Em uma manhã de trabalho como todas as outras, quando se é possível ouvir a mais banal das banalidades e a mais bárbara das barbaridades, uma conversa sobre sonhos, daqueles absurdos que invadem nossas mentes quando dormimos, desembocou na fala de uma de minhas colegas, que disse que gostaria de ser imortal, acrescentando depois que isso desde que possuísse “saúde”.
É claro que tal desejo revela um apego excessivo às frivolidades que este vale de lágrimas chamado Mundo oferece, mas, mesmo sabendo desta obviedade e de tantas outras que cercam o assunto, não pude deixar de refletir um pouco sobre o caso e sobre certos pensamentos que talvez não representem nem mesmo aqueles mundanos que se dão ao hercúleo trabalho de, em meio a todo o pandemônio atual, refletir um pouco sobre a vida. Esta classe, que busca agir ponderadamente apesar de sua mundanidade, parece estar em extinção. E como poderia ser diferente, se tudo o que esse ilustre cadáver social oferta aos seus membros leva à irreflexão e ao repúdio de qualquer autossacrifício em prol de algum bem maior?
Meus pensamentos logo me trouxeram de volta a lembrança de um bom filme, com uma lição mais do que decente para os nossos tempos, embora meramente natural e sem nada que remeta à vida sobrenatural: Gato de Botas 2: O Último Pedido, de Joel Crawford (2022). Mas que tipo de lição poderia trazer um filme animado voltado majoritariamente ao público infantil? A de que a vida boêmia não só é um tempo perdido, mas conduz inevitavelmente à morte — algo já dito há muito tempo por São Paulo, em Romanos 6, 23. Isso não faz do filme uma obra católica, mas creio que o coloca acima de muitas produções ocidentais, mesmo as voltadas para o público adulto — que, aqui no Ocidente, são repletas de violência gráfica, palavras chulas e impurezas de todo tipo.
A premissa do longa é bastante simples: o Gato de Botas tinha nove vidas; quando perde sua oitava vida, restando-lhe apenas a nona e última vida, um Lobo passa a caçá-lo. Quando o Lobo afirma que é a própria Morte, o protagonista, com medo, demonstra sua confusão e alega que ainda estava vivo, ao que o antagonista responde que “sempre achou a ideia de gatos terem nove vidas um absurdo, e você não deu valor a nenhuma delas”.
Mas o que o Gato fez em suas outras oito vidas? O filme nos mostra que ele as desperdiçou de formas banais, vivendo como um boêmio e arriscando-se das maneiras mais estúpidas possíveis, como que tentando demonstrar para todos que era uma lenda. O que poderia conversar melhor com uma sociedade cujos membros querem ser vistos, que valorizam quem está sob os holofotes ou creem ser suas vidas tão importantes a ponto de as publicarem quase que inteiramente nas redes sociais — para os aplausos estrondosos de todos aqueles que buscam imitar a superficialidade materialista dos influencers. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.
A vida, valorizada na teoria e desperdiçada na prática, passa a ser formada, sustentada e guiada por fugacidades. Fugacidades, sim, pois em uma era de vídeos curtos, o que passa rápido é lei e o que perdura é enjoativo. O efêmero vira a lei suprema das almas inquietas que ainda não entenderam ou se recusaram a aceitar que seus corações só estarão tranquilos quando repousarem n’Aquele que permanece e que é a rocha sobre a qual devemos construir nossas casas.
Voltando ao filme, não foi sem razão que a morte foi no encalço do Gato, enquanto este buscava com desespero e ansiedade, demasiadamente apegado aos seus “dias de glória” — uma glória supérflua, sem brilho real —, o pergaminho mágico que lhe concederia o desejo de prolongar sua vida.
No confronto final, o Lobo questiona o herói de forma cirúrgica: “vai escolher o caminho dos covardes? Vai fugir para ter mais vidas? Ou você vai lutar?”.
