Os caminhantes do nada

Sou um homem isolado dos outros homens,
que caminham como se já estivessem mortos
(IVO, Lêdo. Finisterra. In: AYALA, Walmir (Org.). Antologia Poética
de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1990, pp. 117-120).

Embora tivesse cada motivo para sê-lo, eu não sou um niilista. Cercado de doenças desde a infância, primeiro as linfonodomegalias, depois a fibromialgia para toda a vida; já estive completamente acamado, já estive numa cadeira de rodas, e há mais de dez anos tenho uma bengala para chamar de companheira. Assim mesmo, com bengala e com uma depressão que me custou anos para curar, eu nunca poderia ser um niilista pelo simples fato de que o niilismo é falso.

N’O Anticristo, Nietzsche escreveu que “os grandes intelectuais são céticos”, mas — transpondo para cá o que disse Gilberto Freyre em Nordeste — penso que o alemão “apodreceu ainda verde: sem amadurecer direito”; o filólogo foi, ao seu modo, um retrato brilhante das últimas gerações de brasileiros, talvez de ocidentais, não tão brilhantes assim — e que, no geral, caminham como se já estivessem mortos. Apesar de sua certeza contraditória de que nada na vida é certo ou de que não há verdades absolutas, o alemão ainda detinha em si uma chama de vida, que confessava em Ecce Homo: “a minha humanidade é uma permanente autossuperação”. A minha também. E é por essa necessidade de autossuperação que já há muitos anos não vejo o niilismo além de uma camada de adolescência autocentrada e mal curada, um narcisismo reverso que leva homens e mulheres de nosso tempo a um sentimento de glorificação da miséria numa autocomiseração permanente, tornando jovens cada dia mais decrépitos.

Nos últimos vinte ou trinta anos, o mundo nos vendeu uma imagem de que somos super-homens; de que, quando crescêssemos, poderíamos fazer absolutamente tudo o que desejássemos. A mídia nos estimulou esse pensamento ao mostrar o passado do jogador de futebol ou do cantor famoso que nasceu na favela e hoje ganha milhões de reais num só dia — mais do que qualquer um de nós ganharemos numa vida toda. A escola nos estimulou esse pensamento com cada professor a dizer que poderíamos transformar o mundo, acabar com o aquecimento global ou colonizar outro planeta, para dizer um mínimo. O governo nos estimulou esse pensamento ao exigir numa mera redação de ensino médio que os jovens solucionássemos — devo me incluir, pois também fui formado nesse sistema — os problemas e defeitos de uma sociedade, fossem esses problemas de ordem sociológica, como o racismo na sociedade brasileira, ou apenas relacionados à urbanização e planejamentos de cidades — como se um jovem, ou melhor, um adolescente fosse capaz de resolver tais coisas, ele que mal aprendeu tabuada. Na escola, professores falavam de “pensamento crítico” pensando que a crítica se resumia em criticar mandos e desmandos institucionais do governo da vez.

Entretanto, ninguém nos ensinou a analisar um discurso ou a conhecer lógica; o resultado catastrófico foi esta geração em que todos falam de tudo e de todos da forma mais opinativa e menos embasada possível, como uma massa disforme que vocifera ou, mais precisamente, que agoniza.

Nascidos nos últimos sessenta anos, somos frutos de uma geração que, encantada com escolhas e direitos, novidades e inovações, vivendo à medida de seus prazeres, perdeu de vista o bom senso e, diferentemente das gerações anteriores, não transmitiu à nossa geração qualquer conhecimento de vida — que dirá de religião —, mesmo o conhecimento prático que recebeu, largando seus filhos ao vazio e à orfandade intelectual, histórica e cultural. Restaram apenas incentivos à vida medida pelo prazer e a mesma capacidade de encantamento com novidades inovadoras que dificilmente inovam ou são novas. Num tempo de um niilismo tão exacerbado, tão podre, tão vazio e — perdoem-me a redundância — tão sem sentido, que está inconscientemente onipresente entre as massas que glorificam dia após dia a miséria, seja na autocomiseração de espírito ou na exaltação de baixezas como o dinheiro, o sexo e outras formas de luxúria — e que se glorifica nela como um porco que se refocila no lamaçal —, a única atitude digna de um homem é superar-se e ir além de ser um mero fruto ou produto de seu tempo — especialmente quando se trata de um tempo tão sujo. Encontrar o sentido da vida fora de si mesmo é uma necessidade psicológica e moral do homem, e também metafísica; entretanto, ninguém nunca nos ensinou nada sobre isso — especialmente aqueles que tanto falam sobre “pensamento crítico”.

Atento às tristes teorias de seu tempo, G. K. Chesterton analisou numa entrevista de rádio de 1934 que “os homens modernos perderam completamente a alegria da vida; eles a substituíram pelos miseráveis prazeres da vida, e até mesmo estes parecem cada vez menos proveitosos para eles”. Eu nasci na pobreza e continuo pobre. A fibromialgia que trago comigo, e que já ocupa mais de metade da minha vida, reduz demasiadamente a minha capacidade de trabalho, o que, não raro, me traz dificuldades para pagar dívidas. Mas assim mesmo, pobre e cronicamente doente e endividado, eu jamais poderia ser niilista. É dever de consciência: a vida é muito maior do que morrer de dores, sentir-se deprimido e pagar dívidas, e também muito maior que todos os prazeres que encontramos nela, desde os prazeres mais baixos e animalescos àqueles prazeres mais elevados trazidos ao homem ao ouvir uma música de Bach, ler Virgílio ou contemplar uma pintura de Rembrandt.

