As glórias de Maria, nossa Mãe, Rainha e Corredentora, nunca foram ignoradas pelo povo verdadeiramente fiel, desde que o Bom Deus lhe indicou esta estrela matutina. Os fiéis à Virgem Maria são os mesmos fiéis a Ele, ao Cristo, seu Deus e Filho, sem menor incongruência ou equívoco; não há como cultuar a Nosso Senhor no desprezo de Nossa Senhora. Este mistério da vontade divina sempre fora motor da mais elevada alegria e tema das mais simples devoções: em Maria Santíssima o homem de estudos acha luz e o homem de ação acha força; ela é Mãe Universal de todos os homens, assim canta o povo fiel, e assim cantará até o seu derradeiro advento junto a seu Filho, nosso Deus!
Canta o povo fiel por doze vezes na Ladainha Lauretana — decorada por qualquer senhorinha analfabeta porém piedosa —, em sua última parte, que Maria é Rainha:
Rainha dos anjos, rogai por nós.
Rainha dos patriarcas, rogai por nós.
Rainha dos profetas, rogai por nós.
Rainha dos apóstolos, rogai por nós.
Rainha dos mártires, rogai por nós.
Rainha dos confessores, rogai por nós.
Rainha das virgens, rogai por nós.
Rainha de todos os santos, rogai por nós.
Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós.
Rainha elevada ao céu em corpo e alma, rogai por nós.
Rainha do sacratíssimo Rosário, rogai por nós.
Rainha da paz, rogai por nós.
Estas doze invocações reais fazem homenagem às doze estrelas da coroa com a qual aparecerá a Mulher como sinal celestial (cf. Ap., XII, 1). A coroa é o distintivo de quem reina. Se reina, quem são seus súditos? O povo fiel, cujas classes se expressam nas oito primeiras das doze: primeiramente os anjos são seus súditos, pois sendo intelectos superiores e anteriores a nós, conseguem abarcar mais perfeitamente parte da glória de sua rainha, superior a eles em graça, e contemplar mais puramente a necessidade dela para uma maior glória de Deus. Sim, podemos e devemos dizer com todas as letras: Necessária! Nosso Senhor se referia a sua Paixão e Morte como necessária também, mas todos sabemos que Ele era capaz de nos redimir de maneira mais suave e delicada, mas porque Deus quis positivamente daquele modo e em ato não se pode negar a necessidade. Apegar-se ao fato de que Deus poderia ter feito por meios diferentes é querer distanciar-se do que Ele factualmente fez e faz. É torná-Lo uma ideia, distante e sem afeto o querer falar apenas de Sua onipotência e desprezar as obras atuais do Amor criador e redentor. Dar crédito ao que poderia ter sido em vez do que é, eis a confusão que semeia o inimigo das almas, o anjo insubordinado, pai de todas as heresias e de seus seguidores.
Sucedendo aos anjos, veneram Maria como Rainha os santos Patriarcas, os líderes do povo de Deus veneram-na como esperaram-na por conta do que proferiu o próprio Deus ao amaldiçoar a serpente: “E o Senhor Deus disse à serpente: pois que fizeste isto, és maldita entre todos os animais e bestas da terra; andarás de rastos sobre o teu peito, e comerás terra todos os dias da tua vida. Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gn., III, 14-5). Estas terríveis palavras chegaram até nós através da Sagrada Escritura, fonte incontornável da história sagrada, mas para aqueles Patriarcas, personagens da mesma Escritura, a memória delas estava em seu espírito por conta da Tradição Sagrada, que antecede cronologicamente à Escritura. Nossos primeiros pais, Adão e Eva, ouviram com seus ouvidos de carne tal sentença divina, passaram para seus descendentes e eles aos seus próprios, e assim por diante, tendo chegado limpidamente aos ouvidos de carne de Moisés que, auxiliado pela inspiração do Espírito Santo, pôde escrevê-las para nosso proveito. Ressoava pelas gerações não apenas a maldição da ira divina, mas a promessa que nela estava contida, a saber, de uma Mulher que viria a esmagar a cabeça da serpente. Nesta esperança repousava a devoção que os Patriarcas reservavam à nossa Corredentora quando, mais tarde, já mortos, na plenitude dos tempos, ouviram o “fiat” salvífico desde de seu limbo patriarcal, exultaram fortemente e louvam-na em espírito e em verdade, hoje triunfantes no Céu.
