O respeitabilíssimo Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, quis fazer do aniversário da primeira aparição do Imaculado Coração de Maria em Fátima ocasião de um impropério memorável contra a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Memorável por conta do caráter afrontoso na escolha da data, dado que o treze de maio, embora não seja preceito, é dia festivo e de santificação para todos os católicos de boa vontade, com exceção daqueles que a literatura corrente denomina “progressistas” — sempre constrangidos por Fátima —, nos quais a força da constatação inclui o próprio Cardeal Fernández. Memorável, gravemente, pois não precisamos fazer notar que isto será lembrado no Dia do Juízo. Enfim, memorável por configurar um ato de polarização, especialmente em meio ao conciliador pontificado de Leão XIV, e contra uma comunidade a qual nem mesmo o agitador pontificado de Francisco quis oferecer tamanho escândalo. Feres-me com tua boca! Queres roubar-me a paz em dia de esperar o triunfo da Corredentora!
Menos de três meses antes vinha a público um artigo do sociólogo Carlos Sell, intitulado “Por que a FSSPX optou por sagrar bispos sem mandato de Roma?: uma análise a partir da teoria da escolha racional” (Instituto Humanitas Unisinos, 24/02/2026), em que traçou três desfechos para a problemática das novas e, àquela altura, recém-anunciadas sagrações da FSSPX. São eles (sic):
- Roma poderia adotar uma linha dura preventiva, com advertências formais e ameaça explícita de sanções;
- oferecer concessões substanciais em nome da reconciliação; ou
- escolher um diálogo estratégico, mantendo princípios considerados inegociáveis enquanto preservava canais institucionais abertos.
Conclui a relação afirmando, com força de previsão: “A terceira opção foi a escolhida”; E, de fato, era ao que apontava toda a conjuntura de então, bem como a demora da reunião com o próprio Papa tão insistentemente requerida pelo Superior Geral da FSSPX, o Padre Davide Pagliarani. Mas por que haveria uma previsão tão assertiva, vinda de um homem tão esclarecido e afim dos setores progressistas, de caducar tão rapidamente? É claro que o mais recente pronunciamento do cardeal procede, como na primeira opção, à dureza e à explicitude — mais do que com a validade formal, diga-se de passagem, pois adota como referencial canônico um motu proprio duplamente superado.
Ouso assumir que isto se deu em atenção às nossas orações, a fim de provar a pureza das intenções para com a Sagrada Tradição, a saber, mantê-la viva nas almas até que as legítimas autoridades de Roma despertem de seu pesadelo neomodernista. O quando se resolverá não nos cabe, o que nos cabe é prosseguir onde há dois mil anos estamos.
As caducas previsões de Sell tiveram seu fundamento na Teoria da Escolha Racional, acusada no título de seu artigo. Focados na raiz econômica desta teoria, em detrimento dos seus mais justos desenvolvimentos em psicologia, remetemo-nos à figura de William Stanley Jevons (1832-1885), um economista neoclássico que propôs a matematização da Economia. Para elucidar acerca de sua doutrina, cito-o:
É claro que a Economia deve ser, em absoluto, uma ciência matemática. Existe muito preconceito em relação às tentativas de introduzir os métodos e a linguagem da Matemática em qualquer dos ramos das ciências morais. Muitas pessoas parecem pensar que as ciências físicas formam a esfera adequada do método matemático, e que as ciências morais requerem outro método — não sei qual.
(Jevons in A Teoria da Economia Política, p. 48. São Paulo: Nova Cultural Ltda)
Aprecio a brevidade com a qual Jevons demonstra ideologismo, não se esforça para enganar o leitor e, já no capítulo inaugural, entrega matéria de crítica para as próximas três gerações de economistas. Caso certos dicastérios se atentassem à sua competência de censores, teriam seu trabalho facilitado sobremaneira por autores assim. Além disso, ele chama preconceituoso a quem resiste à sua pretensa redução, para na frase seguinte admitir que não sabe de outro método requerido pela moralidade. Apelo à ignorância? O preconceito só pode existir onde não há conceito; ser ignorante em matéria de Religião não é um cargo muito prestigioso para que se saia divulgando, dando carteirada de pagão.
