Entre as enfermidades que assolam nossa época está uma que passa quase despercebida entre os homens, mas que ajuda a instaurar um reinado de desilusões e enganações que já se enraizaram no imaginário popular — não sem a ajuda das mais diversas mídias liberais. O mal a que me refiro é a perversão do significado de palavras recorrentes no cotidiano do nosso país, cujo povo majoritariamente já não se importa com palavras ou significados precisos, mas parece ter certo apreço por toda espécie de perversão.
O homem moderno, com sua mania de reformar — ou melhor, de revolucionar —, trouxe com suas mudanças o caos que podemos ver diante dos nossos olhos dia após dia. E com essa tragédia linguística, veio a difícil missão de esclarecer que o amor tem muito pouco a ver com sentimentalismos e que coração acelerado e desmaios são sintomas de infarto e não de fé. Da mesma forma, hoje se faz necessário explicar que caridade não é simplesmente doar roupas ou comida, e que liberdade definitivamente não é fazer o que se quer, especialmente quando o que se quer é algum mal.
Enquanto as palavras mencionadas tiveram seus significados pervertidos já há um bom tempo, outras estão sendo ressignificadas forçadamente de modo mais recente. “Família” é uma dessas palavras, com cada um atribuindo um conceito diferente que normalmente destoa muitíssimo do seu original, mas que casa perfeitamente com as paixões desordenadas de cada um. Essas paixões, por sua vez, também geram novos e falsos conceitos de “amor”. “Amizade” é outro termo que, conquanto não tenha sofrido uma ressignificação oficial, certamente foi banalizada a um nível perturbador: agora, qualquer conhecido com quem se troca uma ou duas palavras em algum boteco se torna “amigo”; o que, é claro, está muito longe do que é descrito por Santo Tomás de Aquino como sendo uma verdadeira amizade, onde as partes têm amor pelas mesmas coisas e ódio pelas mesmas coisas — idem velle, idem nolle. Um conceito tão sólido e que restringe tanto o círculo de amigos não poderia jamais durar em uma sociedade tão líquida e sentimentalista, apegada em demasia a libertinagem, com pessoas que descartam umas às outras sempre que há alguma espécie de decepção.
São Francisco de Sales, outro grande Doutor da Igreja, escreve em seu famoso livro Filoteia que as amizades são honestas e louváveis quando a relação é fundada nas ciências e, muito mais, nas virtudes morais. Isso já pode soar insuportável para os nossos contemporâneos, mas o santo segue exaltando ainda mais a amizade que é fundada na religião, na devoção e no amor a Deus.
“Absurdo!”, podem pensar aqueles que possuem uma lista infindável de proclamados amigos vindos de todos os (falsos) credos e costumes. Quanto a isso, é a própria experiência cotidiana que pode atestar que tais amizades dificilmente se sustentam sem uma série de restrições ou sem que algum dos lados ceda em seus princípios, para que não haja discordância. Ou seja, uma relação sem sinceridade mútua e onde uma ou ambas as partes saem prejudicadas de alguma forma. Além disso, não é raro que as ditas “amizades” mundanas também tragam consigo o odioso hábito de fofocar sobre terceiros, frequentemente próximos de quem ouve; mas é de conhecimento comum que aquele que fala mal dos outros para alguém, falará deste mesmo alguém para outrem.
Que não se crie, porém, a ideia errônea de que nos meios católicos não existem pessoas falsas ou panelinhas em que ferir a caridade fraterna com toda espécie de maledicência é praticamente uma regra não anunciada. A imaturidade, o egocentrismo e a manutenção de status — porque há muitos que se importam com suas posições dentro de apostolados — ainda é presente em paróquias e grupos tradicionalistas. Sobre essa gente, resta dizer que não seguem a Nosso Senhor ou aos santos, Seus imitadores, mas ao próprio Judas Iscariotes.
Anyway, a ressignificação de conceitos tão imprescindíveis para a vida traz a validação necessária para uma reformulação da própria sociedade — está aí o Concílio Vaticano II que não me deixa mentir. E mudando o significado do que nos é básico na vida, não mais ocorrerão os incômodos — exceto, talvez, da própria consciência — gerados pela lembrança de que o amor é um sacrifício e que a fé é um assentimento às verdades reveladas e não um simples e vago “acreditar em Deus”. Para os modernos, é mais fácil reduzir o significado de tudo ao sentimento barato, que muda com o tempo e com os humores. E com a suposta facilidade que traz esse reducionismo, a vida passa a ter a complexidade, as ilusões e a confusão que as imprecisões trazem consigo.


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