Sempre me pareceu um tanto estranho o modo como se estabelecem certas relações entre Newman e outras figuras históricas. Ao longo de minhas leituras sobre G. K. Chesterton, notei uma recorrência curiosa — quase insistente — na tentativa de associá-lo ao Cardeal John Henry Newman (HOWE, 2023; PICKERING, 2024). Não que entre ambos não exista qualquer tipo de vínculo; é evidente que Newman exerceu alguma influência sobre Chesterton, assim como tantas outras personalidades o fizeram — e que podemos ver através dos escritos do próprio Apóstolo do Senso Comum. O que chama atenção, porém, é o exagero com que alguns intérpretes procuram apresentar Newman como a principal figura católica da Inglaterra oitocentista, como se sua importância eclipsasse todas as demais.
Na literatura que trata do catolicismo inglês no século XIX, parece haver um consenso tácito em exaltar Newman de forma desmedida, relegando a segundo plano outras figuras igualmente decisivas para o renascimento da verdadeira fé em solo inglês. Ainda que esse fenômeno também se manifeste de certo modo no livro Faith of Our Fathers: A History of True England, Joseph Pearce mostra-se mais equilibrado — ao menos no que diz respeito a Chesterton — quando afirma que:
Na lembrança de Chesterton sobre seu encontro de infância com o cardeal, Manning não está apenas vestido com o escarlate de seu ofício eclesiástico, mas também envolto nas nuvens da lenda romântica. Ele é um Príncipe da Igreja, consagrado na memória de um envelhecido G. K. Chesterton como um Príncipe Encantado envelhecido, escrevendo meio século após o acontecimento (PEARCE, 2022, p. 310).
De fato, a influência de Manning foi tamanha que o próprio Chesterton, em sua autobiografia, recorda o Cardeal como uma presença marcante desde a infância:
O Cardeal Manning cruzou meu caminho como uma espécie de espectro flamejante ainda na infância. O retrato do Cardeal Manning agora pende no fim do meu quarto como símbolo de um estado espiritual que muitos chamariam de minha segunda infância (CHESTERTON, 1988, p. 88).
Joseph Pearce chega a afirmar que, “para o caridoso Chesterton, Manning era um herói, talvez até um santo” (PEARCE, 2022, p. 310). E essa admiração não era exclusiva de Chesterton. Hilaire Belloc, seu grande amigo e companheiro intelectual, partilhava da mesma veneração. Em sua biografia sobre o “Velho Trovão”, Pearce relata um episódio revelador dessa relação:
Durante esses meses, ele [Belloc] buscava escapar dos limites claustrofóbicos do que chamava de “meu quartinho em Bloomsbury”, visitando o idoso Cardeal Manning. Presumivelmente, Belloc devia estar ciente da profunda admiração de sua mãe por Manning e provavelmente sabia do papel influente que o Cardeal desempenhara em sua conversão à fé católica, vinte e cinco anos antes. Na verdade, é provável que tenha sido apenas pela intercessão de Bessie que Manning concordou inicialmente em receber seu filho. Depois disso, contudo, parece que o velho Cardeal criou afeição pelo jovem de dezoito anos, pois parecem ter-se encontrado regularmente durante o ano de 1889.
A influência de Manning sobre Belloc foi profunda. Seu ultramontanismo serviu-lhe de inspiração, e seu radicalismo político, de grito de combate. Manning não era apenas um defensor inequívoco do papa, mas também um ardente campeão dos pobres. Para o jovem impressionável, cuja formação própria estava enraizada na filosofia da Igreja e na política da Revolução Francesa, a combinação de tradicionalismo e radicalismo pregada por Manning foi algo poderoso.
Mesmo já septuagenário, o Cardeal Manning continuava ativamente envolvido nos aspectos sociais de seu ministério. Em 1885, participou da comissão real sobre moradia dos pobres, e, no ano seguinte, foi nomeado para a comissão real sobre educação. Sua visão social vinha ganhando reconhecimento internacional e, em 1891, provaria ser influente nos ensinamentos consagrados na famosa encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII. Essa encíclica, por sua vez, se tornaria a inspiração do credo socioeconômico que Belloc pregaria anos mais tarde, conhecido como distributismo (PEARCE, 2002, p. 27-28).
Em The Cruise of the Nona, Belloc chega a definir Manning como “o maior inglês de seu tempo” (BELLOC, 1925, p. 54-55).
