Nota introdutória
No último dia 4 de novembro, o mundo católico entrou mais uma vez em polvorosa movido pelos vendavais inovadores da agitada primavera da Igreja conciliar, com a publicação da Nota doutrinal Mater Populis fidelis: sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da Salvação pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, escrita e assinada por seu Cardeal Prefeito Víctor Manuel Fernández e aprovada pelo Papa Leão XIV.
No documento vaticano, o Cardeal Fernández argumenta, em aproximação ecumênica aos protestantes e no afã de lhes agradar, que “é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria” na salvação do gênero humano e que “requer-se uma especial prudência na aplicação do título ‘Medianeira’ a Maria”, indo em direção frontalmente antagônica à própria doutrina da Igreja sempre ensinada em sua Tradição, ao próprio ensinamento do Magistério Ordinário Universal antecedente e ao ensino de tantos e tantos santos e doutores da Igreja; atacando diretamente a própria dignidade da Santa Mãe de Deus Maria Santíssima.
Contra esta revolta insidiosa contra Àquela que o próprio Deus elegeu como Mãe de seu Filho e seu Filho elegeu como Mãe nossa, é que o nosso colaborador externo Antônio Luiz Ghislieri nos apresenta este fundamentado artigo profundamente romano de robustíssima solidez doutrinal, apoiado maciçamente no Magistério tradicional, na Tradição da Igreja e em seus santos e doutores, em defesa das doutrinas de Nossa Senhora como Corredentora do gênero humano e Medianeira de todas as graças.
Sem mais delongas, boa e frutuosa leitura.
João Medeiros
Editor-chefe
A guerra diabólica contra
a devoção a Nossa Senhora
Antônio Luiz Ghislieri
I. O ataque luciferino à realeza de Maria
Vivemos em tempos de apostasia generalizada, onde até mesmo dentro dos muros sagrados da Santa Igreja Romana se levantam vozes para questionar aquilo que sempre foi crido e ensinado sobre a Santíssima Virgem Maria. O ataque aos títulos de Corredentora e Medianeira de Todas as Graças extrapola largamente a legítima discussão teológica acadêmica de como esses títulos, que sempre foram atribuídos à Mãe de Deus, sustentam-se teologicamente: é sintoma gravíssimo do orgulho moderno que contaminou até mesmo aqueles que deveriam ser os guardiões da fé, mas preferem promover seu próprio programa teológico fundado no culto antropocêntrico moderno. Como bem denunciou São Pio X, o modernismo é “a síntese de todas as heresias”¹, e, não por acaso, esta hidra infernal sempre dirige seus ataques mais ferozes contra aquela que é, por desígnio divino, a destruidora de todas as heresias.
O que presenciamos hoje é o desenrolar daquela inimizade perpétua profetizada no Gênesis: entre a Mulher e a serpente, entre a descendência dela e a descendência do demônio. Quando teólogos e mesmo altos prelados da Igreja ousam diminuir as prerrogativas de Maria Santíssima sob o pretexto de um falso cristocentrismo ou de um ecumenismo bastardo com os erros protestantes, não fazem outra coisa senão servir aos desígnios do príncipe das trevas. Pois quem ataca Maria ataca o próprio Cristo, que quis fazer todas as graças passarem pelas mãos maternas daquela que Ele mesmo escolheu como causa secundária da Redenção.
É preciso compreender que este ataque não vem apenas de fora da Igreja. Os inimigos externos, os ateus declarados, os anticristãos confessos, estes são facilmente identificáveis e seus ataques podem ser prontamente repelidos. O perigo maior vem daqueles que, mantendo uma aparência de ortodoxia, minam por dentro os fundamentos da verdadeira devoção mariana. São os modernistas infiltrados, os progressistas disfarçados de reformadores, os falsos profetas que usurparam a cátedra mosaica, que pregam um cristianismo depurado de um suposto “maximalismo mariano”, como se a tradição bimilenar da Santa Madre Igreja (que sempre defendeu a honra prestada a Maria como em nada sendo contrário ao culto de seu Divino Filho) fosse uma imprudência histórica a ser corrigida pela suposta sabedoria de nossa época decadente.
Estes novos iconoclastas não quebram as imagens de Nossa Senhora com martelos, mas destroem algo muito mais precioso: a fé do povo simples na intercessão poderosa da Mãe de Deus. Como se uma suposta devoção mariana desordenada fosse o grande mal de nossa época de Pachamamas, homossexualismo eclesiástico e purpurados pornógrafos. Com suas teorias pseudoteológicas, com seu racionalismo disfarçado de erudição, com sua crítica histórica que nada mais é que ceticismo mal disfarçado, eles corroem lentamente a confiança filial que os católicos sempre tiveram em Maria Santíssima. E o fazem com um sorriso nos lábios, citando a si mesmos e impondo, com total descaso do sensus fidei e com uma autocracia sinodal, o culto do homem independente da Mãe de Deus na piedade mariana do povo fiel.
II. O ensinamento perene do magistério
A doutrina sobre Maria como Corredentora e Medianeira de Todas as Graças não é inovação piedosa, mística ou poética de almas devotas, mas uma verdade solidamente estabelecida pelo Magistério autêntico da Igreja através dos séculos. Esta verdade encontra suas raízes mais profundas na própria Tradição Apostólica, desenvolvida pelos Santos Padres e confirmada pelo magistério eclesiástico em uma corrente ininterrupta de ensinamentos que chega até nossos dias.
Já nos primeiros séculos, os Padres da Igreja reconheceram em Maria a Nova Eva que, associada ao Novo Adão, cooperou ativamente na restauração da vida sobrenatural perdida pelo pecado. Santo Irineu, discípulo de São Policarpo — que por sua vez foi discípulo do Apóstolo São João —, ensinou claramente: “Como Eva, tendo Adão por marido, mas ainda virgem, por sua desobediência se fez causa de morte para si e para todo o gênero humano, assim Maria, tendo já um esposo predestinado, mas ainda virgem, por sua obediência se fez causa de salvação para si e para todo o gênero humano”². Esta não é uma comparação meramente poética, mas uma afirmação teológica da participação real de Maria na obra salvífica.
