cristo ao erro, também eles opõem uma autoridade contemporânea ao ensinamento constante da Igreja, para induzir-nos ao mesmo conflito.
Esquecem-se, ou preferem ignorar, daquele princípio elementar segundo o qual tanto a autoridade quanto a obediência possuem limites. A autoridade não pode ordenar que se cometa um pecado, pois este é sempre contrário à justiça; e, da mesma forma, o subordinado não pode obedecer a ordens que atentem contra esse mesmo princípio.
Assim, quando recordamos a obediência devida ao Syllabus Errorum e lembramos que Pio IX, em resposta aos peregrinos de Montpellier, afirmou que “não basta professar respeito à Santa Sé; é preciso praticar a obediência ao Syllabus e à infalibilidade”, não fazemos mais do que repetir — junto com o Papa — uma doutrina ensinada por doutores e papas ao longo de toda a história da Igreja, sempre tida como certa. Os neomodernistas, contudo, parecem não ver qualquer dificuldade em “obedecer” a declarações contrárias ao Syllabus, como aquelas que mesmo o Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, reconheceu estarem contidas na Gaudium et Spes, a qual qualificou como um “anti-Syllabus”.
Por essa razão, talvez, a falsa obediência seja tão perigosa. Ela não se apresenta sob a aparência da rebeldia, mas da virtude; não convida o homem a examinar a verdade daquilo que lhe é ordenado, mas a renunciar ao próprio juízo em nome dela.
Ao cabo, parece ter razão Dom Marcel Lefebvre ao afirmar que “é um golpe magistral de Satanás ter chegado a fazer os católicos desobedecerem toda a Tradição em nome da obediência”. Foi um golpe magistral de Satanás que todo um concílio, a saber, o Concílio Ecumênico Vaticano II, em nome da obediência e de uma pretensa “continuidade”, conseguiu ir contra inúmeros ensinamentos anteriores; da condenação da liberdade religiosa à sua adoção; da repulsa à insubordinação do poder temporal ao espiritual, à defesa do Estado laico; dos direitos de Deus, para os direitos do homem; do combate ao mundo e seus princípios anti-cristãos, ao aggiornamento e adequação da Igreja a ele.
Resistamos, pois, com verdadeiro amor filial ao Romano Pontífice, como filhos que escutam reverentemente a voz de seu pai; mas jamais esqueçamos que nossa primeira e maior obediência pertence a Deus, primeira lei de nossa alma e fonte de toda a sua perfeição.


3 Comentários
O título bem que poderia ser: Vaticano II, de pastoral à dogmático. Ora, se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X rejeita “vários pontos importantes para a Igreja – qual Igreja? -, a começar pelo Concílio Vaticano II”, como disse o Papa Leão em uma entrevista, o Concílio Vaticano II se transformou naquilo que o cardeal Ratzinger denunciou como “superdogma”, isto é, numa tentativa de reunir em si toda a doutrina católica em uma releitura excelente ao homem moderno. No entanto, a pretensão utópica dos Padres Conciliares não se concretizou: o homem moderno não se converteu, antes os católicos que se converteram ao mundo. De pastoral, a priori, à dogmático, a posteriori; sob essa perspectiva, louco é aquele que condena a FSSPX hoje, sem ter a mínima noção histórica do que pode se suceder amanhã.
É um ótimo tema também. Obrigado pela sugestão.
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