A estrela-guia da Roma moderna

Há poucos dias, apresentei em nossa publicação um artigo sobre a euforia dos católicos da hora presente com o pontificado do Papa Leão XIV. Por incrível que possa parecer a alguns, especialmente aos críticos que surgem, não passava pela minha intenção escrever uma espécie de artigo continuador para esta coluna. Infelizmente, entretanto, é preciso dar continuidade…

“Após o Ano jubilar, durante o qual pudemos meditar sobre os mistérios da vida de Jesus, iniciamos um novo ciclo de catequeses que será dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura dos seus Documentos”1. Foi com essas palavras que o Santo Padre anunciou que iniciaria as catequeses de 2026. Não fará apenas simples catequeses, mas um ciclo, uma série de catequeses sobre um tema particular, que, por intencional desventura, é o Concílio Vaticano II.

Um dia antes, na Festa da Epifania do Senhor, para significar a continuidade com a rica tradição de seus antecessores conciliares, o Papa encerrou o Ano Santo de 2025 inaugurando o uso de uma nova “cruz pastoral”2 em que — ainda que semelhante àquela tão horrorosa quanto a que foi inaugurada por Paulo VI em 1965 e que João Paulo II tornou famosa em seu uso, que foi criada e idealizada pelo escultor italiano Lello Scorzelli — há, na verdade, um Ressuscitado como que fugindo do madeiro. Significativo…

Continuou o Papa em sua audiência: “Com o aniversário do Concílio de Niceia, em 2025 pudemos recordar os 60 anos do Concílio Vaticano II”. Porque nada mais natural que, no aniversário do Concílio de Niceia, que salvaguardou e transmitiu integralmente o Depósito da Fé durante uma grande crise e diante da ameaça de heresias diversas, destacando-se a heresia ariana, nós recordarmos positivamente do Concílio Vaticano II, que, ao sabor de hereges e cismáticos — que seguem hereges e cismáticos — e ao paladar de seguidores do Talmude e de maçons — que seguem odiando a Igreja —, diminuiu e ocultou a integridade da Fé mergulhando a Igreja numa grande crise. Não, entretanto, para aqueles veneram a Paulo VI como santo e, com seu santo, enxergam no Vaticano II uma importância maior que a de Niceia, exatamente como disse Paulo VI a Dom Lefebvre em 1976: “O Concílio Vaticano II não tem menos autoridade, ao contrário, em alguns aspectos é mais importante do que o Concílio de Niceia”3.

Para cerca de 7 mil pessoas4, aquele que é o Pastor Supremo da Igreja uma vez mais reafirmou o compromisso de renunciar à própria autoridade firmado pelo Papa João XXIII em 1962, em prol do diálogo para a “construção de uma sociedade mais justa e fraterna”5. É “graças ao Concílio Vaticano II”, diz Leão XIV, que “«a Igreja torna-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja torna-se diálogo» (São Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam, 67) [sic], comprometendo-se a procurar a verdade através do caminho do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e do diálogo com as pessoas de boa vontade”6: para o modernismo, a Igreja não é detentora da Verdade, que é Cristo, de forma que é preciso sair mundo afora a buscar uma outra e pretensa verdade entre os protestantes e cismáticos, entre judeus, muçulmanos e pagãos, e entre as tais “pessoas de boa vontade” sempre tão presentes nas redações conciliares. A ânsia de ter o mundo dentro de si é tanta, que até mesmo a citação de Paulo VI foi retirada do excerto errado (a correta não está no ponto 67, mas 38 da mesma encíclica Ecclesiam Suam7).

Para Leão XIV, “depois de uma rica reflexão bíblica, teológica e litúrgica” — a mesma riqueza que empobreceu a liturgia católica na missa e no breviário e que abandonou a consagradíssima Vulgata Latina de São Jerônimo em prol de uma Neovulgata com influxos do modernismo exegético, tudo com base na Nova Teologia, de caráter neomodernista, irenista protestantizante — “o Concílio Vaticano II redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, nos chama a ser seus filhos”8, como se a Igreja Católica por algum momento sequer houvesse perdido o bom Deus em sua Fé e Doutrina.

