É um fato ao mesmo tempo engraçado e trágico que a soberba seja tão evidente a ponto de cegar. Ela faz tropeçar justamente aqueles que a tomam por guia.
Lembro-me de uma trend literária que circulou há alguns anos. Nela, perguntava-se aos leitores qual havia sido o livro mais difícil que já tinham lido. As respostas, como o leitor provavelmente imagina, variavam entre Kant, Dostoievski, Santo Tomás e Aristóteles. E havia uma curiosa competição silenciosa, pois quanto mais hermético fosse o livro mencionado, melhor parecia ser a resposta.
Quando pensei em qual teria sido o livro mais difícil que li na vida, veio-me imediatamente à memória O Peixinho Dourado. Devia ter três ou quatro anos quando o li e, se o leitor usar um pouco de suas capacidades dedutivas, concluirá que eu havia acabado de ser alfabetizado. Não é de admirar, portanto, que o tenha achado dificílimo; afinal, a dificuldade acompanha sempre o contexto em que nos encontramos.
Não me recordo do nome de seu autor para agradecer-lhe. Mas, dada a importância que aquele pequeno livro teve na vida daquela criança bochechuda, seu autor acabou adquirindo, em minha imaginação, a mesma aura quase mítica de Esopo. Poderia duvidar de sua existência, mas não de sua sabedoria. E é precisamente dessa sabedoria que precisamos agora mais do que nunca.
Mas, dentre as fábulas de Esopo, há uma que possui especial valor para o nosso caso. E, ao contrário de tantos livros herméticos que, lidos com a intenção errada, servem apenas para alimentar a soberba de quem os lê, esta já nos entrega sua lição de moral sem rodeios: “não devemos descuidar de nenhuma tarefa, para não padecer aflições nem correr riscos”.
Trata-se da conhecida fábula da Cigarra e das Formigas. Era inverno. Enquanto as formigas secavam o trigo encharcado pelas chuvas, uma cigarra faminta aproximou-se e pediu-lhes alimento.
— Por que também não o recolheste durante o verão? — perguntaram-lhe.
Ao que respondeu:
— Mas eu não fiquei à toa! Ao contrário, passei o verão cantando belas canções.
As formigas, então, responderam com a ironia que atravessou os séculos:
— Se cantaste durante o verão, dança agora no inverno.
E aqui, nesse estudo de caso de alguém que simplesmente espera que as coisas caiam do céu, sem levantar um dedo dentro daquilo que é de seu dever de estado, é que entra a nossa cigarra, o arqueólogo, apologeta e influencer Ariel Lazari. Em um de seus vídeos mais recentes, afirma:
Quando comecei a olhar com mais atenção o que a Fraternidade São Pio X dizia, há cerca de três anos, assisti inclusive ao documentário Um Bispo na Tormenta, que muitos lefebvristas costumam citar. Quando fui analisar a questão mais a fundo, o que me salvou foi o fato de eu estar lendo a profecia de Jeremias. Jeremias, juntamente com 1 Samuel, vacinam-nos contra esse tipo de erro. É um erro tosco: o erro de colocar-se como salvador do povo de Deus. Esse cargo já está ocupado pela única pessoa que poderia exercê-lo, que é Jesus Cristo. Não devemos nos enfiar nele. Devemos rezar para que Deus elimine os problemas que enxergamos na Igreja — que julgamos serem problemas —, e que Ele salve a Igreja, não nós, com nossos planos que são vãos.
Ainda tratando de livros, logo depois de O Peixinho Dourado e das Fábulas de Esopo, há um terceiro que marcou profundamente minha formação. Embora não possua uma única ilustração para auxiliar o leitor, O Silabário do Cristianismo, de Monsenhor Francisco Olgiati, é uma daquelas pequenas pérolas que todo cristão sério deveria ler.
Ao tratar do tríplice modo da ignorância religiosa, Monsenhor Olgiati distingue três categorias de homens.
A primeira é formada por aqueles que nada sabem de religião. “Nunca aprenderam o catecismo, pouco ou nada conhecem da doutrina cristã e, muitas vezes, sequer frequentam a Igreja”.
