O silêncio, São Bruno e Sergio Pachá

Alegrai-vos, porque alcançastes o refúgio tranquilo e seguro de um porto escondido, a que muitos desejam chegar.

(Carta de São Bruno aos Monges da Grande Cartuxa, c. 1099-1100)

No dia 6 de outubro, a Igreja comemora em seu calendário litúrgico a Festa de São Bruno, o santo monge do silêncio que fundou a Ordem dos Cartuxos por quem nutro especial afeto e devoção — ainda que seja um devoto indigno. Desde o dia 6, meu pensamento não pôde deixar de lembrar com afeto da memória saudosa do professor Sergio de Carvalho Pachá, devoto muito maior e mais digno da altura do grande santo cartuxo.

Lá se vai quase uma década desde que conheci Sergio Pachá através de uma rede social. Àquela altura, o professor publicava rotineiramente suas observações e reflexões sob o título obiter dicta. Àquela altura, eu era um adolescente a ingressar na vida adulta que há não muito retornara à fé de sua infância, e Pachá um ancião já próximo dos oitenta anos que, em seu inexistente caderno de memórias, distribuía reflexões, muitas das quais me soavam praticamente como conselhos, e às vezes criticava algo com um humor mordaz afiadíssimo que me divertia. Porém muito mais do que seu humor, eram a sua erudição enciclopédica e calorosa, cheia de amor ao conhecimento e à língua de Camões, e a sua afabilidade que me encantavam. Havia quem dissesse que era um homem de temperamento forte — e ele mesmo reconheceria isto prontamente, dizendo que “verdade é que não tinha paciência com tolos e pernósticos” —, mas o homem que tive por amigo nunca me mostrou nada senão gentileza.

Lembro como se fosse ontem que nos conhecemos pessoalmente na noite do dia 22 de novembro de 2019, quando viajei para um congresso católico no Rio de Janeiro. Com muita excitação a peito pela viagem, por conhecer a antiga capital nacional, pelo congresso em si mesmo e pelos encontros e reencontros com muitos amigos, estava sem dormir desde a noite anterior, e a nossa conversa naquela noite procedeu mais ou menos assim:

— Boa noite, professor! Eu sou João Medeiros, que lhe acompanha lá das Alagoas.

— Sim, João, boa noite! Eu me lembro de você! Você vem de uma terra fértil.

— Fértil?! Como assim, professor? — perguntei sem entender, nunca tinha ouvido alguém se referir ao meu estado daquela forma.

— Alagoas é a terra de Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Guimarães Passos. É uma terra fértil de grandes escritores e poetas brasileiros…

A partir daí, adentramos numa prosa muito agradável sobre a minha terra natal, que ele nunca visitara, embora tivesse grande vontade de conhecê-la — e estou certo de que, se pudesse, conheceria não apenas Alagoas, mas cada palmo de cada rincão deste Brasil que tanto amava. Ao falar de seu contato com Bernanos, Gustavo Corção assinalou que, sem que soubesse, o francês havia impresso nele “uma marca inapagável de um contato verdadeiramente humano”. Penso que eu não poderia dizer melhor sobre o meu contato com Sergio Pachá, que, do alto de sua envergadura, sempre se dispunha a conversar comigo, a sanar minhas dúvidas, a traduzir-me um e outro latim, a chamar-me e a ser, de fato, meu amigo.

Certa feita, ironizei um “viva a sã laicidade” numa brincadeira e, de prontidão, o meu amigo Sergio, sem entender direito a minha ironia, veio falar-me preocupado: “prefiro supor que sua ‘sã laicidade’ não passa de piada”; e logo em seguida aliviou-se ao ouvir de mim que era, de fato, uma piada. Preocupou-se, como bom amigo que era. Os amigos desejam o bem uns dos outros. Quando casei-me, o professor ficou muito feliz e escreveu-me felicitando: “Que belo casal!”; já havia me dito noutra oportunidade: “Que Deus vos faça felizes!”

Receber a notícia da morte de Pachá em julho deste ano trouxe-me uma falta enorme, um sentimento tórrido e brusco ao saber de sua ausência definitiva. Às vezes ouso ser poeta, e tinha com o professor uma espécie de correspondência literária: eu escrevia e ele gentilmente lia, opinava e me aconselhava; entretanto, eu nunca fui bom com a métrica poética, e ele estava para me ajudar no reto aprendizado da métrica. Sob sua indicação, comprei a Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha a fim de aprender as regras básicas do metro, e ele se encarregaria de me ensinar o resto. Estava em meus planos viajar ao Rio de Janeiro e apresentá-lo à Enya, minha esposa, e tomarmos juntos um café na Colombo, visitar o Real Gabinete Português sob sua guia… “Venham, meu amigo! Serão recebidos de braços abertos!”, disse-me ele quando conversamos sobre isso. O professor também me dedicaria exemplares de seus dois livros, que há não muito tempo publicara. Infelizmente para mim, com sua morte, nada disso será mais possível.

A morte é mesmo um ultraje. Corção dizia que a morte nos causa um insulto, o que é verdade, mas hoje, em retrospecto, ela não me ultraja nem me insulta quando tenho a memória de Pachá em mente.