Entre as raras exceções literárias que se afastam da exaltação quase automática de Newman, encontra-se Roman Converts, de Arnold Lunn. Talvez isso se explique pelo fato de que, à época, Lunn ainda não era católico — o que o livrava, por assim dizer, do pacto tácito ao qual tantos católicos parecem aderir ao tratar do tema. Nessa obra, Lunn expõe com notável franqueza uma verdade sobre Newman que muitos preferem ignorar:
John Henry Newman nasceu em 21 de fevereiro de 1801 e morreu em 1892. Sua longa vida foi dividida em duas partes quase iguais, anglicana e romana. A maior conquista de Newman foi a criação do Movimento de Oxford. Sua verdadeira influência começou e quase terminou com sua carreira anglicana, pois sua vida na Igreja Romana foi de quase fracasso ininterrupto, um fracasso não menos real pelo barrete cardinalício que consolou seus últimos anos. O Newmanismo sempre foi justamente suspeito pelas autoridades romanas. É apenas muito fácil para os modernistas descobrirem uma fórmula salvadora: a teoria do desenvolvimento [doutrinal], que é a contribuição mais importante de Newman para a controvérsia católica.
Mas a carreira de Newman como um verdadeiro líder de homens começou e terminou na Igreja da Inglaterra. Como anglicano, Newman fez história; como romano, ele escreveu história… (LUNN, 1966, p. 31).
É justamente dessas histórias escritas por Newman que trataremos aqui. De fato, enquanto anglicano, Newman conheceu pouquíssimas derrotas sendo a mais memorável, graças a Deus, a condenação que recebeu das autoridades anglicanas pela publicação do Tract XC, em fevereiro de 1841. Nesse texto, Newman procurava justificar sua permanência no anglicanismo defendendo uma interpretação católica dos Trinta e Nove Artigos (QUINN, 2015, p. 108). Essa tentativa, porém, acabou por aproximá-lo ainda mais de Roma, conduzindo-o, passo a passo, à conversão — a qual, como veremos, não significou o mesmo tipo de triunfo que marcara sua vida anglicana.
Ao lado de Lunn, autores como John F. Quinn e David Newsome formulam críticas contundentes à forma como muitos estudiosos abordam Newman, apontando a parcialidade que frequentemente permeia essas análises. Em seu artigo, Quinn adverte:
Meriol Trevor analisa longamente a crise dos oratorianos em sua biografia de Newman em dois volumes. Embora valiosa em muitos aspectos, sua análise da disputa é bastante parcial. Ela adota o ponto de vista de Newman, segundo o qual a questão das confissões das freiras era um assunto sério; Faber e seus confrades estariam pondo em risco a Regra do Oratório. Trevor também defende todas as ações de Newman durante a controvérsia, ao mesmo tempo em que critica severamente o comportamento de Faber, dos demais oratorianos de Londres e dos funcionários em Roma. David Newsome observou a falta de imparcialidade na obra de Trevor: “Sempre que [Newman] é contrariado, ela [a obra de Trevor] parte do pressuposto de que a oposição é composta de canalhas ou tolos. O resultado é que todo o drama da vida de Newman se torna distorcido, com o certo e o errado claramente distribuídos em lados opostos.”
Ian Ker também analisa a disputa entre os oratorianos em sua recente biografia de Newman. Ele observa que as duas casas tinham visões diferentes sobre a vocação e a espiritualidade oratorianas. Essas diferenças, e não a questão das confissões das freiras, estavam na raiz da controvérsia. Ker, contudo, também toma partido de Newman durante todo o conflito. Ele sugere que “certo ciúme e um sentimento de inferioridade” por parte de Faber explicam por que seu Oratório se distanciou do de Newman. (QUINN, 2015, p. 107).
Seja como for, na contramão de autores como Meriol Trevor e Ian Ker, que invariavelmente tomam o partido de Newman, ou mesmo de Joseph Pearce, que prefere evitar as controvérsias, referindo-se a Newman e Manning como “a dupla dinâmica que presidiu a Igreja na Inglaterra, sempre aliados em uma luta comum, mesmo que nem sempre fossem os melhores amigos” (PEARCE, 2022, p. 309), propomos aqui esboçar o real lugar de Newman.
É inegável que Newman foi um dos líderes do Movimento de Oxford e que suas contribuições aproximaram diversos membros do grupo do catolicismo. Contudo, enganam-se — ou ao menos são culpáveis de certo descuido historiográfico — os estudiosos que, ao quase ignorarem outras figuras de igual relevância, fazem parecer que a transição do anglicanismo para o catolicismo deu-se quase exclusivamente pela influência dos conversos.
