No dia 3 de dezembro, desde 1622 a Igreja celebra em seu calendário a Festa de São Francisco Xavier, confessor da fé, sacerdote e missionário, um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola e que poderíamos chamar quiçá, de forma branda, de cofundador da Companhia de Jesus. O santo, embora nascido no que hoje é a moderna Espanha, gozou de bastante popularidade em Portugal e em países lusófonos como o Brasil. Até alguns anos atrás, não era incomum conhecermos um homem nalguma rua qualquer batizado “Francisco Xavier” por seus pais pios e católicos. Para que entendamos a razão dessa popularidade, entremos um pouco em sua história através de uma síntese…
Foi no dia 7 de abril do longínquo ano do Senhor de 1506, no município de Xavier, no antigo reino hispânico de Navarra, que nasceu um menino no berço da nobreza de Xavier, no castelo homônimo: Don Francisco de Jasso y Azpilicueta. Filho caçula de Don Juan de Jasso y Atondo, Senhor de Idocín e chefe do conselho real de Navarra, e de Dona María de Azpilicueta y Aznárez, Senhora de Xavier, ele tinha apenas 9 anos de idade quando seu pai faleceu durante a Conquista de Navarra pelos reinos de Castela e Aragão. Seus irmãos dedicaram-se à guerra contra Castela, tendo frustradas todas as suas iniciativas de repelir os conquistadores castelhanos, porém não Francisco, que tinha outras coisas em mente: planos ambiciosos e terrenos àquela altura — mas para quem, sem saber, a Providência reservava destino muito mais elevado.
No ano do Senhor de 1525, o filho nobre navarro dirigiu-se à velha capital da França para estudar no Colégio Santa Bárbara da Universidade de Paris — onde viveria os próximos onze anos de sua vida — e lá passou a assinar seu nome segundo o costume da época, com seu nome e cidade natal: Francisco de Xavier, como ficaria conhecido. Em 1529, Francisco dividia seu alojamento com um amigo que fizera, um tal Pedro Fabro da Saboia, quando um novo estudante vindo de Castela juntou-se a eles. Francisco e Pedro tinham ambos 23 anos de idade àquela altura, e seu novo companheiro, que chamava-se Inácio de Loyola, era muito mais velho que eles, o que não o impediu de, com seus 38 anos de idade, dedicar-se dia e noite a convencer os dois jovens a buscar o sacerdócio. Pedro convenceu-se, mas não Francisco, que até mesmo zombava sarcasticamente do esforço de Inácio; pouco a pouco, entretanto, a resistência do jovem foi derrubada pelo fervor dos argumentos de seu colega mais velho. “O que lucra um homem em ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?”, disse-lhe Inácio ganhando para Deus o argumento e a alma de Francisco, que a partir daquele momento abandonaria todas as suas aspirações e ambições terrenas, especialmente as de cunho acadêmico, para dedicar-se inteiramente ao Cristo que reinava em sua alma.
Anos depois, no exato dia 15 de agosto de 1534, sete estudantes da Universidade de Paris reuniram-se na cripta da Igreja de São Dinis. Foram eles: Inácio de Loyola (que os liderava), o Pe. Pedro Fabro (foi ordenado ao sacerdócio em maio de 1534), Afonso Salmerón, Diego Laínez, Nicolás Bobadilla, Simão Rodrigues e Francisco Xavier. Lá fizeram votos privados de pobreza, castidade e obediência ao Papa, e juraram ir converter os infiéis. Ali, naquele dia agostino, a Companhia de Jesus foi fundada por inspiração e liderança de Inácio de Loyola. Em 1534, Francisco Xavier formou-se Mestre em Teologia — razão pela qual muitas vezes era chamado de “Mestre Francisco” ou “Mestre Xavier” — e, em 1537, foi ordenado ao sacerdócio e acompanhou Inácio a Roma para pedir a autorização papal para a nova ordem religiosa, que seria aprovada pelo Papa Paulo III em 1540. O Pe. Francisco Xavier foi o primeiro missionário de uma infinitude de jesuítas nos séculos seguintes, e, apontado pelo Papa como delegado apostólico do Oriente, partiu em expedição para a Ásia sob patrocínio do Rei D. João III de Portugal em 7 de abril de 1541, aos 35 anos de idade, e nesse continente tão distante de sua terra natal é que passaria todo o resto de sua vida.
