Em uma manhã qualquer, um senhor de meia-idade entrou em seu WhatsApp, para verificar as mensagens que seus contatos haviam-no enviado; no grupo da família, viu mensagens em caps lock, com erros gramaticais e acompanhadas de fotos explícitas de cadáveres ensanguentados — algo que não era incomum naquele grupo. Curioso, o homem foi para o Instagram e acessou o perfil de um autoproclamado jornalista local, que sempre divulgava todo tipo de barbaridade da cidade. O post mais recente continha as mesmas informações vagas sobre o ocorrido, apenas acrescentando que se tratava de um homicídio; as fotos haviam sido um pouco censuradas — algo feito mais para não sofrer represálias por parte da rede social do que para poupar os seguidores das imagens vis.
Ávido por saber mais, o homem recorreu ao site de um dos jornais mais populares da cidade. A notícia estava pessimamente estruturada e era tão curta que o veículo de comunicação poderia ser acusado de atentado ao pudor. Apesar disso, o curioso ficou satisfeito e resolveu olhar os demais acontecimentos das últimas horas: acidentes, assassinatos, escândalos políticos e toda sorte de vulgaridade que pode render algum click, seja ela relevante ou não. Muitas das matérias eram apenas colagens de outros sites de notícias contendo uma ou outra alteração.
No fim de toda a sua saga para saber mais sobre o ocorrido, o homem não era mais o mesmo: havia alimentado o vício da curiosidade e, através das imagens viscerais, poluído sua mente com mais imundícies. Alguém nega que o modo como o jornalismo é feito hoje em dia, em larga escala, mais prejudica os povos do que os ajuda a alçar voo, enobrecendo-os? A causa para tamanha decadência do jornalismo é a mesma que faz rolar na lama tantas outras profissões, especialmente aquelas das áreas humanas: a apostasia prática das sociedades.
É o abandono da fé — a verdadeira, isto é, a fé católica romana — que torna tudo mais aceitável ao homem e o faz ir de abismo em abismo, até que tudo esteja um verdadeiro caos. E basta um olhar ao redor para perceber que o que é dito é um fato. O jornalismo é apenas mais uma vítima de toda a decadência reinante: desfazendo-se das amarras da Santa Religião e ignorando — ou negando! — as leis naturais, os veículos de comunicação nada mais fazem do que um pseudojornalismo, que visa mais o lucro e o favorecimento de ideologias do que a propagação da Verdade e das verdades, utilizando para isso até mesmo sensacionalismos dos mais pornográficos.
É claro que existem inúmeros problemas que envolvem a imprensa em nossos tempos, alguns causados por uma liberdade demasiada e por uma falta de regulamentação da profissão — sem a necessidade de uma formação ou de um diploma, qualquer um com um celular pode tirar foto de um acidente, publicar em alguma página numa rede social e se autoproclamar “jornalista” — e outros problemas causados por práticas inerentes à profissão, que criou raízes em diretrizes liberais e humanistas. Para citar um exemplo, há a famosa “imparcialidade”.
De modo geral, é-nos ensinado que a imparcialidade deve ser buscada, por difícil que seja, durante a escrita de uma matéria, para que as crenças e opiniões próprias do repórter não interfiram no relato dos acontecimentos. Em verdade, existem matérias em que a imparcialidade convém, especialmente nas mais factuais, em que situações corriqueiras são descritas. Nestas matérias, adicionar julgamentos morais precipitados e assumir lados poderia causar prejuízos graves aos envolvidos. Por exemplo: há acidentes no trânsito em que dificilmente se pode dizer com segurança quem foi o causador, já que as partes envolvidas podem contar versões diferentes do ocorrido. Assim, caberia ao bom repórter apenas relatar o que ocorreu, as circunstâncias e expor o que dizem os envolvidos.
Uma situação totalmente diferente é, sob o pretexto da imparcialidade e da neutralidade, um veículo de imprensa propagar uma fala objetivamente ruim, que fere a verdade, sem apresentar uma justa e necessária oposição. Cito outro exemplo, para que fique mais claro: um político faz uma declaração a favor do aborto, pontuando todas as razões pelas quais ele acredita que esse ato hediondo deve ser legalizado. A defesa de um ato tão antinatural como esse não poderia ser noticiada sem que a matéria trouxesse também uma refutação clara aos pontos apresentados pelo político, trazendo boas fontes e especialistas para tratar do assunto com mais propriedade. Indo mais além, um jornalista católico que ficasse responsável por falar sobre um ocorrido dessa linha deveria condenar veementemente o aborto, adjetivando-o da maneira devida.
Cabe aqui citar o que disse o escritor e jornalista inglês G. K. Chesterton (1874-1936), em seu artigo Puritan and Anglican, publicado no periódico londrino The Speaker em 1900: “imparcialidade é um nome pomposo para a indiferença, que também é um nome elegante para ignorância”.