Seguindo os patriarcas, vêm os profetas. Santo Elias, profeta, da terra contemplou a nuvem Imaculada, venerada como sinal de grande chuva que resolveria a esterilidade da terra (cf. 1 Rs., XVIII), prefiguração de Nossa Senhora (a nuvem) e Nosso Senhor (a chuva). Mais tarde, este mesmo profeta viria a ser pai de uma grande família no seio da Igreja, a Ordem dos Carmelitas, cujo escapulário enche de esperança da Redenção os devotos de Nossa Senhora do Carmo, é símbolo da real fidelidade a Deus, e da continuidade do seu Testamento, pois que se estende pelos milênios e antecede o ministério dos Apóstolos. Fidelidade fundada no espírito de Elias, que enfrentou e humilhou os profetas de Baal no mesmo capítulo em que vislumbrou aquela nuvem, e outros ímpios mundanos que ousaram profanar o que era sagrado e atacar a verdade conhecida. Elias combatia por Deus, Deus que é um só, e que soberanamente procede com seu povo apesar deste ser indigno, sem necessidade dum esforço hipócrita para dialogar com os profetas de Baal. Ademais, muitas outras vezes Maria Santíssima é prefigurada pelas profecias, mais notavelmente em Isaías e nos Salmos de Davi.
Seguindo os profetas, os apóstolos. Os benditos fautores e escritores sagrados do Novo e Eterno Testamento, como poderiam falar tão pouco de Nossa Senhora, sendo ela sua fonte primária de tantos fatos ali narrados, a ponte insuperável entre o Espírito de Deus e eles, em Pentecostes? As respostas estão no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, obra tão esquecida e desprezada ao passo que é tão santa e cada vez mais necessária. São Luís de Montfort, seu autor, logo no início, fala da humildade da Imaculada, que quis ela própria ser ocultada até mesmo dos anjos, e por ódio à vanglória não operou de mão própria nenhum milagre. Os Evangelhos dela falam pouquíssimo, mas como o próprio São Luís pontua no item XLIX do Tratado:
É por Maria que a salvação do mundo começou, e é por Maria que deve ser consumada. Maria quase não apareceu na primeira vinda de Jesus Cristo, a fim de que os homens, ainda pouco instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se afastassem da verdade, apegando-se intensa e grosseiramente a Ela, por causa dos encantos admiráveis que o Altíssimo Lhe havia concedido, inclusive exteriormente. O que é tão verdadeiro que São Dionísio, o Areopagita, nos deixa por escrito que, quando a viu, a teria tomado por uma divindade, por causa de seus encantos secretos e de sua beleza incomparável, se a fé, na qual estava bem confirmado, não lhe tivesse ensinado o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deve ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de por Ela fazer conhecer, amar e servir Jesus Cristo, uma vez que não subsistirão mais as razões que O levaram a ocultar sua Esposa durante a vida e a não revelá-la senão bem pouco desde a pregação do Evangelho (MONTFORT, 2024, pp. 36-37).
Perceba-se que o Bem-aventurado Luís, sacerdote que era, nunca perde a oportunidade de fazer-se apóstolo da prudência, e fala de um certo apego grosseiro que alguém possa ter a Nossa Senhora a ser evitado, como também em outra passagem do mesmo livro ele recomenda declarar-se “escravo de Jesus em Maria” em vez de simplesmente “escravo de Maria”, por causa da complicação na qual está imersa o século. Mas estas recomendações pastorais são ordenadas à saúde das almas, e não à — sejamos francos — propaganda política ou à agenda ideológica, como é praticado atualmente por tantos membros docentes da hierarquia católica. Ora, claramente não se inclui no grosseiro aquele digníssimo louvor de que “é por Maria que a salvação do mundo começou”, salvação que podemos ler redenção. Grosseiro é reduzir Nossa Senhora a um símbolo populista, grosseira é a cobiça pelo voto de seus filhos. Grosseiro é não chamá-la Corredentora! Dando para tanto a escusa de um grosseiro “esforço ecumênico” imbecilizante, infame e incapaz de fazer levar a efeito até mesmo o que se propõe, pois nenhum protestante converte-se por ver os preconceitos de sua seita serem replicados numa nota eclesiástica.
Ainda no Tratado supracitado, o Santo de Montfort ensina que Maria foi ocultada no princípio da Igreja, mas não deve ser agora. Ao contrário, deve ser mais divulgada e publicamente venerada, cada vez mais perfeitamente, pois “não subsistirão mais as razões que O levaram a ocultar sua Esposa”. Quais são estas razões, apenas Deus, que sonda os corações, o sabe! Mas a questão é: o que faz estas tais questões serem superadas? Amigos, para mim não resta dúvidas: é o Magistério da Igreja Católica!