A segunda categoria, porém, é “composta por aqueles que se julgam verdadeiros cristãos. Quando pequenos, aprenderam com a mãe algumas orações; frequentaram o catecismo para a Primeira Comunhão e a Crisma; talvez tenham recebido algumas noções de religião na escola. De tempos em tempos, vão à igreja ouvir um sermão. Aos domingos, assistem à Missa. Na Páscoa, confessam-se e comungam. Nasce uma criança? Levam-na ao Batismo. Chega a hora do matrimônio? Querem a bênção nupcial do sacerdote. A morte lhes leva um ente querido? Os funerais devem ser religiosos. Que mais seria preciso? Para eles, isso basta. Religião, sim — mas só até certo ponto”.
A terceira categoria, por fim, compreende aqueles que, “à primeira vista, parecem ser os melhores cristãos. Muitos possuem diplomas de associações piedosas; outros pertencem a congregações religiosas; todos merecem elogios pela coragem com que professam publicamente a fé”. Mas Olgiati faz então uma pergunta desconcertante: sabem eles realmente o catecismo? E responde, sem rodeios: “Com raras exceções, temos que responder: não”.
Depois de conviver com inúmeros jovens exemplares, o Monsenhor ousou perguntar-lhes: “Que é a graça? Em que consiste a ordem sobrenatural?” O silêncio foi a resposta.
Olgiati fala apenas de três categorias. Permitam-me, contudo, ousar acrescentar uma quarta. É a ela que Ariel parece pertencer. Podendo ser um tritão — ou mesmo um “sereio ruivo” — preferiu tornar-se um sabão em pó. Ou melhor: dada a natureza de seu ofício e sendo perfeitamente capaz de conhecer e considerar grande parte dos elementos da fé, parece preferir lavar as mãos — e a cabeça — a reconhecer uma verdade que hoje é tão clara quanto o era para Pilatos.
Pretendendo livrar-se da sujeira, o nosso apologeta parece ter levado consigo, na água corrente, um dos conceitos mais importantes da vida cristã, a relação entre natureza e graça.
Não é nosso objetivo desenvolver aqui um tratado sobre esses dois conceitos. Basta recordar a definição de Monsenhor Olgiati, para quem a natureza é “aquilo que constitui um ser em um grau determinado e o faculta a operar de modo correspondente”. É por isso que, como exemplifica o próprio autor, “a natureza de um gato coloca este animalzinho simpático na ordem dos felinos, e não entre os equinos ou as aves, e faz com que mie e cace ratos”.
Deus, porém, não contentou-se em dar ao homem apenas sua natureza; em seu amor, chamou-o a uma vida superior, elevou-o à ordem sobrenatural por meio de um dom gratuito: a graça.
A graça produz, portanto, dois grandes efeitos. O primeiro — e mais fundamental — consiste precisamente em elevar a natureza. A inteligência é elevada pela luz da fé; a vontade, pela caridade; a esperança é aperfeiçoada, e o mesmo sucede com todas as virtudes morais.
Porém, como afirma o Padre Chautard, da relação entre natureza e graça nascem dois erros sobre os quais os teólogos escreveram exaustivamente, embora hoje pareçam quase esquecidos: o naturalismo e o angelismo.
O naturalismo consiste em exaltar a natureza, “perdendo de vista não apenas as profundas feridas deixadas pelo pecado original, mas também a necessidade da graça e dos meios sobrenaturais”. Convertendo a ideia em algo prático, o naturalista “imagina ser capaz de converter almas pela força de seus argumentos, esquecendo-se de que elas são conquistadas muito antes pelas orações, pelos sacrifícios e pela graça de Deus”.
O angelismo, por sua vez, incorre no erro oposto. Exalta o sobrenatural em detrimento da natureza e esquece que a graça não destrói aquilo que Deus criou, mas o aperfeiçoa. Esquece, sobretudo, “que a santidade depende também do chão sobre o qual o homem pisa”. De forma mais direta, “o angelismo leva o cristão a limitar-se à oração enquanto negligencia o próprio dever de estado”.
E eis que, não sem certa ironia, nosso apologeta parece incorrer justamente nos dois erros. Lazari acusa a Fraternidade São Pio X de naturalismo — ainda que sem empregar o termo —, ao mesmo tempo em que revela um profundo angelismo em sua concepção de Igreja. Chesterton observa, em algum lugar, que existem inúmeras maneiras de cair no erro, mas apenas uma de permanecer na verdade. Ariel, porém, não se contentou em cair de um só lado: preferiu cair dos dois.
