Nosso Senhor Jesus Cristo não fez pouco uso das parábolas em sua vida pública, são elas guardiãs de verdades de Fé e serviam para excitar os afetos humanos, conquistar nossa atenção e um lugar em nossa memória, além de impedir que se tratassem aquelas tão necessárias boas novas com simplismo e superficialidade. Nessas histórias contadas por Cristo é frequente o uso de termos referenciados na vida econômica das gentes, há metáforas com os conceitos de dívida, redenção, salário, herança, dracma, tesouro, e numa delas chega a figurar um “administrador”. Enfim, longe de querer profanar estes recursos, alegando que a Igreja tenha se equivocado no modo de tratá-los ao longo dos séculos; muito ao contrário, exalto-os sem esvaziá-los de seu sentido literal e sem moderna ânsia por distanciá-los da Tradição, pois são elementos do espírito de condescendência com que Nosso Senhor nos falava acerca das coisas eternas a partir das coisas temporais, com o estrito fim de expressar-se num idioma que fôssemos capazes de entender.
Especialmente, há uma divina parábola, reportada por São Lucas (Lc. XIX, 12-27) e São Mateus (Mt. XXV, 14-90), em que o senhor de uma casa viaja para ser empossado do governo de um grande reino, deixando a administração de seus bens com seus servos até que retorne à casa. São Mateus concentra-se na quantidade dos bens mais do que nas razões diegéticas daquele senhor, que aqui tem três servos: a um dá cinco talentos, a outro dá dois talentos e ao último dá apenas um talento. Com isto, o Evangelista alcançou aos Padres a luz para tratar das diferentes capacidades que o beneplácito de Deus nos concede a cada um, para devolvermos-Lhe uma maior glória à nossa humilde e caridosa medida individual. Em São Lucas, contudo, Cristo conta que são dez servos e a cada um foi confiado apenas um “marco” (na tradução do Padre Matos Soares) ou “mna” (mina, na Vulgata). Destes dez, apenas três apresentam-se ao senhor — aqui está a concordância entre os evangelistas — já rei, quando voltou à sua casa. Em Mateus, o senhor apenas confia seus bens, já em Lucas, é categórico: “Negociai com eles até eu vir”. Entretanto, o desfecho é o mesmo: quando, ao se apresentarem ao seu senhor, os dois primeiros servos lucram, os evangelistas invertem suas tendências. Em Mateus, ambos parecem receber o mesmo, diz-se a cada um: “Servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo de teu senhor”. Já em Lucas, cada um recebe o governo de uma cidade para cada unidade monetária a mais no resgate da aplicação, deixando patente a desproporção da recompensa vindoura em comparação aos esforços atuais dos servos, da qual pregou-nos pouco depois o Apóstolo (Rm. VIII, 18).
Está por vir ainda o clímax da narrativa: apresenta-se um terceiro servo, trêmulo em suas palavras, busca justificar-se do fato de nada ter lucrado, tendo em mãos apenas o único talento a ele dado a princípio. Não obstante ter visto tamanha generosidade com a qual o senhor retribuiu aos dois primeiros servos (pois ocorreu imediatamente após a declaração de cada qual), este servo medroso acusa o senhor de deslealdade. Fá-lo fingindo louvar sua autoridade, pintando-a de firmeza, de riqueza e de dignidade inata: “És um homem austero, que tiras donde não puseste, e recolhes o que não semeaste”. Perceba cá o liberal que a hipocrisia não é o único sintoma do condenado: o laxismo e a covardia também o são. Mas o senhor não se deixa lisonjear, e decide puni-lo com as trevas exteriores, não sem antes repreendê-lo, para tomá-lo como exemplo: “Disse-lhe o senhor: Servo mau, pela tua mesma boca te julgo. Sabias que eu sou um homem austero, que tiro donde não pus, e recolho o que não semeei”; e segue: “(…) logo, porque não puseste o meu dinheiro num banco, para que, quando eu viesse, o recebesse com os juros?”
