No corrente 2025º ano do Senhor, no qual temos o privilégio de confessá-Lo e amá-Lo com Pedro e através da Imaculada, festejamos as têmporas de São Miguel na décima quinta semana de Pentecostes. Portanto, na quarta-feira, aos vinte e quatro dias de setembro, quis a Providência que meditássemos o evangelho do exorcismo do mudo (Mc. IX, 16-18) enquanto estávamos ainda embebidos do mistério da ressurreição do moço de Naim (Lc. VII, 12-16) desde o anterior Domingo. Louvado seja Deus pela unidade de seus misericordiosíssimos ensinamentos, coerência divina que ao homem ilumina, testemunhando aos séculos que outro Nome não há pelo qual devamos ser salvos. Tratam-se de milagres de Nosso Senhor, que, no que preservam de comum, nos enriquecem ainda pelo contraste de não poucos de seus aspectos. Queremos adorá-los no que têm de semelhante e de diferente.
I. Para ser didáticos antes de cronológicos, iniciemos na descida do Tabor. São Pedro e São João faziam questões pacíficas a Nosso Senhor quando ao longe avistaram os discípulos em acalorada disputa com fariseus. Os discípulos percebem que o Mestre está disponível e correm para saudá-Lo, deixando para trás os fariseus — que não nos surpreenderiam caso se gabassem do fato dizendo algo como “nada podem sozinhos”, profetizariam assim (involuntariamente, como Caifás na Paixão) a luz que receberemos agora. Os seguidores de Jesus trazem entre eles um homem, um pai, que não permite sequer que o saúdem e nem que respondam quando lhes perguntou sobre o que disputavam. Interpelando a Deus Filho, o pai queixa-se: “Mestre, trouxe-te meu filho que está possesso de um espírito mudo (…), roguei a teus discípulos que o expulsassem, e não puderam!”. O Senhor acolhe a queixa, dirige uma reprimenda duríssima aos trapalhões, nós mesmos, e dá razão ao pai atormentado do filho atormentado.
Nosso Senhor inicia uma entrevista com o pai, como se tivesse se aberto uma fenda no tempo e silenciado o furdúncio dos fariseus, que agora deslocavam-se para junto dos cristãos a fim de prosseguir com o debate. Referindo-se ao mal do filho, pergunta Jesus: “Há quanto tempo lhe acontece isso?”; será possível que Ele já não o saiba? Por que pergunta? Ora, porque quer a moção interior da humilhação, que se esvazie de si mesmo antes de receber a graça. A mesma moção que nos leva a confessar nossos pecados, com seus agravantes e suas quantidades, a um sacerdote ministro de Deus, sendo que o próprio Deus nos viu cometê-los e poderia acusar tantos outros que escapam à nossa brutalidade. O mal do menino se faz símbolo do pecado, e é justamente ao modo de confissão que o pai responde não só o tempo que redunda já em quantidade (“Desde a infância…”, diz ele), como também os agravantes, a saber, que “o demônio tem-no lançado muitas vezes no fogo e na água, para o matar”. Eis o homem, transparente como vidro, falando de suas misérias a Deus, e eis Cristo sacerdote causando o que falta a este frágil vaso de vidro para operar um toque divino.
Que falta? Santo Tomás nos ensina que para uma súplica merecer eficácia precisa de, entre outras coisas, confiança (Fé), humildade e perseverança. Veja que perseverou já o pai, no momento em que engoliu a frustração com os discípulos e foi ter com o Cristo próprio que eles defendiam. Como pôde desconfiar do vendedor para depois comprar-lhe o produto? Pôde pois a Fé é dada e o zelo de um pai não se cansa! Quantas almas estariam salvas se os apóstatas escandalizados tivessem recorrido ao Cristo próprio em vez de choramingar as decepções que encontraram dentro da Igreja? Está o Sacrário vazio?
Tropeças no irmãozinho ao lado, no padre, no bispo, no Papa? Ide ao Santíssimo Sacramento, Cristo próprio, não tropeçarás!
Humilhou-se o pai quando fez transparecer toda sua dor, que era a dor de seu filho, como vimos mais acima, e ainda puderam presenciar um exato momento em que o demônio fez o menino contorcer-se e espumar assim que viu Nosso Senhor. Talvez isto tivesse dado ao pai o ânimo para confessar tudo, descer de sua realmente justa posição de querelante, para suplicar pela Graça: “Se podes socorrer-nos (…), compadece-te”. Contudo, algo ainda incomodava o Senhor, algo ainda faltava: “Se”? Cristo insiste na necessariamente delongada entrevista, a fim de produzir o que falta naquele homem: a Fé. “Tudo é possível para quem crê” — “Creio, socorrei minha incredulidade”. Pedia socorro (adiuda, na Vulgata) para o filho, agora pede pra si, tem agora Fé, nada falta. Afluem para perto os fariseus, neste momento, e assistirão ao milagre.