Ademais, a Escolha Racional pretende que os agentes econômicos sempre justifiquem suas decisões em vista do maior prazer, a otimização racional. Pela clara filiação filosófica ao utilitarismo de Bentham e Mill que, por sua vez, desemboca na redundância definitiva entre prazer e dor (em que prazer é “ausência de dor” e dor é “ausência de prazer”), a fórmula exige que nos conformemos sempre ao que nos custa menos. Portanto, seria possível prever o que alguém ou alguma instituição fará a partir do cálculo matemático do que menos lhe custa. Mais: o emprego de outros termos de origem econômica por Sell, tais como “capital” e “ativo”, põe em analogia as figuras do fiel e do consumidor, igualmente as do clérigo e do produtor, encarando os atos de apostolado como atos comerciais publicitários, querendo enfatizar o interesse econômico e político por influência, conquistando e mantendo um grande público tradicionalista, por parte da FSSPX, ou uma heterogênea e heterodoxa agremiação “conciliar”, por parte do Vaticano.
Se o alto clero decidiu tratar a Igreja como uma corporação ESG, cujo produto intensivo em propaganda é leve bastante para ser digerido pelos estômagos modernos, isto é lá com a consciência deles, pois trata-se de uma mentira. Ocorre que o arcabouço analítico usado pelo sociólogo não só não cabe na natureza institucional, histórica e divina, da Igreja em geral, como muito menos cabe no caso da FSSPX. Afirmar que esta opte por sagrar novamente para expandir o “capital identitário” é algo infamante e que vai de encontro com diversas medidas disciplinares que o grupo impõe a si, a fim de salvaguardar a intenção de ser juridicamente reabsorvido por Roma, sinalizando a unidade, não só em tese como em ato, com a hierarquia da Igreja visível, defendendo-se apenas do alcance de seus patentes erros doutrinais. Notemos que, tanto em 1988 como agora, o número de bispos sagrados é quatro. Em que pese a desproporção entre a Fraternidade de há quase 40 anos e a de hoje em dia, em termos de quantidade de fiéis (“capital identitário”), padres e seminaristas a serem atendidos, o número quatro manteve-se. Por quê? Porque estamos diante de uma operação de subsistência, é simples.
Quatro é o número de cantos no mundo que estes pobres Príncipes da Igreja percorrerão. Percorrerão e não se assentarão, este é outro ponto, pois para que se configure cisma formal eles teriam que estabelecer dioceses paralelas em respectivos espaços geográficos, coisa que nunca ocorreu e nem agora ocorrerá, são essencialmente missionários. O número quatro para os bispos também lhes concedeu protelar esse ato o máximo possível: vejam que dos quatro bispos sagrados na primeira vez, apenas dois sobreviveram. Apesar de somente um bispo com ordens válidas ser necessário para sagrar validamente outro, costumeiramente, três bispos tomam parte na cerimônia, a fim de ter máxima segurança na transmissão de uma nova linhagem episcopal, na validade de sua ordem. Agora, entretanto, como em 1988, dispôe-se de apenas dois bispos, como se usando quase do mínimo até mesmo na inclinação ritual da confirmação pela presença de outro bispo, protelando o máximo possível.
O que o Padre Pagliarani quer dizer com sua decisão é: “Desobedecer, ainda que apenas aparentemente, não é prazeroso, mas aqui se faz necessário, na necessidade está o Bem, e, no Bem, a consolação”. Enquanto isso, o que o sociólogo nos propõe é, em palavras mais acadêmicas: “Ora, meus caros, sabemos que Deus não existe, que o Evangelho é falso e hodiernamente desnecessário, investiguemos pois o que querem esses homens que insistem em fingir interesse na tal salus animarum”. Move-lhe o mesmo espírito que faz Pilatos interpelar Cristo sobre a verdade, ou Valeriano interpelar São Lourenço sobre os bens da Igreja, procurando na matemática deste mundo, nas normas desta casa (economia, do grego “oikos”, casa, e “nomos”, norma), o motivo pelo qual se prefere o Bem à qualquer outra coisa. Procurando entre os mortos Aquele que está vivo.
A falha da previsão de Sell é a falha do imanentismo e da mundanidade, é uma exortação à Fé e uma constatação da excepcionalidade, que não se restringe ao caso aqui tratado, mas se estende à toda santa causa da Igreja Católica que, por sua vez, está não somente na hierarquia visível, como também na comunhão com todos os séculos de Novo e Eterno Testamento.
Que adotem a “linha-dura”. De certo modo, é como Deus esclarece quem é perseguidor e quem é perseguido, quem é que aflige a Igreja e quem a cura, nem sempre com beijos, mas com os toques divinos nos Santos Sacramentos. Entretanto, lembremos que concordando, discordando ou tendo dúvidas a respeito da conduta da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o católico não deve entusiasmar-se com o acirramento de uma luta de classes. É verdade que uma luta lhe está reservada, mas é a luta pela preservação do que nunca deixou de ser; ganha-se este combate por — com o documento da Caridade — confissão e guarda da Fé: “Eles são inevitáveis, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo!” (Mt, XVII, 7). Vae victis? Não! Vae mundo ab scandalis!