O desenvolvimento desta doutrina através dos séculos mostra uma admirável continuidade e aprofundamento progressivo. Santo Efrém da Síria, no século IV, já invocava Maria como “Medianeira do mundo inteiro”³. São Germano de Constantinopla proclamava: “Ninguém alcança a salvação senão por vós, ó Santíssima”⁴. São João Damasceno, Doutor da Igreja, ensinava categoricamente: “Maria é Medianeira entre Deus e os homens, depois de Jesus Cristo”⁵.
Chegando aos tempos mais recentes, encontramos no Magistério pontifício uma explicitação cada vez mais clara desta verdade. Foi com o Beato Pio IX que esta doutrina recebeu um impulso decisivo. O mesmo Pontífice que definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição em 1854, compreendeu perfeitamente a conexão intrínseca entre o privilégio único da Imaculada e sua função mediadora. Em sua encíclica Ubi primum, afirmou categoricamente: “Maria é nossa Medianeira junto a Cristo e a dispensadora de todas as graças”, “pois Deus confiou a Maria o tesouro de todos os bens, para que todos saibam que através dela são obtidas toda esperança, toda graça, e toda salvação”e a dispensadora de todas as graças”, “pois Deus confiou a Maria o tesouro de todos os bens, para que todos saibam que através dela são obtidas toda esperança, toda graça, e toda salvação”⁶.
Mais ainda, na própria bula Ineffabilis Deus, monumento da mariologia católica, o Papa Pio IX estabelece os fundamentos teológicos da mediação mariana ao afirmar que Maria foi predestinada desde toda a eternidade para ser Mãe de Deus “em um só e mesmo decreto com a Encarnação da Divina Sabedoria”⁷. Esta unidade de decreto implica uma unidade de missão: Maria não foi escolhida apenas para dar a natureza humana ao Verbo, mas para cooperar em toda a obra da Redenção.
Foi sob o longo e fecundo pontificado do Papa Leão XIII que a doutrina mariana recebeu seu desenvolvimento magisterial mais sistemático. Em uma série impressionante de onze encíclicas marianas, o grande Pontífice estabeleceu de forma inequívoca e irreformável a mediação universal de Maria. Não se trata de piedosas exortações ou de linguagem devocional imprecisa, mas de ensinamentos doutrinais do magistério pontifício autêntico.
Na Supremi apostolatus (1883), Leão XIII estabelece o Rosário como arma espiritual e afirma que todas as graças nos vêm através de Maria. Em Superiore anno (1884), desenvolve a teologia da mediação mariana em relação aos mistérios da vida de Cristo.
Em Quamquam pluries (1889), embora dedicada a São José, reafirma o papel único de Maria na economia da salvação.
Mas é em Octobri mense (1891) que encontramos uma das afirmações mais categóricas do Magistério sobre este tema: “Nada, certamente, nos é concedido senão por meio de Maria, porque assim Deus quis; de modo que, como ninguém pode aproximar-se do Pai supremo senão pelo Filho, assim também, quase do mesmo modo, ninguém pode aproximar-se de Cristo senão por Maria”⁸. Note-se bem: o Papa não está fazendo uma comparação poética, mas estabelecendo um paralelismo teológico entre a mediação necessária de Cristo junto ao Pai e a mediação subordinada, mas real, de Maria junto a Cristo.
Em Magnae Dei Matris (1892), o Papa aprofunda a fundamentação bíblica desta doutrina, mostrando como desde as Bodas de Caná até o Calvário, Maria exerceu uma mediação particular querida pela Providência. Em Laetitiae sanctae (1893), estabelece a conexão entre a mediação de Maria e a vida sacramental da Igreja. Em Jucunda semper expectatione (1894), desenvolve magnificamente a teologia do Rosário como participação nos mistérios de Cristo através de Maria.
A encíclica Adiutricem populi (1895) representa um verdadeiro tratado sobre a mediação mariana, onde Leão XIII afirma solenemente: “O poder assim posto em suas mãos é praticamente ilimitado. Quão inerrantemente certas estão, pois, as almas cristãs quando se voltam para Maria em busca de auxílio, como que impelidas por um instinto de natureza, confiando-lhe com segurança suas esperanças futuras e conquistas passadas, suas tristezas e alegrias, encomendando-se como filhos aos cuidados de uma mãe generosa. Quão acertadamente, também, cada nação e cada liturgia, sem exceção, têm aclamado sua grande glória, que tem crescido com a voz de cada século sucessivo. Entre seus muitos outros títulos, encontramo-la saudada como ‘nossa Senhora, nossa Medianeira’, ‘a Reparadora do mundo inteiro’, ‘a Dispensadora de todos os dons celestes’.”⁹. Em Fidentem piumque animum (1896), o Papa responde às objeções protestantes mostrando que a mediação universal de Maria não obscurece, mas exalta a mediação única de Cristo.
São Pio X, o Santo Pontífice que teve a coragem de enfrentar o modernismo em toda sua virulência, longe de moderar os ensinamentos de seu predecessor, os aprofundou e explicitou ainda mais. Em sua monumental encíclica Ad diem illum (1904), por ocasião do quinquagésimo aniversário da definição dogmática da Imaculada Conceição, o Papa expõe com clareza teológica a doutrina da Corredenção mariana.
O Santo Padre não apenas reafirma Maria como “dispensadora de todos os dons que Jesus nos adquiriu por Sua morte e Seu sangue”¹⁰, mas vai além, estabelecendo o fundamento teológico desta dispensação universal: “Maria, suportando com Jesus e em Jesus a imensa carga de tristeza e dor, mereceu de congruo, como dizem os teólogos, aquilo que Cristo nos mereceu de condigno, e é a suprema ministra da dispensação das graças”¹¹.
Esta distinção teológica entre mérito de condigno (próprio de Cristo como Redentor principal) e mérito de congruo (próprio de Maria como Corredentora subordinada) mostra que não estamos diante de linguagem meramente devocional, mas de precisão teológica dogmática. São Pio X está ensinando que Maria verdadeiramente mereceu, ainda que de modo subordinado e dependente, as mesmas graças que Cristo mereceu de modo principal e independente.
