É uma boa observação a de que uma aventura nada mais é do que um incômodo visto sob o ângulo correto, e que um incômodo nada mais é do que uma aventura vista sob o ângulo incorreto (CHESTERTON, 1915, p. 33, tradução nossa). Embora tal reflexão possa não parecer autoevidente, creio tratar-se de uma das verdades mais fundamentais e basilares, pois ilumina a inteligência e nos permite compreender que os momentos de escuridão podem ser verdadeiramente frutíferos — ressalvadas, por óbvio, as raras e graves exceções que, embora também tragam seus ensinos, tornam o processo de reflexão um pouco mais árduo.
Seja como for, ao refletir sobre minhas próprias misérias — tal como uma criança corre para a saia da mãe depois de, a duras penas, ter se machucado —, volto meus olhos também para minha infância espiritual, para o início de minha conversão, em busca de algum alento — assim como a criança recebe da mãe consolo. Tive relativa sorte quanto aos livros que li ao ingressar na religião.
Aprendi muito com o Catecismo de São Pio X, papa sensato e ponderado, que freou boa parte de meus escrúpulos. Como, por exemplo, ao ensinar que restos de alimento presos aos dentes não quebram o jejum eucarístico (PIO X, 2009, p. 107), ou que podemos, sem risco de indecoro, queimar uma bíblia protestante que porventura venhamos a receber (PIO X, 2009, p. 140). Podem acusar-me de partidarismo, pois ele também afirma que podemos entregá-la ao pároco, mas convenhamos que atear fogo em coisas é bem mais divertido. E já que nos acusam, a nós católicos, de certa predileção por fósforos e chamas, façamos jus às lendas.
Com Santa Teresa d’Ávila e seu Castelo Interior, aprendi que, ao contrário do que devemos fazer com as bíblias protestantes, com os protestantes em si devemos ter a maior compaixão do mundo. E com São João Maria Vianney e seus sermões, aprendi que não devo confiar em minhas próprias forças.
Não é incomum vermos crianças arriscando-se em brincadeiras perigosas, dizendo que conseguem e que nada lhes acontecerá. Algumas aventuras são relativamente felizes e fáceis, como aquelas em que se viaja até a lua numa caixa de papelão para pegar um pedaço daquele queijo gigante que estaria lá em cima. Outras, porém, são absurdamente insalubres e maléficas; dentre elas, incluem-se visitas a museus de arte moderna, ou ainda a visita a parentes de um professor darwinista em um zoológico — o que deve despertar certa curiosidade nesses pequenos seres. Afinal, o que nos torna tão especiais? E o que garante que, no futuro, não sejamos nós os que estarão ali, presos nas jaulas?
Seja como for, se tiverem boas mães, ouvirão repetidas vezes o que pode acontecer. Uma, duas, até três vezes serão advertidas, até que a mãe permita que se machuquem — ou que deem ouvidos ao professor e, caso não se comportem, acabem presos numa jaula junto com os demais macacos. Assim aprendem e não repetem tais erros — ao menos, assim esperamos.
É justamente sobre isso que versa um sermão de nosso Cura (VIANNEY, 2018, p. 26). O santo nos lembra que, em certos momentos, somos tentados e aspiramos a grandes feitos. Vemos São Francisco de Assis atirar-se em meio aos espinhos para vencer as tentações; vemos São Lourenço ser queimado vivo numa grelha; vemos papas como Pio IX, Leão XIII, Pio X, Pio XI, além de tantos sacerdotes e leigos, defenderem a doutrina cristã em meio aos ataques da modernidade liberal.
Mas, quando estamos convencidos de que também poderíamos suportar o mesmo, Deus permite que o diabo nos tente. E, ao vermos os espinhos, escolhemos a quebra da pureza pelo olhar; diante da grelha e do fogo — e da piada de nosso “padroeiro dos churrasqueiros”, pedindo ao carrasco que o virasse, pois o lado junto à brasa já passara do ponto —, respondemos com lamúria e revolta, trocando a humildade e alegria cristã pela soberba e ira pagã. Ao invés do Reinado Social de Cristo, entregamo-nos à política pragmática do dia.