O Pontífice reinante enxerga no Concílio Vaticano II, com João XXIII, a “aurora de um dia de luz para toda a Igreja”, uma Igreja que, com Paulo VI, “torna-se diálogo”; esse misterioso Concílio cujos frutos “ótimos e abundantes”, de acordo com a profecia do futuro João Paulo I, 61 anos depois de seu encerramento ainda não são vistos, pois só dará frutos “após séculos superando com dificuldade contrastes e situações adversas”, mas que mesmo infrutífero foi, enxergando com João Paulo II, “a grande graça que beneficiou a Igreja no século XX”, e, com Bento XVI, de “ensinamentos particularmente pertinentes”. Para Leão XIV, com Francisco, “redescobrir o Concílio ajuda-nos a ‘devolver a primazia a Deus'”9. Ao mesmo tempo em que diz que o Concílio devolve a primazia a Deus — como se antes dele a Igreja não recapitulasse tudo em Cristo —, Leão XIV chegou ao fim da Audiência Geral citando a Mensagem de Paulo VI aos Padres Conciliares datada de 8 de dezembro de 1965. Um dia antes, porém, no discurso que encerrou a tragédia conciliar, Paulo VI arrematou que a primazia e centro do Concílio Vaticano II era o homem: “dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós —  e nós mais do que ninguém [sic] somos cultores do homem”10.

Fazendo todo um percurso com os Papas conciliares e pós-conciliares, Leão XIV dá prosseguimento ao culto do homem: “também para nós é assim”, pois são os documentos conciliares, “sua profecia e atualidade”, que constituem a “rica tradição da vida da Igreja”, que ele nos pede para acolher. E tendo o Concílio Vaticano II como sua tradição, o magistério conciliar “ainda hoje constitui a estrela polar do caminho da Igreja” para o Sumo Pontífice.

O Concílio Vaticano II poderia muito bem ser chamado de Concílio de Schrödinger: ao mesmo tempo em que é aurora de um dia de luz e grande graça no século XX, vive com dificuldades entre contrastes e adversidades; ao mesmo tempo em que tem ensinamentos particularmente pertinentes para o século XX e para o século XXI, ele dará frutos apenas após séculos; ao mesmo tempo em que redescobre a face de Deus e devolve a Ele a primazia, mais do que ninguém cultua o homem.

Ainda que o Concílio tenha sido “grande graça” no seu próprio momento histórico, talvez esta graça tenha sido enviada por Correios pela Transamazônica durante o inverno e esteja atolada nalgum rincão, por isso o atraso plurissecular que sofremos para recebê-la.

Ah… sim, não, não sei, sei não. Nada como uma confusão sobre outra numa pilha de ideias fantasmagóricas para servir de estrela-guia da Igreja e de seus filhos — especialmente para aqueles que, sonhando com rendas e bordados e acordando com um novo báculo à Scorzelli, vivem nas miragens e ilusões do autoengano e da euforia.


1. LEÃO XIV. Audiência Geral de 7 de janeiro de 2026. Roma: Libreria Editrice Vaticana. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260107-udienza-generale.html>. Acesso em: 09 jan. 2026.

2. VATICAN NEWS. Uma nova cruz pastoral para o Papa Leão XIV. Vatican News. Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-01/uma-nova-cruz-pastoral-para-o-papa-leao-xiv.html>. Acesso em: 09 jan. 2026.

3. LA Documentation Catholique, vol. 58. Paris: Bayard Presse, 1976, p. 34.

4. CARDIEL, Victoria. Papa diz que Vaticano II é a “estrela-guia da Igreja”. ACI Digital. Disponível em: <https://www.acidigital.com/noticia/66203/papa-diz-que-vaticano-ii-e-a-estrela-guia-da-igreja>. Acesso em: 09 jan. 2026.

5. LEÃO XIV. Audiência Geral de 7 de janeiro de 2026. Roma: Libreria Editrice Vaticana.

6. Ibidem.

7. “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio” (PAULO VI. Encíclica Ecclesiam Suam, 38. Roma: Libreria Editrice Vaticana. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_06081964_ecclesiam.html>. Acesso em: 09 jan. 2026).

8. LEÃO XIV. Audiência Geral de 7 de janeiro de 2026. Roma: Libreria Editrice Vaticana.

9. Ibidem.

10. PAULO VI. Discurso do Papa Paulo VI na Última Sessão Pública do Concílio Vaticano II. Roma: Dicastério para a Comunicação. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651207_epilogo-concilio.html>. Acesso em: 09 jan. 2026.

2 comentários sobre “A estrela-guia da Roma moderna

  1. Nada mais patético que uma falsa esperança pueril e idealista.

    Que Deus tenha piedade daqueles que, como crianças, pulam de ilusão em ilusão em busca de um “Papa” Noel que trará em um saco vermelho de veludo com arminho (seria a mozeta?) a solução mágica dos problemas.

    1. Seria a mozzetta de inverno, cuja possível aparição durante o Natal fazia os amantes da estética elucubrarem cheios de suspiros. Mas, veja só, assim como não há uma solução mágica para os problemas da Igreja, também não houve mozzetta vermelha de arminho no Natal.

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