Pio XI, em suas encíclicas e alocuções, continuou esta explicitação doutrinal. Na Miserentissimus Redemptor (1928), o Papa fala explicitamente de Maria como “Reparadora”, afirma que ela “ofereceu” Jesus como vítima na Cruz e, usando o termo teológico que tanto incomoda os modernistas, diz que Cristo fez dela “medianeira da graça”, chamando-a de “advogada dos pecadores”¹². Em Lux Veritatis (1931), por ocasião do XV centenário do Concílio de Éfeso, reafirma solenemente todos os privilégios marianos, incluindo sua mediação universal.
Mas foi com o venerável Pio XII que esta doutrina alcançou sua expressão mais sublime no período pré-conciliar. Este grande Pontífice, em seu magistério riquíssimo sobre Nossa Senhora, estabeleceu de forma definitiva as bases teológicas da Corredenção e Mediação universal marianas. Na Mystici Corporis Christi (1943), ele estabelece Maria como “Mãe espiritual de todos os membros de Cristo”¹³, mostrando que sua maternidade espiritual é universal e se estende a toda a Santa Igreja.
Na radiomensagem Bendito seja (1946), Pio XII desenvolve fundamentação teológica da Mediação universal e da corredenção: “Ele o Filho Deus, reflete sobre a celeste Mãe a glória, a majestade, o império da sua realeza; — porque associada, como Mãe e Ministra, ao Rei dos mártires na obra inefável da humana Redenção, lhe é para sempre associada, com um poder quase imenso, na distribuição das graças que da Redenção derivam”. Na encíclica Mediator Dei (1947), embora tratando principalmente da Sagrada Liturgia, o Papa reafirma o papel mediador de Maria no culto da Igreja. Na Munificentissimus Deus (1950), ao definir solenemente o dogma da Assunção, vincula este privilégio à participação única de Maria na obra redentora: “Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade ‘com um único decreto’ de predestinação, Imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do Divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas consequências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).”¹⁴.
Em Fulgens corona (1953), comemorando o centenário da definição da Imaculada Conceição, o Santo Padre estabelece a conexão necessária entre todos os privilégios marianos. Finalmente, em Ad caeli Reginam (1954), o Papa proclama solenemente a realeza universal de Maria, fundamentando-a precisamente em sua cooperação na obra da Redenção: “Maria é Rainha do universo não apenas por ser Mãe de Deus, mas também por ter sido associada como nova Eva ao novo Adão na obra da Redenção”¹⁵, sendo Rainha “por direito de conquista” através de sua compaixão ao pé da Cruz.
É significativo e deveras instrutivo observar que até mesmo o Concílio Vaticano II, tantas vezes invocado pelos progressistas para justificar suas inovações, repetiu explicitamente a doutrina tradicional sobre a mediação mariana. O capítulo VIII da constituição dogmática Lumen gentium, longe de diminuir o papel de Maria, o confirma solenemente: “Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo. […] Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador”¹⁶.
Em sua exortação apostólica Marialis cultus (1974), mesmo o Papa Paulo VI reafirmou a cooperação singular de Maria na obra da salvação usando linguagem que claramente evoca a Corredenção: “Maria, consócia a Cristo na obra da salvação”¹⁷. Anos antes, em Christi Matri (1966), o Papa já invocava Maria como “Medianeira e Conciliadora”¹⁸⁹.
O próprio João Paulo II, que alguns modernistas tentam reivindicar para suas teses minimalistas contra a Mãe de Deus, usou explicitamente o título “Corredentora” em pelo menos cinco ocasiões públicas documentadas¹⁹. Em sua encíclica Redemptoris Mater (1987), embora não use o termo especificamente, desenvolve amplamente a doutrina da cooperação única de Maria na Redenção, afirmando que ela “cooperou de modo totalmente singular na obra do Salvador”²⁰. Em sua catequese das audiências gerais, o Papa desenvolveu sistematicamente a teologia da mediação mariana, chegando a afirmar: “O papel de Maria como cooperadora tem sua fonte na maternidade divina. Dando a luz Àquele que estava destinado a realizar a redenção do homem, alimentando-o, apresentando-o no templo ao Pai, sofrendo com Ele quando morria na Cruz, ela cooperou de modo todo especial na obra do Salvador”²¹.
III. Os Santos Doutores e a tradição unânime dos Padres da Igreja
A doutrina da mediação universal e da corredenção não é uma elaboração tardia da teologia medieval, mas encontra suas raízes na própria era patrística. Os Padres da Igreja, aqueles gigantes da fé que receberam o depósito sagrado das mãos dos próprios Apóstolos ou de seus sucessores imediatos, já reconheciam em Maria um papel único e necessário na economia da salvação.
Santo Inácio de Antioquia, mártir do início do século II, já falava dos três mistérios clamorosos: a virgindade de Maria, seu parto e a morte do Senhor, estabelecendo assim a conexão intrínseca entre o mistério de Maria e o mistério de Cristo. São Justino Mártir, em seu Diálogo com Trifão, desenvolve o paralelismo Eva-Maria que seria fundamental para toda a mariologia posterior: “Cristo se fez homem por meio da Virgem, para que, por onde começou a desobediência da serpente, por ali mesmo fosse destruída”²².
Santo Irineu de Lyon, como supramencionamos, estabeleceu de forma definitiva este paralelismo tipológico que não é mera comparação literária, mas verdadeira teologia da cooperação mariana. Sua famosa frase “morte por Eva, vida por Maria”²³ sintetiza toda uma teologia da Corredenção. Para Santo Irineu, assim como a queda veio através da cooperação de uma mulher, assim também a Redenção veio através da cooperação de uma mulher, estabelecendo um princípio de recirculação ou recapitulação que seria fundamental para toda a teologia posterior.
Santo Efrém da Síria, o grande poeta-teólogo do Oriente, multiplicou os títulos de Maria como Medianeira: “Depois do Mediador, tu és a medianeira de todo o mundo”²⁴. Suas homilias e hinos marianos, que a Igreja Síria ainda canta em sua Divina Liturgia, estão repletos de afirmações sobre o papel mediador universal de Maria. Para Santo Efrém, Maria não é apenas um canal passivo das graças, mas cooperadora ativa na distribuição dos dons divinos.