Octogenário, o professor Sergio me dizia considerar positivamente a fugacidade do tempo: servia-lhe, em sus mesmas palavras, como um lembrete de que a vida acaba e que precisava preparar-se para dar contas a Deus na eternidade. Era muito consciente disso. Em silêncio, o silêncio que tanto amava, Pachá examinava sua consciência e perscrutava sua vida. Aquele mesmo silêncio tão amado por São Bruno, de quem o professor era devoto desde seus dias de seminarista menor — em sua juventude, nos anos 50, fora seminarista da Companhia de Jesus. “O que a solidão e o silêncio do deserto proporcionam de utilidade e gozo divino a quem os ama, só o sabem os que o experimentaram”, escreveu São Bruno a seu amigo Cônego Raul de Reims. O silêncio, dizia Maurice Maeterlinck traduzido por Sergio Pachá, “é o sol do amor que amadurece os frutos da alma”. De retorno à fé de sua juventude, foi através do silêncio que os frutos da alma amadurecida foram colhidos, este silêncio que não deixou de amar mesmo em seus anos mais arredios. Foi através do silêncio que Sergio Pachá reencontrou o amor de Deus, o Deus que alegrava sua juventude.

Em oportunidades distintas, em honra de nosso Mestre Bruno de Colônia, Sergio Pachá me dedicou em amizade duas de suas traduções, sempre tão refinadas. Não chego nem um pouco perto da capacidade dele, ao que não tento traduzir nada; mas dedico a meu saudoso amigo, em honra do Mestre Bruno, as próprias palavras do Mestre: a Profissão de Fé ativamente vivida pelo santo no silêncio, passivamente meditada no silêncio e pronunciada diante do silêncio de todos os irmãos cartusianos reunidos quando chegada a hora de sua morte — sucedida há quase mil anos, a 6 de outubro de 1101.

É no silêncio que meditamos a morte e encontramos a Vida, e, com Ela, a alegria.

Profissão de Fé de São Bruno

1. Creio firmemente no Pai, no Filho e no Espírito Santo; no Pai não gerado, no Filho unigênito, no Espírito Santo procedente de ambos, e que estas três pessoas são um só Deus.
2. Creio que este mesmo Filho de Deus foi concebido pelo Espírito Santo, de Maria, a Virgem.
Creio que a Virgem era castíssima antes do parto, virgem no parto e depois do parto permaneceu inteiramente virgem.
Creio que o mesmo Filho de Deus foi concebido entre os homens como verdadeiro homem sem pecado. Creio que o mesmo Filho de Deus foi preso por inveja dos judeus, injuriosamente tratado, injustamente atado, cuspido, flagelado, morto, sepultado. Desceu à mansão dos mortos para libertar os seus que lá estavam cativos.
Desceu para nossa redenção, ressuscitou e ascendeu aos céus, e voltará de lá para julgar os vivos e os mortos.
3. Creio nos sacramentos nos quais a Igreja crê e venera, e expressamente que o consagrado no altar é verdadeiro Corpo, verdadeira Carne e verdadeiro Sangue do Senhor nosso Jesus Cristo, que também nós recebemos para remissão dos nossos pecados, e creio na esperança da eterna salvação.
Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.
4. Confesso e creio na santa e inefável Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus natural, de uma só substância, de uma só majestade e poder.
E professamos que o Pai não foi gerado nem criado, senão que Ele é ingênito. O mesmo Pai de ninguém tira a sua origem. D’Ele recebeu o Filho nascimento, e o Espírito Santo procedência. É, pois, fonte e origem de toda a Divindade.
E o mesmo Pai, inefável por essência, gerou inefavelmente da sua substância o Filho, mas não gerou outro ser que o que Ele é: Deus gerou Deus, a Luz gerou a Luz. D’Ele, portanto, é toda a paternidade no céu e na terra. Amém.

2 comentários sobre “O silêncio, São Bruno e Sergio Pachá

  1. O mundo moderno busca incessantemente negar a essência das coisas e priorizar sua existência fria e bruta. A realidade, para o homem moderno, é um mistério — mas não daqueles mistérios excitantes que nos conduzem a uma busca edificante e ao conhecimento. Não: trata-se de um mistério inacessível e irracional, que não apenas ultrapassa a inteligência humana ou angélica, mas se mostra impenetrável a qualquer tipo de lógica.
    Eu, embora seja filho dos tempos modernos, tento seguir a sabedoria dos antigos e me esforço para ler a realidade que me cerca; é-me natural buscar conhecer a essência das coisas. Contudo, há um elemento que parece ultrapassar essa barreira da definição e se apresenta como uma massa ainda não informada: o silêncio. Ele é um dos mistérios quase inescrutáveis ao homem.
    E por que o digo assim? Digo-o por ser o silêncio totipotente — capaz de assumir o significado daquele que o vive. Para o moderno, é tortura; para o santo, é gozo divino (como disse São Bruno). E para nós, simples praças de baixa patente nesse exército que é a Igreja militante? Errado seria se ele não fosse combate. Sim, pode, vez ou outra, ter gosto de gozo divino, mas para a alma ainda impura, o descanso não é uma opção — seria, antes, um engano do diabo. O silêncio, para nós, é ação: como os anjos que sobem e descem a escada de Jacó, é movimento incessante rumo ao reino interior, à paz que vem de Cristo.
    Falo disso por já ter experimentado a falsa sensação de um silêncio imóvel, confundido com puro repouso. Nos meus tempos de seminário, costumava ir a uma floresta nos domingos à tarde. Sentava-me em uma clareira, longe de tudo e de todos, fechava os olhos e julgava que, apenas por isso, já estava rezando, como que suspendendo minhas potências. Mas não: para quem ainda tem estrada a percorrer rumo à perfeição, o silêncio deve ser um momento privilegiado da graça — que esclarece a inteligência e move a vontade —, para que, enfim, possamos chamar o silêncio de união e gozo divino, assim como fez São Bruno, que alcançou os louros da perfeição.

Deixe uma resposta para Felipe de AlencarCancelar resposta