Sem classificar como fracasso, mas ainda dentro do contexto do Movimento de Oxford e da conversão de Newman, Robert M. Andrews observa que estudos recentes têm “destacado outras personalidades que, em sua época, exerceram maior influência do que normalmente se reconhece” (ANDREWS, 2022, p. 333). Dentre essas figuras, destaca-se Nicholas Patrick Wiseman, futuro arcebispo de Westminster e protagonista de feitos notáveis.
Andrews nos oferece informações valiosas sobre essa influência:
Essa influência, por um lado, afetou Newman e outros Tractarianos inclinados a Roma durante o final da década de 1830 e o início da de 1840, quando estes flertavam com os limites do catolicismo romano. Por outro lado, Shea mostra como Wiseman foi uma “figura-chave” ao despertar em Roma a consciência do potencial missionário do Movimento de Oxford — ou seja, de sua capacidade de gerar conversões.
Como observou Colin Barr em um estudo importante sobre o poder do Cardeal Paul Cullen sobre o catolicismo irlandês no século XIX (tanto na Irlanda quanto na diáspora britânica), Cullen e Wiseman atuaram em Roma em uma época em que poucos membros da cúria italiana liam inglês. Embora Shea tenha publicado seu livro antes de Barr, ele já havia mostrado como Wiseman utilizou a imprensa teológica romana para divulgar, em italiano, suas opiniões sobre a importância do Movimento de Oxford.
Entre as publicações destacadas está o Annali delle Scienze Religiose, que Shea descreve como “o principal periódico teológico de Roma na época, bem como o porta-voz semioficial do Vaticano”. Shea dá especial atenção a um texto publicado nesse periódico — originalmente uma palestra proferida por Wiseman na Pontificia Accademia di Religione Cattolica em Roma, em 16 de junho de 1837.
Nessa conferência, Wiseman destacou o renascimento dos princípios da High Church promovido pelo Movimento de Oxford, reconhecendo seu potencial de conversão, mas ao mesmo tempo criticando a alegação dos Tractarianos de representarem o verdadeiro catolicismo. Assim, seu “otimismo e entusiasmo” eram equilibrados pela convicção de que o Tractarianismo estava destinado a um “colapso inevitável”.
Publicada naquele mesmo ano no Annali delle Scienze Religiose e também em edição separada sob o título Dissertazione sullo stato attuale del Protestantesimo in Inghilterra (Dissertação sobre o estado atual do protestantismo na Inglaterra), a exposição de Wiseman transmitia claramente seu entusiasmo pelo Movimento de Oxford e, como argumenta Shea, foi decisiva para despertar em Roma o interesse missionário pelo movimento. (ANDREWS, 2022, p. 333-334).
Muito embora Wiseman tenha despertado em Roma o interesse que viria a impulsionar o ressurgimento do catolicismo na Inglaterra, “a predominância dos estudos sobre John Henry Newman nos últimos cinquenta anos acabou inevitavelmente marginalizando outras vias de pesquisa sobre o Tractarianismo e seus contextos” (ANDREWS, 2022, p. 335).
Andrews continua:
Um dos principais impulsos para a fundação da Dublin Review e para seu modo de operação subsequente — especialmente no caso de Wiseman — foi o desejo de intervir nas controvérsias religiosas que acompanharam a ascensão do Movimento de Oxford. Esse novo esforço jornalístico, com foco no Tractarianismo, começou para Wiseman durante uma estada na Inglaterra entre setembro de 1835 e setembro de 1836.
Essa visita, que incluiu uma série de conferências públicas influentes, foi decisiva para Wiseman. Ao retornar a Roma, sua atenção ao Movimento de Oxford intensificou-se consideravelmente. Nesse período, ele começou também a divulgar em italiano sua convicção de que as ideias teológicas promovidas pelos Tractarianos mereciam a atenção de Roma.
Em Roma, Wiseman redigiu uma série de artigos sobre o Movimento de Oxford e suas controvérsias correlatas para a Dublin Review. Em 1840, ele mudou-se definitivamente para a Inglaterra, estabelecendo-se no Oscott College. Um dos principais motivos dessa mudança foi justamente o aumento de seu interesse pelo Movimento de Oxford — um interesse motivado por sua crença de que a Providência Divina estava conduzindo os Tractarianos ao catolicismo romano.