São Gregório Nazianzeno, o teólogo por antonomásia, ensinou que “Maria cooperou na economia da salvação”²⁵, usando o termo “συνεργός” que indica cooperação ativa. São Gregório de Nissa desenvolveu a teologia da nova criação em Maria, mostrando como ela é o princípio da humanidade restaurada. São João Crisóstomo, embora geralmente sóbrio em sua mariologia, não hesitou em afirmar que “por Maria recebemos todos os bens”²⁶.
Santo Ambrósio de Milão, Doutor da Igreja e pai espiritual de Santo Agostinho, desenvolveu magnificamente a tipologia mariana do Antigo Testamento, mostrando como todas as figuras femininas da salvação, Eva, Sara, Rebeca, Raquel, Judite, Ester, prefiguravam Maria e seu papel na economia salvífica. Para Santo Ambrósio, Maria é verdadeiramente a “Mãe dos viventes” no sentido mais pleno, pois nos deu a Vida mesma.
São Jerônimo, o grande tradutor da Vulgata, defendeu ardorosamente todos os privilégios marianos contra os hereges de seu tempo, estabelecendo a virgindade perpétua de Maria como sinal de sua total consagração à obra divina. Santo Agostinho, o Doutor da Graça, embora cauteloso em algumas questões mariológicas, afirmou categoricamente que “todos os homens devem reconhecer que Maria é a reparadora da culpa de Eva”²⁷.
A teologia medieval representa o apogeu do desenvolvimento mariológico, onde a intuição dos Padres se transforma em síntese teológica sistemática. São Pedro Damião, Doutor da Igreja, foi o primeiro a usar explicitamente o termo “Corredentora”²⁸. Santo Anselmo de Cantuária desenvolveu a teologia da necessidade conveniente da cooperação de Maria: assim como a queda veio por um homem e uma mulher, assim também convinha que a Redenção viesse por um homem e uma mulher.
São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo, é sem dúvida um dos maiores mariólogos de todos os tempos. Sua doutrina do “aqueduto” se tornou clássica: “Deus quis que nada tivéssemos que não passasse pelas mãos de Maria”²⁹. Para São Bernardo, Maria não é apenas medianeira de algumas graças, mas de todas as graças sem exceção. Suas homilias sobre Maria, especialmente as famosas homilias sobre o Missus est, constituem um monumento perene da mariologia católica.
Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, desenvolveu sistematicamente a teologia da mediação mariana em seu Mariale, onde afirma: “Maria foi feita janela do céu, porque por ela Deus derramou a verdadeira luz sobre o mundo; escada celeste, porque por ela Deus desceu à terra”³⁰. São Boaventura, o Doutor Seráfico, levou esta doutrina a alturas místicas sublimes: “Ninguém pode entrar no céu sem passar por Maria, que é a porta”³¹.
Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, embora conhecido por sua sobriedade teológica, não hesitou em afirmar que Maria é “plena de graça para transbordar sobre todos”³². Em sua exposição da Ave-Maria, o Aquinate desenvolve magnificamente como todas as graças passam por Maria. Sua teologia da mediação, embora expressa com o rigor escolástico que lhe é característico, não é menos afirmativa que a de seus contemporâneos mais efusivos.
IV. A natureza diabólica deste ataque
Para compreender em toda sua profundidade a guerra satânica contra os títulos marianos, é necessário penetrar na própria essência da rebelião angélica original. O “non serviam” de Lúcifer não foi apenas uma recusa genérica de servir a Deus, mas, segundo a tradição teológica mais sólida, uma recusa específica de adorar o Verbo Encarnado e de submeter-se a uma criatura humana elevada acima de todas as hierarquias angélicas.
São Luís Maria Grignion de Montfort, nesse sentido, revela-nos o segredo mais profundo do ódio diabólico contra Maria: “É que sendo Deus infinitamente maior e mais poderoso que ele, a humilhação e o tormento que recebe de Deus não o afligem tanto quanto os que recebe de Maria. Primeiro, porque o orgulho de Lúcifer sofre mais sendo vencido e punido por uma simples e humilde criatura de Deus, e a humildade de Maria o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus deu a Maria um poder tão grande sobre os demônios que eles temem mais, como foram muitas vezes obrigados a confessar pela boca dos possessos, um só suspiro de Maria por uma alma do que as orações de todos os santos”³³.
Esta humilhação suprema do príncipe do orgulho, ser vencido não diretamente pelo Onipotente, mas por uma criatura, e, mais ainda, por uma mulher, constitui o núcleo ardente de seu ódio infernal. Cada vez que proclamamos Maria como Corredentora e Medianeira universal, renovamos esta humilhação diabólica, proclamamos que Deus escolheu confundir o forte através do fraco, o soberbo através do humilde, a sabedoria mundana através da simplicidade da Virgem de Nazaré.
O liberalismo, o modernismo e todos os erros que deles derivam são essencialmente manifestações deste mesmo orgulho luciferino. Examinemos como cada erro moderno ataca especificamente as prerrogativas marianas e revela sua origem diabólica.
O liberalismo, com sua proclamação da autonomia absoluta da consciência individual, não pode tolerar que a salvação passe necessariamente pelas mãos de Maria. Quer um acesso direto a Deus, sem intermediários, sem submissão, sem dependência. É o grito de independência da criatura que quer ser como Deus, conhecendo o bem e o mal por si mesma, sem necessitar da mediação maternal de Maria nem da mediação sacramental da Santa Madre Igreja.
O liberal é essencialmente um órfão espiritual que recusa ter Mãe.
O racionalismo, por sua vez, não suporta o mistério inefável da cooperação divino-humana em Maria. Como aceitar racionalmente que o Infinito tenha querido depender do finito, que o Todo-Poderoso tenha querido precisar do “sim” de uma jovem de Nazaré? Como compreender que todas as graças divinas passem pelas mãos de uma criatura? O orgulho da razão autônoma se revolta contra este escândalo da humildade divina que escolheu fazer-se dependente de uma mulher.
