São Paulo parece ser verdadeiramente uma cidade singular. Por vezes, quando converso com pessoas de fora, costumo receber sentimentos mistos: enquanto alguns olham para cá com certa admiração e espanto, uma outra parte — razoavelmente mais sensata — encara a cidade com desdém, numa surpresa que acaba por se revelar, ao fim, um tanto desesperadora.
Ainda em época de neófito tive o costume de, antes de iniciar o trabalho, ir diariamente às missas realizadas na Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, no centro da cidade. Não me recordo exatamente quais e de onde eram os padres que celebravam as missas, mas que Deus me ajude a esquecer outras coisas que lá presenciei — coisas que perpassam em graus muito elevados o descaso e indiferença generalizados em que, à época, já marcavam as redondezas da Igreja.
Algumas homilias traziam torrentes e nebulosas explicações que minimizavam — para não dizer que aniquilavam — as ações do demônio no mundo; Jesus, diziam, a bem da verdade, não expulsava demônios; as pessoas não estavam possuídas, apenas eram mentalmente adoecidas. Em outra ocasião, no que nomeio como pior dia da minha vida, a Hóstia Santa foi ao chão logo após eu ter ajoelhado para recebê-la do padre em minha boca. Não se espante o leitor com o que vou dizer, mas o padre apenas deu de ombros, pegou o Corpo, Sangue Alma e Divindade de Nosso Senhor e colocou-o no bolso, como se nada fosse. Não quero imputar aos padres quaisquer sortes de acusações, muito embora os fatos descritos nos deem alguma direção. Mas não os julguemos, talvez eles apenas cressem e praticassem aquilo que rezavam.
Apesar de toda sorte de ultrajes, lembro-me agora de outra homilia. Minha memória me trai e não consigo recordar de tudo, mas uma parte marcou-me como ferro quente. O padre, em certo momento, mencionou que os cristãos não deveriam ter cara de defunto. Pediu então que olhássemos para o irmão sentado ao lado, para averiguarmos se estávamos seguindo uma das poucas verdades que ali foram ditas. Havia um senhorzinho ao meu lado e, ao me olhar e franzir a testa, parecia dizer: “Filho, você pode até não ter cara de defunto, mas parece ter cara de coveiro — e dos ruins”. E não posso negar que ele estaria certo.
Ser coveiro é uma coisa perigosa. Tão perigosa quanto é o ato de voluntariar-se para cobaia de guilhotinas em uma revolução — com a pequena diferença de que o coveiro perde sua cabeça enquanto a mantém grudada ao pescoço. E a diferença toda fundamenta-se na questão do ritual.
Se o coveiro enterrar um morto apenas como quem enterra mais um morto, agindo com descaso e indiferença, profana o rito e o morto — e perde a cabeça. Mas se, ao enterrá-lo, ele conseguir se lembrar do significado da morte e de todo o processo ritualístico que envolve o ato de bater as botas, confere, então, dignidade ao rito e ao morto — mantendo a cabeça em seu devido lugar. Ele pode lembrar em intenções ortodoxas ou blasfemas, mas é preciso lembrar; é preciso que ele ame ou odeie, mas é preciso algo no lugar do nada; é preciso algo no lugar da indiferença.
O coveiro pode odiar o que faz por odiar a morte, mas ao não ser indiferente continuará enterrando cada morto como quem enterra a própria amada, e lembrar-se-á de cada rosto para que, no fim, quando a morte seja enfim vencida por alguma peripécia diabólica, possa irromper em risadas, pois sua demorada vingança chegou. Mas se for indiferente, um morto novo será apenas mais um morto. Cada morto cairá no esquecimento pela simples questão de que ele não se importava o suficiente para amá-lo por ter vivido, nem que se importava o suficiente para odiá-lo por ter morrido. Assim, podemos dizer, para fins práticos, que o que se entende por ódio não pode ser concebido como o contrário de amor, pois o contrário de amor não parece ser o ódio, mas a indiferença. O ódio de um blasfemador pela Eucaristia pode fazer com que ele queira jogar cada uma hóstia consagrada no chão, mas a indiferença de um católico pode transformar o sonho dele em uma realidade cotidiana.
E foi ali, na pequena e histórica Igreja de Santo Antônio — conhecido como santo casamenteiro e também como aquele que ajuda a encontrar coisas perdidas —, que encontrei uma joia preciosa que, no decorrer dos anos seguintes, foi sendo lapidada até fixar-se em minha alma.
Conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas porque és morno, e nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitar da minha boca.
(BÍBLIA SAGRADA, 1985)
E é aqui, onde rotineiramente pensaríamos que o santo e o blasfemador se afastariam — como o honrado pai de família e o bígamo —, que vemos que, a bem da verdade, eles se aproximam. Podem oferecer o indiferentismo, mas o santo precisa de algo sólido e definido para se santificar, da mesma forma que o blasfemo para pecar — pois o bígamo precisa antes casar-se para que depois possa adulterar. Podem ser quentes ou frios, mas não podem ser mornos.
A mornidão da indiferença acaba sendo, por fim, talvez até pior que o frio do ódio, uma vez que este ao menos fará com que se conheça o objeto odiado, permitindo certo grau de normalidade para que atos profanos possam acontecer, ao passo que a indiferença criará um estado de ânimo onde nenhuma flor poderá florescer — nem mesmo entre às pedras.
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Livro do Apocalipse. In: Bíblia Sagrada. Tradução: Pe. Matos Soares. São Paulo: Paulinas, 1985.