Por meio da Dublin Review, Wiseman buscou comunicar suas críticas ao Tractarianismo, esperando conduzir seus líderes para fora da Igreja da Inglaterra e dentro da Igreja Católica Romana — contribuindo assim para o retorno da Inglaterra à comunhão romana. Consequentemente, já em solo inglês, Wiseman compôs uma nova série de artigos (ANDREWS, 2022, p. 335-336).
Em agosto de 1839, Wiseman publicou um estudo minucioso sobre a controvérsia donatista do século IV e sobre a resposta dada pela Igreja, especialmente por Santo Agostinho. Nesse texto, traçou um paralelo entre aquela antiga heresia e a posição defendida pelos tractarianos, segundo a qual a Igreja da Inglaterra possuía natureza e autoridade apostólicas, sendo, portanto, verdadeiramente católica (WISEMAN, 1839, pp. 139-180).
Ao ler esse exame, Newman expressou a Frederic Rogers o abalo que o texto lhe causara — uma ferida, segundo ele, da qual nunca se recuperou e que, em última instância, o conduziu à conversão:
Desde que lhe escrevi, recebi o primeiro golpe real do romanismo que me aconteceu. R. W. [Robert Williams], que estava de passagem, chamou minha atenção para o artigo do Dr. Wiseman no novo Dublin [Review]. Confesso que isso me causou um aperto no estômago. Você sabe que toda a história dos monofisitas tem sido uma espécie de alternância — e agora vem essa dose no final dela. De fato, vem à mente que não estamos no fundo das coisas. Neste momento, abrimos um rombo, e o pior é que aqueles sujeitos espertos — Ward, Stanley e companhia — não nos deixam dormir sobre o assunto. Curavimus Babylonem et non est sanata [“Medicámos Babilônia, e ela não sarou (Jer. LI, 9)”] foi um presságio incômodo. Não contei isso a ninguém (NEWMAN, 1995, p. 154).
Em 29 de setembro de 1850, a pedido de Wiseman, o Papa Pio IX restabeleceu oficialmente a hierarquia católica na Inglaterra por meio de um Breve Apostólico. Essa reorganização substituiu os oito antigos vicariatos apostólicos por um arcebispado e doze bispados sufragâneos. Na mesma ocasião, Wiseman foi elevado à dignidade de arcebispo de Westminster (ALMEIDA, 1958). Junto com o retorno oficial da fé católica ao solo inglês, Newman experimentou o que se poderia chamar de sua primeira derrota.
A Inglaterra daquele período, após séculos de perseguição ao catolicismo, havia gerado dois grupos distintos de fiéis. O primeiro, composto pelos chamados Católicos Antigos, trazia ainda a memória das restrições e mantinha certa timidez diante da expansão pública do catolicismo. O segundo, formado pelos conversos nascidos já após o declínio das perseguições, manifestava um entusiasmo quase ilimitado — um ímpeto que Wiseman teve de aprender a moderar:
Ao contrário dos católicos de berço, os primeiros conversos do século XIX não haviam experimentado as restrições irritantes das leis penais nem o desfranchisement político e, como consequência, não possuíam nenhuma dessas inibições que ditavam evitar, em vez de participar ativamente, da vida da nação. Quase sem exceção, eles acreditavam no rápido retorno da Inglaterra ao catolicismo e já estavam, apesar das prudentes advertências dos Católicos Antigos, extremamente ativos em tentar apressar isso.
Wiseman assumiu a liderança desse pequeno grupo e começou seus esforços ao longo da vida para aclarar os conversos e os Católicos Antigos um ao outro, para conter o apostolado radical e controverso dos primeiros e para estimular e dar nova vida às atividades extremamente conservadoras dos últimos (O’CONNOR, 1942, p. 33-34).
Newman, contudo, contava-se entre os chamados Católicos Antigos e, por isso mesmo, mostrou-se contrário ao restabelecimento da hierarquia na Inglaterra, considerando-o inoportuno: “Não estamos maduros para a Hierarquia; agora que a obtiveram, não são capazes de prover as sedes” (NEWMAN, apud ALMEIDA, 1958).
Mas, ao contrário do que supunha, a Inglaterra estava mais do que pronta — e os frutos do espírito de ação de Wiseman foram abundantes, como o próprio Newman acabaria por reconhecer:
Ele [Wiseman] foi feito para o mundo, e se eleva quando a ocasião exige. Mas, por mais alto que eu colocasse os seus dons, não esperava tanto vigor, tanta coragem, julgamento e energia tão firmes como os de que ele deu provas nesses últimos dois meses. (NEWMAN, apud ALMEIDA, 1958).