O naturalismo nega sistematicamente tudo o que em Maria transcende a natureza corrompida. Como admitir a Imaculada Conceição quando todos nascemos com pecado original? Como aceitar a Virgindade perpétua quando isso contraria as leis da natureza? Como crer na Assunção corporal quando o corpo naturalmente se corrompe? Cada privilégio mariano é um desmentido categórico ao naturalismo, uma afirmação vibrante do sobrenatural, uma proclamação de que a graça pode elevar a natureza acima de si mesma.
O protestantismo, desde suas origens, manifestou um ódio particular contra Maria que revela claramente sua inspiração diabólica. Lutero, embora inicialmente mantivesse alguma devoção mariana, progressivamente a abandonou, e seus seguidores foram ainda mais longe na rejeição. Calvino chegou ao ponto de negar a perpétua virgindade de Maria. Os protestantes modernos praticamente eliminaram toda referência a Maria de sua pregação e culto.
Este ódio não é acidental nem secundário: é essencial ao protestantismo. Pois atacar a mediação de Maria é atacar a própria estrutura mediadora da Igreja. Se Maria não é medianeira de todas as graças, por que nossa Santa Madre Igreja o seria? Se não precisamos de Maria para chegar a Cristo, por que precisaríamos dos sacramentos, do sacerdócio, do Magistério? O ataque a Maria é sempre, no fundo, um ataque à Santa Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo.
V. O devoto crítico: o inimigo intramuros
Mas, como dissemos, o inimigo mais perigoso não está fora, está dentro. São Luís de Montfort, com santo discernimento, identificou entre os falsos devotos de Nossa Senhora aqueles que chama de “devotos críticos”, que são muito mais perigosos que os inimigos declarados.
“São pela maior parte sábios orgulhosos, espíritos fortes e autossuficientes, que têm, no fundo, alguma devoção à Santíssima Virgem, mas que criticam quase todas as práticas de piedade que as pessoas simples prestam singelamente a esta boa Mãe, porque não são do seu gosto”³⁴. Estes devotos críticos abundam hoje nos seminários, nas universidades católicas, nas cúrias diocesanas e até mesmo nas mais altas posições da autoridade eclesiástica.
São estes os que, com ar de superioridade intelectual, dizem que os títulos de Corredentora e Medianeira “são sempre inoportunos”, pois precisariam de muitas explicações para bem serem entendidos, como se não fosse esse justamente o papel do Magistério da Igreja. Para tais mestres, todos os títulos marianos seriam sempre “inoportunos”, desde o “Χαῖρε, κεχαριτωμένη” de São Gabriel até a Imaculada Conceição, tendo em vista as precisões necessárias para que sejam bem compreendidos.
São estes os que falam de um “cristocentrismo mal compreendido” quando os fiéis recorrem a Maria, como se honrar a Mãe desonrasse o Filho, como se Cristo mesmo não tivesse querido que todas as graças passassem por Maria. Citam São Paulo: “há um só mediador”; mas não compreendem que a mediação única de Cristo não exclui, mas inclui e fundamenta todas as mediações subordinadas, especialmente a mediação maternal de Maria.
O minimalismo mariano é uma das pragas mais devastadoras que aflige a Igreja em nossos dias. É sob o pretexto de evitar exageros, de ser equilibrados, de não afastar os protestantes, que estes minimalistas reduzem Maria ao mínimo indispensável. “Sim, é Mãe de Deus — não podem negar o dogma de Éfeso; sim, é Imaculada — não podem contradizer Pio IX; sim, foi assunta ao Céu — não podem negar Pio XII —, mas nada mais: agora chega!” Graças sejam dadas a Deus por não depender desses sinedritas as antigas definições, pois talvez nenhuma teríamos. Todo o resto seria “piedade opcional”, “devoção privada”, “teologúmenos”.
Este minimalismo é diabólico porque parece ortodoxo e soa mesmo piedoso. Não nega abertamente nenhum dogma, mas esvazia a devoção mariana de sua substância vital. É como reconhecer que alguém é nossa mãe, mas nunca falar com ela, nunca pedir sua ajuda, nunca demonstrar amor filial, nunca reconhecer suas qualidades. Os minimalistas transformam Maria em uma estátua de museu: bela, venerável, mas distante e inoperante.
VI. Maria: terror dos demônios e destruidora das heresias
A Igreja sempre cantou em sua liturgia: “Gaude, Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo” — “Alegrai-vos, Virgem Maria, vós só destruístes todas as heresias no mundo inteiro”³⁵. Esta não é uma piedosa hipérbole poética, mas uma verdade histórica e teológica comprovada através de dois mil anos de história eclesiástica.
Examinemos sistematicamente como cada grande heresia que atacou nossa santa Madre Igreja começou por atacar, aberta ou veladamente, alguma prerrogativa de Maria, e como foi através da defesa das prerrogativas marianas que a Santa Igreja triunfou sobre esses erros.
O Gnosticismo dos primeiros séculos negava a realidade da Encarnação, ensinando que Cristo apenas aparentou ter um corpo humano. Ao defender a verdadeira maternidade de Maria, a Igreja defendeu a verdadeira humanidade de Cristo. Os gnósticos não podiam aceitar que o Logos divino tivesse verdadeiramente nascido de uma mulher, sido amamentado por seios humanos, carregado em braços maternos. A maternidade real de Maria é a refutação definitiva de todo docetismo.
O Arianismo, negando a divindade de Cristo, implicitamente negava a dignidade suprema de Maria como Mãe de Deus. O nestorianismo negava a personalidade única de Cristo e, portanto, que Maria fosse não somente mãe da humanidade, mas mãe de Deus, pois a pessoa única de Cristo é uma pessoa divina. Foi precisamente ao defender o título “Theotókos” no Concílio de Éfeso que a Igreja destruiu definitivamente o nestorianismo e reafirmou a união hipostática. Maria é verdadeiramente Mãe de Deus porque seu Filho é verdadeiramente Deus. Negar um é negar o outro.
