Uma breve introdução…
Há pouco mais de cem anos, o intelectual católico sergipano Jackson de Figueiredo (1891-1928) fundou em agosto de 1921 a revista A Ordem. Naquele contexto em que a maçonaria não só mostrava as caras como dava as cartas livremente, foi o ímpeto sobrenaturalizado pela graça santificante de Jackson, grandíssimo brasileiro, que fez nascer um pujante movimento católico em torno do Centro Dom Vital, fundado por ele no ano seguinte. O Brasil vivia um cenário relativamente conturbado inaugurado pela república, disruptiva em todos os sensos com a ordem previamente estabelecida — e particularmente laicista. Homem intenso e impetuoso, Jackson se convertera em 1918; era advogado de ofício e tornou-se, por imperiosa necessidade, um homem da imprensa, sob a bênção e o encorajamento de Dom Sebastião Leme, então arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro e futuro Cardeal da Santa Igreja Romana — apenas o segundo cardeal brasileiro —, acabando por ser alcunhado por adversários como o “cão de guarda da Igreja” em vista de sua ortodoxia e inflexibilidade doutrinal.
Para a primeiríssima edição da revista A Ordem, nosso ilustre intelectual viu por bem delinear o programa e o objetivo da publicação que fundou — que a nossa modesta publicação busca hoje assumir integralmente, não como herdeira, mas como mera continuadora de seu espírito. Neste programa, percebemos como há males velhos e vívidos na sociedade brasileira, inclusive o velho mal da inércia dos católicos brasileiros, sempre mudos e silentes como a plateia que assiste a um espetáculo sangrento. É o velho mal que hoje acomete mesmo aos católicos tradicionalistas, ainda que estes saibam que é dever do leigo santificar a ordem temporal e dilatar o Reino de Cristo na sociedade; o mal de “horror à luta, de horror às posições definidas, de horror a todo e qualquer sacrifício”, que acomete como peste aos católicos tíbios e aburguesados, adeptos de confortos e vantagens neste mundo — e que acomete ainda mais particularmente aos católicos ditos conservadores ou continuístas, que justificam a Tradição da Igreja ante às novidades e conservam a Revolução.
Mais do que um programa editorial — que humildemente assumimos como nosso próprio para a Levate —, o artigo do nosso Jackson de Figueiredo é, a exemplo do Apóstolo, um convite, um chamado, uma convocação para a luta pela fé e para o bom combate. Decerto que a hora presente é muito pior do que há 100 anos, mas é também certo que o amanhã será ainda pior se nos contentarmos em perder tempo com lamúrias, como espectadores derrotistas e pessimistas — traços de todo alheios à Fé da Cruz.
Boa leitura!
João Medeiros
Editor-chefe
Pedro Ivon
Jornalista
“Nosso Programa” | A Ordem, n. 1, ano 1/1921
Esta modestíssima revista, desejando ter um lugar entre as publicações mais radicadas à doutrina da Igreja Católica, Apostólica, Romana, não aspira, entretanto, a ser oficial ou oficiosamente a palavra da autoridade católica na mais importante das Arquidioceses brasileiras.
Tudo quanto for aqui publicado é da exclusiva responsabilidade de seus redatores, a quem, unicamente, deverá ser imputado pelos inimigos da Igreja, tudo quanto lhes parecer dureza ou ofensa em nossa maneira de doutrinar ou de combater os seus erros. Outros também que unicamente a nós deverão dirigir reparos ou apodos são os próprios católicos que, em grande maioria, adotaram, no Brasil, todas as sutilezas do mais nefando espírito acomodatício, de que tem resultado que sejamos, desde os tempos da monarquia, uma irrisão política e social aos nossos próprios olhos, a mais triste, a mais lastimável e ineficiente das forças militantes na história contemporânea de nossa pátria.
Nós, que com sacrifício real empreendemos esta cruzada, estamos, esperamos em Deus, bem preparados para as injustiças que nos venham dos dois lados.
Queremos dizer a verdade e quando, em tributo à nossa mísera humanidade, incidirmos em erro, uma parte pelo menos temos fé de que se salvará dessa mesma verdade: o seu caráter subjetivo, a nossa sinceridade, a convicção com que nos abalançamos a exercer a crítica em qualquer sentido.
Do que já temos dito bem se pode inferir que esta revista não trará somente ao nosso meio social a página de serena apologia ou de documentada defesa do nosso credo religioso. Ela será também de combate aos erros do momento — erros que nem só os inimigos da Igreja cometem — e de aplauso às conquistas reais da ação social e política do catolicismo no seio da nação brasileira.
Aqui estamos convictos de que o mal que mais fundamentalmente fere a nossa sociedade no regime republicano, que o Conselheiro Ruy Barbosa vem declarar à borda do tradicional abismo, não é esta ou aquela doutrina malsã, que parece influir nos nossos destinos; não é este ou aquele grupelho de ambiciosos que nos exploram; este ou aquele artigo bem ou mal interpretado da constituição política que adotamos — adotamos, dizemos, e não cremos, como fora de desejar.