Para além dos males que uma neutralidade midiática pode causar, vale observar também que a defesa da liberdade de imprensa também tem causado diversos prejuízos para as sociedades, que passaram a consumir toda espécie de leituras nocivas. Afinal, alguém são negará que certas publicações jornalísticas são tendenciosas e espalham a desinformação? Indo mais além, alguém negará que muitas vezes há um ataque às próprias verdades reveladas, à santa fé católica e às leis naturais? Assim como é preciso censurar uma criança quando ela diz ou faz algo repreensível, é necessário também colocar freios e limites à imprensa, seja no sentido mais estrito, referindo-se ao jornalismo, seja no sentido mais amplo (e hoje pouco utilizado) de toda e qualquer publicação. É claro, para uma boa censura é preciso um bom censor, e nossos governantes, tão incrivelmente ineptos em suas próprias funções, são também incapazes de proporcionar algo do gênero.
Inúmeros outros problemas do jornalismo moderno poderiam ser listados aqui, para ainda maior indignação dos meus colegas de profissão; embora eu possa abordá-los em textos futuros, nenhum deles será visto como um problema real se persistir a mentalidade relativista de que não existem verdades objetivas e que o certo e o errado, o bem e o mal são apenas questões de perspectiva. O homem, guiado pela reta razão, pode muito bem perceber a existência de verdades claras; o apóstolo São Paulo já dizia que a Verdade pode ser conhecida pela inteligência, através das Suas obras.
Confesso que minhas afirmações podem soar ainda mais absurdas em nossos tempos, quando a reta razão e a inteligência são quase um conto de fadas — daqueles contos obscuros que sequer recebem qualquer adaptação para o cinema. Independente disso, eis aí o que deve ser o bom jornalismo: um promotor da verdade, um defensor da verdade. E por amor à Verdade, que é Cristo Nosso Senhor.
Foi o Papa Pio XI, de feliz memória, que disse para os jornalistas católicos brasileiros ampliarem o campo da verdade. Nesta terra de Santa Cruz, as palavras do Sumo Pontífice foram transmitidas e majestosamente complementadas pelo então arcebispo de Cuiabá, Dom Francisco de Aquino Corrêa (1885-1956), através da carta pastoral A Divisa dos Jornalistas, datada de dezembro de 1939. O documento do prelado, que li com um sorriso de canto a canto, é um verdadeiro guia para todo jornalista católico e, ouso dizer, para todo homem dotado de simples bom senso.
Destrinchando os problemas que já acometiam a imprensa de sua época — muitos dos quais perseveram até hoje —, o erudito arcebispo citou as nefastas consequências de um mau jornalismo e, mais do que isso, apontou a direção que os bons profissionais devem seguir, sempre voltando a citar a frase que ouviu da boca do próprio Vigário de Cristo: dilatentur spatia veritatis, quer dizer, ampliar o campo da verdade!
Seja, pois, primeiro empenho do jornalista evitar tudo quanto possa contrariar essa verdade, de que fala o Pontífice. E antes de tudo, a maior repulsa ao que mais se lhe opõe, que são a mentira e a calúnia; de uma e outra, entretanto, baste aqui repetir aos homens da imprensa a palavra incisiva de São Paulo: “nem sequer se nomeie entre vós”. Nec nominetur in vobis.
Mais ainda, o Príncipe da Igreja afirmou o que hoje em dia soaria como uma blasfêmia aos ouvidos dos donos de jornalecos sensacionalistas, que vivem de publicar escândalos e misérias humanas — das mais inocentes às mais pornográficas: nem toda verdade é edificante e convém ser publicada, sob o risco de propagar vícios e tantas outras mazelas. “Verdade não é verismo, não é realismo”, disse o saudoso arcebispo, que posteriormente afirmou que a imprensa não pode ser refém do mercantilismo, deixando de falar verdades necessárias porque é financiada pelos poderes públicos.
Também esse comentário pode fazer doer os ouvidos dos empresários que, dotados de ética e moral ímpares, estão sempre bem comprometidos com determinadas instituições ou figuras políticas. Que certos fatos sejam ocultados ou demasiadamente enfeitados, de modo que o público seja iludido de alguma forma, não importa. Para tal espécie de comunicador basta apenas que o dinheiro esteja entrando e, não raras vezes, que algum poder político esteja sendo favorecido — aí vai também uma curiosa contradição: os mesmos que podem ranger os dentes com as minhas palavras anteriores contra a supremacia da imparcialidade, talvez sejam os mesmos que sacrificam essa neutralidade para exaltar, mesmo que discretamente, suas ideologias ou eventuais fontes de renda.
Ah, quão grave é a nossa situação, que para poder fazermos a prática de um bom jornalismo precisamos antes tomar uma boa dose de coragem e ir contra a forte correnteza que arrasa, em uma enchente sem precedentes, todas as boas edificações da sociedade de outrora, matando não os corpos, mas as almas de todos que ficam em seu caminho. É preciso coragem, é preciso estar imbuído de boa doutrina e de um amor ardente pela Verdade, pois, como ensina o apóstolo, tudo deve ser recapitulado nela. Mas não se deve ser assim em tudo neste vale de lágrimas pelo qual devemos passar?
O que mais se pode dizer sobre a prática de um bom jornalismo? Talvez seja salutar também citar Pio XII, que afirmou, dirigindo-se aos jornalistas americanos em junho de 1958, que a humanidade anseia por “verdade, justiça, bondade genuína, amor fraterno”, e que ele sabia que a imprensa pode fazer muito para satisfazer a esse desejo. E é este, caríssimos leitores, o resultado gerado pela prática correta de tão nobre profissão.
Católico apostólico romano, jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cartunista nas horas vagas.
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