O Apocalipse nos apresenta a visão grandiosa da batalha final: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas”³⁶. Esta Mulher, que a Tradição de forma unânime identifica com Maria (em seu aspecto pessoal) e com a Igreja (em seu aspecto coletivo), está em guerra perpétua com o Dragão infernal.
“O Dragão se pôs diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse”³⁷. Desde o primeiro instante da Encarnação, Satanás compreendeu que em Maria encontraria sua derrota definitiva. Por isso a guerra contra Maria é tão feroz, tão constante, tão universal. O demônio sabe que enquanto Maria for honrada, amada e invocada, seu reino de mentira e orgulho não poderá prevalecer.
São Luís de Montfort profetizou sobre os apóstolos dos últimos tempos com palavras que parecem descrever nossos dias: “Mas o poder de Maria sobre todos os demônios brilhará particularmente nos últimos tempos, quando Satanás porá ciladas ao seu calcanhar, isto é, a seus humildes escravos e a seus pobres filhos que ela suscitará para fazer-lhe guerra. Eles serão pequenos e pobres segundo o mundo, e abaixados diante de todos, como o calcanhar… mas em compensação serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente”³⁸⁹.
VII. A necessidade urgente da verdadeira devoção
A devoção a Maria Santíssima não é uma mera escolha piedosa, um adorno supérfluo da vida cristã, mas necessidade absoluta para os fiéis de forma ainda mais premente nestes tempos de apostasia generalizada. Sem Maria, sucumbimos inevitavelmente ao orgulho moderno que é a raiz de todos os erros contemporâneos. A humildade da Virgem Santíssima é o único remédio verdadeiramente eficaz contra o orgulho luciferino que contamina nossa época.
Enquanto o homem moderno proclama sua autonomia absoluta, sua independência de Deus e de toda mediação, Maria responde com seu “Ecce ancilla Domini”. Quando o mundo grita sua autossuficiência, Maria expressa sua total dependência de Deus. Quando a criatura quer ser como Deus, Maria mostra que a verdadeira grandeza está em ser serva do Altíssimo.
Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, não teme afirmar categoricamente: “É moralmente impossível que se salve quem não é devoto de Maria e não é por ela protegido”³⁹. E ainda: “Assim como é impossível que se salve quem não é protegido por Maria, assim é certo que se salve quem a ela recorre e por ela é protegido”⁴⁰. Estas não são afirmações hiperbólicas de um devoto exaltado, mas conclusões teológicas de um Doutor da Igreja.
São Pio X, o Santo Papa que viu com clareza profética os perigos do modernismo, considerava a devoção mariana como verdadeiro “sinal de predestinação”⁴¹. Não é casualidade que todos os santos, sem uma única exceção, tenham sido devotíssimos de Nossa Senhora. Não há santidade autêntica sem devoção mariana, como não há heresia completa que não ataque, mais cedo ou mais tarde, as prerrogativas de Maria.
A consagração total a Maria, conforme ensinada por São Luís de Montfort e praticada por incontáveis santos e recomendada pelos Papas — inclusive mais recentemente, no pós-Concílio, pelo Papa João Paulo II com seu lema pontifical “Totus tuus” — não é uma devoção entre outras, mas a resposta católica integral ao espírito de independência moderna. É a antítese perfeita do “non serviam” luciferino.
Contra a autonomia proclamada pelo liberalismo, oferecemos a escravidão de amor a Maria. Não uma escravidão que degrada, mas que eleva; não uma escravidão que oprime, mas que liberta. Pois ser escravo de Maria é ser livre do pecado, livre do demônio, livre do mundo, livre de si mesmo. É encontrar a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.
Contra o racionalismo que tudo quer compreender e controlar, praticamos o abandono confiante nas mãos maternais de Maria. Como a criança que não entende os caminhos que a mãe escolhe, mas confia plenamente em seu amor, assim nos entregamos a Maria sem reservas, sem condições, sem cálculos. Este abandono não é irracionalidade, mas suprarracionalidade: é a sabedoria do amor que supera toda ciência.
Contra o naturalismo que nega o sobrenatural, vivemos uma vida de graça através de Maria, canal de todas as graças. Cada Ave-Maria que rezamos é um ato de fé no sobrenatural, cada terço é uma proclamação de que a graça existe e opera, cada consagração é um desmentido vivo ao materialismo reinante.
VIII. Desmascarando o fundamento subjacente
É preciso denunciar com clareza e coragem o que realmente querem os inimigos dos títulos marianos. Ao encararmos as orientações passivo-agressivas que sistematicamente desencorajam os tradicionais títulos como “sempre inoportunos” (como se aquilo que sempre foi dito pudesse tornar-se subitamente inconveniente), não podemos ser ingênuos e ignorar toda a nova teologia antropocêntrica que coloca o homem no centro onde deveria estar Deus, a filosofia fenomenológica e personalista que dissolve as verdades objetivas em experiências subjetivas, os perniciosos erros modernos e liberais que permeiam o magistério dialético pós-conciliar, que troca o ensino pelo diálogo com sua linguagem ambígua e formulações que admitem interpretações heterodoxas. Não nos deixemos enganar por sua retórica sofisticada, por suas citações escolhidas a dedo (e até mesmo improváveis), pela aparente preocupação com a “doutrina da fé” enquanto a esvaziam de seu conteúdo transmitido, muito menos pelo ar de autoridade com que desencorajam, com mão de ferro em luva de veludo, toda verdadeira devoção mariana. Por trás de toda essa fachada de falsa prudência pastoral e ecumenismo irenista se esconde o mais puro orgulho luciferino, o mesmo que não suportou submeter-se à humilde Virgem de Nazaré.
Não se trata de purificar a devoção de supostos excessos. Os verdadeiros excessos na Igreja hoje não são de devoção mariana, mas de tibieza, de indiferença, de apostasia da sociedade civil, de apostasia prática de muitos fiéis e eclesiásticos. Não se trata de tornar o catolicismo mais aceitável aos protestantes. Os protestantes que se encontram no erro com alguma sinceridade respeitam muito mais um católico que vive integralmente sua fé do que um católico que a dilui para agradá-los.