O mal vem de mais longe e é o que se pode denominar de horror à luta, de horror às posições definidas, de horror a todo e qualquer sacrifício do bem estar material no altar de qualquer ideia ou crença, por mais amada que seja.
Esquecida a sorte daqueles miseráveis que invejam todo e qualquer outro destino, que não o seu, no Inferno de Dante, a maioria absoluta da nação brasileira, mesmo encarada no quadro das suas elites, nada mais quer que viver, sem atrair jamais “nem merecido louvor, nem censura infamadora”.
Deseja-se viver — eis tudo —, quase não importando se bem ou mal com a própria consciência. Povo inteligente, encontra sempre um meio de justificar-se ante si mesmo.
E foi desta forma que chegamos até o pandemônio atual em que, no seio de uma nação de trinta milhões de indivíduos, não há um só partido, uma só organização política em derredor de uma ideia religiosa, em derredor mesmo de qualquer ideal menos elevado, mas que constituísse uma finalidade aos nossos esforços, servindo de força reguladora, harmonizadora de todos os progressos materiais, que circunstâncias especiais da vida econômica universal têm permitido que surjam entre nós, mesmo em meio a tanta desordem.
E foi desta forma que vimos cair, tão merecida quanto ruidosamente, um trono de quase cem anos — onde durante meio século se sentara a honestidade, a bondade mesma, que nada mais tentava fazer de grande e de notável do que enviar comendas a Renan ou confessar timidez a Victor Hugo… ele, o pobre velho, ele, no entanto, o chefe de um Estado em que a Religião Católica era a religião oficial…
E foi assim que, quase sem um protesto, vimos separar-se a Igreja do Estado, quando o país adotava as mais radicais reformas democráticas e a maioria absoluta dos seus cidadãos era, como ainda é, católica.
E é assim que temos assistido, quase indiferentemente, nestes trinta anos de república, os maiores atentados em matéria de educação dos nossos filhos, e suportamos as imensas despesas de um Congresso que nós próprios elegemos e em que raros são os que têm a coragem de se proclamarem defensores do nosso credo religioso, isto é, daquilo que consideramos a nossa mais sublime e insubstituível riqueza espiritual.
E nem ao menos se poderia dizer que contra nós, católicos brasileiros, se hão levantado forças de real grandeza e tenebrosa magnitude… não; temos sido vencidos, em todos os domínios da vida social do Brasil, por agrupamentos ridículos de vontades, também tíbias e incertas, mas — esta é a verdade — menos tíbias somente, menos incertas que as nossas, quando se trata de lutar. Mas uma coisa deve ficar também, desde já, acentuada: a direção desta revista não sofre a moléstia do pessimismo. Pelo contrário. Se protesta contra este estado de coisas, que nos desonra, justamente porque se crê que será ouvida, acredita-se que o momento é chegado em que, reduzidos como estamos a uma quase asfixia das nossas mais nobres aspirações, reagiremos todos. Pelo contrário, repetimos: esta revista terá, ou melhor, tem, pois que já vive, caráter acentuadamente nacionalista, dentro de seu programa de catolicismo integral. Cremos no brasileiro, na sua capacidade moral e intelectual, e, conformando-nos rigorosamente com as regras hierarquizadas, com as distinções reconhecidas pela Igreja Católica no seio da humanidade, faremos tudo quanto um católico pode e deve fazer contra o bastardo espírito de cosmopolitismo, que é talvez o fator principal do nosso ceticismo social, até o presente.
Amando ardentemente as tradições cristãs, que herdamos da nossa ascendência europeia, não concorreremos nunca para um movimento de ódio contra o estrangeiro europeu, seja ele de que nacionalidade for, mas isto não impedirá que tudo façamos para que seja um fato a autonomia do brasileiro em sua própria terra, para que a direção intelectual e política da nação tenha caráter positivamente brasileiro. É preciso que em todos os domínios da nossa vida se faça sentir a autoridade do espírito nacional.
Já se disse que um católico não pode falar assim, porque na ordem religiosa que reconhecemos, a primeira autoridade não se encarna num brasileiro.
Negamos uma tal asserção, ou melhor, negamos que ela corresponda à realidade dos fatos.
Sem incidirmos, nem de leve, nos perigosos e malfadados erros do galicanismo, a verdade é que nunca poderemos admirar, tanto quanto merece, na divisa organização da Igreja, a sábia harmonia dos seus princípios universais com as realidades particulares da história humana. E a autoridade dos Bispos, porque emanada da Santa Sé Apostólica, de uma autoridade universal, nem por isto se contrapõe ao caráter do povo sobre que se exerce. É católica, mas é brasileira, como é francesa, inglesa ou italiana, porque como tal a própria Santa Sé a reconhece.
Está assim, ao que nos parece, completo e francamente delineado o nosso programa, traçado o rumo que seguiremos.
A obediência à autoridade eclesiástica — sinal distintivo do verdadeiro católico — não precisamos proclamá-la. Ela se fará ver, sincera e imediata, todas as vezes que esta autoridade assim exigir, no legítimo exercício dos seus sagrados direitos.