Convém, contudo, compreender Newman e os católicos que partilhavam de sua reserva.
Eles [os Católicos Antigos] mantiveram por muito tempo a reticência, até mesmo a secretividade, que lhes foi imposta por gerações; eram profundamente devotos, mas pouco demonstrativos em sua religião, e seu longo afastamento do fluxo principal da vida e do pensamento católicos os tornava desconfiados de qualquer demonstração externa ou compromisso público que pudesse chamar a atenção para eles. Acreditavam que na quietude residia sua segurança (REYNOLDS, 1958, p. 24).
Wiseman, porém, seguia outro caminho, marcado por uma visão mais ampla e por um espírito formado fora da timidez inglesa:
Eu [Wiseman] pertenço à velha época e muitas vezes senti uma gratidão sincera a Deus Todo-Poderoso por ter sido retirado da Inglaterra justamente na idade em que as opiniões se firmam na mente a ponto de se tornarem obstinadas, e no período em que o espírito partidário se tornou mais intenso entre os católicos, e eu teria compreendido suficientemente seus lados para fazer uma escolha. Durante meus oito anos em Ushaw, minhas lembranças espanholas permaneceram intactas e vívidas. Lembro-me de explicar aos companheiros o que era um rosário, poucos, se houver, tinham visto um, assim como uma disciplina ou uma camisa de pelo; enquanto não havia um crucifixo na casa além dos que estavam no altar. Antes que essas impressões fossem perdidas com o idioma ao qual estavam associadas, fui misericordiosamente enviado para Roma…. Certamente tive poucos preconceitos ingleses para superar quando cheguei a Roma (WISEMAN, apud REYNOLDS, 1958, p. 24-25).
Seja como for, demos graças a Deus por Newman estar enganado — e, sobretudo, por ninguém tê-lo ouvido. A verdade é que a Inglaterra não apenas estava preparada, mas vivamente preparada. Os números de conversões registradas em Westminster não nos deixam mentir (GASQUET, 1895, p. 121):
| 1850 | 1865 | 1870 | 1870-4 | 1875-80 | 1889 | |
| Batismos infantis | 5719 | 7975 | 7197 | 7080 | 6891 | 7208 |
| Batismos sob condição | 581 | 1164 | 1190 | 958 | 1135 | 1300 |
O’Connor relata, com dados eloquentes, a efusividade do ímpeto apostólico de Wiseman e de seu sucessor, Manning:
Em 1830, o número de padres na Inglaterra era de 434; em 1863, eles eram 1.242. Os conventos em 1830 contavam apenas 16; em 1863, eram 162. Havia muito poucas casas religiosas para homens ou mosteiros em 1830; em 1863, eram 55. Somente em Londres, no período de 1826 a 1863, o número de padres aumentou de 48 para 194; igrejas de 24 para 102. Hospitais ou instituições de caridade não existiam em 1826; em 1863, havia 34. (O’CONNOR, 1942, p. 66).
Apesar dessa falta de uma forte consciência social católica e outras poderosas dificuldades, o Renascimento Católico fez progressos notáveis na época de Manning. No período de Wiseman, havia 600 locais de culto católicos, mas em 1890 esse número aumentou para 1.355. O número de padres aumentou de 800 para 2.478 em quarenta anos. Enquanto outras denominações perdiam terreno, a Igreja Católica não apenas acompanhou o grande aumento da população, mas também claramente o superou. Após uma pausa entre 1855 e 1868, o fluxo de conversões começou novamente. O período de pico durou de 1869 a 1874, mas um fluxo gradual continuou até a morte de Manning em 1892. (Ibid., p. 69).