Não se trata de promover um cristocentrismo mais puro. O verdadeiro cristocentrismo passa necessariamente por Maria, pois foi o próprio Cristo que quis vir a nós através dela e continua querendo que vamos a Ele através dela. Um cristocentrismo sem Maria não é cristocêntrico, é cristomonista, é uma deformação herética que separa Cristo do plano salvífico que ele mesmo estabeleceu.
O que realmente querem é destruir a hierarquia da graça estabelecida por Deus. Querem nivelar tudo: o sobrenatural ao natural, o sagrado ao profano, o divino ao humano. Querem Maria no mesmo nível das demais criaturas para não terem que reconhecer que Deus pode elevar uma criatura acima das outras, que pode escolher e ter preferências, que pode estabelecer uma mediação única, universal e privilegiada.
No fundo, é o orgulho que não suporta depender de uma criatura, ainda que esta dependência seja estabelecida pelo próprio Criador. É a soberba que não tolera receber de mãos maternas aquilo que poderia, em sua imaginação delirante, receber diretamente de Deus. É o mesmo orgulho de Naamã, o sírio, que não queria banhar-se no Jordão porque eram águas muito simples, muito humildes para sua grandeza.
Mas Deus escolheu precisamente humilhar o orgulho humano fazendo-o depender de Maria. Como a salvação veio ao mundo através do “sim” de uma Virgem, assim cada graça continua vindo através de suas mãos maternais. Esta é a economia divina estabelecida pela Sabedoria infinita, e revoltar-se contra ela é revoltar-se contra o próprio Deus.
Pio XII advertiu solenemente: “Negar a Maria o que a tradição sempre ensinou é preparar a apostasia total”⁴². Palavras proféticas que vemos cumpridas. Observemos a trajetória de todos os que começaram atacando as prerrogativas marianas: acabaram negando a divindade de Cristo, a presença real na Eucaristia, a autoridade da Igreja e, finalmente, a própria existência de Deus.
IX. As aparições marianas: confirmação celeste
As aparições de Nossa Senhora em Fátima em 1917 não foram um evento piedoso marginal, mas uma intervenção direta do Céu na história humana, precisamente no momento em que o modernismo e o comunismo ameaçavam destruir a civilização cristã. O que Nossa Senhora veio ensinar em Fátima é exatamente o oposto do que pregam os minimalistas marianos.
Em Fátima, Nossa Senhora se apresentou como Medianeira, pedindo orações e sacrifícios pelas conversões dos pecadores. Mostrou seu Imaculado Coração cercado de espinhos, símbolo de sua Corredenção, de sua participação nos sofrimentos de Cristo. Prometeu que “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”⁴³, estabelecendo assim seu papel escatológico na batalha final contra o mal.
A devoção dos cinco primeiros sábados, pedida em Fátima, é precisamente uma reparação pelas blasfêmias contra os privilégios marianos: contra a Imaculada Conceição, contra a Virgindade perpétua, contra a Maternidade divina, contra as sagradas imagens. Nossa Senhora mesma veio defender aquilo que os modernistas atacam.
Em Lourdes (1858), quatro anos após a definição dogmática, Nossa Senhora veio confirmar celestialmente: “Eu sou a Imaculada Conceição”⁴⁴. Não disse “Eu fui concebida imaculadamente”, mas “Eu sou a Imaculada Conceição”, identificando-se com o próprio privilégio, mostrando que este não é um adorno acidental, mas sua própria essência.
As curas milagrosas de Lourdes, cientificamente comprovadas e inexplicáveis, são uma demonstração palpável da mediação de Maria. Cada milagre é uma graça que passa por suas mãos, uma prova viva de que ela é verdadeiramente a Medianeira de todas as graças.
X. Conclusão: o grito de guerra do fiel católico
Não estamos diante de uma questão teológica secundária ou de uma discussão acadêmica sobre títulos piedosos. Estamos em plena batalha decisiva pela alma da Igreja, pelo depósito sagrado da fé, pela honra devida àquela que o próprio Deus honrou acima de todas as criaturas. Esta batalha não admite neutralidade: ou estamos com Maria ou estamos contra ela; ou proclamamos suas grandezas ou nos aliamos a seus inimigos.
Quem ataca Maria ataca Cristo que a escolheu como Mãe, Corredentora e Medianeira universal de seu tesouro de méritos. Quem diminui Maria diminui o próprio plano salvífico de Deus. Quem nega a mediação de Maria nega a economia da graça estabelecida pela Sabedoria Divina. Quem recusa os títulos de Corredentora e Medianeira recusa reconhecer o que próprio Deus operou em Maria e através de Maria.
São Maximiliano Maria Kolbe, mártir da caridade e apóstolo incansável de Maria Imaculada, lançou o grito de guerra que deve ecoar em nossos corações: “A conquista do mundo inteiro para o Imaculado Coração de Maria”⁴⁵. Este não é um slogan devocional, mas um programa de combate espiritual, uma estratégia de reconquista cristã.
Diante dos ataques modernistas, nossa resposta não pode ser tíbia ou acomodatícia. Enquanto eles se reúnem em seus conciliábulos para diminuir Maria, nós devemos proclamá-la cada vez mais alto. Enquanto os falsos profetas pregam um cristianismo mutilado, sem Mãe, nós devemos viver e pregar a devoção mariana integral. Enquanto os devotos críticos esfriam a piedade dos fiéis com seu racionalismo gelado, nós devemos inflamar os corações com o amor ardente a Nossa Senhora.
Proclamemos sem cessar: Maria é verdadeiramente Corredentora porque Deus quis associá-la intimamente, necessariamente, inseparavelmente à obra da Redenção! Maria é verdadeiramente Medianeira de todas as graças porque Deus quis, em sua sabedoria infinita, que toda graça passasse por suas mãos maternais! Maria é nossa Rainha e Senhora, terror dos demônios, destruidora das heresias, esperança e refúgio dos pecadores, consoladora dos aflitos, auxílio dos cristãos!