Cristo expulsa com suave autoridade o espírito “surdo e mudo” e lhe restringe o retorno. Podemos encarar a primeira imposição como um símbolo do caráter apostólico da nossa Fé católica, que segundo o Apóstolo é adquirida pelo ouvido, e transmitida necessariamente pela boca que confesse a ortodoxia na pregação. Enquanto a segunda imposição caracteriza também a nossa Fé, mas em sua intransigência, que muitas vezes se nos afigura como uma guardiã da nossa inteligência, restringindo a entrada dos erros de todos os tempos. O menino, livre do mal, cai como que morto. Trata-se da morte para o mundo que inquieta-nos com particular violência a cada sexta-feira e quaresma. São Paulo Apóstolo suspira: “Já não vivo eu, é Cristo que em mim vive” (Gl. II, 20); e Santo Agostinho ora: “Que em Vós o meu coração desfaleça, e sede Vós mesmo a minha vida”. Tão espantosa foi a imagem de um Mestre que matava o pobre atormentado na frente de seu pai, que “muitos disseram que estava morto”; podemos imaginar nesses muitos discípulos menos espirituais, como nós, e os fariseus. Mas Jesus Cristo, de mão própria e sem proferir palavra, levanta a criança pelo braço, e ei-lo são juntamente a seu pai! O evangelista usa o termo “surrexit”, que também emprega-se para ressurreição.
Concentremo-nos na dimensão espiritual: este filho, ressuscitado depois de desfalecido, foi entregue ao pai após grande intervenção magisterial, indicada desde o contexto da disputa com os fariseus até sua assistência ao milagre querida por Cristo, passando pela entrevista com o pai do pobrezinho e, enfim, às perguntas dos apóstolos e discípulos antes e depois do milagre, que viriam a comprovar que Nosso Senhor falava algo sobre o sacerdócio e a apostolicidade de Sua Religião. Tudo serviu para dispor os espíritos ingratos dos homens, era necessário. Cristo teve muito a garantir antes de operar, contrastante foi a facilidade com que realizou o divino prodígio. Deo gratias!
II. Mais cedo na vida pública de Nosso Senhor, o moço de Naim estava deitado e velado, era carregado até seu sepulcro, fora dos muros da cidade, por uma grande multidão de concidadãos, dentre os quais se destacava uma viúva chorosa, sua mãe. São Lucas, nosso evangelista do Domingo, distingue três grupos neste episódio: “turba civitatis” (o povo de Naim), “discipulis” (a Igreja) e “turba copiosa“. Neste último, podemos imaginar pessoas que seguiam Nosso Senhor com espírito de comprovação, queriam o espetáculo mas lhes faltava o merecimento, por isso o Evangelista os distingue dos discípulos. Seria infamante se o noivo atendesse à vontade de uma estranha em vez de sua noiva, a não ser que a estranha quisesse também ser noiva, assim o noivo atenderia no estritamente necessário para tal. Querem um sinal? “Será dado, mas o agraciado escolho eu”, imaginemos falar assim o Noivo, para o tremor dos pelagianos e seus rebentos.
O cenário é de encontro de duas procissões opostamente vetorizadas: uma saía chorando da cidade com um morto, outra entrava na cidade com a Vida. Somente o choro não encontrava a oposição do júbilo, por ora! Esbarram-se, talvez pensem mal uns dos outros, pois onde já se viu congestionar um enterro tão grave? Ou congestionar o caminho do Mestre? Mas não havia, naquele cortejo fúnebre e nem com Jesus, orgulho para se combater, não havia obstáculo para a Graça como veremos; não, não maldisseram-se. Volta-se Nosso Senhor para a mãe do menino, podemos imaginar uma jovem viúva cuja humildade consistia na mera acepção da verdade, que de tão evidente tornou-se pública, cuja perseverança consistia no fato de ainda viver apesar do susto ou do desgosto, cuja Fé teria se libertado das amarras humanas daquela época dentre tantos dissabores, diga-se que Naim fica na Galileia, não no estrangeiro. Tinha, portanto, as virtudes para uma oração eficaz, ainda que por força da dor — existe outro modo de ser virtuoso, fora da Virgem? —, mas onde está a oração? A Caridade age por Si quando não se ousa pedir, age deste modo insolicitado: aproveitou a carência de uns e outros, entregando as provas de sua autoridade não ao conferir vantagens a curiosos, mas restituindo a dignidade de uma mãe. Eis anunciado o Evangelho em Naim.
Nosso Senhor Jesus Cristo reina: “Não chores”, não fosse Sua majestade, seria uma ousadia e um desrespeito dizer isto. O Evangelista não conta se a viúva acatou o imperativo de imediato. Mas de imediato segue Cristo a reinar: “Levanta-te”. O jovem ergueu-se sentando e falando, talvez orasse agora, mas não nos é desvelado o que dizia. A fala comprova que não se tratava de mera reação motora a algum choque ou feitiço porcamente executado, mas milagre excelente do Amor. Cristo entrega-o à sua mãe, que acaba de aprender que Deus não nos solicita nada além das nossas forças; não há ousadia, há a autoridade de um verdadeiro Rei.
Desaparece, destarte, distinção. Turbas e discípulos são agora, segundo o Evangelista, “omnes” (todos), confirmados na Fé de Jesus ou convertidos a ela, exultam unanimemente e louvam a Deus! A divisão interna aos que acompanhavam o Senhor e a divisão externa que separava os fiéis dos naimitas, sumiram num só golpe infligido contra a miséria humana. É a Igreja — outra vez figurada pelo coro dos discípulos — entrando numa nação soberanamente nova e eterna como o Testamento dela inseparável, com Cristo como cabeça e Seu Preciosíssimo Sangue em cada um de seus membros. Longe de uma invasão, assistimos ao irresistível convite à integração: “Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Cor XV, 55) Deo gratias!