“Meu senhor, que banco é esse?”; imagino que tenha ocorrido àquele servo mau. Ora, os servos somos os católicos, o senhor é Nosso Senhor, a viagem é Sua ascensão, a posse é Sua glorificação, os lucros são os frutos do apostolado, os talentos são nossas capacidades, e a ausência temporária do senhor é nossa época militante. Dentro destas analogias, que seria esse “banco” (mensam)? Teria Nosso Senhor dado um ponto sem nó? Assim o fosse, não é de fato desleal recomendar uma solução falsa para o problema tão grave do servo? Teria o senhor pedido algo além das forças do servo? Pusesse ele mesmo o dinheiro num banco! Um banco! Uma solução para a condenação, saída dos lábios do próprio juiz! Isto não pode ser tangenciando! Apesar de tudo, a parábola encerra-se…
Meu Senhor, que banco é esse? Ocorre agora a este servo mau que vos escreve. A resposta nos é ocultada nos evangelhos. Porém está ali desde o início. Não do Novo Testamento, mas desde Gênesis, escondida mas esperada, como prometida, como soberana. Ouçamos o Bem-aventurado de Montfort:
“Deus Pai consentiu que ela não fizesse milagre algum na sua vida, pelo menos visíveis, embora lhe tivesse dado poder para tanto. Deus Filho consentiu que ela quase não falasse, embora lhe tivesse comunicado sua sabedoria. Deus Espírito Santo consentiu que seus apóstolos e evangelistas falassem dela muito pouco e apenas o necessário para tornar Jesus Cristo conhecido, embora fosse ela sua fiel esposa. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e posse Ele reservou para Si” (Tratado da Verdadeira Devoção. São Paulo: Editora Retornarei, p. 10).
Ao mesmo São Luís devemos a recordação da feliz expressão de Santo Agostinho, Forma Dei, em que propunha-se Nossa Senhora como sendo o molde de Deus, dentro do qual Ele fora formado, e agora nos é apresentado a nosso dispor nos seguintes termos: “Há uma grande diferença entre fazer uma figura em relevo a golpes de martelo e de cinzel, e fazer uma figura lançando-a numa fôrma: os escultores e estatuários trabalham muito para fazer as figuras do primeiro jeito, e precisam de muito tempo. Mas, ao fazê-las do segundo modo, trabalham pouco e as fazem em muitíssimo pouco tempo” (Op. cit., p.163). Em nossa parábola, podemos depositar nosso talento no banco ao modo que o artista despeja seu polímero num molde, com facilidade, segurança, rentabilidade e liquidez, consagrando-nos totalmente à Virgem Santíssima.
Santo abandono dos parvos méritos nossos em Maria Santíssima, vas spirituale, feliz usura liquidada por fonte infinda. Por meio de suas puríssimas, sapientíssimas e pontentíssimas empresas, lucraremos mais com seus juros na inversão de um único talento do que o mais hábil negociador com todos os dez.
Nas crises deste mundo, por exógenas que sejam às curvas de mercado, os homens correm aos bancos para deles retirar o que depositaram. Nas crises espirituais — ou eclesiais, que seja! —, ao contrário, aconselhável é que recorram ao santíssimo banco da Imaculada, para depositarem o que ousam tão arriscadamente carregar consigo. Thesauriaria Gratiarum Domini, empresta a uma taxa menor do que aquela com a qual toma emprestado. O lucro é certo e nunca se ouviu dizer que alguém, tendo investido, tenha tomado calote. Eis o segredo de Maria!
Considerando todo o exposto, não podem os economistas cogitarem outro santo como sendo seu padroeiro, uma vez que têm a própria Mãe de Deus sob um título sobremaneira afim ao seu ofício, a saber, de ordenar a precariedade ao bem nas mais diversas escalas. Diverge apenas o acidente, um tem a vocação de buscar o bem-estar, encontrando o limite de ação na equidade que o baliza, este é o economista. A outra tem a vocação de buscar o Bem Sumo, encontrando limite de ação na iniquidade que a constrange, esta é Nossa Senhora.
Porém, dizem que o padroeiro dos economistas é São Mateus, que já acumula as honras de Apóstolo e Evangelista, além de toda minha veneração. Esse suposto patronato se dá pelo caráter relacionável com sua antiga profissão de publicano, cobrador de impostos, no exercício da qual foi marcantemente chamado por Cristo, tendo a abandonado imediatamente para nunca mais retornar a ela, diferente dos outros dos Doze, que voltavam à pesca quando a necessidade lhes obrigava. Portanto, parece-me inconveniente relembrar a vida pregressa do santo apóstolo que nos inaugurou o Novo Testamento. Soa-me como querer fazer de São Dimas padroeiro dos ladrões; só que em vez de rebaixar o santo, rebaixa-se o ofício em seu lugar. Ouçamos a parábola que nos conta São Mateus, imitemo-lhe as disposições, mas oponhamos seu abuso passado ao bom uso atual de nossa verdadeira padroeira!
Gloria tibi sit, Thesauriaria gratiarum Domini, fac nos participes thesauri tui.

