No começo de minha tardia conversão a um catolicismo mais sério, quando havia entrado há pouco tempo na universidade — ambiente conhecido não pela sua intelectualidade e defesa da Verdade, mas pela perversão e ideologização de seus frequentadores —, poucas coisas me fizeram ver de forma tão clara a ação da Divina Providência por meio de Maria Santíssima do que o apostolado da Legião de Maria.
Tal grupo, que estava fixado de forma extraordinária no meio do campus maceioense da Universidade Federal de Alagoas, foi responsável por me fazer conhecer não apenas pessoas que me ajudaram a trilhar um caminho de compromisso com a Verdade, mas também um modelo ideal de ação católica, de apostolado ativo que busca “empreender e prosseguir, sem hesitação, grandes coisas”, para a glória de Deus e pela salvação do próximo.
Pode-se pensar que a afirmação de um determinado grupo como “modelo ideal” de ação católica é um exagero, mas minhas palavras são confirmadas até mesmo por João XXIII, que escreveu aos legionários da França, em 1960, que “a Legião de Maria apresenta a verdadeira face da Igreja Católica”. Aos meus colegas tradicionalistas, que podem pôr em dúvida a idoneidade do grupo por ter ele sido elogiado pelo Papa que abriu o Vaticano II, devo afirmar que Pio XI e Pio XII, de excelentíssimas memórias, também dirigiram palavras aos legionários durante seus pontificados.
Mas por que tratar especificamente deste grupo, quando existem tantos outros, também elogiados e indiscutivelmente católicos na história da Igreja? Porque além de ser eu mesmo um legionário, embora não mais ativo em um praesidium — nome dado ao núcleo de membros ativos da Legião —, creio ser salutar falar sobre um verdadeiro apostolado formado por leigos, especialmente quando meus olhos se deparam, com inevitável perplexidade e revolta, com leigos que tomam para seus grupos o nome de “apostolado”, mas permanecem com vidas inertes ou, quando agem, mais fazem atrapalhar a expansão do Reino de Cristo.
Antes de prosseguir, vejamos o que o Manual legionário fala sobre um apostolado:
O apostolado exige ardoroso interesse pela prosperidade da Igreja e pela sua obra, interesse que dificilmente existirá sem o desejo de trabalhar pessoalmente, na extensão do Reino de Deus. A organização apostólica torna-se assim o molde de verdadeiros apóstolos.
E continua:
Onde estas qualidades de apostolado não forem cuidadosamente cultivadas, a nova geração terá de enfrentar inevitavelmente um sério problema: a falta de sincero interesse pela Igreja e a ausência de sentido de responsabilidade.
Não pode haver nada mais certeiro: não é possível existir um interesse genuíno pela prosperidade da Igreja sem que haja também o desejo de trabalhar para a expansão do reinado de Nosso Senhor, de tal forma que um verdadeiro apostolado molda seus membros para serem verdadeiros apóstolos. A ausência disso em uma organização que se pretende apostolado não irá gerar nada além de um catolicismo infantil, sem responsabilidade. Não se faz apostolado apenas com reuniões amigáveis para se tomar chá, lanchar e jogar conversa fora; se assim fosse, os ingleses seriam verdadeiros apóstolos todas as vezes que o relógio marcasse 17h.
Ao contrário disso, toda a estrutura legionária, todo o seu modo de funcionar, conduz os seus membros a um cultivo da vida de oração e de ações efetivas para a dilatação do Reino de Deus, por meio de Maria Santíssima.
As reuniões dos praesidia são semanais e possuem tal frequência não apenas para tratar dos trabalhos que seus membros devem realizar ao longo da semana, mas porque possuem como fim essencial a oração em comum. Assim, nas reuniões, os soldados de Maria não discutem a polêmica da vez, não tratam de banalidades, mas seguem uma ordem: iniciam com a invocação do Espírito Santo e a récita do Santo Terço, seguem com uma chamada, os relatórios dos trabalhos realizados, a récita do Magnificat, uma alocução — que idealmente deve ser feita pelo diretor espiritual do grupo, um sacerdote —, a distribuição dos trabalhos da semana, et cetera.
Em um primeiro olhar, tudo pode soar muito burocrático, e eu mesmo, que vinha de um infeliz grupo de oração ecumênico no ensino médio, achei a coisa toda bastante chata. Era um jovem estúpido, mais do que sou atualmente, e permaneci no apostolado graças à intervenção de Nossa Senhora e ao incentivo da então vice-presidente do praesidium universitário. Com o tempo, entretanto, é impossível não constatar que a ordem legionária é absolutamente necessária.
Lembro-me também da dificuldade que tive na realização de alguns trabalhos que, desde a récita pública do Santo Terço até as visitas aos enfermos do Hospital Universitário, exigiam o contato com outras pessoas. Mas não é isso que deve fazer um católico, mesmo aqueles que têm certa dificuldade para falar? “Ah! Senhor! Eu não tenho o dom da palavra; nunca o tive, nem mesmo depois que falastes ao vosso servo; tenho a boca e a língua pesadas”, disse o santo profeta Moisés a Deus em Ex. 4, 10. E, contudo, ele fez o que o Senhor mandou e guiou seu povo para fora do Egito.
Seria possível olhar para tal apostolado e acusá-lo de dar mais enfoque à oração, ignorando as obras, ou às obras, ignorando a oração? Tudo é ordenado de tal forma que é quase impossível dissociar uma coisa da outra, sem correr o risco de prejudicar gravemente o funcionamento do grupo. E além disso, a estrutura de toda a Legião, sua hierarquia e sua ligação com a hierarquia eclesiástica é tão patente, que seria loucura afirmar que uma organização como esta é outra coisa senão católica.
Católica, sim! E perfeitamente alinhada aos ensinamentos de São Luís Maria de Montfort em seu Tratado da Verdadeira Devoção, “fonte abundante de inspiração para a Legião”, como o próprio Manual da Legião confessa em seu capítulo 5. A devoção a Nossa Senhora e a perfeita união e entrega a Ela devem ser inerentes a todo legionário, pois “a Legião tem o propósito de levar Maria ao mundo, porque considera este objetivo a forma infalível de ganhar o mundo para Jesus Cristo”.
Em tempos como os nossos, tal apostolado faz ecoar com ainda mais força a supracitada frase de João XXIII, mesmo nos ouvidos daqueles que pretendem rebaixar a Santa Mãe de Deus.
Não há qualquer sinal de inovação e seus membros, seguindo fielmente o Manual do apostolado, não farão nada além daquilo que fez a Igreja ao longo dos séculos. As práticas, os trabalhos, as orações, tudo é herdado diretamente dos santos e da mais Sã Doutrina. E se algo de novo é introduzido na prática — e feitas fora do Manual e do espírito legionário —, afirmo, sem sombra de dúvidas, que é em decorrência da praga modernista que infesta todas as paróquias do mundo.
Pois bem, caro leitor, diante de tanta barbárie social e de grupos que permanecem orgulhosamente inertes perante toda sorte de desastres — ou até contribuindo para o aumento deles —, como não ver na Legião de Maria, grupo essencialmente mariano e, portanto, essencialmente e inegavelmente católico, um alento e “a verdadeira face da Igreja Católica”? Difícil, na verdade, é não ver um alento naquelas coisas que trazem consigo o catolicismo íntegro, quando mesmo a mais alta hierarquia católica não o possui.


1 comentário
Muito bom tomar conhecimento de um apostolado que, apesar dos momentos bicudos atuais, segue ativo e gerando frutos.