Martim Leitão, Frutuoso Barbosa, João Tavares e Piragibe certamente não poderiam imaginar no longínquo 05 de agosto de 1585 que a cidade fundada sob os auspícios luminares de Nossa Senhora das Neves, um dia encontraria-se na fronteira de assistir ao decaimento da fé católica em face de um crescimento monumental do protestantismo.
A preço de hoje, forçoso é reconhecer que o protestantismo tem tomado corações na proa de um tesouro que quase sempre pertenceu ao catolicismo: a devoção dos mais simples, a crença dos que poderiam adornar o corolário do senso comum.
Razões sobejas para o fenômeno. A nós, todavia, destacaremos um que parece passar silenciosamente entre os milhares de trovões e distrações da contemporaneidade. Desde a Proclamação da República, vive o Brasil adestrado na ditadura do laicismo. Aliás, alargamento de força que se prolonga fatalmente para os bancos escolares.
Refletindo a respeito da laicidade educacional, o velho Arcebispo de Mariana, Dom Silvério Gomes, comentava numa pastoral da segunda década do século XX, que o laicismo, enfiado pela goela nas escolas, culminaria numa retumbante carência vocacional no campo do sacerdócio.
Há autores diversos que referendam as letras do prelado: Padre Leonel Franca, Gustavo Corção e diversos outros contemporâneos de episcopado do velho senhor de violáceo mineiro, vide as pastorais de Dom Adauto e do Cardeal Leme.
O fenômeno provou-se firme e vivo no claro-escuro dos dias que correm.
A Paraíba não se encontra resistente ao ocaso da tragédia brasileira. O protestantismo, fruto de uma revolução, conforma-se adequadamente, quase que perfeitamente, ao mote das sociedades liberais.
Firmemos o ponto: o Brasil ou a Paraíba de hoje não é apenas tomada de valores socialistas. Não! Os frutos visíveis que aí estão decorrem de outro monstro do velho jogo de falsidades que encapsulam-nos em teatros políticos, julgando ser possível destronar o mal combatendo consequências, esquecendo, veladamente, das causas, como num ruído de cemitério silencioso e esquivo. Direita e esquerda, faces de uma mesma revolução.
Eis o reino do individualismo. Gustavo Corção, em dada altura de A Descoberta do Outro, bradava ser o regime, por excelência, do “salve-se quem puder”.
Trucidando gerações inteiras na “formação” escolar laicizada, nossas crianças, por força legislativa, não encontram-se mais obrigadas ao catecismo, mas, lotadas em escolas de cujos valores morais não passam de abstrações ideológicas diversas, que, somadas, geram a fragilidade de crença, a desesperança e a esperança, não raro, em soluções puramente humanas.
Frágeis, formados sem a justa consciência moral, enfiados num vale de lágrimas de problemas econômicos, de segurança, de jogatinas, de vícios… encontram, frisemos, os de senso comum, morada de suplemento afetivo nas hostes protestantes.
Historicamente, a velha Terra de Santa Cruz sempre teve filhos sensíveis aos messianismos e superstições. Poucos países do mundo devem gracejar tão enfaticamente de fenômenos religiosos sincréticos. Uma prática religiosa mais sentimental, mais falsamente devocional, dado a ausência de pilares racionais sólidos para encetar os rumos corretos.
Eis aí, considerem a nossa simplificação extrema, uma das razões de tanto sucesso do propalado neopentecostalismo. Não sem razão de ser, mesmo nas fileiras católicas, fenômenos correlatos ainda seguem em crescimento.
Alguns leitores poderão dizer, contudo, sem justiça, que exageramos. Não nos acomodamos nos novilhos de profecias para aclarar com pauperismo a flagrante morosidade católica dentro da Paraíba — e do Brasil — desde meados dos anos 60. Doa o quanto doer o reconhecimento dessa trágica realidade… soa-se quase uma crise existencial e de identidade nas fileiras do catolicismo.
É doloroso reconhecer, dói-nos a alma, mas os fatos raramente resignam-se, realisticamente, aos adereços de preferências das penas de quem escreve. A verdade exige compromisso com aquilo que está sobejamente estabelecido diante dos olhos.