A Igreja em seus ensinamentos tem a missão de formar o povo fiel, é Mãe e Mestra da Verdade como diziam nossos Papas. A Igreja é quem faz sumir os obstáculos ao Reino de Deus e de Sua Virgem Mãe, nossa Corredentora, pois possui as graças, os deveres, os poderes, os meios, o culto, enfim, encerra a totalidade do povo fiel. A Igreja foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo não para a gestão do dízimo do povo fiel, mas para sua geração, formação e confirmação na Fé! O alto clero deve ensinar em nome da Igreja, e não contornar as luzes, esgueirando-se pelas sombras, sob o pretexto de evitar mal-entendidos com quem quer que seja! Quão pouco amor tem um homem a seu Deus para, diante de um mistério tão sublime, deter-se em desculpas esfarrapadas de que é “complexo demais”, que exige “explicações demais”?! Ai de nós, o povo fiel, se fosse este o critério dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas e dos Apóstolos. Queremos ser formados, rezamos para sermos esclarecidos na nossa ignorância; queremos ouvir a voz do Mestre novamente, como soou naquele tempo evangélico, como ressoou na voz de Pedro e de seus sucessores — temos cá o Sucessor de São Pedro, mas sua voz não a encontramos —, queremos Deus!
Outrora Pedro disse a Nosso Senhor: “A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo., VI, 68), agora nós vemo-nos no constrangimento de interpelar a Pedro com as mesmas perguntas. Aonde iremos? De quem mais cobraremos instruções? Quem mais poderá nos salvar desta crise? Oremos, portanto, pela Santa Igreja, e quando dissermos: “Senhor, iluminai minhas trevas!”; falemos enquanto fiéis. Lembremos aí do Santo Padre, o Papa.
Retornando à Ladainha: seguindo os apóstolos de Jesus Cristo, os mártires, os confessores, as virgens, e todos os santos. Estes mesmos santos em cujo grêmio queremos nos incluir a nós mesmos e a todos que amamos, e nada mais queremos neste mundo.
Medie-nos, Maria Santíssima, alcance-nos da parte de Deus Filho, Jesus Cristo, a fortaleza dos mártires para combater o mundo, a pureza das virgens para combater a carne, e a luz dos confessores para combater o demônio.
As quatro últimas invocações reais da Ladainha Lauretana não aludem mais aos súditos da Corredentora, mas às armas, com as quais os súditos protegem a sua honra entre os homens: duas para crer, uma para praticar, e a última para esperar. Para crer: a Imaculada Conceição e a Assunção de Nossa Senhora, os dogmas católicos que mais intimamente falam ao coração dos fiéis de nossa época, os mais celebrados! Por isto mesmo são os mais odiados pelos pérfidos modernistas que contra sua memória praguejam secretamente — e da necessidade de outros dogmas se desviam —, falando apenas de dogmas longínquos, antigos, e preferencialmente de origem oriental, que, sem deixar de ser gloriosos e verdadeiros, são na boca do invasor como a Escritura na boca de Satã: servem para contrapeso à Verdade, para a confusão dos simples.
Para praticar e para esperar: Rainha do sacratíssimo Rosário, Rainha da Paz! O santo Rosário que nos anuncia cotidianamente as glórias de Jesus e Maria, não pode deixar de ser rezado nunca, seja pelo Papa ou pelo catecúmeno mais pobre do mundo, ou mesmo pelo Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Deste instrumento tão acessível para a santificação universal não encontramos menção na Bíblia (nem na católica, a verdadeira, nem na falsa e mutilada), dele não faz menção a Patrística, nem os orientais, mas trata-se, após a Santa Missa, da oração de maior caráter social e preceptivo de todo fiel: reúnem-se para o Rosário, ou rezam ao menos seu terço individualmente. Enfim, a Paz, da qual Nosso Senhor é Príncipe e Nossa Senhora é Rainha! Paz não entre a luz e as trevas, não entre as mentiras e a Verdade, mas paz entre o homem e Deus. Entre nós, os pecadores, e o Filho da Virgem, que pela intercessão de Sua Mãe nos concede a Paz tanto agora, como também na hora de nossa morte.
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MONTFORT, São Luís de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. São Paulo: Editora Retornarei, 2024.