Esses resultados parecem ter causado certo desconforto a Newman, como se depreende de sua carta ao padre Ambrose:
Rogers perguntou a Ward outro dia por que os católicos me compreendiam tão pouco — isto é, suponho, por que pensavam tão pouco de mim. E o Saturday Review, escrevendo a propósito da minha carta ao Globe do último verão, disse que eu havia decepcionado amigos e inimigos desde que me tornei católico, por não ter feito nada. A razão está expressa na observação de Marshall, de Brighton, ao padre Ambrose na semana passada: “Ora, ele não fez nenhum convertido — já Manning e Faber fizeram.” Aqui está o verdadeiro segredo do meu “não fazer nada”. A única coisa, é claro, que realmente tem valor é produzir fruto — mas, para o Cardeal, mostrar resultados imediatos é o fruto, e as conversões são o único fruto. Em Propaganda, conversões — e nada mais — são a prova de que se está fazendo alguma coisa. Em toda parte, para os católicos, converter é fazer algo, e não converter é “não fazer nada”. E além disso, segundo a avaliação da Propaganda, do Cardeal e dos católicos em geral, as conversões precisam ser esplêndidas — de grandes homens, nobres, intelectuais —, e não simplesmente dos pobres. Deve-se lembrar de que, em Roma, alimenta-se a visão de que toda a Inglaterra acabará por se converter à Igreja, e de que o instrumento dessa conversão em massa seriam justamente as conversões de pessoas de posição elevada. Il governo — o governo, o poder — é tudo, segundo essa visão. Tal ideia está talvez até mesmo implícita em nosso Brief, que nos envia às classes superiores. Manning e outros, portanto, são considerados grandes, porque vivem em Londres e, por sua posição e influência, convertem lordes e damas. Era isso o que se esperava de mim (NEWMAN, 1957, p. 257-258).
A leitura de Newman é, contudo, imprecisa. Manning, longe de limitar-se às elites, foi reconhecido como um verdadeiro campeão dos pobres — e se mencionarmos o sucesso dos livros espirituais escritos por Faber ou se mencionarmos a ação de Manning no Concílio Vaticano I ao expulsar os liberais da comissão que proclamaria o dogma da infalibilidade papal, a crítica de Newman perde ainda mais crédito. Ainda assim, essa aparente irritação revela um aspecto pouco abordado de Newman — um lado humano, vulnerável, por vezes ressentido — que abordaremos com maior profundidade em futuros estudos, nos quais trataremos também de suas relações com outras figuras católicas e de sua complexa atitude diante do liberalismo e do modernismo.
Contudo, não parece temerário afirmar que, se o catolicismo inglês dependesse única e exclusivamente de Newman — como tantos autores e admiradores parecem supor —, é quase certo que não existiria catolicismo algum ou, ao menos, que ele não teria sido tão vigoroso quanto foi. O ultramontanismo de Dom Nicholas Wiseman, Pe. Faber, Cardeal Manning, William George Ward e tantos outros mostrou-se vitorioso em muitos aspectos nos quais Newman, para o bem ou para o mal, não conseguiu alcançar — até recentemente.
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ALMEIDA, Fernando Furquim de. Os católicos ingleses no século XIX — Mons. Wiseman, arcebispo de Westminster. Catolicismo, São Paulo, ano VIII, n. 95, nov. 1958.
ANDREWS, Robert M. Nicholas Wiseman. The Dublin Review, and the Oxford Movement: a study with reference to John Henry Newman, 1836 to 1845. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.
BELLOC, Hilaire. The Cruise of the Nona. Londres: Constable and Company Ltd., 1925.
CHESTERTON, G. K. The Collected Works of G. K. Chesterton, vol. 16. São Francisco: Ignatius Press, 1988.
GASQUET, J. R. Cardinal Manning. Londres: Catholic Truth Society, 1895.
HOWE, Pe. Spencer. St. John Henry Newman. Gilbert Magazine: the Magazine of the Society of G. K. Chesterton, Hopkins, nov./dez. 2019. Disponível em: https://www.chesterton.org/st-john-henry-newman/. Acesso em: 14 out. 2025.
LUNN, Arnold. Roman Converts. Freeport: Books for Libraries Press, 1966. Reimpressão da edição original de 1924.
NEWMAN, John Henry. The letters and diaries of John Henry Newman. vol. 7: Editing the British Critic, January 1839 – December 1840. Oxford: Clarendon Press, 1995.
NEWMAN, John Henry. Autobiographical Writings. Nova Iorque: Sheed and Ward, 1957.
O’CONNOR, John. The Catholic Revival in England. Nova Iorque: The Macmillan Company, 1942.
PEARCE, Joseph. Faith of Our Fathers: a history of true England. São Francisco: Ignatius Press, 2022.
PEARCE, Joseph. Old Thunder: a life of Hilaire Belloc. São Francisco: Ignatius Press, 2002.
PICKERING, David. Chesterton, Lewis, and the shadow of Newman: a study in method. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
QUINN, John F. Newman, Faber and the Oratorian separation: a reappraisal. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
REYNOLDS, E. E. Three Cardinals: Newman, Wiseman, Manning. Nova Iorque: P. J. Kenedy & Sons, 1958.
WISEMAN, Nicholas Patrick. The Anglican claim. The Dublin Review, Londres, v. 7, ago. 1839.