Chegando à Índia em 1542, Pe. Francisco dedicou-se a restaurar os costumes cristãos entre os portugueses: pregava a todos e a todos chamava para o catecismo, ministrava os sacramentos e confortava os enfermos em hospitais. Fundou o Colégio de São Paulo — que se tornaria a principal instituição e sede jesuíta em toda a Ásia — ainda por volta de 1542, tendo os estudantes jesuítas aulas de gramática, retórica e formação nos autores clássicos, dentre outras coisas; o Colégio também contava com uma escola para centenas de alunos e com um hospital, tudo isso livre de cobranças. Lá se ensinava até mesmo os sacerdotes do clero local, tamanha a qualidade de seu ensino. Com a chegada de outros jesuítas para ajudar-lhe, e já estabelecidas as bases para as conversões e as catequeses, o Pe. Francisco passou a dedicar-se incansavelmente à conversão dos gentios na Índia. Os brâmanes e as autoridades muçulmanas o odiavam e se opunham a ele com violência, buscando matá-lo e queimando sua cabana repetidas vezes. Nada adiantou: por volta de 1544, o Pe. Francisco já havia construído 40 igrejas ao longo da costa sudeste indiana e no atual Sri Lanka.
No sudeste asiático, Pe. Francisco evangelizou ilhas e arquipélagos inteiros na Malásia e na Indonésia. Sua reputação se espalhava sem precedentes pela Ásia: ao final de 1547, estava em Malaca quando conheceu o primeiro japonês que viu, um homem de nome Anjirō, que ouviu falar dele em 1545. Dois anos depois, em 1549, com o Pe. Cosme de Torres e o Ir. Juan Fernández, também jesuítas, e um séquito de indianos e três cristãos japoneses, inclusive Anjirō, o Pe. Francisco Xavier, representante papal em todo o Oriente, desembarcou no porto de Kagoshima, sendo também o primeiro missionário e sacerdote a pisar no Japão. Por dois anos, Xavier trabalhou incansavelmente na terra do sol nascente entre lordes e camponeses; superando a maior barreira linguística que enfrentara, converteu muitas gentes e estabeleceu comunidades em lugares diversos, mesmo com a oposição maciça oferecida pelos sacerdotes xintoístas e, especialmente, pelos monges do zen-budismo. Voltou para a Índia no início de 1552 deixando uma missão japonesa pujante de boas perspectivas aos cuidados do Pe. Cosme de Torres, a quem preparou para sucedê-lo. A missão no Japão foi a última que fez. Preparava-se na Ilha de Sanchoão, na costa chinesa, para adentrar na China continental e converter aquele grande império a Cristo, quando inesperadamente caiu doente e morreu pacificamente no dia 3 de dezembro de 1552, na companhia do servo cristão chinês António, que por razões apostólicas era o único a acompanhá-lo naquele momento e que descreveu sua face como “pacífica, feliz e avermelhada e rosada” no momento de sua morte.
Em vida, o Mestre Francisco instruía àqueles já batizados e pregava a fim de batizar os gentios, e humildemente suportava a fama de taumaturgo: dizia-se que curava os doentes, ressuscitava os mortos, acalmava tempestades e expulsava demônios. Em sua morte, não poderia ser diferente: mais de 1200 milagres atribuídos à sua intercessão foram aprovados pelas rigorosas comissões vaticanas desde que foi ao encontro do bom Deus.
O Pe. Francisco Xavier, S. J., foi beatificado pelo Papa Paulo V em 25 de outubro de 1619, e canonizado quase três anos depois pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622, junto de seu grande amigo e mestre Santo Inácio de Loyola. O seu apostolado missionário na Ásia durou apenas um pouco mais que dez anos, mas, frutuosíssimo como foi, bastou para que o Papa Pio XI fizesse dele Patrono das Missões Católicas, junto a Santa Teresinha, em 14 de dezembro de 1927, através do decreto Apostolicorum in Missionibus. Além do impacto de suas ações através da história, pelos continuadores de sua obra, as suas relíquias foram encontradas incorruptas, dando testemunho do fervor do amor de Deus em sua vida. Hoje, quase cinco séculos após sua morte, elas continuam assim preservadas pela ação de Deus, em particular seu intacto braço direito, cuja mão milagrosa batizou mais de 700 mil pessoas.
Ainda hoje celebrado e com muitas paróquias sob sua patronagem, São Francisco Xavier é também esquecido em sua história, razão pela qual é mais que justo que uma deferência seja feita neste sentido. Especialmente em tempos como os nossos, em que as missões católicas são praticamente de todo abandonadas em nome do respeito humano, das “liberdades” de consciência e religiosa. Em tempos assim, tempos em que não se converte mais ninguém, é salutar o resgate da memória de tão grande santo que, após convertido, nunca teve respeito humano algum, cujo amor a Deus transcendeu tempo e espaço para levar as almas a Cristo, a fim de que mais uma vez insufle o amor de Deus nas vidas e nas missões católicas.

