Após ter finalizado meu artigo anterior sobre a blasfêmia cometida na unidade de Palmeira dos Índios do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) e sobre a nota patética emitida pela Diretoria de Ensino do campus a respeito do ocorrido, tomei conhecimento de um segundo comunicado, intitulado “Nota Oficial sobre Intolerância Religiosa”, desta vez publicado no site principal do Ifal, bem como em seu perfil no Instagram. Discorrerei um pouco sobre mais essa segunda nota, que, apesar do título, não trata de “intolerância religiosa”, mas da reafirmação de seu compromisso com as loucuras de nossa era.
Os dois primeiros parágrafos da nota não me permitirão passar por exagerado: não mencionam a blasfêmia de forma direta, preocupando-se antes em reafirmar que a instituição está comprometida com “a promoção da equidade, do respeito às diversidades e da inclusão no ambiente escolar e acadêmico” e que, através dos Núcleos de Gênero, Diversidade e Sexualidade (Nugedis), “mantém políticas de orientação e esclarecimento sobre o tema”. É apenas na metade do segundo parágrafo que há uma expressão de repúdio, mas não ao ocorrido diretamente, e sim a “toda e qualquer materialidade de intolerância, violência e discriminação praticados na Instituição”.
Em decorrência de meu antigo emprego em um site de notícias, bem como de outros trabalhos que tive desde o meu período como universitário, habituei-me com a estrutura de “pirâmide invertida” das matérias, que prioriza as informações mais importantes no início e as menos relevantes no final. Somando isso a outros fatores imprescindíveis a textos noticiosos, como clareza e objetividade, não posso deixar de ficar incomodado com uma nota institucional que pretende abordar a assim chamada “intolerância religiosa” mas não fala dela de forma específica, apenas incluindo-a num pacote de práticas rejeitadas pelo Instituto. Mais ainda, não posso ignorar que um comunicado que só existe porque um ato gravíssimo foi cometido sequer o aborde de forma direta, condenando-o já em seu início, mesmo que sob o eufemismo de “intolerância religiosa”.
Apesar disso, confesso que fiquei mais aliviado ao ler o terceiro parágrafo, onde o Ifal esclarece que “não tinha conhecimento prévio” da blasfêmia. Ufa! Ainda bem! Eu ficaria bastante indignado se o Instituto soubesse que uma ação tão hedionda aconteceria e ainda assim o permitisse — se bem que, alguém duvida que isso possa vir a acontecer algum dia em nossas instituições apóstatas? Após tão reconfortante e inútil obviedade, o comunicado diz que “ações que contrariem os princípios éticos e institucionais” não são endossadas, mais uma vez preferindo falar de forma abrangente no lugar de mencionar que um terço foi colocado no centro de um pentagrama e todos os envolvidos foram incentivados a pisotear o sacramental católico. Não. Parece haver certo receio da objetividade ou de se condenar uma ofensa grave à Fé Católica e a Nosso Senhor, seu Fundador.
Também é dito, numa tentativa falha de acalmar os ânimos dos indignados, que o ocorrido está sendo acompanhado e apurado “pelas instâncias responsáveis, com o rigor e a seriedade que o caso exige”. Graças à nota emitida pelo campus palmeirense, temos conhecimento de que a seriedade que o caso exige é tamanha que uma das providências chegará ao extremo de realizar rodas de conversa com a comunidade acadêmica!
Por fim, depois de repudiar mais uma vez todo tipo de “intolerância, violência, preconceito ou discriminação” em seus espaços, o Ifal conclui o comunicado reiterando seu compromisso com a “consolidação de uma cultura institucional de paz, inclusão e respeito mútuo”.