Tomemos o exemplo histórico:
Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, primeiro Bispo e Arcebispo da Paraíba (1894-1935), ordenou ou foram ordenados ao longo de sua administração, um total de 168 sacerdotes. Dom Moisés Sizenando Coelho (1935-1959), ordenou ou foram ordenadas no seu período, 42 sacerdotes. Somados, totalizam 65 anos.
Nos 30 anos de pastoreio de Dom José Maria Pires (1965-1995), foram ordenados 26 sacerdotes. Se acrescentarmos as ordenações realizadas por Dom Marcelo Pinto (1995-2004) e Dom Aldo Pagotto (2004-2016), teremos 129 sacerdotes ordenados nos últimos 51 anos.
Muitos, pelas notas ególatras daqueles que, quase sempre soberbos, rasgam letras para bradar o peso do catolicismo na imprensa durante um conclave, alegando ainda dispor a verdadeira religião de uma popularidade pulsante, parecem esquecer de observar notas mais simples de um crescimento silencioso e certeiro do protestantismo. Alegam as mesmas coisas quando assistem novas edições da tradicional procissão de Nossa Senhora da Penha. Escoram-se nos números. Agarram-se numa maioria, que em consonância de juízo mais acertado, não passa de ouro de tolo. É o número católico, aliás, tal como um sepulcro caiado.
Os dados do IBGE publicados em 2025 registraram:
Católicos: 68,96% (aproximadamente 2.370.000 pessoas)
Evangélicos: 20,77% (aproximadamente 713.000 pessoas)
Ah! “maioria, maioria, maioria”, dirão… e nós diremos: “quem dera, querido leitor”.
O mesmo IBGE verificou a existência de 13.536 mil templos religiosos na Paraíba. Desta soma, registram-se ao menos 303 paróquias distribuídas nas cinco dioceses paraibanas. Quanto aos padres, são 402 diocesanos e 71 religiosos. Suponhamos, elasticamente, a residência de ao menos 12 mil igrejas protestantes dentro do paiol total citado acima. Calcule-se também a proporção, talvez de, no mínimo, 12 mil pastores para uma labuta de 473 padres católicos.
Percebem? Não há mais recanto do Estado que não assista dentro de si a disposição de um assombroso crescimento protestante nas suas muralhas. Não vencem mais pela razão — nem poderiam, naturalmente — ou pelo convencimento… a conta de subida numérica é loteada pela presença. Prostrados numa proporção que não permite disputa, o protestantismo hoje chega onde os padres raramente sonham em chegar.
Os ventos neopentecostais lustrados de sentimentalismo, de crendices, de um velho sincretismo muito à brasileira, tomaram do catolicismo, quase que como num calafrio de cemitério, a popularidade das antigas devoções e procissões.
Quem ainda alimenta a ilusão das senhorinhas piedosas de interior, certamente anda por aí a dar de paus com um óculos defeituoso nas vistas. Há cidades em que um sacerdote solitário precisa cuidar de uma paróquia e dezenas de capelas. Para cada região de capela, existem três ou quatro igrejas protestantes, ou seja, 3 ou 4 pastores.
Revela-nos um certo susto. Sim! Certas “zonas rurais” atualmente já possuem maioria protestante. Especialmente, leitor, observe bem, na formação de almas jovens. Na militância daqueles que ainda estão por nascer, o protestantismo paraibano anda assanhado e robusto.
Afora alguns ligeiros sinais políticos. O Estado é atualmente administrado por um protestante. Praças históricas do catolicismo como Conde e Campina Grande, de igual modo. Sem contar deputados estaduais, federais e vereadores. A maior força política partidária na Paraíba é o Republicanos — protestante.
Poderíamos ainda falar de escolas populosas, vide o “Cidade Viva”. Poderíamos falar da imensa organização — infelizmente — protestante nos setores da sociedade civil. O fosso de exemplos é quase sem fim.
Nesta breve ilustração textual, evitamos discussões teóricas. Não reside aqui intenção de disputar algo teologicamente. Os dados, mais ou menos certos. Mas o alarme, objetivo de texto, apesar de ambas as deficiências, deveria causar algum frio na espinha.
Como vislumbrar um crescimento católico com armas tão diminutas? Neste ocaso quadrado do século XXI, reside ainda, como complemento do caos, a morosidade invejável do clero. Vivem os nossos padres, reconheçamos, num doce sono banhado pelas bênçãos pagãs de um Morfeu.
Rezemos!