Os cenários variam, mas o resultado é sempre o mesmo: o cristão que, até então, mostrava-se disposto até mesmo a morrer por Cristo, transforma-se em traidor no instante em que a situação se torna pessoalmente desfavorável.
E que Deus tenha misericórdia de nossas misérias, pois, enquanto ninguém parece negar que é contrário à Lei de Deus pecar pelo olhar em vez de lançar-se aos espinhos, boa parte dos católicos mostra-se confortável em defender publicamente a Realeza Social de Cristo, até que seja necessário realmente defendê-la e escolhê-la de fato.
Não é de todo estranho imaginar que certas situações políticas sejam, em verdade, enviadas por Deus para nos provar, para testar se nossa confiança está depositada n’Ele ou em nós mesmos. E o católico que até então parecia um grande cruzado, quando vê a situação apertar-se, vacila. “É preciso” — dizem nossos amigos vacilantes — “que em períodos de crise, sobretudo de crise política, nos abstenhamos de ideias utópicas e idealismos. É preciso ser prático, é preciso ser pragmático.”
Mas mais vale escutar os avisos de nossa mãe, ou melhor, de Chesterton, do que dar ouvidos às tentações do professor darwinista, parente dos símios, ou dos católicos práticos, parentes dos asnos.
Surgiu em nosso tempo uma fantasia bastante singular: a fantasia de que, quando as coisas vão muito mal, precisamos de um homem prático. Seria muito mais verdadeiro dizer que, quando as coisas vão muito mal, precisamos de um homem não prático. Certamente, pelo menos, precisamos de um teórico. Um homem prático significa um homem acostumado à mera prática diária, à maneira como as coisas normalmente funcionam. Quando as coisas não funcionam, é preciso ter o pensador, o homem que tem alguma doutrina sobre por que elas funcionam de qualquer maneira. É errado tocar violino enquanto Roma arde; mas é perfeitamente correto estudar a teoria da hidráulica enquanto Roma arde.
(CHESTERTON, 1987, p. 43, tradução nossa)
Nosso santo, contudo, diria que é preciso confiar mais em Deus e menos em nós mesmos. O pessimismo dos católicos vacilantes, que insistem em sermos “práticos” — sob o risco de piorarmos a situação — revela antes um apego excessivo ao mundo do que verdadeira confiança em Deus.
A questão não se funda em sucesso ou fracasso, mas em ortodoxia e firmeza diante das dificuldades. O êxito ou o fracasso não depende de nós — ou melhor, não deveria sequer ser nossa preocupação —, pois está inteiramente sob o domínio de Deus. De nossa parte resta apenas a confiança. Nossa tarefa é unicamente defender Sua Lei: não apenas no que diz respeito ao olhar e à pureza, mas também às leis ordinárias e à política.
Devemos apenas pedir a Deus que nos dê forças, assim como pedimos, por exemplo, para resistirmos às tentações da carne; do mesmo modo, devemos rogar forças para resistirmos às tentações de nossa realidade política:
Se pedirmos algo abstrato, podemos receber algo concreto. Atualmente, não apenas é impossível obter o que se quer, mas é impossível conseguir qualquer parte do que se deseja, porque ninguém consegue delineá-lo claramente como um mapa. Aquela qualidade clara e até rígida que havia nas antigas negociações desapareceu por completo. Esquecemos que a palavra “compromisso” contém, entre outras coisas, a palavra rígida e sonora “promessa”. A moderação não é vaga; é tão definida quanto a perfeição. O ponto médio é tão fixo quanto o ponto extremo.
(CHESTERTON, 1987, p. 45, tradução nossa)
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CHESTERTON, G. K. All Things Considered. 9. ed. Londres: Methuen & Co. Ltd., 1915.
CHESTERTON, G. K. The Collected Works of G. K. Chesterton. vol. 4. São Francisco: Ignatius Press, 1987.
PIO X, São. Catecismo Maior de São Pio X. Rio de Janeiro: Permanência, 2009.
VIANNEY, São João Maria. Cura d’Ars: sermões. [S.l.]: Minha Biblioteca Católica, 2018.