Que ressoe em nossos lábios e em nossos corações, que seja gravado em nossas mentes e vivido em nossas obras, o princípio fundamental de São Bernardo que sintetiza nossa posição irredutível nesta batalha: “de Maria nunquam satis”⁴⁶, “de Maria nunca é dito o suficiente” — especialmente nestes tempos em que o inferno desencadeia todos os seus ataques contra ela.
E não nos percamos nem desanimemos nesta batalha, pois a vitória final é absolutamente certa, porque foi prometida pelo próprio Deus no Protoevangelho do Gênesis e confirmada por Nossa Senhora em suas aparições, especialmente em Fátima. O Imaculado Coração triunfará, e com ele triunfarão todos os que permaneceram fiéis à verdadeira devoção, todos os que não se deixaram seduzir pelos cantos de sereia do modernismo, todos os que mantiveram acesa a chama do amor a Maria Santíssima, Corredentora do gênero humano e Medianeira universal de todas as graças.
Este triunfo não será apenas escatológico, mas histórico. Ver-se-á ainda nesta terra o reinado social de Cristo através do reinado de Maria. Ver-se-á a restauração da civilização cristã sob o manto da Virgem Santíssima. Ver-se-á a conversão dos povos e o retorno dos hereges ao seio da Santa Igreja Romana. Mas este triunfo passa necessariamente pelo combate, pelo apostolado, pela confissão corajosa da fé.
Por isso, levantemo-nos como um só homem para defender a honra de nossa Mãe celestial! Que cada católico seja um cruzado de Maria! Que cada lar seja uma nova Nazaré, com todos reunidos junto à Sagrada Família, a Jesus, Maria e José. Que cada igreja, cada apostolado, seja um bastião de resistência ao modernismo através da verdadeira devoção a Nossa Senhora!
E se for necessário sofrer por esta causa, sofreremos com alegria. Se for necessário ser ridicularizados como fanáticos, aceitaremos com orgulho santo este título. Se for necessário dar a própria vida para defender a honra da Imaculada, morreremos cantando suas glórias! Pois não há morte mais gloriosa que morrer defendendo a Mãe de Deus, não há vida mais bem empregada que aquela gasta ao serviço da Rainha do Céu.
Que a história registre que nestes tempos de apostasia, quando muitos abandonaram a fé de seus pais, houve um resto fiel que não dobrou os joelhos ao Baal do mundo, que manteve acesa a chama da verdadeira devoção, que defendeu com sua vida os sagrados títulos de Maria Santíssima como Corredentora e Medianeira de todas as graças. E quando vier o triunfo, pois certamente virá, seremos contados entre os bem-aventurados que permaneceram fiéis até o fim. Ave Maria, gratia plena! Ave, bendita entre todas as mulheres! Ave, Corredentora do gênero humano! Ave, Medianeira de todas as graças! Ave, terror dos demônios e destruidora de todas as heresias!
Notas
- São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis, 8 de setembro de 1907, n. 39.
- Santo Irineu de Lyon, Adversus Haereses, Livro III, 22, 4.
- Santo Efrém da Síria, Homilia sobre a Santíssima Mãe de Deus.
- São Germano de Constantinopla, Homilia sobre a Dormição.
- São João Damasceno, Homilia sobre a Natividade de Maria.
- Beato Pio IX, Encíclica Ubi Primum, 2 de fevereiro de 1849.
- Beato Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854.
- Leão XIII, Encíclica Octobri Mense, 22 de setembro de 1891, n. 4.
- Leão XIII, Encíclica Adiutricem Populi, 5 de setembro de 1895, n. 5.
- São Pio X, Encíclica Ad Diem Illum, 2 de fevereiro de 1904, n. 12.
- Ibid., n. 14.
- Pio XI, Encíclica Miserentissimus Redemptor, 8 de maio de 1928.
- Pio XII, Encíclica Mystici Corporis Christi, 29 de junho de 1943, n. 110.
- Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1 de novembro de 1950, n. 40.
- Pio XII, Encíclica Ad Caeli Reginam, 11 de outubro de 1954, n. 38.
- Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, n. 62.
- Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis Cultus, 2 de fevereiro de 1974, n. 20.
- Paulo VI, Encíclica Christi Matri, 15 de setembro de 1966.
- João Paulo II usou o termo “Corredentora” nas seguintes ocasiões: Guayaquil, Equador (31 de janeiro de 1985); Audiência Geral (10 de dezembro de 1980); Audiência Geral (8 de setembro de 1982); Angelus (4 de novembro de 1984); Discurso em Roma (6 de outubro de 1991).
- João Paulo II, Encíclica Redemptoris Mater, 25 de março de 1987, n. 39.
- João Paulo II, Audiência Geral, 9 de abril de 1997.
- São Justino Mártir, Diálogo com Trifão, 100.
- Santo Irineu, Adversus Haereses, Livro III, 22, 4.
- Santo Efrém, Oratio ad Sanctissimam Dei Matrem.
- São Gregório Nazianzeno, Oratio 24, 11.
- São João Crisóstomo, Homilia sobre São João, 21.
- Santo Agostinho, Sermão 289, 2.
- São Pedro Damião, Sermão 44.
- São Bernardo de Claraval, Sermão sobre o Aqueduto, n. 7.
- Santo Alberto Magno, Mariale, q. 150.
- São Boaventura, Psalterium B. Mariae Virginis, Ps. 118.
- Santo Tomás de Aquino, Expositio Salutationis Angelicae.
- São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 52.
- Ibid., n. 93.
- Antífona do Ofício de Nossa Senhora, Breviário Romano.
- Apocalipse 12, 1.
- Apocalipse 12, 4.
- São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 54.
- Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, Parte I, Cap. I, §1.
- Ibid., Cap. III, §1.
- São Pio X, Audiência aos Seminaristas Romanos, 1904.
- Pio XII, Alocução ao Congresso Mariológico Internacional, 1950.
- Irmã Lúcia de Fátima, Memórias, Quarta Memória: sobre a aparição de 13 de julho de 1917.
- Santa Bernadette Soubirous, Relato das aparições de Lourdes, 25 de março de 1858.
- São Maximiliano Maria Kolbe, Escritos, Carta de 12 de abril de 1933.
- São Bernardo de Claraval, Sermão sobre a Natividade de Maria.


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