Conta-se que São Francisco de Assis, certa vez, enquanto estava em êxtase, ouviu uma voz ordenar-lhe que reparasse a Igreja, que ameaçava ruir. Como se encontrava dentro de uma pequena igreja em ruínas, julgou que a ordem se referia àquele edifício e pôs-se imediatamente a restaurá-lo. Sem o saber, Deus servia-se justamente daquela obediência simples para prepará-lo para uma missão muito maior: a de reparar não apenas uma igreja, mas a própria Igreja, cuja decadência o Papa Inocêncio III contemplaria pouco depois em um célebre sonho.
O mesmo Francisco encontrou, ao longo da vida, inúmeros mendigos famintos. Jamais imaginou acabar com toda a fome do mundo alimentando alguns poucos deles. Tampouco cruzou os braços à espera de que Deus lhes enviasse pão do céu. Fez simplesmente aquilo que lhe competia fazer, seu dever de estado. Alimentou os pobres e rezou pela sua conversão, reparou a igreja e, sem jamais pretender ser o salvador de coisa alguma, tornou-se um dos maiores instrumentos de Deus para a renovação da Cristandade. Se Deus quis dar fecundidade sobrenatural às suas obras, tanto melhor.
É exatamente nesse espírito que se compreende a atuação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Ela não se apresenta como salvadora da Igreja, como Ariel parece supor, mas como um instrumento de Deus a serviço dela. Faz aquilo que compete ao sacerdócio: prega a doutrina, administra os sacramentos e trabalha pela salvação das almas. Se Deus quiser servir-se dessas ações para o bem de toda a Igreja, tanto melhor.
A Fraternidade não pretende fazer mais do que lhe compete. Os fiéis necessitam hoje da doutrina da mesma forma que os pobres do tempo de São Francisco necessitavam de pão. Alimentar uns não significava pretender acabar com a fome do mundo; ensinar os outros não significa pretender salvar a Igreja no lugar de Cristo. A santidade sempre depende do chão em que se pisa.
A cigarra jamais morreria de fome se Deus assim o quisesse. A pequena igreja — e a Igreja — de São Francisco jamais precisaria ser reparada se Deus assim o quisesse. A própria Igreja, constantemente atacada pelos seus inimigos — e por vezes também por alguns de seus próprios filhos — jamais precisaria ser defendida se Deus assim o quisesse.
Mas Deus quis outra coisa. Quis que houvesse verão antes do inverno, trabalho antes da colheita e homens suficientemente corajosos para sofrer as mais duras provações em defesa de sua Igreja. Porque a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.
Se os homens têm fome de pão, é preciso não só rezar pela sua condição, mas é preciso plantar trigo; se têm fome da Verdade, é preciso formar bons sacerdotes. E longe de ser “tosquice”, esse tem sido o trabalho da Fraternidade Sacerdotal São Pio X nesta época de crise.


2 Comentários
Será que o Ariel realmente quis dizer que a Fraternidade está se colocando no lugar de Jesus Cristo?
“…o erro de colocar-se como salvador do povo de Deus.”
Porque se for isso mesmo essa afirmação é ridícula.
Nunca ninguém se colocou no lugar de Jesus Cristo, pelo contrário, desde Dom Lefebvre até hoje, a FSSPX está sempre se esforçando para colocar Jesus como Salvador e ensinando exatamente tudo que ele sempre ensinou, tudo que foi definido dogmaticamente de forma ordinária e extraordinária.
Como exemplo: O indiferentismo religioso é uma gravíssima heresia, a Santa Fé Católica é a Verdade e todas as outras religiões são falsas e levam ao inferno. Isso é uma verdade por vezes ocultada e outras infelizmente negada!
Ou o pecado gravíssimo da sodomia que brada aos céus por vingança! Sodomia é algo absolutamente aberrante e repulsivo, mas infelizmente nos piores lugares que a Santa Igreja está (com maior nível de progressismo e modernismo) isso sido tratado como algo normal, ou até mesmo “positivo”.
O que a FSSPX faz é se opor frontalmente a esse tipo de degeneração, da forma que Nosso Senhor Jesus Cristo quer que se faça, como sempre foi feito. A FSSPX serve a Jesus, nunca se coloca no lugar dele, afirmar isso é um absurdo.
Será que ele realmente quis dizer isso?
Não acho que ele quis dizer que a FSSPX se propõe como salvadora no mesmo sentido que Nosso Senhor, mas apenas de que havendo um problema, com a promessa de resolvê-lo surge então um “salvador” (em sentido mais estreito).