Verdadeiramente numa perda de sentido da vida, isto é, a perda de alegria apontada por Chesterton, o homem vai seguindo uma dança infame de descontinuidade em descontinuidade, de erro em erro, de falsidade em falsidade, até encontrar aquela que mais lhe apraz a necessidade da vez, e já a descarta tão logo seu prazer chega ao termo. Findado, aquele tolo prazer breve, eufórico e fugaz dá lugar à solidão do egoísmo ou do vazio, ou dos dois juntos; e entre prazeres frívolos e trivialidades, “o mundo — escreveu Gustavo Corção — vai trilhando seu sinuoso delírio”. Em mais uma contradição do niilismo, com sua idolatria ao vazio e à falta de significado e de verdades objetivas, o niilista acaba por idolatrar o barulho a fim de aplacar o silêncio gritante que encontra em si mesmo. Ou como brilhantemente disse Corção nas mesmas Lições: “Há duas iluminações na face de um Marco Polo: de um lado, o brilho ensolarado da aventura; de outro, a verde lividez do homem que foge de si mesmo”. É o homem que, abismado consigo mesmo, não se suporta, ainda que viva num eterno e cansativo monólogo. E para este abismo não há outra resposta, como confessa Santo Agostinho: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Deus.

O “meu eu” não me importa muito, razão pela qual raramente escrevo em primeira pessoa. Mas não poderia deixar de fazer isto aqui. Custa-me ver gentes e mais gentes tragadas assim mesmo, no coletivo, na mão grande, por sentimentos de negatividade ante à vida. Negatividade porque estão endividadas, ou porque são ricas demais e não sabem o que fazer com o dinheiro; negatividade porque não conseguem atingir este ou aquele emprego, ou porque estão insatisfeitas com algo que são perfeitamente capazes de mudar. Eu, não: a minha condição é perpétua, temporalmente engaiolado num corpo que Deus permitiu ter uma síndrome incapacitante. O meu sentimento negativo está em levar muito tempo para sair da cama, pois meu corpo precisa entrar em funcionamento apenas depois da mente ter acordado; está em começar a trabalhar nas minhas revisões e traduções e logo perder a concentração porque sinto dores extremas, ou em demorar a conseguir trabalhar pela mesma razão; está em nunca ter me conformado verdadeiramente em ter parado de fazer coisas simples, e que tanto gostava, como correr, andar de bicicleta ou jogar uma partida de futebol com os colegas. Mesmo assim eu não reclamo, vou suportando em silêncio ou em gemidos, e aprendendo das Lições de Abismo a “transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho”.

O sentido da vida está além dela numa altura que a monotonia monológica de quem não enxerga nada além da matéria e do próprio nariz jamais será capaz de alcançar. Um ideal a ser atingido, a ser tentado, a ser experimentado e vivido. Este sentido é encontrado no sacrifício: a história humana torna cristalino que, mesmo secretamente, o homem anseia poder sacrificar-se por uma causa, de forma que o discurso aguado de paz e amor da geração que jogava toda sua sujeira para baixo do tapete, que não resolvia problema algum e evitava encarar de frente qualquer situação desagradável, não lhe satisfaz. É preciso encontrar algo pelo qual valha a pena lutar e morrer, e por isso mesmo é que fazer guerra contra si mesmo e contra os instintos e prazeres mais baixos é uma necessidade imperiosa. Apenas guerreando consigo o homem se torna capaz de conseguir um pouco de verdadeira paz: a de consciência. A guerra contra si mesmo é, seguramente, a “permanente autossuperação”.

Não são os céticos os grandes intelectuais, mas os crédulos. O crédito pertence àquele que batalha, não ao que assiste a batalha. O crédito pertence àquele que se suja, que derrama sangue, que sua, que chora, e não ao que pensa ser forte e despreza aos demais como um nada; o crédito pertence àquele que aponta a espada não para cortar os outros, mas para cortar a si mesmo. Para cortar-se e ser enfim cicatrizado pelo amor misericordioso de Deus, única coisa capaz de preencher o vazio do homem.

Diferentemente do que pensava Nietzsche, a força do homem não vem apenas da fortaleza, mas de todas as virtudes. Não é o orgulho o princípio da vida, nem a força, mas a humildade do serviço e do sacrifício, que vivifica ao que serve e se sacrifica, e inspira e produz a chama da vida nos demais. Os que tomam o orgulho por princípio da vida inevitavelmente acabam como caminhantes mortos, como aquelas gentes que pensavam poder ser absolutamente tudo o que quisessem, sejam os que se refocilam como porcos nas baixezas ou na autocomiseração do próprio sofrimento. O homem pode não mudar o mundo inteiro, mas, com vontade verdadeira e reta, e que lhe ajude a graça do bom Deus que é vivo e é Rei e Senhor da história, é muito capaz da autossuperação de mudar-se a si mesmo, ainda que não se torne um super-homem desalmado — e graças a Deus por isso. Ainda que não ajam como tais, os homens são muito mais do que meros conjuntos de “aglomerados de átomos ou células”.

Mas enquanto o mundo vai trilhando seu caminho sinuoso de delírios e derrisões, e seus gigantes, com desprezo, perguntam-me o meu nome, eu respondo com as palavras de um poeta, interpretando-o ao meu próprio modo e circunstância, e com tantos bons: eu me chamo Ninguém; e assim isolado persigo a batalha em minha vida de guerras, perpetuando o bom combate por amor de Deus e da Virgem Santa, e guardando a fé que, por graça, recebi.

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