No dia 8 de maio de 2025, os católicos assistiram ao anúncio da eleição do Cardeal Robert Francis Prevost como o 267º papa, o 14º a assumir o nome “Leão”. A escolha foi uma surpresa para a maioria absoluta dos fiéis, já que, até então, o norte-americano era um completo desconhecido para a maioria das pessoas.
Para católicos tradicionais e conservadores, a eleição de Leão XIV trouxe a expectativa de mudança de rumos, especialmente para aqueles que sofreram sob a “misericórdia” do Papa Francisco e seus asseclas, que caçaram (e cassaram) apostolados tradicionais e conservadores. Para católicos progressistas, o novo Papa trouxe a segurança de que seu pontificado seria uma continuação de Francisco, com a relativização da fé católica sob o pretexto de “pastoralidade” e “sinodalidade”.
Costumeiramente, espera-se que um governante civil já mostre a que veio nos 100 primeiros dias de mandato, mas a dinâmica eclesiástica não é exatamente a mesma, razão pela qual é necessário esperar mais para entender um novo pontificado. Os primeiros seis meses de pontificado de Leão ainda são um tempo curto para uma análise mais precisa, mas são suficientes para vislumbrar um pontificado que deve ter pelo menos uma duração média de 15 anos, caso nada de inesperado aconteça.
Ao contrário de Francisco, Leão XIV dá importância aos aspectos mais institucionais do papado: usa a mozeta, permite que fiéis beijem o anel episcopal e também parece ter mais interesse numa liturgia mais digna do que seu antecessor. O fato dele rezar em latim gerou bastante comoção, mas Francisco fazia isso com alguma frequência no início do seu pontificado.
Embora Leão XIV tenha insistido bastante no tema da unidade e, ao contrário de seu antecessor, evitado entrar em maiores controvérsias, a verdade é que, até o presente momento, o seu pontificado tem se caracterizado por ser uma continuidade com o de Francisco, especialmente naquilo que mais importa, tanto a curto como a longo prazo.
A abolição de apostolados de missa tradicional continua a todo vapor, sendo que alguns bispos revelaram que estão proibindo a celebração da missa romana em razão da pressão do que podemos chamar de Dicastério para a destruição do Culto Divino. Alguns prelados chegam ao ponto de abolir mesmo a celebração de “missa nova bem rezada”, banindo a orientação “ad orientem”, o uso do latim ou da tradicional mesa de comunhão.
Entretanto, católicos tradicionais não são os únicos alvos das autoridades eclesiásticas: o grupo conservador francês Saint Martin é pouco conhecido no Brasil, mas vem atraindo mais vocações que a maioria das dioceses francesas e está sofrendo uma visitação apostólica. Noutro lugar, se os rumores estiverem corretos, o Opus Dei está prestes a passar por um processo de reformulação que, se levada a termo, provavelmente o deixará desfigurado. São dois fortes exemplos de como a “misericórdia de Francisco” para os adversários continuam em voga sob Leão XIV.
A agenda sinodal também continua firme: o próprio Papa já recomendou a sinodalidade como uma panaceia que supostamente resolverá todos os problemas da Igreja. Entretanto, o Sumo Pontífice ainda não deixou claro qual seria o significado preciso de “sinodalidade”. Às vezes, parece que utiliza a expressão apenas como sinônimo de “diálogo”, sendo que a verdade é que o tema está sendo usado por católicos progressistas para, em maior ou menor grau, atacar a estrutura hierárquica da Igreja.
Também nas questões mais “polêmicas”, o Santo Padre adota posições que, até o pontificado de Bento XVI, eram defendidas apenas por teólogos e sacerdotes considerados progressistas radicais: é a favor de bênçãos para duplas de homossexuais, desde que sejam espontâneas e sem um ritual formalizado. O Papa também disse que atitudes devem mudar antes da doutrina, deixando mais ou menos implícito que a doutrina da Igreja Católica sobre a prática de atos homossexuais eventualmente mudará, mas apenas depois das “atitudes” mudarem. Também disse não ser contra a ordenação de “diáconas”, mas que, primeiro, o diaconato precisa ser melhor entendido e desenvolvido, seja lá o que isso signifique. Mas, como sinalização de que continuará a agenda de seu antecessor, Leão XIV disse que seguirá nomeando mulheres para cargos e lideranças.
Leão XIV também segue com uma agenda recheada de compromissos e pronunciamentos de bandeiras consideradas como “globalistas”, como a implantação da agenda ecológica e o apoio à imigração irrestrita, chegando ao ridículo de abençoar uma pedra de gelo. O mesmo ocorre com a agenda “ecumaníaca”, quando a fé católica é deixada em segundo plano numa tentativa de criar uma união amorfa entre os cristãos.
Algo que está passando praticamente desapercebido é que as nomeações episcopais têm sido muito ruins. A maioria absoluta dos bispos nomeados por ele para os EUA e os países europeus são prelados mais conhecidos como pregadores do suposto apocalipse ambiental que se aproxima, do direito à imigração irrestrita e do apoio à agenda LGBT, do que pela defesa da fé católica. Isso certamente terá consequências negativas duradouras, já que boa parte desses bispos governarão suas dioceses por pelo menos 20 anos e alguns deles serão criados cardeais e elegerão o próximo pontífice.
Entretanto, o ponto baixo do pontificado de Leão XIV até agora foi a publicação de uma nota doutrinal, pelo que chamamos Dicastério contra a Doutrina da Fé, negando que Maria Santíssima seja Corredentora e Mediadora universal, um ataque direto à Mãe de Deus e à devoção mariana, sob o falso pretexto de um falso cristocentrismo de que isso geraria confusão. É uma atrocidade que certamente terá consequências devastadoras para a Igreja.
Em meio a desolações como essa, houve algumas pequenas consolações, como a celebração de uma missa pontifical solene no rito romano tradicional que ocorreu recentemente na Basílica de São Pedro, em meio a boatos de que, no ano que vem, o Papa pode relaxar a perseguição de apostolados tradicionais iniciada com o motu proprio Traditionis Custodes, em bom português “Carcereiros da Tradição”.
São apenas seis meses, mas já é possível perceber que, até o momento, o panorama continua desolador para todos em meio a uma longa crise que foi e é fomentada pelas próprias autoridades da Igreja.