Agora podemos perguntar, caro leitor: como um filme da atualidade, voltado para o público infantil, pode passar uma lição que inúmeros adultos, incontáveis pais de família entre eles, sequer podem cogitar? Quão profundo deve ser o entorpecimento do espírito para que se queira cada vez mais prolongar a vida, apenas para desperdiçá-la em divertimentos vazios, em prazeres passageiros, em ilusões particulares, sem sequer cogitar que tudo isso não levará a outra coisa senão à destruição de si mesmo e, pior ainda, à condenação da própria alma?
Em O Último Desejo, a jornada do Gato termina com ele deixando de ser “uma lendazinha arrogante que se achava imortal”, deixando de lado o desejo de aumentar suas vidas para viver bem uma única vida. Em decorrência dessa mudança, a Morte perde o último confronto e, embora alegue que terá outro encontro com o protagonista — pois a morte do corpo vem para todos —, podemos dizer que, por vencer-se a si mesmo e deixar de lado seu modo de viver libertino, o herói venceu a morte. Algo que cabe para todos nós.
Uma só vida já basta. Pouco importa termos saúde ou sermos bem-sucedidos nesta vida: seremos julgados pelo modo como a vivemos, se como covardes libertinos ou como santos que não temem a morte, pois “morrer é lucro”, como disse o Apóstolo. Uma vida, tenha ela o tempo que for, é o suficiente para que possamos viver eternamente.
Gato de Botas 2 não é um filme católico e não pretende ser um tratado das virtudes em forma de filme. É apenas um entretenimento leve, por vezes bobo, mas sincero. Os católicos comuns deveríamos, longe de menosprezá-lo por ser infantil, valorizá-lo por trazer às telas, de forma tão limpa, algum lampejo da verdade, especialmente de uma que nos faz permanecer com os pés fixos na realidade. Aos colegas tradicionalistas que necessitam que mesmo em contos de fadas os gnomos estejam de rosários em punho, minha mais sincera lamentação. Tal posição, pouco ponderada e definitivamente irrazoável, nunca foi católica — e a história da Igreja sustenta minha afirmação.
Mais uma vez pergunto: como um filme com um gato usando botas — uma figura tão ridícula — pode trazer uma história mais séria e razoável do que a vida adulta de tanta gente? É que o Mundo, caro leitor, não faz os seus almejarem sequer as virtudes naturais, mas alimenta um verdadeiro ódio, ainda que velado ou inconsciente, por aquilo que lembra alguma grandeza de espírito. Daí as produções cinematográficas, que antes passavam bons valores, como a responsabilidade que inevitavelmente vem com grandes poderes, e o sacrifício dos próprios desejos para poder fazer um bem objetivo, terem passado a transmitir, de forma mais ou menos velada, a satânica Lei da Thelema de Aleister Crowley e Raul Seixas: “faz o que tu queres, pois é o todo da lei”.
Apesar de tudo, o desejo pela imortalidade neste mundo expressado por minha colega de trabalho talvez não reflita apenas um apego desordenado a tudo o que há por aqui. Talvez reflita um desejo mais profundo da própria alma, que é eterna. Santo Agostinho disse em suas Confissões que fomos feitos para Deus e que nosso coração fica inquieto enquanto não repousar em Deus. Para alguém sem noção alguma de fé, da verdadeira fé, não é surpresa que se tente aplacar essa inquietude com as efemeridades que o Mundo oferta.
De qualquer forma, enquanto alguns aspiram viver indefinidamente em meio às calamidades, aos prazeres passageiros e às imbecilidades democráticas que justificam esquizofrenias populares — tudo bastante tentador, não? — , talvez não seja mau negócio permanecer sem grandes ambições e querer apenas morrer para o Mundo, neste mundo, para contemplar o Autor da Vida na Eternidade.


1 comentário
Obrigado pela boa dica. É raro ter o que assistir com crianças e que possa gerar algum ensinamento prático.