João Saldanha, comunista histórico, técnico e amante do futebol, iniciava seus comentários com um sonoro “meus amigos”. Peço licença ao homem que ajudou na formatação do maior time da história das Copas para iniciar este texto com a mesma saudação.
Meus amigos, a Seleção Brasileira de 1970 foi compactada por dois gênios. Saldanha e Zagallo, num intercurso de razões diversas, ousaram a aventura de escalar os melhores jogadores disponíveis no momento. A tática servia para potencializar as estrelas em campo. Hoje em dia, ao que parece, as “estrelas” precisam ter a tática como uma verdadeira imagem de coisa heroica inquestionável.
O Velho Lobo, eterno, faleceu no dia 05 de janeiro de 2024. Algo na Copa de 2026 deveria homenageá-lo mais diretamente, mais expressamente, como que na intenção de trazer para os íntimos do futebol brasileiro a alma do homem que nos honrou com 4 títulos de Copa do Mundo. Fizeram, bem verdade, uma “homenagem” no dia da convocação. Nela, havia o uso de IA. O artificial jamais tomará as raias do profundo de uma contribuição genuinamente humana.
Há, não serão poucos, os que avaliarão na derrota de domingo apenas as causas aparentes. A falta de talentos geracionais, a tática mal escolhida para a ocasião, etc. Na nossa visão, contudo, existe um ponto fundamental de notas mais profundas, mais de acordo com uma certa ideia de longa duração que ajuda a explicar o jejum indesejável desde 2006.
A guilhotina que nos degolou no jogo eliminatório, a Noruega, adornou-se de símbolos históricos. Posaram para fotos trajados como vikings. Ao término dos jogos? Fizeram remadas. Um eco bonito, um espetáculo que invariavelmente conseguiu arrastar a atenção do mundo inteiro. Não eram 26 jogadores apenas, estavam ali, visivelmente encarnando, e que bela forma, toda a trajetória histórica de uma nação.
E o Brasil? A seleção tão apoteótica a estampar na sua camisa 5 estrelas pareceu em tudo, pelo menos nesse quesito, inferior e acovardada. A Seleção Brasileira, tão orgulhosa nas falas, soa, nas atitudes, como uma equipe sempre envergonhada de si mesma.
A vergonha na atitude, dentro da realidade, portanto, demonstra-se de várias formas. Começamos no mundial no dia 13 de junho. O 13 tão representativo na história de Zagallo. Brito, um dos heróis de 70, faleceu pouco antes da Copa. Ambos sequer foram mencionados de alguma forma. Cantos da torcida para os dois? Não tivemos. Expressões para os dois nas nossas camisas? Também não tivemos. Nada! Um imenso vazio, um rio de ausências de boas referências.
Em 1994, ganhamos a Copa do Mundo nos Estados Unidos — se naquele time faltou o “futebol bonito”, sobrou a alma heroica na conquista do título. Eis a ocasião perfeita para trazer de volta a camisa daquela épica jornada. Não! Optaram por um amarelo sem vivacidade. Um amarelo sem cor. Um amarelo desbotado — canary — extremamente representativo da nossa falta de identidade.
Avacalharam o azul. Logo o azul… o azul do uniforme tão representativo da crença brasileira na sua Padroeira. O azul que fora trajado em 1958 no primeiro mundial conquistado pelo Brasil. Poderiam ainda ter lançado à baila algo mais próximo do manto utilizado em 70 para homenagear dignamente a histórica figura do Velho Lobo.
Talvez os amigos, os honestos leitores, interroguem este texto com a indagação de que todas estas coisas não seriam suficientes para a vitória. De fato! Mas há algo que até mesmo nas derrotas deveria transparecer. O problema não é perder, especificamente. O problema é perder sem alma, sem identidade. Derrotas assim? Apresentam-se apenas para o futuro como determinantes para repetições dos mesmos problemas. Não alteram o largo profundo das coisas. São derrotas que, possivelmente, daqui a 2 meses, se muito, ninguém lembrará mais.
Na falta das lembranças, na falta do respeito às tradições, na desconexão tão candente com o passado, eis aí, e aí sim, o epitáfio da tragédia nacional.
Cada jogador brasileiro, lembremos aos imediatistas, passa por um verdadeiro desfiladeiro de tragédias pessoais (via de regra) para constituir-se como atleta. Nossos governantes, sempre confortáveis em cadeiras macias, jamais tomaram a dianteira de tentar, minimamente, propiciar uma formação intelectual mais séria nas bases do futebol brasileiro. Como em tudo, ao que parece, esperamos que o milagre do improviso apareça constantemente de 4 em 4 anos.
Existe na eliminação do dia 05 de julho de 2026 uma série de lições que se conectam com o estado de coisas do Brasil atual. Não apenas no futebol, é algo que vai além. É corrente de um rio revolto de surtos histéricos desacompanhados de reflexões mais potentes. Avaliem! Meditem, reflitam!
Um exemplo corre-nos a mente para ilustrar o que estamos a explicar. A seleção de 1982 perdeu sendo Brasil. Aquele time, apesar do “fracasso”, serviu de modelo para diversas inovações no jogo. É uma coisa dita pelo técnico espanhol Pep Guardiola. Havia ali, claramente, traços claríssimos do estilo de jogo que ajudou a criar amantes do esporte. Havia ali, brilhantemente, a alma de 1970. Havia ali, o que de melhor se faz no Brasil, a potencialização de tudo com as vestimentas do nosso jeitinho, mas jeitinho disciplinado, direcionado.
O mundo inteiro, ao que parece, aprendeu com o “fracasso” brasileiro de 1982. Ao que tudo indica, todavia, apenas os filhos do Brasil se inquietaram e não quiseram aprender. Deram-se ao luxo de jogar fora as lições valiosas colhidas globalmente.
Telê Santana deveria ser modelo, tal como Zagallo. Graças aos cretinos fundamentais — pelo menos em grande parte — da imprensa esportiva, ambos passaram a vida precisando apresentar explicações para idiotas com microfones nas mãos. No país de Pelé, chamam-no de Rei, mas tal como as monarquias modernas… é quase que figura decorativa. Na formação dos nossos atletas? Pelé, se tivéssemos senso, seria um pilar fundamental.
Meus amigos… em 23 campeonatos, ganhamos apenas 5. Nessa conta, naturalmente, perdemos mais do que vencemos. Derrotas são normais.
A forma, contudo, é que deveria causar algum tipo de embrulho severo nos estômagos dos responsáveis pela direção do nosso futebol. O sofrível e humilhante, aquele abjeto e infatigável desgosto de 2014 não nos parece ter ensinado absolutamente nada. Estamos, desde então, a repetir derrotas como derradeiros e covardes fracassados.
A razão das nossas derrotas, já ilustradas nas palavras acima… carece de um algo mais nos adendos. A globalização cultural, que toca também o futebol, não é ruim em si mesma. É ruim quando quem dela participa não tem seus pés devidamente fincados em raízes longínquas. Terminemos com algo que mais claramente, certamente, vai desenhar de forma cabal a nossa intenção:
A afirmação do Brasil como grande potência mundial requer, antes de mais nada, a consciência dos nossos próprios valores. (J. P. Galvão de Sousa, 1958)