Caro leitor, sejamos francos: o que está sendo reiterado é o compromisso em fazer com que os alunos e toda a comunidade acadêmica seja vomitada no fim dos tempos, pois é a mornidão o fruto inevitável de se seguir tantas diretrizes que, na prática, exigem que fogo e gelo convivam em perfeita harmonia. Eis aí a loucura da modernidade: proclama a necessidade de uma diversidade de ideias e crenças – sem considerar se são boas ou más, já que nem ao menos consideram a existência objetiva de bem e de mal – coexistindo em um ambiente onde nenhuma pode ser o que de fato são, pois o fogo não pode ser fogo se quiser conviver com o gelo, e nem este pode ser gelo se quiser conviver com o fogo sem apagá-lo quando derreter.
Da mesma forma, nossos contemporâneos — e tantos outros estúpidos metidos a intelectuais — querem que um católico seja menos católico, para que possa haver convivência pacífica com os membros de falsas religiões, dentre os quais podem estar inclusive satanistas. Como disse Chesterton, “Atualmente espera-se de um cristão [católico] que exalte todos os credos, exceto o seu próprio” (Illustrated London News, 11/08/1928). E enquanto pagãos e ateus podem proferir discursos dignos de Woodstock, os católicos, que são membros da verdadeira religião, devem se contentar com a mornidão de falar aqui e acolá de algo que não desagrade aos seus coleguinhas descrentes e que chegará o fatídico momento em que serão vomitados por não proclamarem, por palavras e ações, que há um só Deus, uma só fé e um só batismo, e que como ensina a Sagrada Escritura, “quoniam omnes dii gentium dæmonia“, quer dizer, “todos os deuses das nações são demônios” (Sl. 95, 5).
É evidentíssimo, por isso mesmo, que a tolerância religiosa deve existir apenas para a Santa Religião Católica, única que conduz as almas para o Céu, e que os católicos devemos ter uma santa intolerância para tudo o que afronte a Nosso Senhor.
Fala-se de paz, de forma vaga, daquele tipo que nos faz pensar em um cenário onde o sol brilha, os pássaros cantam e os imbecis podem falar suas imbecilidades sem que estas sejam rejeitadas. Mas o católico sabe — ou deveria saber — que a paz é obra da justiça, como ensina o Papa Pio XII ecoando o profeta Isaías (cf. Is. 32) em seu lema; e que não há possibilidade de paz verdadeira sem que seja ela a paz de Cristo, que deve reinar não apenas em nossos corações, de forma privada, mas também de forma pública, em todas as nações.
E não crendo serem suficientes as minhas palavras, pois que não sou ninguém, repito as palavras do Papa Pio XI, em sua encíclica Quas Primas, datada de 11 de dezembro de 1925: “Se soubessem resolver-se os homens a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, para logo deste ato dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz”.
A paz que nos é pedida pelas instituições é a paz causada pela mornidão, que tolera tudo exceto a Verdade. É a paz que quer que aceitemos que rodas de conversa sejam realizadas em resposta a um ato que afronta a Majestade Divina e que deveria nos causar implacável ódio pelos envolvidos (cf. Sl. 138, 22). Estes, contudo, sequer receberão uma punição que os leve a alguma forma de arrependimento. E os mornos aceitarão em silêncio, em nome da paz e do respeito mútuo.
Por fim, recordo que em meu último artigo, também perguntei de forma retórica se a Diocese de Palmeira dos Índios iria se pronunciar, pedindo reparação pela blasfêmia. Admito aqui o meu erro parcial: neste 18 de outubro, o perfil da Diocese no Instagram publicou uma nota acanhada sobre o caso, dizendo que “lamenta o ocorrido”. Ah! A diocese lamenta, caro leitor! Não se indigna, não repudia com veemência, não pede reparação, mas simplesmente lamenta! E pior, porque repete o discurso da liberdade religiosa e de expressão — ambas já condenadas pela Igreja, quando ainda havia condenações aos erros e não apenas lamentos —, assemelhando-se mais a uma instituição mundana qualquer do que a uma nota assinada por um bispo. E pior do que a nota é ver os católicos aplaudindo-a nos comentários da publicação, como se bastasse lamentar e repetir o que manda o mundo.
Mas tudo isso pode ser tolice minha. Talvez seja melhor ser vomitado no fim dos tempos do que ser alvo de notas institucionais — ou diocesanas.
